Até onde eu consigo me lembrar, Aquele foi um dia ensolarado... Talvez tenha sido eu; talvez o Fado Ou apenas te calhou de m'encontrar.
E tu, sem qualquer pressa de chegar, Nem vias quanto havias caminhado. De mãos dadas, paramos lado a lado E soubemos um ao outro desvendar:
Eu não te disse muito. Tu tampouco. Porém parece o mundo menos louco Enquanto é contemplado desde o abismo.
Já de noite, depois de tais assuntos, Eu e tu d'ali saímos nós dois juntos A andar de cataclismo em cataclismo...
Betim - 06 02 2018
394
NU FRONTAL
Exposta na parede (um calendário!), Outra nudez perfeita e exuberante... De facto, nada mais interessante, Que ver o que s'esconde de ordinário...
Não tinha ela vergonha, ao contrário, Antes buscava o meu olhar errante E de quem mais ficasse ali bem diante, Entretido entre o real e o imaginário.
Janela de adentrar na fantasia, Aquela costumaz fotografia, Que se via em qualquer suja oficina.
Era expressão de pura liberdade Ao fazer da mulher sensulidade N'uma sexualidade masculina.
Betim - 03 02 2018
383
RIBEIRÃO DA CACHOEIRA
Luzindo a cada salto; a cada queda, As águas nos lajedos de granito... Era tudo tão bom quanto bonito, Por onde o rio abaixo s'envereda.
Um pássaro outro pássaro arremeda Seu trinado de quero-quero aflito. Mas oculta entre as águas acredito Da própria Uiara ouvir sua voz leda.
Bandos de maritacas fazem festa No dossel verdejante da floresta Até a tarde cair mais preguiçosa.
E, por fim, espraiado n'um remanso, Paro para admirar como descanso O céu se colorir em tons de rosa...
Betim - 14 01 2018
324
ERRATA
Onde se lê "justiça", leia "vingança" Quem se quiser bom entendedor! Dos males d'esta vida, um mal menor É ver cada palavra em sua nuança.
De certo modo, escreve em contradança Aquele que suaviza em tudo a dor E, eufemisticamente, ao seu leitor Deixa ao menos uma última esperança.
De boa ou má fé o erro, em realidade, É o que às ideias muda a intensidade, Mesmo quando mais nada faz sentido.
N'isto, para julgar, antes vingar: Corrija-se o que está subliminar, Na sentença d'um juiz obscurecido...
Betim - 22 01 2018
500
MARAVILHOSO
MARAVILHOSO
Já cansado de ser, talvez lograsse Tornar-me a personagem vã de mim. De sorte que quem sou, ao cabo e ao fim Aquele que não sou melhor ficasse.
Estivesse eu de mim bem face a face à maravilha em ser quem fosse, enfim, Eu sequer saberia d'onde vim, E tão perdido n'outros eu me outrasse.
Porque quem se torna outro se projeta No vazio da imagem predileta, E dá-se aos outros o outro que bem quer.
Quem é, no entanto, está subentendido: No melhor de mim, não tão comedido, Soube maravilhoso estar e ser.
Inhapim - 22 04 2016
401
ULTRARROMÂNTICO
ULTRARROMÂNTICO
Amar, não para ter família e filhos Ou envelhecer tentando ser feliz!... Sim para querer mais do que já quis, Alheio a conveniências e empecilhos.
Dois a morrer d'amor, feito andarilhos, Que têm no coração seu vasto país Todo eterno amador, como se diz, Há-que buscar aos olhos novos brilhos.
Amor, como sentido e até destino, Da forte correnteza que nos leva Indiferentes se à luz ou para a treva...
Pois, ainda que um outro desatino, Sê tu no peito amante quem de novo Me leva ao mal-d'amor que agora trovo.
Betim - 15 01 1998
405
MULHER-ESPETÁCULO
MULHER-ESPETÁCULO
Ela sozinha vale já o ingresso! Seminua no palco, sensualiza E faz caras e bocas mil à guisa De quem antes celebra cada excesso.
Mesmeriza com seu olhar travesso Como se ora indecente; ora indecisa... Ainda do que quer me desavisa E me vira a cabeça pelo avesso.
Ela é um tanto nova para mim, Mas diz que vai comigo até o fim, Embora não lh'entenda patavina.
Eu ora apenas sei que aos olhos salta Sua imagem nas luzes da ribalta: Uma mulher com rosto de menina.
Betim - 12 01 2017
379
O CABULOSO
O CABULOSO
Faltava à faculdade toda sexta E partia para o baile da favela Em permissividade paralela, Atravessando a noite toda em festa.
Ao longo da semana manifesta Uma extrema ansiedade que atropela O seu curso acadêmico e revela Outra procura intensa e pouco honesta:
Entre bebidas, música e mulheres Dá-se sentido à vida nos prazeres, Certo que tanta zoeira não tem fim.
Em poucos anos mais ele jubila, Deixando essa vidinha tão tranquila Já sem saber sequer se bom ou ruim.
Betim - 12 01 2018
351
ENTRE MIM E TI
ENTRE MIM E TI
Não que a alegria tenha nos deixado, Mas tantos os tremores; tantos sismos, Que hoje, entre mim e ti, fundos abismos Nos põe distantes mesmo lado a lado.
Camadas de rancor mal disfarçado Cobertas de rasteiros egoísmos, De tanto cultivar antagonismos De permeio às cizânias do passado.
Firmados por contrato, os compromissos Bem como as velhas juras e intenções Lacrimam em meus olhos insubmissos
Pergunto: -- "O que supera estes senões?" -- Talvez os panoramas fronteiriços Compartilhados pelos corações...
Betim - 24 04 1998
400
MAIS-QUE-PERFEITO
MAIS-QUE-PERFEITO
Passara o tempo a mim mais que perfeito: Pensara ser presente meu passado... Desamassara um poema que, esboçado, Revisitava o amor cá no meu peito.
Passara -- ou passará... -- o bem que afeito Incensara a mulher, cujo fado Despedaçará em cacos de bom grado Para após refazer o amor desfeito.
Sara... Aliás, o melhor e o pior momento Do amar mais-que-perfeito qu'eu amara E que pensara já no esquecimento...
Mas como haveria eu de esquecer Sara? Mais que perfeito volta o sentimento, Porque o amor é ferida... Que não sara!...