Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.
Lista de Poemas
CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO / Terceira Parte: EM NARRATIVA
Terceira Parte:
EM NARRATIVA
De que servem os artistas
Os poetas, os romancistas
E os contadores de histórias,
Senão a elevar heróis?
Com inventadas memórias
Exaltando as suas glórias
Entre rubros arrebóis!...
Historiar é encontrar
Onde os actos têm lugar
E onde o herói se movimenta
Em plena metamorfose:
Muito sofre, pena, tenta,
Perde, ganha, luta e enfrenta
Até a sua apoteose!...
Há-que pôr em narrativa
Quanto bem ou mal se viva
Por o que, como, quando e onde...
Em tempo e espaço cobertos,
Vastas questões responde
Ao dispor o que s'esconde
Como se livros abertos.
Mas dizem que o bom enredo
Surpreende, quer triste ou ledo,
Até o próprio escritor!...
Que uma história bem contada
É a que do início ao fim
Lê-se a varar madrugada,
Mantendo a mente encantada
Como fosse mesmo assim.
E que cada personagem
Nos traz alguma mensagem
Do que seja estar e ser.
E de tanta humanidade
Se lhe possa perceber,
Em cada lance a vencer
Por fim, a sua verdade.
Quer d'aqui ou de nenhures
Aonde algures e alhures
Nos leva a imaginação,
A história nos transporte
Pelas voltas da ficção
Com razão mais emoção
Para além de vida e morte.
Lua e sol ponho em cordel
Para um eclipse no céu,
Além de nos encantar,
Iluminar nossas vidas.
E 'inda desmistificar
Lendas que tomam lugar
De verdades conhecidas.
Quem quiser manipular
A fé do povo em lugar
De se procurar respostas,
Tenha ao menos a visão
De que a sua opinião
É igual a outras apostas:
Se Deus mesmo ninguém viu
E da morte não se ouviu
Qualquer palavra de volta,
Tudo é especulação!...
Sem mais, fica só revolta
Ou lamento que nos solta
Por angústia o coração.
* * *
EM NARRATIVA
De que servem os artistas
Os poetas, os romancistas
E os contadores de histórias,
Senão a elevar heróis?
Com inventadas memórias
Exaltando as suas glórias
Entre rubros arrebóis!...
Historiar é encontrar
Onde os actos têm lugar
E onde o herói se movimenta
Em plena metamorfose:
Muito sofre, pena, tenta,
Perde, ganha, luta e enfrenta
Até a sua apoteose!...
Há-que pôr em narrativa
Quanto bem ou mal se viva
Por o que, como, quando e onde...
Em tempo e espaço cobertos,
Vastas questões responde
Ao dispor o que s'esconde
Como se livros abertos.
Mas dizem que o bom enredo
Surpreende, quer triste ou ledo,
Até o próprio escritor!...
Que uma história bem contada
É a que do início ao fim
Lê-se a varar madrugada,
Mantendo a mente encantada
Como fosse mesmo assim.
E que cada personagem
Nos traz alguma mensagem
Do que seja estar e ser.
E de tanta humanidade
Se lhe possa perceber,
Em cada lance a vencer
Por fim, a sua verdade.
Quer d'aqui ou de nenhures
Aonde algures e alhures
Nos leva a imaginação,
A história nos transporte
Pelas voltas da ficção
Com razão mais emoção
Para além de vida e morte.
Lua e sol ponho em cordel
Para um eclipse no céu,
Além de nos encantar,
Iluminar nossas vidas.
E 'inda desmistificar
Lendas que tomam lugar
De verdades conhecidas.
Quem quiser manipular
A fé do povo em lugar
De se procurar respostas,
Tenha ao menos a visão
De que a sua opinião
É igual a outras apostas:
Se Deus mesmo ninguém viu
E da morte não se ouviu
Qualquer palavra de volta,
Tudo é especulação!...
Sem mais, fica só revolta
Ou lamento que nos solta
Por angústia o coração.
* * *
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BOA VIZINHANÇA - O Homem do Saco e outros Contos
Pareceu-me um tipo bem apessoado, d'aqueles que pela simpatia logo conquistam: Sorria, respondendo positivamente a tudo quanto lhe dissessem. Enfim, queria sempre resolver o problema, existisse ou não.
Mudara-se há pouco para vizinhança e havia me procurado, enquanto eu me preparava para sair de casa. Era de manhã bem cedo e estava frio. Ele se aproximou, identificou-se como o novo vizinho e pediu-me ajuda com o hidrômetro: Após algumas horas de faxina, dissera, faltava-lhe água em casa... Embora estivesse vestido para o trabalho, fiquei sensibilizado e lhe fiz o obséquio de subir com ele ao castelo d'água de sua casa e lhe mostrei o reparo que devia fazer na boia da caixa. Ele, muito agradecido, me desejou um bom dia enquanto eu saía para cuidar da vida. Horas mais tarde, ele me cerca ao voltar com minha filha da escola: Pedia que lhe ajudasse com o gás de cozinha, pois não tinha ainda contactos na cidade. Mandei vir o gás e ele pagou o entregador. Quando saí do almoço para voltar ao trabalho, ele outra vez me chama e pede para ver o sinal da antena de TV enquanto ele a ajusta no telhado. Confesso que a boa vontade já estava no fim, mas não lhe neguei também esse pedido. Imagem na tela, já me dirigia à saída quando ele, com sua positividade característica, pediu-me que lhe ajudasse a instalar também o chuveiro. Aquilo me pareceu demasiado e lhe disse não. Argumentei que estava atrasado para o trabalho e ele assentiu.
Já de noite, topo com o vizinho na rua. Ele apenas esperava que eu chegasse para lhe emprestar a caixa de ferramentas e poder instalar seus trens. Havia pedido à minha esposa mais cedo, mas ela se escusou de fazê-lo, alegando que não mexia em minhas coisas. Cansado, fui até a garagem e peguei a bendita caixa. Ele gracejou algo que me pareceu exagerado e disse que devolvia assim que terminasse. De facto, tão logo entrei em casa já pude ouvir o zunido da furadeira e, após, as batidas do martelo. Da sua casa, parede-e-meia com a minha, dava-me a impressão de que trabalhava comigo dentro... E foi assim até bem tarde, n'uma faina ininterrupta até que lá pelas onze da noite fui forçado lhe bater na parede geminada e ele silenciou lá do lado d'ele. Mesmo assim, ainda pude ouvir sua movimentação ajeitando móveis madrugada adentro, n'uma insônia inoportuna e sem remédio... Como não conseguisse dormir, preparei-me para sair no dia seguinte ainda mais cedo que o rotineiro no sentido de evitá-lo, como já pressentisse que viria ter comigo. Dito e feito: Mal ponho os pés na calçada e lá estava ele, muito clamoso, pedindo-me desculpas pela algazarra da noite anterior. Civilizado, disse compreender. Eu ainda falava quando ele engatou um novo pedido, agora de carona ao Centro da cidade para ver a instalação do telefone... Como não me custava nada -- nada além do inconveniente de sua companhia, é claro -- dei-lhe a carona, embora visivelmente mal-humorado pela noite em claro. Ele, ao contrário, parecia jovial como sempre. Puxou assunto durante todo o percurso, ao que lhe respondia com monossílabos ou expressões genéricas. Se percebera minha irritação, fingiu não ser com ele. Despedi-o na avenida do comércio e segui com o auto para o meu trabalho mais adiante.
