Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.
Lista de Poemas
EU E TU
Até onde eu consigo me lembrar,
Aquele foi um dia ensolarado...
Talvez tenha sido eu; talvez o Fado
Ou apenas te calhou de m'encontrar.
E tu, sem qualquer pressa de chegar,
Nem vias quanto havias caminhado.
De mãos dadas, paramos lado a lado
E soubemos um ao outro desvendar:
Eu não te disse muito. Tu tampouco.
Porém parece o mundo menos louco
Enquanto é contemplado desde o abismo.
Já de noite, depois de tais assuntos,
Eu e tu d'ali saímos nós dois juntos
A andar de cataclismo em cataclismo...
Betim - 06 02 2018
Aquele foi um dia ensolarado...
Talvez tenha sido eu; talvez o Fado
Ou apenas te calhou de m'encontrar.
E tu, sem qualquer pressa de chegar,
Nem vias quanto havias caminhado.
De mãos dadas, paramos lado a lado
E soubemos um ao outro desvendar:
Eu não te disse muito. Tu tampouco.
Porém parece o mundo menos louco
Enquanto é contemplado desde o abismo.
Já de noite, depois de tais assuntos,
Eu e tu d'ali saímos nós dois juntos
A andar de cataclismo em cataclismo...
Betim - 06 02 2018
385
NU FRONTAL
Exposta na parede (um calendário!),
Outra nudez perfeita e exuberante...
De facto, nada mais interessante,
Que ver o que s'esconde de ordinário...
Não tinha ela vergonha, ao contrário,
Antes buscava o meu olhar errante
E de quem mais ficasse ali bem diante,
Entretido entre o real e o imaginário.
Janela de adentrar na fantasia,
Aquela costumaz fotografia,
Que se via em qualquer suja oficina.
Era expressão de pura liberdade
Ao fazer da mulher sensulidade
N'uma sexualidade masculina.
Betim - 03 02 2018
Outra nudez perfeita e exuberante...
De facto, nada mais interessante,
Que ver o que s'esconde de ordinário...
Não tinha ela vergonha, ao contrário,
Antes buscava o meu olhar errante
E de quem mais ficasse ali bem diante,
Entretido entre o real e o imaginário.
Janela de adentrar na fantasia,
Aquela costumaz fotografia,
Que se via em qualquer suja oficina.
Era expressão de pura liberdade
Ao fazer da mulher sensulidade
N'uma sexualidade masculina.
Betim - 03 02 2018
373
ERRATA
Onde se lê "justiça", leia "vingança"
Quem se quiser bom entendedor!
Dos males d'esta vida, um mal menor
É ver cada palavra em sua nuança.
De certo modo, escreve em contradança
Aquele que suaviza em tudo a dor
E, eufemisticamente, ao seu leitor
Deixa ao menos uma última esperança.
De boa ou má fé o erro, em realidade,
É o que às ideias muda a intensidade,
Mesmo quando mais nada faz sentido.
N'isto, para julgar, antes vingar:
Corrija-se o que está subliminar,
Na sentença d'um juiz obscurecido...
Betim - 22 01 2018
Quem se quiser bom entendedor!
Dos males d'esta vida, um mal menor
É ver cada palavra em sua nuança.
De certo modo, escreve em contradança
Aquele que suaviza em tudo a dor
E, eufemisticamente, ao seu leitor
Deixa ao menos uma última esperança.
De boa ou má fé o erro, em realidade,
É o que às ideias muda a intensidade,
Mesmo quando mais nada faz sentido.
N'isto, para julgar, antes vingar:
Corrija-se o que está subliminar,
Na sentença d'um juiz obscurecido...
Betim - 22 01 2018
492
RIBEIRÃO DA CACHOEIRA
Luzindo a cada salto; a cada queda,
As águas nos lajedos de granito...
Era tudo tão bom quanto bonito,
Por onde o rio abaixo s'envereda.
Um pássaro outro pássaro arremeda
Seu trinado de quero-quero aflito.
Mas oculta entre as águas acredito
Da própria Uiara ouvir sua voz leda.
Bandos de maritacas fazem festa
No dossel verdejante da floresta
Até a tarde cair mais preguiçosa.
E, por fim, espraiado n'um remanso,
Paro para admirar como descanso
O céu se colorir em tons de rosa...
