Os deuses se confundem nas histórias Dos povos que se fundem n'um só povo: O vencedor se vê como o renovo Capaz de reviver antigas glórias.
De modo que se veem premonitórias As conquistas do velho para o novo... No afã de descrever tudo de novo, E ao fim prevalecer por tais vitórias.
A civilização assim transita D'um povo que melhor se lhe acredita Para o povo que maior se compreende...
O que resulta d'isso, por cultura Se divulgue em vã nomenclatura, Face àquilo que mítico s'estende.
Betim - 19 04 2018
385
JUDAICO-CRISTÃO
O Deus de Judá reina sobre a Terra Como se uma consciência colectiva!... E o respiro de cada coisa viva, Creem que de seu espírito algo encerra.
Deus d'exércitos sim; Senhor da guerra, Em seu nome vêm ter com mão ativa Os corações e as mentes à deriva, Indiferentes se Ele existe ou se erra:
A ferro e fogo, todos os gentios Fizeram batizar em turvos rios Como fizera Cristo entre os judeus.
Foi assim que passadas eras plenas Ao deus desconhecido, desde Atenas, O Ocidente O elevou a único Deus...
Betim - 18 04 2018
346
GESTUAL
Vontade d'expressar tudo sem falar nada E n'algo inconsequente, igual um soco no ar, Pôr tamanha energia onde fosse esmurrar As fuças do sujeito atrás da papelada!...
Sem embargo, traduza a minha dor calada N'um acesso tão amplo quanto sem lugar... Como protesto eu fique a lhe gesticular Com fúria me chispando ainda a má mirada.
Pareça-lhe agressivo ao passo que, agredido, Consigo me indignar n'esse gesto incontido Contra quanto me cala e me oprime e me aliena.
Eu, todavia, expresse algo quase inumano Como explodisse então, pouco republicano, Sem lhe verbalizar sequer palavra plena...
Belo Horizonte - 10 04 2018
344
OS OUTROS - Crônicas d'anteontem
OS OUTROS
Sim, agora que estamos apenas nós aqui, podemos falar d'eles: Coitados, tão estúpidos... tão simplórios... tão idiotas... Nós, que não somos como eles, é que sabemos a verdade! Como eles não sabem? Quando vão se calar e fingir que concordam conosco? Afinal, temos méritos intelectuais inquestionáveis e sistemas filosóficos inteiros! E eles, oras!...
Quem eles pensam que são? Eles pensam? Doutrinados que foram para repetir frases feitas e acreditar em historinhas infundadas!... Ao contrário de nós, que temos verdades sólidas e perfeitas, mas, justamente por isso, universais: Servem para tudo e todos! Ai d'aqueles que não entendem!... Como podem se cegar diante dos factos que elencamos e, sobretudo, da força de nossas convicções?! Até quando serão escravos de ideias alheias? Até quando se submeterão às ideologias apressadas ou aos maniqueísmos primários que os líderes vociferam continuamente?! A propósito, seus líderes: Que ridículos! Matéria para caricaturas! Contradições ambulantes, tangem feito gado a massa buliçosa...
Que espetáculo patético! Quanta manipulação interessante-interesseira! Quantos pseudo-pensadores!!!
Os outros estão lá e nós aqui. Entre iguais, falamos e somos compreendidos: Todos como um! Democracia?! O exaustivo debate com quem só escuta a si mesmo e contra-argumenta lugares comuns me esgota: Falar, discutir, parlamentar... É inútil! Muito mais produtivo impor nosso ponto de vista e eliminar as contradições, internas ou externas.
O curioso é que, saindo d'aqui, nos misturamos... Na multidão da metrópole, parecemos todos iguais: As cores simbólicas dão lugar às roupas do dia a dia. Difícil dizer quem é isto ou aquilo: Coexistimos.
E, embora não concordemos em quase nada, nossa humanidade nos exige ao menos a consciência de nosso destino comum, isto é, a morte. Ah, que excepcional a condição humana... Não basta aos homens morrer: É preciso viver tendo consciência de quão breve pode ser a vida!...
Talvez não sejamos, nós e os outros, tão diferentes assim.
Mas, o que estou dizendo? Onde estão os nossos princípios? Onde estão os nossos hinos e bandeiras? Onde as nossas palavras de ordem! Não devemos baixar a guarda jamais!