Tudo parecia conspirar contra mim n'aquele dia... Na hora de vir para almoçar em casa, topo com o farol do carro ligado e a bateria descarregada! Pedi para vir o eletricista e o mesmo só poderia me atender mais para o final da tarde. Liguei para casa e disse que não viria almoçar e tampouco pegaria nossa filha no colégio. À procura d'um restaurante, desço para o Centro a pé e entro no primeiro que identifico. Por mal dos pecados, topo com o vizinho se servindo ainda na fila da balança: Que maçada! Muito sorridente, o coitado me chama para sentar-me com ele à mesa. Sem qualquer alternativa razoável, aceito e sigo com ele para o mezanino do restaurante. Já antevia outra conversa inútil como a da manhã e ele não me decepcionou: Falou o tempo todo! Contou da cidade d'onde vinha, da família que tinha e da casa junto à minha!!! E eu, que seguramente não queria saber de nada daquilo, fui obrigado a lhe tolerar uma hora de conversa fiada. Nervoso, olhava continuamente para o relógio em busca d'um pretexto que me tirasse d'aquele lugar, mas não havia. Quando finalmente terminou sua refeição e pagamos, o dito cujo pergunta a que horas volto para o bairro pois passaria ainda o resto da tarde no Centro. Informo-lhe o horário, ao passo que o outro, com um sorriso aberto de orelha a orelha, já confirma a conveniência de me acompanhar. A contragosto, combino onde o pegaria e volto para o trabalho. De facto, n'esse meio tempo, o eletricista vinha com a bateria carregada para pôr o carro para funcionar, logo, sequer essa desculpa me livraria... Paguei o conserto e fui encontrar meu algoz para mais uma hora de companhia forçada. E ele estava lá, tal como combinado. Seu sorriso já me causava mal estar e sua conversa infindável já era evidentemente um suplício para mim. Quando chegamos, cheguei a sorrir com a perspectiva de me livrar d'ele, mas o vizinho, para minha surpresa e sem qualquer cerimônia, me acompanhou até dentro de casa e entabulou conversa com minha esposa! Ela, que não esperava a visita, foi logo preparando um café e o recebeu na cozinha mesmo, como já se fosse de casa... Fiquei ali, pasmo, assistindo aquele disparate e indeciso entre pô-lo para fora com alguma indisposição súbita ou acompanhar minha mulher em sua recepção improvisada. Decidi-me pela segunda opção que, embora desagradável, parecia a mais correta. A conversa enveredou para a pane da bateria do auto e os imprevistos subsequentes. Seco, narrava os factos resumidamente, enquanto nosso convidado parecia se deliciar em não só desenvolvê-los, mas ainda em analisá-los e interpretá-los à luz do Fado ou da História... Duas horas virando xícaras de café para rememorar um dia que parecia interminável! Quando eu já pensava que jamais se cansaria de nós, o vizinho, cheio de nove horas, decide finalmente se retirar.
Ao me deitar, desabafei com minha mulher o quanto me custava suportar aquela companhia constante do vizinho. Ela, como era de se esperar, me censurou veementemente. Disse que era um exagero meu; que eu vivia como um caramujo, insociável e impaciente etc... Enfim, arrumei para a cabeça, como diz o outro. Encerrei o assunto prometendo ser mais tolerante com o coitado que, de modo evidente para mim, precisava de novos amigos.
Dia seguinte, estranho a calma de sua casa e vou para o trabalho. Não há sinal d'ele ou de qualquer pessoa em sua casa. Tudo transcorre bem ao longo do dia e volto para casa no horário de sempre. Contudo, não suportando a curiosidade, aperto-lhe a campainha e, assim que me atende, vou logo lhe perguntando pelo dia e se precisava de alguma coisa.
Betim - 17 05 2018
Mudara-se há pouco para vizinhança e havia me procurado, enquanto eu me preparava para sair de casa. Era de manhã bem cedo e estava frio. Ele se aproximou, identificou-se como o novo vizinho e pediu-me ajuda com o hidrômetro: Após algumas horas de faxina, dissera, faltava-lhe água em casa... Embora estivesse vestido para o trabalho, fiquei sensibilizado e lhe fiz o obséquio de subir com ele ao castelo d'água de sua casa e lhe mostrei o reparo que devia fazer na boia da caixa. Ele, muito agradecido, me desejou um bom dia enquanto eu saía para cuidar da vida. Horas mais tarde, ele me cerca ao voltar com minha filha da escola: Pedia que lhe ajudasse com o gás de cozinha, pois não tinha ainda contactos na cidade. Mandei vir o gás e ele pagou o entregador. Quando saí do almoço para voltar ao trabalho, ele outra vez me chama e pede para ver o sinal da antena de TV enquanto ele a ajusta no telhado. Confesso que a boa vontade já estava no fim, mas não lhe neguei também esse pedido. Imagem na tela, já me dirigia à saída quando ele, com sua positividade característica, pediu-me que lhe ajudasse a instalar também o chuveiro. Aquilo me pareceu demasiado e lhe disse não. Argumentei que estava atrasado para o trabalho e ele assentiu.
Já de noite, topo com o vizinho na rua. Ele apenas esperava que eu chegasse para lhe emprestar a caixa de ferramentas e poder instalar seus trens. Havia pedido à minha esposa mais cedo, mas ela se escusou de fazê-lo, alegando que não mexia em minhas coisas. Cansado, fui até a garagem e peguei a bendita caixa. Ele gracejou algo que me pareceu exagerado e disse que devolvia assim que terminasse. De facto, tão logo entrei em casa já pude ouvir o zunido da furadeira e, após, as batidas do martelo. Da sua casa, parede-e-meia com a minha, dava-me a impressão de que trabalhava comigo dentro... E foi assim até bem tarde, n'uma faina ininterrupta até que lá pelas onze da noite fui forçado lhe bater na parede geminada e ele silenciou lá do lado d'ele. Mesmo assim, ainda pude ouvir sua movimentação ajeitando móveis madrugada adentro, n'uma insônia inoportuna e sem remédio... Como não conseguisse dormir, preparei-me para sair no dia seguinte ainda mais cedo que o rotineiro no sentido de evitá-lo, como já pressentisse que viria ter comigo. Dito e feito: Mal ponho os pés na calçada e lá estava ele, muito clamoso, pedindo-me desculpas pela algazarra da noite anterior. Civilizado, disse compreender. Eu ainda falava quando ele engatou um novo pedido, agora de carona ao Centro da cidade para ver a instalação do telefone... Como não me custava nada -- nada além do inconveniente de sua companhia, é claro -- dei-lhe a carona, embora visivelmente mal-humorado pela noite em claro. Ele, ao contrário, parecia jovial como sempre. Puxou assunto durante todo o percurso, ao que lhe respondia com monossílabos ou expressões genéricas. Se percebera minha irritação, fingiu não ser com ele. Despedi-o na avenida do comércio e segui com o auto para o meu trabalho mais adiante.