Betim - 14 01 2018
As águas nos lajedos de granito...
Era tudo tão bom quanto bonito,
Por onde o rio abaixo s'envereda.
Um pássaro outro pássaro arremeda
Seu trinado de quero-quero aflito.
Mas oculta entre as águas acredito
Da própria Uiara ouvir sua voz leda.
Bandos de maritacas fazem festa
No dossel verdejante da floresta
Até a tarde cair mais preguiçosa.
E, por fim, espraiado n'um remanso,
Paro para admirar como descanso
O céu se colorir em tons de rosa...
Betim - 14 01 2018
315
MARAVILHOSO
MARAVILHOSO
Já cansado de ser, talvez lograsse
Tornar-me a personagem vã de mim.
De sorte que quem sou, ao cabo e ao fim
Aquele que não sou melhor ficasse.
Estivesse eu de mim bem face a face
à maravilha em ser quem fosse, enfim,
Eu sequer saberia d'onde vim,
E tão perdido n'outros eu me outrasse.
Porque quem se torna outro se projeta
No vazio da imagem predileta,
E dá-se aos outros o outro que bem quer.
Quem é, no entanto, está subentendido:
No melhor de mim, não tão comedido,
Soube maravilhoso estar e ser.
Inhapim - 22 04 2016
Já cansado de ser, talvez lograsse
Tornar-me a personagem vã de mim.
De sorte que quem sou, ao cabo e ao fim
Aquele que não sou melhor ficasse.
Estivesse eu de mim bem face a face
à maravilha em ser quem fosse, enfim,
Eu sequer saberia d'onde vim,
E tão perdido n'outros eu me outrasse.
Porque quem se torna outro se projeta
No vazio da imagem predileta,
E dá-se aos outros o outro que bem quer.
Quem é, no entanto, está subentendido:
No melhor de mim, não tão comedido,
Soube maravilhoso estar e ser.
Inhapim - 22 04 2016
393
MULHER-ESPETÁCULO
MULHER-ESPETÁCULO
Ela sozinha vale já o ingresso!
Seminua no palco, sensualiza
E faz caras e bocas mil à guisa
De quem antes celebra cada excesso.
Mesmeriza com seu olhar travesso
Como se ora indecente; ora indecisa...
Ainda do que quer me desavisa
E me vira a cabeça pelo avesso.
Ela é um tanto nova para mim,
Mas diz que vai comigo até o fim,
Embora não lh'entenda patavina.
Eu ora apenas sei que aos olhos salta
Sua imagem nas luzes da ribalta:
Uma mulher com rosto de menina.
Betim - 12 01 2017
Ela sozinha vale já o ingresso!
Seminua no palco, sensualiza
E faz caras e bocas mil à guisa
De quem antes celebra cada excesso.
Mesmeriza com seu olhar travesso
Como se ora indecente; ora indecisa...
Ainda do que quer me desavisa
E me vira a cabeça pelo avesso.
Ela é um tanto nova para mim,
Mas diz que vai comigo até o fim,
Embora não lh'entenda patavina.
Eu ora apenas sei que aos olhos salta
Sua imagem nas luzes da ribalta:
Uma mulher com rosto de menina.
Betim - 12 01 2017
369
ULTRARROMÂNTICO
ULTRARROMÂNTICO
Amar, não para ter família e filhos
Ou envelhecer tentando ser feliz!...
Sim para querer mais do que já quis,
Alheio a conveniências e empecilhos.
Dois a morrer d'amor, feito andarilhos,
Que têm no coração seu vasto país
Todo eterno amador, como se diz,
Há-que buscar aos olhos novos brilhos.
Amor, como sentido e até destino,
Da forte correnteza que nos leva
Indiferentes se à luz ou para a treva...
Pois, ainda que um outro desatino,
Sê tu no peito amante quem de novo
Me leva ao mal-d'amor que agora trovo.
Betim - 15 01 1998
Amar, não para ter família e filhos
Ou envelhecer tentando ser feliz!...
Sim para querer mais do que já quis,
Alheio a conveniências e empecilhos.
Dois a morrer d'amor, feito andarilhos,
Que têm no coração seu vasto país
Todo eterno amador, como se diz,
Há-que buscar aos olhos novos brilhos.