Pelas palavras ou pela força, venceremos!
(Mesmo que vitória provisória à espera da próximo entrevero...).
Betim - 15 04 2018
328
PERTENCES (vilanela)
Algo que permanece d'aura extensa Como a essência invisível dos objetos, Cujo longo uso indicam-nos pertença:
Além do que se faz ou que se pensa De nós em nossos gostos prediletos, Algo que permanece d'aura extensa.
Desgastadas relíquias d'uma crença, Onde os dedos premiram, inquietos, Algo que permanece d'aura extensa.
Alguma fé absurda mas imensa, A fazer-nos abstratos mais concretos... Algo que permanece d'aura extensa.
Os óculos, a pena, o terno, a prensa... Visto de humanidade já repletos, Algo que permanece d'aura extensa.
Em tudo que estivemos nós completos, Quando da ausência, seja-nos presença Nos ressignificando em amuletos, Algo que permanece d'aura extensa...
Betim - 15 04 2018
398
UBÚNTU
Não adormeças sobre os teus anseios, Tampouco deixes sonhos embotados. A solidão ligeira faz passados Os princípios e os fins quando sem meios.
Andaste tu perdido em devaneios A ver como se d'olhos já vendados... Não julgues de antemão desencontrados Tanto os desejos teus quanto os alheios.
Desde que o mundo é mundo, as pessoas Têm para si razões sempre tão boas Que nos outros não veem senão conflitos.
Se, contudo, a verdade se partilha Crescer co'os outros é a maravilha Que faz os nossos dias mais bonitos.
Belo Horizonte - 05 04 2018
350
POR ENGANO
Cumprimentou-me sem saber quem era. Acenava, sorrindo-me sem graça. Há tempos não o via e n'uma praça Calhou de reencontrá-lo: --"Besta-fera!..."
Com efeito, das brumas da quimera Retorno balbuciando uma chalaça. E, antes que da surpresa se refaça, Pede-me um adjutório e fica à espera.
Recordo-me do amigo qu'ele fora No tempo qu'eu o tinha como amigo E da distância havida vida afora.
"Mas que cara de pau!" -- pensei comigo -- "Nem se lembra de mim". Digo-lhe, embora: -- "Perdão, foi por engano." -- e fui embora.
Belo Horizonte - 25 03 2018
330
MALFADADO
Todo dia o dia todo, Ando contrariado Por saber-me d'algum modo No amor malfadado... Tanto que nem me incomodo, Quando dá errado. Eu mais dia, menos dia Desisto de tudo: Qualquer mínima alegria, D'amor sobretudo, Me põe em má companhia E eu me desiludo. Tal e qual jogo d'azar Outro amor em vão Me fez quase acreditar... No fim, bem ou não, Tão-só soube revirar O meu coração. Todo dia o dia todo, Ando contrariado Por saber-me d'algum modo No amor malfadado... Tanto que nem me incomodo, Quando dá errado. Betim - 02 04 2018
393
OLARIAS
Do barro que sou feito, eu também faço: Tijolos, telhas, vasos, santos, gentes... Viver a amassar lama -- sãos ou doentes! -- Mesmo que o pão se veja sempre escasso.
Mas, da casa humilde ao grande paço, Haverão-d'encontrar bem aparentes Os sulcos de meus dedos! Entrementes, Definham meus costados de cansaço...
Isto de ao abstrato dar mais concretude Traz-me a incomensurável solitude Com a qual lido desde que m'entendo.
Sem embargo, trabalho por obrar Até que um dia enfim tenham lugar Os lares que nos sonhos sigo vendo.
Betim - 31 03 2018
357
SEM SAÍDA
Convém me repetir todos os dias As razões que me levam a deixar Os caminhos que seguem sem chegar, Enquanto muros cercam fantasias.
Em becos; pelas vielas mais sombrias, Andei a me perder sem encontrar: Bati em cada porta do lugar!... Por horas devassei casas vazias.
Debalde... Sem saída nem entrada, A cada tentativa em derredor Só vendo todo o esforço dar em nada.
Sequer se trata já de amor ou dor, Sim de saber findar uma jornada, Que há muito não tem nada em seu favor.