Tudo parecia conspirar contra mim n'aquele dia... Na hora de vir para almoçar em casa, topo com o farol do carro ligado e a bateria descarregada! Pedi para vir o eletricista e o mesmo só poderia me atender mais para o final da tarde. Liguei para casa e disse que não viria almoçar e tampouco pegaria nossa filha no colégio. À procura d'um restaurante, desço para o Centro a pé e entro no primeiro que identifico. Por mal dos pecados, topo com o vizinho se servindo ainda na fila da balança: Que maçada! Muito sorridente, o coitado me chama para sentar-me com ele à mesa. Sem qualquer alternativa razoável, aceito e sigo com ele para o mezanino do restaurante. Já antevia outra conversa inútil como a da manhã e ele não me decepcionou: Falou o tempo todo! Contou da cidade d'onde vinha, da família que tinha e da casa junto à minha!!! E eu, que seguramente não queria saber de nada daquilo, fui obrigado a lhe tolerar uma hora de conversa fiada. Nervoso, olhava continuamente para o relógio em busca d'um pretexto que me tirasse d'aquele lugar, mas não havia. Quando finalmente terminou sua refeição e pagamos, o dito cujo pergunta a que horas volto para o bairro pois passaria ainda o resto da tarde no Centro. Informo-lhe o horário, ao passo que o outro, com um sorriso aberto de orelha a orelha, já confirma a conveniência de me acompanhar. A contragosto, combino onde o pegaria e volto para o trabalho. De facto, n'esse meio tempo, o eletricista vinha com a bateria carregada para pôr o carro para funcionar, logo, sequer essa desculpa me livraria... Paguei o conserto e fui encontrar meu algoz para mais uma hora de companhia forçada. E ele estava lá, tal como combinado. Seu sorriso já me causava mal estar e sua conversa infindável já era evidentemente um suplício para mim. Quando chegamos, cheguei a sorrir com a perspectiva de me livrar d'ele, mas o vizinho, para minha surpresa e sem qualquer cerimônia, me acompanhou até dentro de casa e entabulou conversa com minha esposa! Ela, que não esperava a visita, foi logo preparando um café e o recebeu na cozinha mesmo, como já se fosse de casa... Fiquei ali, pasmo, assistindo aquele disparate e indeciso entre pô-lo para fora com alguma indisposição súbita ou acompanhar minha mulher em sua recepção improvisada. Decidi-me pela segunda opção que, embora desagradável, parecia a mais correta. A conversa enveredou para a pane da bateria do auto e os imprevistos subsequentes. Seco, narrava os factos resumidamente, enquanto nosso convidado parecia se deliciar em não só desenvolvê-los, mas ainda em analisá-los e interpretá-los à luz do Fado ou da História... Duas horas virando xícaras de café para rememorar um dia que parecia interminável! Quando eu já pensava que jamais se cansaria de nós, o vizinho, cheio de nove horas, decide finalmente se retirar.
Ao me deitar, desabafei com minha mulher o quanto me custava suportar aquela companhia constante do vizinho. Ela, como era de se esperar, me censurou veementemente. Disse que era um exagero meu; que eu vivia como um caramujo, insociável e impaciente etc... Enfim, arrumei para a cabeça, como diz o outro. Encerrei o assunto prometendo ser mais tolerante com o coitado que, de modo evidente para mim, precisava de novos amigos.
Dia seguinte, estranho a calma de sua casa e vou para o trabalho. Não há sinal d'ele ou de qualquer pessoa em sua casa. Tudo transcorre bem ao longo do dia e volto para casa no horário de sempre. Contudo, não suportando a curiosidade, aperto-lhe a campainha e, assim que me atende, vou logo lhe perguntando pelo dia e se precisava de alguma coisa.
Betim - 17 05 2018
165
ÀS CLARAS
ÀS CLARAS
AQUINO:
Não se pode negar que te desejo,
Embora diga não mais te querer.
Pois tudo em ti me atrai tão-logo vejo
Meus olhos em teus olhos sem querer.
CLARA:
Sei que foges dos meus olhos. Sim, eu sei!
Tentas dissimular e me esconder
O que sentes sob tão obtusa lei,
Que faz do amor um jogo de poder.
AQUINO:
Não quero mais dizer que não te quero
E mesmo que não possa ou que não deva
Sem mais nada esperar, ainda espero
Do que já me foi luz e agora é treva...
CLARA:
Não há treva que dure: Vem a aurora!
O amor que fere é o mesmo que sara...
Permite que a verdade surja agora
E transforme estas trevas em luz clara.
AQUINO:
Sim, Clara, se me tomas pela mão,
Falando enfim à minha fantasia,
Talvez finja que não finjo a emoção
De tua fala feita de poesia.
Se finjo não saber que te desejo
E minto a te dizer que não te quero,
Sei que nada te impede um outro beijo
Ou de dizer que tudo fora invero.
CLARA:
Deixa apenas falar ao coração
O mel que me derrama pela boca
Da impossível poética em canção,
Que então dentro de mim agora toca.
Deixa que minha boca toque à tua
No encontro pleno d'uma estrofe muda:
Seja poesia a minha carne nua
E seja luz minh'alma em ti desnuda!
Belo Horizonte - 18 12 2016
AQUINO:
Não se pode negar que te desejo,
Embora diga não mais te querer.
Pois tudo em ti me atrai tão-logo vejo
Meus olhos em teus olhos sem querer.
CLARA:
Sei que foges dos meus olhos. Sim, eu sei!
Tentas dissimular e me esconder
O que sentes sob tão obtusa lei,
Que faz do amor um jogo de poder.
AQUINO:
Não quero mais dizer que não te quero
E mesmo que não possa ou que não deva
Sem mais nada esperar, ainda espero
Do que já me foi luz e agora é treva...
CLARA:
Não há treva que dure: Vem a aurora!
O amor que fere é o mesmo que sara...
Permite que a verdade surja agora
E transforme estas trevas em luz clara.
AQUINO:
Sim, Clara, se me tomas pela mão,
Falando enfim à minha fantasia,
Talvez finja que não finjo a emoção
De tua fala feita de poesia.
Se finjo não saber que te desejo
E minto a te dizer que não te quero,
Sei que nada te impede um outro beijo
Ou de dizer que tudo fora invero.
