Lista de Poemas

PARABÉNS!!

PARABéNS!!

Se tu soubesses qu'eu sou teu poeta,
Com certeza já não surpreenderia
Cantar-te à sereníssima alegria
Versos por tua data predileta.

Mas telegrama em mãos d'um estafeta
Do meu amor por ti pouco diria.
Ou mesmo um ramalhete ao fim do dia
Celebrando a conquista d'outra meta...

No jardim dos teus anos, outra linda
Flor entre as flores colhes hoje ainda
Com toda a delicadeza que tu tens.

Hoje possam por ti se abrir os céus,
A que recebas palmas e troféus:
-- "Felicidades, linda! Parabéns!! "

Belo Horizonte - 11 12 1991
402

GARAPA

GARAPA

Passa a cana na moenda, colhe o caldo
E espreme dois limões mais o bagaço.
Tem-de fazer do jeito como eu faço,
Senão arrisca ao fim ser tudo baldo.

Nas contas lá do céu tem de ter saldo
P'ra Deus abençoar nosso cansaço.
Bebendo, estalo os beiços: -- "Geladaço!..."
E eu um copo após outro já m'esbaldo.

Fazendo assim-assado há-de dar certo.
Qualquer outro refresco nem de perto
Me mata a fome e a sede n'um só gole.

Fica a palavra dada e o arranjo feito:
Garapa preparada d'este jeito
Deixa o sujeito até de miolo mole...

Belo Horizonte - 29 11 2017
411

ILÓGICO

Outra vez, terminou sem começar.
Qual ser sem ser do amor fosse premissa.
Feito um fósforo cujo ardor se atiça
Apenas para após ver se apagar...

Venceu a nulidade ao não amar
Por premissa segunda ou por preguiça:
Sentimento que em vão se desperdiça
É tesouro no fundo d'algum mar...

Tendo por regra ser algo inseguro,
Não me traz o amor mais que insanidade,
Logo, n'ele não há o que procuro.

E em face d'essa ilógica verdade,
Concluo de silogismo tão obscuro
Ter por lugar-comum felicidade.

Betim - 05 05 1996
474

N'OUTRAS PALAVRAS

N'OUTRAS PALAVRAS

Tem gente que se faz ora de mouca
Certa que uma palavra mais aflita
Não cale ao peito a dor, tão-só a grita,
Seja a sua desdita muita ou pouca.

Contudo, mesmo quando dita louca,
Soa à poesia ainda não escrita...
Pode variar de errática à infinita
Até deixar-me a fala quase rouca.

Tem gente que se faz ora de surda,
Pois crê toda a poesia ser absurda,
Ficando o dito por não dito ou mudo...

N'outras palavras, poeto do que quero
Se, e somente se, quanto for sincero
Emergir do inconsciente mais agudo!

Gov. Valadares - 04 04 1995
353

FIGURA DE PROA

Irrompe contra as ondas o veleiro
Co'os três mastros vergados pelo vento.
Na proa, uma sereia face ao tormento,
Cantando para mar e marinheiro.

Em belíssima mulher, esse madeiro
Fora esculpido apenas com o intento
De afastar-lhes o espírito agourento,
Que aos homens rouba o sopro derradeiro.

Estes que pelo mar foram espalhando
Sua visão de mundo e sua língua,
Certos que toda luz aos poucos míngua...

Mas 'inda a ouvem cantar de vez em quando
Os versos d'uma gente navegante,
Que foi ao fim do mundo e mais avante.

Betim - 20 12 2017
402

SOLFEJOS

Estes sons sem qualquer significado
Além do serem sons e soarem bem,
Têm me invadido o quarto e a alma também
Vindos d'alguém algures acordado.

A melodia qu'eu tenho escutado
Não chegava a ser música, porém,
Repetia-se como mais convém
A quem do canto faz aprendizado:

-- "Dó, ré, dó, dó, ré, mi. Mi, ré, dó...
Seguia a solfejar na noite só.
E, a batucar co'os dedos, eu ouvindo.

A voz atravessava a escuridão
E acalentava em plena solidão...
Me vi quase chorando de tão lindo!

Betim - 23 12 2017
407

ESPÓLIO LITERÁRIO

Deixo para depois da minha morte
A ilusão de influenciar quem quer que seja.
Resulte n'algum bem tanta peleja,
Onde o desesperado se conforte.

Afinal hão-de seguir-me o esconso norte,
Certos de que a verdade ali esteja.
E, embora eu não mereça tal inveja,
Muitos se alegrarão de tão má sorte!

Meus males serão bens de qualidade
Àqueles que buscarem, por absortos,
Aspectos de qualquer dourada idade.

Sem ter-de endireitar caminhos tortos,
Outro exemplo da estranha realidade
Da poesia viver de poetas mortos.

Betim - 22 12 2017
361

GENUÍNO

A par de dramaturgos e ensaístas,
Tenho procurado ouvir-me a própria voz.
E não os emular em versos sós
No afã de figurar por fúteis listas.