Amor, como sentido e até destino,
Da forte correnteza que nos leva
Indiferentes se à luz ou para a treva...
Pois, ainda que um outro desatino,
Sê tu no peito amante quem de novo
Me leva ao mal-d'amor que agora trovo.
Betim - 15 01 1998
396
O CABULOSO
O CABULOSO
Faltava à faculdade toda sexta
E partia para o baile da favela
Em permissividade paralela,
Atravessando a noite toda em festa.
Ao longo da semana manifesta
Uma extrema ansiedade que atropela
O seu curso acadêmico e revela
Outra procura intensa e pouco honesta:
Entre bebidas, música e mulheres
Dá-se sentido à vida nos prazeres,
Certo que tanta zoeira não tem fim.
Em poucos anos mais ele jubila,
Deixando essa vidinha tão tranquila
Já sem saber sequer se bom ou ruim.
Betim - 12 01 2018
Faltava à faculdade toda sexta
E partia para o baile da favela
Em permissividade paralela,
Atravessando a noite toda em festa.
Ao longo da semana manifesta
Uma extrema ansiedade que atropela
O seu curso acadêmico e revela
Outra procura intensa e pouco honesta:
Entre bebidas, música e mulheres
Dá-se sentido à vida nos prazeres,
Certo que tanta zoeira não tem fim.
Em poucos anos mais ele jubila,
Deixando essa vidinha tão tranquila
Já sem saber sequer se bom ou ruim.
Betim - 12 01 2018
342
ENTRE MIM E TI
ENTRE MIM E TI
Não que a alegria tenha nos deixado,
Mas tantos os tremores; tantos sismos,
Que hoje, entre mim e ti, fundos abismos
Nos põe distantes mesmo lado a lado.
Camadas de rancor mal disfarçado
Cobertas de rasteiros egoísmos,
De tanto cultivar antagonismos
De permeio às cizânias do passado.
Firmados por contrato, os compromissos
Bem como as velhas juras e intenções
Lacrimam em meus olhos insubmissos
Pergunto: -- "O que supera estes senões?" --
Talvez os panoramas fronteiriços
Compartilhados pelos corações...
Betim - 24 04 1998
Não que a alegria tenha nos deixado,
Mas tantos os tremores; tantos sismos,
Que hoje, entre mim e ti, fundos abismos
Nos põe distantes mesmo lado a lado.
Camadas de rancor mal disfarçado
Cobertas de rasteiros egoísmos,
De tanto cultivar antagonismos
De permeio às cizânias do passado.
Firmados por contrato, os compromissos
Bem como as velhas juras e intenções
Lacrimam em meus olhos insubmissos
Pergunto: -- "O que supera estes senões?" --
Talvez os panoramas fronteiriços
Compartilhados pelos corações...
Betim - 24 04 1998
389
MAIS-QUE-PERFEITO
MAIS-QUE-PERFEITO
Passara o tempo a mim mais que perfeito:
Pensara ser presente meu passado...
Desamassara um poema que, esboçado,
Revisitava o amor cá no meu peito.
Passara -- ou passará... -- o bem que afeito
Incensara a mulher, cujo fado
Despedaçará em cacos de bom grado
Para após refazer o amor desfeito.
Sara... Aliás, o melhor e o pior momento
Do amar mais-que-perfeito qu'eu amara
E que pensara já no esquecimento...
Mas como haveria eu de esquecer Sara?
Mais que perfeito volta o sentimento,
Porque o amor é ferida... Que não sara!...
Betim - 06 06 1996
Passara o tempo a mim mais que perfeito:
Pensara ser presente meu passado...
Desamassara um poema que, esboçado,
Revisitava o amor cá no meu peito.
Passara -- ou passará... -- o bem que afeito
Incensara a mulher, cujo fado
Despedaçará em cacos de bom grado
Para após refazer o amor desfeito.
Sara... Aliás, o melhor e o pior momento
Do amar mais-que-perfeito qu'eu amara
E que pensara já no esquecimento...
Mas como haveria eu de esquecer Sara?
Mais que perfeito volta o sentimento,
Porque o amor é ferida... Que não sara!...
Betim - 06 06 1996
308
Comentários (5)
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Lindos poemas ,meu caro!
Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns
POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!
bom vê-lo por aqui
Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!