CLARA:
Deixa apenas falar ao coração
O mel que me derrama pela boca
Da impossível poética em canção,
Que então dentro de mim agora toca.
Deixa que minha boca toque à tua
No encontro pleno d'uma estrofe muda:
Seja poesia a minha carne nua
E seja luz minh'alma em ti desnuda!
Belo Horizonte - 18 12 2016
238
ELA E ELE – amor em três actos
ELA E ELE - amor em três actos
PROÊMIO
Diante de nossos olhos acontece
Alguma história assim todos os dias:
Ela e Ele compartilham-se alegrias
À medida que um ao outro mais conhece.
Esta história tantas mais parece...
Tanto, que não importam as etnias,
Pátrias, lugares, épocas, poesias
Ou nem sequer o deus de cada prece.
Tampouco hão-de importar que nomes tomem...
Seja Ela mulher; Ele, apenas homem.
Vós-outros os chamais como quiserdes!
Resta, contudo, a vós eu advertir
Que os três actos d'amor logo a seguir
Também repetireis se não souberdes...
* * *
ACTO PRIMEIRO - O enamoro
PRAZER EM CONHECER
Ele vem sem saber para que vem...
Anda tão distraído que por nada
Espera que lhe exista alguma estrada
Para se seguir junto com alguém.
Ela chega sem qu'Ele olhe. Porém,
Quando a vê a percebe inalterada...
Ao certo pensa ainda uma hora errada
Para o querer consigo Ela também.
Ele conversa mesmo sendo em vão
Manter-se longe o olhar do coração
E deixar de qualquer outra esperança.
Ela, por mais sensata, se protege
Por entender que a estrela que lhe rege
Não brilha tanto quanto na lembrança.
* * *
ATÉ BREVE
Caminhos que se cruzam e após vão
Aonde for possível e além ir...
Ele não foi sequer se despedir
Quando Ela partiu com seu coração.
Ela o levou consigo, embora em vão.
Por temer consequências no porvir,
Afastou-se a melhor se descobrir,
Sem saber d'Ele e sua escuridão.
Ele espera; Ela, não. Ou melhor, vê
Cada extremo senão, cada porquê,
Em face já de sua ampla insistência.
Ele, por distraído ou tolo, fala
Ao passo que, atenciosa, Ela se cala
Sem saber que esperar da experiência.
* * *
POR OBSÉQUIO
Ele se derrama em mimos e atenções;
E Ela, entre lisonjeada e reticente,
Confrontando o homem ora à sua frente,
Contesta uma a uma suas ilusões.
Ele responde já não ter opções:
Precisa conhecê-la tão somente.
E se algo acontecer qual tem em mente
Não sofrem eles maiores decepções.
Curiosa, Ela já quer saber seu plano
Apenas a mostrar com quanto engano
Pretendia Ele entrar em sua vida.
Ele se reconhece enamorado
D'Ela e, deverasmente, culpa o Fado
Querer quem a Ele tão desconhecida.
* * *
ACTO SEGUNDO - os amantes
ANTEGOZO
Ela já se deleita em tê-lo ao lado
E sente falta d'Ele se se ausenta.
Ele, sempre que pode, se apresenta
À sua porta com ledo cuidado.
Lá chegando, se sente transportado
Ao aconchego que alegre experimenta.
Horas gozosas... Quando Ela o contenta
E às quais Ele, aliás, se fez rogado...
Ele lhe beija as mãos com tal ternura
Qu'Ela enfim se abandona à calentura
De o ter tão docemente junto d'Ela.
Mas sem um mais nem quê, logo Ela chora...
Vendo-a emotiva, tímido, Ele cora
E beija o rosto tépido à donzela.
* * *
TONS SOBRE TONS
Ela chora. Dois olhos d'água ao rosto.
Ele lhe bebe as lágrimas... E sorri!...
Beija-a violentamente aqui e ali
Até da própria dor Ela ter gosto.
Ele toma do cinto ao largo posto
E ata seus pulsos bem junto de si.
Cheira-lhe o pescoço, a colibri...
Após, rasga o vestido descomposto.
Suga faminto, pálidos, seus seios...
Mais torturando-a até sentir anseios:
Faz com que implore ser toda desnuda.
Ele a olha... Ela é mais bela que a beleza!
Vê em seus olhos sós a chama acesa
E afinal a possui, confusa e muda.
* * *
ÊXTASE
Amaram-se em silêncio, sem ousar
Que palavras quebrassem esse encanto.
Ela se arqueia e freme... Cai a um canto
E o abraça forte sem nada falar.
Ele logo a aninha ávido a secar
Aquela última lágrima em seu pranto.
Quando beija seus olhos ao acalanto
De carícia impossível de findar.
Ela reluz igual gema brilhante
Ao palor que Ele exsuda n'esse instante
E molha os lençóis sob o casal.
Ela sorri. Alumbra-se seu rosto.
Ele registra o quadro ali composto
E adormece em seus braços afinal.
* * *
ACTO TERCEIRO - o desenlace
DEPOIS DO AMOR
Acorda co'o barulho do retrete
E levanta, automático, para ir.
Espera que Ela saia para partir,
Despedindo-se pouco antes das sete.
E, na saída, a cena se repete:
Mais beijos estalados a se ouvir!
Ela o abraça, querendo lhe impedir.
Ele a beija, deixando-a no tapete...
No caminho, remorsos e segredos
O acompanham até os arvoredos
Onde tenta ocultar todo pecado.
Sob as sombras, mil vezes se maldiz...
Infeliz por ter sido tão feliz,
Ainda que em lugar ou dia errado!
* * *
ANTES DA DOR
Ela está tão contente! Mal sabe Ela...
Pensa qu'Ele saiu para o trabalho.
Mas volta n'um horário incerto e falho
Enquanto Ela observava da janela.
Passou as horas lívida e singela,
À espera d'um patético espantalho,
Que volta com cara de paspalho
E ainda atucanado para vê-la.
Abre a porta sorrindo e o faz entrar.
Ela procura em vão lhe animar,
A Ele que vai partir seu coração.
Quando sua mudez enfim se impôs,
Percebe o seu silêncio ser o algoz,
Que traz a Ela de volta a escuridão.
* * *
ENTRE OLHOS
Ela olha para Ele: Estava arredio.
A conversa sem fio e sem lugar.
Ela o acarinha; Ele a repele ao tocar:
Enquanto o arde d'amor, gela-a de frio.
Perdido o olhar, Ele a olha vazio.
Em si vagou e só foi se encontrar:
O coração, medroso para amar;
O corpo, seco por saciado o cio.
Ela o olha, mas Ele não está ali!
Ora chora quem por último ri
E os olhos nos seus olhos não são seus...
Espelham-se sem ver quem bem à frente...
Se impossível dizer que têm em mente
Só o silêncio entre olhos diz -- "Adeus..."
* * *
EPÍLOGO
Como vos adverti, conto comum
Esse que a vós narrei de amor e dor.