Não me vejo ranqueado entre os artistas
Que de antigas escritas sopram pós:
Reescrevem a fazer pouco de nós,
Furtando d'outros bem diante das vistas.

É como se escrever só fosse certo
Após subir nos ombros d'um experto
E, lá do alto, admirar nossas vidinhas.

Não importa se sou ou não de interesse;
O que escrevo, correto me parece.
Pobres as rimas? São ao menos minhas!

Betim - 23 12 2017
426

INSÍDIAS

Vens co'as mãos estendidas, suaves falas...
E abraças ocultando-se o punhal.
Tens as boas maneiras que tão mal
Fazem àquelas tolas que bem calas.

Sempre amistoso e vão a narrar galas,
Tu confundes com ânimo jovial,
Enquanto já preparas, afinal,
O laço que nos joga pelas valas...

De discurso arrastado e insidioso,
Foste desarmando uma a uma as reservas
Levantadas ao assalto melindroso.

Mas quando por fim triunfas, tu te enervas
E mostras n'um esgar de mofa e gozo
Sobre as donas que tornas tuas servas!

Betim - 12 02 2014

447

TREZE DE AGOSTO

É o tipo de bobagem que deixa a gente um pouco mais feliz. Sim, as pequenas alegrias que somadas podem compor uma felicidade plena, gratuita e desinteressada. Estar vivo. Olhar e ver. Aceitar a condição humana com suas misérias e maravilhas... Hoje acordei mal. Muita dor de cabeça e mal estar. Tinha a impressão de que o despertador me furtara horas de sono enquanto me dirigia à cozinha e punha água para ferver. Maldisse a noite mal dormida e a angústia dos impasses no trabalho que me tiraram o sono. Maldisse o café que sorvia sem qualquer gosto e ainda o dinheiro gasto sem prazer no fim de semana. Maldizia tudo que, d'um modo ou d'outro, concorrera para aquele despertar tétrico no qual a própria cabeça me impedia de pensar. O dia só estava começando e já desfilavam diante de mim inúmeras situações desagradáveis, sobretudo por atestarem minha incompetência e inabilidade. Eu precisava virar a mesa, mas faltavam-me forças... Chegava a duvidar de que qualquer intervenção minha fosse ainda algo pertinente. Eu me apequenava ante mim mesmo.

Deixei o dia seguir. Fui para o trabalho e parei para ver a manhã: Alguns minutos de contemplação vazia. Não havia nenhuma paisagem extraordinária diante dos meus olhos ou tampouco epifanias espirituais quando os fechava. Eu olhava e via o mundo tal como era, nem feio nem bonito. Percebi então que, o que quer que acontecesse, eu deveria aceitar como parte indissociável da vida. O fracasso que antevia há dias, ainda que se concretizasse hoje, seria bem-vindo, assim como tantos fragorosos fracassos passados hoje são saudados em minh'alma face à pessoa que me tornei. Coleccionar fracassos dizia muito de mim e de minhas limitações. Eu queria ser melhor do que sou, mas não era. Eu queria, sinceramente, ser mais culto, mais centrado, mais ousado e mais capaz de realizações. Todavia, não passava d'um vago sonhador entorpecido. Minhas miragens interiores não serviram para realizar livros, arquiteturas ou imagens excepcionais. Eu continuo trafegando no limbo em busca de fantasmas obscuros. Esse talvez seja o resumo perfeito de minha vida.

Mas o incrível d'isso tudo é que eu estava feliz. Havia uma postura positiva em contemplar o próprio fracasso, mais do que em celebrar uma vitória, pensava. Eu podia seguir lutando, mas o facto é que fora desmascarado e vilmente exposto: Eu não era grande! Não fizera algo grande quando finalmente tive a oportunidade. Eu falhei novamente, como tantas vezes já havia falhado. N'estas horas, se eu me conhecia bem, a vontade de jogar tudo para o alto e m'esconder n'algum buraco só era não era maior que a necessidade de seguir em frente, apesar dos pesares. Sim, eu tinha-de seguir em frente, com as orelhas de burro expostas e sem a menor esperança de que, talvez, nem todos o notassem. Eu e minhas mazelas. Eu e minhas contradições. Eu sou aquele que não é bom o bastante, nunca fui e nunca serei. Minha felicidade, de facto, era sabê-lo.

À medida que a dor de cabeça passava e o momento autocontemplativo se dissipava, eu chegava ao meu posto de trabalho pleno de consciência de minhas limitações. Aceitá-las, ao invés de me martirizar, era o único bem qu'eu poderia me proporcionar. Ser quem eu era, para o bem ou para o mal, era a unica coisa boa que restava d'isso tudo. Aceitar aquela segunda-feira com todos os seus azares era a prioridade d'aquela manhã.

E assim o fiz.

Betim - 2018
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Comentários (5)

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Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

edu2018

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet

bom vê-lo por aqui

rosafogo

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.