Ide de volta ao lar com mais ardor
Reviver tudo com alguém ou algum.
Se o gozo d'essa vida for nenhum,
Ao menos a lembrança tem valor
D'aqueles que se amaram sem supor,
Que repetissem um lugar-comum.
Assim também amais e sois amados,
Mas vós -- por bem ou mal enamorados
Ou que buscais no amor algum conforto. --
Ouvi, portanto, a luz da narrativa:
-- "Antes morrer d'amor para que viva,
Que avivar o amor depois morto."
Galileia - 04 01 1994
PROÊMIO
Diante de nossos olhos acontece
Alguma história assim todos os dias:
Ela e Ele compartilham-se alegrias
À medida que um ao outro mais conhece.
Esta história tantas mais parece...
Tanto, que não importam as etnias,
Pátrias, lugares, épocas, poesias
Ou nem sequer o deus de cada prece.
Tampouco hão-de importar que nomes tomem...
Seja Ela mulher; Ele, apenas homem.
Vós-outros os chamais como quiserdes!
Resta, contudo, a vós eu advertir
Que os três actos d'amor logo a seguir
Também repetireis se não souberdes...
* * *
ACTO PRIMEIRO - O enamoro
PRAZER EM CONHECER
Ele vem sem saber para que vem...
Anda tão distraído que por nada
Espera que lhe exista alguma estrada
Para se seguir junto com alguém.
Ela chega sem qu'Ele olhe. Porém,
Quando a vê a percebe inalterada...
Ao certo pensa ainda uma hora errada
Para o querer consigo Ela também.
Ele conversa mesmo sendo em vão
Manter-se longe o olhar do coração
E deixar de qualquer outra esperança.
Ela, por mais sensata, se protege
Por entender que a estrela que lhe rege
Não brilha tanto quanto na lembrança.
* * *
ATÉ BREVE
Caminhos que se cruzam e após vão
Aonde for possível e além ir...
Ele não foi sequer se despedir
Quando Ela partiu com seu coração.
Ela o levou consigo, embora em vão.
Por temer consequências no porvir,
Afastou-se a melhor se descobrir,
Sem saber d'Ele e sua escuridão.
Ele espera; Ela, não. Ou melhor, vê
Cada extremo senão, cada porquê,
Em face já de sua ampla insistência.
Ele, por distraído ou tolo, fala
Ao passo que, atenciosa, Ela se cala
Sem saber que esperar da experiência.
* * *
POR OBSÉQUIO
Ele se derrama em mimos e atenções;
E Ela, entre lisonjeada e reticente,
Confrontando o homem ora à sua frente,
Contesta uma a uma suas ilusões.
Ele responde já não ter opções:
Precisa conhecê-la tão somente.
E se algo acontecer qual tem em mente
Não sofrem eles maiores decepções.
Curiosa, Ela já quer saber seu plano
Apenas a mostrar com quanto engano
Pretendia Ele entrar em sua vida.
Ele se reconhece enamorado
D'Ela e, deverasmente, culpa o Fado
Querer quem a Ele tão desconhecida.
* * *
ACTO SEGUNDO - os amantes
ANTEGOZO
Ela já se deleita em tê-lo ao lado
E sente falta d'Ele se se ausenta.
Ele, sempre que pode, se apresenta
À sua porta com ledo cuidado.
Lá chegando, se sente transportado
Ao aconchego que alegre experimenta.
Horas gozosas... Quando Ela o contenta
E às quais Ele, aliás, se fez rogado...
Ele lhe beija as mãos com tal ternura
Qu'Ela enfim se abandona à calentura
De o ter tão docemente junto d'Ela.
Mas sem um mais nem quê, logo Ela chora...
Vendo-a emotiva, tímido, Ele cora
E beija o rosto tépido à donzela.
* * *
TONS SOBRE TONS
Ela chora. Dois olhos d'água ao rosto.
Ele lhe bebe as lágrimas... E sorri!...
Beija-a violentamente aqui e ali
Até da própria dor Ela ter gosto.
Ele toma do cinto ao largo posto
E ata seus pulsos bem junto de si.
Cheira-lhe o pescoço, a colibri...
Após, rasga o vestido descomposto.
Suga faminto, pálidos, seus seios...
Mais torturando-a até sentir anseios:
Faz com que implore ser toda desnuda.
Ele a olha... Ela é mais bela que a beleza!
Vê em seus olhos sós a chama acesa
E afinal a possui, confusa e muda.
* * *
ÊXTASE
Amaram-se em silêncio, sem ousar
Que palavras quebrassem esse encanto.
Ela se arqueia e freme... Cai a um canto
E o abraça forte sem nada falar.
Ele logo a aninha ávido a secar
Aquela última lágrima em seu pranto.
Quando beija seus olhos ao acalanto
De carícia impossível de findar.
Ela reluz igual gema brilhante
Ao palor que Ele exsuda n'esse instante
E molha os lençóis sob o casal.
Ela sorri. Alumbra-se seu rosto.
Ele registra o quadro ali composto
E adormece em seus braços afinal.
* * *
ACTO TERCEIRO - o desenlace
DEPOIS DO AMOR
Acorda co'o barulho do retrete
E levanta, automático, para ir.
Espera que Ela saia para partir,
Despedindo-se pouco antes das sete.
E, na saída, a cena se repete:
Mais beijos estalados a se ouvir!
Ela o abraça, querendo lhe impedir.
Ele a beija, deixando-a no tapete...
No caminho, remorsos e segredos
O acompanham até os arvoredos
Onde tenta ocultar todo pecado.
Sob as sombras, mil vezes se maldiz...
Infeliz por ter sido tão feliz,
Ainda que em lugar ou dia errado!
* * *
ANTES DA DOR
Ela está tão contente! Mal sabe Ela...
Pensa qu'Ele saiu para o trabalho.
Mas volta n'um horário incerto e falho
Enquanto Ela observava da janela.
Passou as horas lívida e singela,
À espera d'um patético espantalho,
Que volta com cara de paspalho
E ainda atucanado para vê-la.
Abre a porta sorrindo e o faz entrar.
Ela procura em vão lhe animar,
A Ele que vai partir seu coração.
Quando sua mudez enfim se impôs,
Percebe o seu silêncio ser o algoz,
Que traz a Ela de volta a escuridão.
* * *
ENTRE OLHOS
Ela olha para Ele: Estava arredio.
A conversa sem fio e sem lugar.
Ela o acarinha; Ele a repele ao tocar:
Enquanto o arde d'amor, gela-a de frio.
Perdido o olhar, Ele a olha vazio.
Em si vagou e só foi se encontrar:
O coração, medroso para amar;
O corpo, seco por saciado o cio.
Ela o olha, mas Ele não está ali!
Ora chora quem por último ri
E os olhos nos seus olhos não são seus...
Espelham-se sem ver quem bem à frente...
Se impossível dizer que têm em mente
Só o silêncio entre olhos diz -- "Adeus..."
* * *
EPÍLOGO
Como vos adverti, conto comum
Esse que a vós narrei de amor e dor.
Ide de volta ao lar com mais ardor
Reviver tudo com alguém ou algum.
Se o gozo d'essa vida for nenhum,
Ao menos a lembrança tem valor
D'aqueles que se amaram sem supor,
Que repetissem um lugar-comum.
Assim também amais e sois amados,
Mas vós -- por bem ou mal enamorados
Ou que buscais no amor algum conforto. --
Ouvi, portanto, a luz da narrativa:
-- "Antes morrer d'amor para que viva,
Que avivar o amor depois morto."
Galileia - 04 01 1994
221
POR VIA DE REGRA, para Marielle Franco
Com efeito, era negra e era mulher.
Estatisticamente, o seu lugar
Não era este que soube ela ocupar,
Incomodando os donos do poder.
Dignou-se pela coragem e o saber
E quantos a ela vieram destratar
Antes tinham em mente lhe calar,
Que verdadeiramente algo a dizer...
Aquela linda e sábia mulher negra
Fora a exceção que só confirma a regra
De ser o mundo para alguns somente.
Inobstante, nem mesmo a sua morte
Há-de calar-lhe a voz sempre mais forte:
Marielle, mulher eleita — "Presente!".
Belo Horizonte - 04 10 2018
Estatisticamente, o seu lugar
Não era este que soube ela ocupar,
Incomodando os donos do poder.
Dignou-se pela coragem e o saber
E quantos a ela vieram destratar
Antes tinham em mente lhe calar,
Que verdadeiramente algo a dizer...
Aquela linda e sábia mulher negra
Fora a exceção que só confirma a regra
De ser o mundo para alguns somente.
Inobstante, nem mesmo a sua morte
Há-de calar-lhe a voz sempre mais forte:
Marielle, mulher eleita — "Presente!".
Belo Horizonte - 04 10 2018
13
ESPERANÇOSO
Um pouco antes do dia amanhecer,
Cantam os passarinhos ao redor.
Tudo parece em paz e até melhor,
Renovado ao que quer que venha a ser.
Mais um dia de vida p’ra viver;
Mais uma hora vivida para o amor…
Enquanto a solidão torna maior
A consciência de si em cada ser.
Espero pelo sol que não demora,
Embevecido pela rósea aurora
Que enche de matizes todo o céu.
E ao concerto fugaz dos passarinhos
Eu contemplo os sinais circunvizinhos,
Enchendo de impressões outro papel…
Betim - 27 09 2022
Cantam os passarinhos ao redor.
Tudo parece em paz e até melhor,
Renovado ao que quer que venha a ser.
Mais um dia de vida p’ra viver;
Mais uma hora vivida para o amor…
Enquanto a solidão torna maior
A consciência de si em cada ser.
Espero pelo sol que não demora,
Embevecido pela rósea aurora
Que enche de matizes todo o céu.
E ao concerto fugaz dos passarinhos
Eu contemplo os sinais circunvizinhos,
Enchendo de impressões outro papel…
Betim - 27 09 2022
10
NÃO TITUBEEI
Em face das falácias dos obtusos,
Não deixei de falar o que pensava.
Fosse correto ou não, não me negava
A questionar conceitos por confusos.
Jamais me conformei com certos usos,
Tampouco dava amém a quem pregava
Mudar a manter tudo como estava
Na má-fé de historiar em parafusos…
Denuncio a maldade do bonzinho
Assim como a inverdade do bisonho,
Ambos a sofismar pelo caminho.
Porém, livre é todo homem em seu sonho:
Ainda que ao deserto ande sozinho,
Quem anda pelas sombras vai tristonho.
Betim - 10 08 2022
Não deixei de falar o que pensava.
Fosse correto ou não, não me negava
A questionar conceitos por confusos.
Jamais me conformei com certos usos,
Tampouco dava amém a quem pregava
Mudar a manter tudo como estava
Na má-fé de historiar em parafusos…
Denuncio a maldade do bonzinho
Assim como a inverdade do bisonho,
Ambos a sofismar pelo caminho.
Porém, livre é todo homem em seu sonho:
Ainda que ao deserto ande sozinho,
Quem anda pelas sombras vai tristonho.
Betim - 10 08 2022
15
A VIRGEM E O EUNUCO
A VIRGEM E O EUNUCO
"e ele suspira, assim como suspira o eunuco ao abraçar uma virgem."
Eclesiástico 30.21
Foi quando sobre o campo damasceno
Reinaram os selêucidas da Grécia,
Que do magno Alexandre o mando pleno
Herdaram após longa peripécia.
Expandindo pela Ásia o mundo heleno,
Fosse de forma sábia ou mesmo néscia:
- "Aos povos antiquíssimos d'Oriente
Um novo império grego se sustente!"
Temeroso de novas guerras, houve
Um povo que firmando juramento
Ao grande imperador por bem aprouve
Seu rei dar sua filha em casamento.
A fim-de que melhor e mais se louve
Sua fidelidade em detrimento
Dos costumes e leis que partilhavam,
Enquanto mais aos gregos se inclinavam.
Quanto à filha do rei, viveu reclusa.
De infante prometida ao grão senhor,
Quando as regras lhe chegam, por confusa,
Ignora ela que fosse ardor e amor…
Já moça, todavia, como se usa,
É posta a cultivar o seu pudor
N'alguma escura alcova sem janelas,
Na qual os ricos guardam suas belas.
Parecia em desleixos s'entregar
A uma existência estúpida de inválida
Por tola-mas-donzel subir no altar.
Preocupado com sua forma esquálida,
O rei, seu pai, ordena lhe chamar.
E duro lhe questiona em sua doença,
A ver n'essa tristeza antes ofensa:
- "Filha minha, o que vós me quereis mais?
Se vos dei por consorte um soberano,
Por que tão alto ecoam vossos ais?
Resguardei-vos d'olhar mal e mundano,
Mas vós, dia após dia, definhais
Em morrer empenhada, salvo engano.
Dizei-me, ó principesca, que quereis
A vô-lo conceder com mãos de reis."
-"Senhor meu pai, sozinha apenas vivo
Qual canário cantando na gaiola:
Grades, embora d'ouro, o têm captivo
E, tolo, s'equilibra pela argola…
Só peço um preceptor que, compassivo,
Possa fazer-me as vezes d'uma escola
E ensine o que se sabe ou se acredita
Até qu'eu me perceba uma erudita".
- "Minha princesa, muito me pedis,
Pois prometi guardar-vos dos olhares
Àquele que vos tem olhos gentis.
Eu, contudo, por todos os lugares
Mandarei vos buscar, como se diz,
Um castrado que sirva por bons lares.
Algum d'estes, discreto e de valor,
Há-de se nos servir de preceptor".
De facto, era costume muito antigo,
Que houvesse um servidor emasculado
N'aquelas casas reais por sob abrigo.
Porquanto confiável, pois, castrado
Tinham por secretário e mesmo amigo
Quem fora desde a infância preparado.
Aquele, todavia, também douto
A aplacar da princesa o tom revolto.
Mas os melhores vinham do Alto Nilo.
Jovens núbios e etíopes que, escravos,
'Inda impúberes passam por aquilo…
Sob pretexto d'havê-los menos bravos,
Junto a sábios obtêm por fim asilo,
Vivendo sem grilhões duros e ignavos.
E aprendem tudo quanto a se saber
Para fâmulos leais virem a ser.
Co'os homens do deserto se aprendia
As ciências de ecônomos mordomos.
E, além das muitas línguas, geometria,
Cultivos de verduras, ervas, pomos…
Alguns tinham noções de astronomia
Outros, pelas estantes guardam tomos,
Escriturando para seus senhores
Contratos, enfiteuses e penhores.
Mas não raro os eunucos eram vistos
A guardar bens muito mais preciosos.
Vindo ter onde folgam os benquistos:
Os herdeiros e herdeiras desejosos!
Onde a salvo de tantos imprevistos
Os senhores proíbem, bons esposos,
O convívio de estranhos com os seus
Restritos aos umbrais dos gineceus.
O rei, muito zeloso, à filha diz
Irem buscar no Egipto o preceptor
Que lh'ensinasse tudo quanto quis.
E ela, muito admirada em seu favor,
Não escondia o quanto era feliz
Em ver muito maior o seu valor.
Contente, beija ao pai as suas mãos
E torna, alegremente, a seus desvãos.
Chega o eunuco, um tipo afeminado;
Melhor, emasculado… Era um mancebo
Em modos e trejeitos refinado.
Tão belo quanto Apolo ou quanto Febo…
Lá dos confins do Sud fora levado,
Ainda bem pequeno; ainda efebo,
Onde o Nilo em montanhas escondia
A fonte em que extenso principia.
No Egipto ele valeu seu peso em ouro
Visto falante em grego o carinegro
- Por distinto do núbio e até do mouro
A pele n'um retinto tom de negro -
Na Síria revelou-se um grão tesouro
O eunuco àquela virgem d'olhar egro,
Porquanto lh'ensinasse em seu poder
Da grande Alexandria o grão saber.
Breves anos os dois a compartilhar
Dos papiros o gosto e mesmo o gozo,
Lograram, sempre juntos, encontrar
As verdades d'um século sinuoso
Fosse na Septuaginta as contemplar
Ou mais do Estagirita consciencioso.
E, observando os mistérios pitagóricos,
Confrontam hedonistas e alegóricos.
Todavia, onde Amor quer habitar
Pouco podem os planos das Nações…
Tardando o imperador em desposar
A princesa de grandes opiniões,
Vê ela em seu eunuco a quem amar
A despeito de suas limitações…
Desvairada, ela ordena que a possua
Deitando em sua alcova toda nua.
Iniciado aos mistérios de Priapo
Onde em prazer anal se consumava,
O eunuco se despindo cada trapo
À virgem penetrou ardendo em lava
O deus em suas mãos, erecto e guapo!
De facto, à bunda d'ela castigava,
Enquanto o frágil hímen preservado
Ao futuro marido era guardado.
Ele - por quase macho ou quase fêmea -
Soube amar, apesar de tudo e todos,
Pelas sombras d'alcova su'alma gêmea,
Como homem ou mulher, de muitos modos.
No mais, vindo chamá-la de Epistêmea,
Fez oculta, por enganos mais engodos,
A verdade das tardes solitárias
Para mais a abraçar por horas várias…
E enfim, o imperador ao desposá-la,
Rompendo-lhe seu hímen intocado,
Mais ignora que enquanto ela se cala,
Pensa apenas em ter com seu amado:
Sim, logo após o esposo deflorá-la,
Gozar com seu eunuco afeminado!
E o sangue no lençol, nódoa tão vã,
De todos sele a paz pela manhã…
Betim - 23 01 2019
"e ele suspira, assim como suspira o eunuco ao abraçar uma virgem."
Eclesiástico 30.21
Foi quando sobre o campo damasceno
Reinaram os selêucidas da Grécia,
Que do magno Alexandre o mando pleno
Herdaram após longa peripécia.
Expandindo pela Ásia o mundo heleno,
Fosse de forma sábia ou mesmo néscia:
- "Aos povos antiquíssimos d'Oriente
Um novo império grego se sustente!"
Temeroso de novas guerras, houve
Um povo que firmando juramento
Ao grande imperador por bem aprouve
Seu rei dar sua filha em casamento.
A fim-de que melhor e mais se louve
Sua fidelidade em detrimento
Dos costumes e leis que partilhavam,
Enquanto mais aos gregos se inclinavam.
Quanto à filha do rei, viveu reclusa.
De infante prometida ao grão senhor,
Quando as regras lhe chegam, por confusa,
Ignora ela que fosse ardor e amor…
Já moça, todavia, como se usa,
É posta a cultivar o seu pudor
N'alguma escura alcova sem janelas,
Na qual os ricos guardam suas belas.
Parecia em desleixos s'entregar
A uma existência estúpida de inválida
Por tola-mas-donzel subir no altar.
Preocupado com sua forma esquálida,
O rei, seu pai, ordena lhe chamar.
E duro lhe questiona em sua doença,
A ver n'essa tristeza antes ofensa:
- "Filha minha, o que vós me quereis mais?
Se vos dei por consorte um soberano,
Por que tão alto ecoam vossos ais?
Resguardei-vos d'olhar mal e mundano,
Mas vós, dia após dia, definhais
Em morrer empenhada, salvo engano.
Dizei-me, ó principesca, que quereis
A vô-lo conceder com mãos de reis."
-"Senhor meu pai, sozinha apenas vivo
Qual canário cantando na gaiola:
Grades, embora d'ouro, o têm captivo
E, tolo, s'equilibra pela argola…
Só peço um preceptor que, compassivo,
Possa fazer-me as vezes d'uma escola
E ensine o que se sabe ou se acredita
Até qu'eu me perceba uma erudita".
- "Minha princesa, muito me pedis,
Pois prometi guardar-vos dos olhares
Àquele que vos tem olhos gentis.
Eu, contudo, por todos os lugares
Mandarei vos buscar, como se diz,
Um castrado que sirva por bons lares.
Algum d'estes, discreto e de valor,
Há-de se nos servir de preceptor".
De facto, era costume muito antigo,
Que houvesse um servidor emasculado
N'aquelas casas reais por sob abrigo.
Porquanto confiável, pois, castrado
Tinham por secretário e mesmo amigo
Quem fora desde a infância preparado.
Aquele, todavia, também douto
A aplacar da princesa o tom revolto.
Mas os melhores vinham do Alto Nilo.
Jovens núbios e etíopes que, escravos,
'Inda impúberes passam por aquilo…
Sob pretexto d'havê-los menos bravos,
Junto a sábios obtêm por fim asilo,
Vivendo sem grilhões duros e ignavos.
E aprendem tudo quanto a se saber
Para fâmulos leais virem a ser.
Co'os homens do deserto se aprendia
As ciências de ecônomos mordomos.
E, além das muitas línguas, geometria,
Cultivos de verduras, ervas, pomos…
Alguns tinham noções de astronomia
Outros, pelas estantes guardam tomos,
Escriturando para seus senhores
Contratos, enfiteuses e penhores.
Mas não raro os eunucos eram vistos
A guardar bens muito mais preciosos.
Vindo ter onde folgam os benquistos:
Os herdeiros e herdeiras desejosos!
Onde a salvo de tantos imprevistos
Os senhores proíbem, bons esposos,
O convívio de estranhos com os seus
Restritos aos umbrais dos gineceus.
O rei, muito zeloso, à filha diz
Irem buscar no Egipto o preceptor
Que lh'ensinasse tudo quanto quis.
E ela, muito admirada em seu favor,
Não escondia o quanto era feliz
Em ver muito maior o seu valor.
Contente, beija ao pai as suas mãos
E torna, alegremente, a seus desvãos.
Chega o eunuco, um tipo afeminado;
Melhor, emasculado… Era um mancebo
Em modos e trejeitos refinado.
Tão belo quanto Apolo ou quanto Febo…
Lá dos confins do Sud fora levado,
Ainda bem pequeno; ainda efebo,
Onde o Nilo em montanhas escondia
A fonte em que extenso principia.
No Egipto ele valeu seu peso em ouro
Visto falante em grego o carinegro
- Por distinto do núbio e até do mouro
A pele n'um retinto tom de negro -
Na Síria revelou-se um grão tesouro
O eunuco àquela virgem d'olhar egro,
Porquanto lh'ensinasse em seu poder
Da grande Alexandria o grão saber.
Breves anos os dois a compartilhar
Dos papiros o gosto e mesmo o gozo,
Lograram, sempre juntos, encontrar
As verdades d'um século sinuoso
Fosse na Septuaginta as contemplar
Ou mais do Estagirita consciencioso.
E, observando os mistérios pitagóricos,
Confrontam hedonistas e alegóricos.
Todavia, onde Amor quer habitar
Pouco podem os planos das Nações…
Tardando o imperador em desposar
A princesa de grandes opiniões,
Vê ela em seu eunuco a quem amar
A despeito de suas limitações…
Desvairada, ela ordena que a possua
Deitando em sua alcova toda nua.
Iniciado aos mistérios de Priapo
Onde em prazer anal se consumava,
O eunuco se despindo cada trapo
À virgem penetrou ardendo em lava
O deus em suas mãos, erecto e guapo!
De facto, à bunda d'ela castigava,
Enquanto o frágil hímen preservado
Ao futuro marido era guardado.
Ele - por quase macho ou quase fêmea -
Soube amar, apesar de tudo e todos,
Pelas sombras d'alcova su'alma gêmea,
Como homem ou mulher, de muitos modos.
No mais, vindo chamá-la de Epistêmea,
Fez oculta, por enganos mais engodos,
A verdade das tardes solitárias
Para mais a abraçar por horas várias…
E enfim, o imperador ao desposá-la,
Rompendo-lhe seu hímen intocado,
Mais ignora que enquanto ela se cala,
Pensa apenas em ter com seu amado:
Sim, logo após o esposo deflorá-la,
Gozar com seu eunuco afeminado!
E o sangue no lençol, nódoa tão vã,
De todos sele a paz pela manhã…
Betim - 23 01 2019
150
MANÍACO
Caminha pelas sombras, predador,
Belo e mau como um lívido Satã.
À caça de mulheres cujo amor
Revelará mortal pela manhã…
Com efeito, as mais ávidas em flor
Quedam hipnotizadas n'esse elã
Que envolve todo grão conquistador
Às voltas com orgia assim pagã.
Finge ser dos amantes o melhor.
Porém, tão-logo as deita no divã,
Parece confundir prazer e horror
Pronto a lhes devorar a carne chã.
Sua ânsia de prazer só não é maior
Que o apetite por sangue cujo afã
O leva a conduzir ao seu sabor
Às moças que seduz com lábia vã.
Deveras, a ocasião se faz melhor
A sós na alcova… Pois, moral mal-sã
Dá razão ao misógino valor
Que ainda faz da vítima a vilã…
Matava indiferente do estupor,
Fosse ela donzela ou cortesã…
Em plena foda, ao gozo, em pleno ardor;
Deixando-a inerte já sem amanhã.
Traz consigo, em memória do terror
À guisa de troféu ou talismã
D'elas alguma joia em seu favor,
Quer fosse um camafeu ou cruz cristã.
E some… Sem deixar senão pavor.
Após tomar a morte como irmã,
Um maníaco em série matador
Se mostra a insanidade mais insã.
Betim - 08 12 2018
Belo e mau como um lívido Satã.
À caça de mulheres cujo amor
Revelará mortal pela manhã…
Com efeito, as mais ávidas em flor
Quedam hipnotizadas n'esse elã
Que envolve todo grão conquistador
Às voltas com orgia assim pagã.
Finge ser dos amantes o melhor.
Porém, tão-logo as deita no divã,
Parece confundir prazer e horror
Pronto a lhes devorar a carne chã.
Sua ânsia de prazer só não é maior
Que o apetite por sangue cujo afã
O leva a conduzir ao seu sabor
Às moças que seduz com lábia vã.
Deveras, a ocasião se faz melhor
A sós na alcova… Pois, moral mal-sã
Dá razão ao misógino valor
Que ainda faz da vítima a vilã…
Matava indiferente do estupor,
Fosse ela donzela ou cortesã…
Em plena foda, ao gozo, em pleno ardor;
Deixando-a inerte já sem amanhã.
Traz consigo, em memória do terror
À guisa de troféu ou talismã
D'elas alguma joia em seu favor,
Quer fosse um camafeu ou cruz cristã.
E some… Sem deixar senão pavor.
Após tomar a morte como irmã,
Um maníaco em série matador
Se mostra a insanidade mais insã.
Betim - 08 12 2018
113
CANTIGA
Eu amar-te, amiga, me tem sido
D'uma alegria pura e insuspeitada.
Guarda-tu para mim a asa quebrada,
Visto eu arcanjo em sombras decaído…
Se canto co'o alaúde enternecido
Cantiga que deixei inacabada,
É antes porque a lua serenada
Me faz velar-te o sono combalido.
Dorme, meu bem-querer, em dó menor.
Não cuides já se a noite se estender
N'essa pequena morte que é o amor.
Permite qu'eu me achegue a te fazer
Doce acalanto ao sonho em meu ardor
E ao fim, junto de ti, adormecer.
Betim - 12 02 1996
D'uma alegria pura e insuspeitada.
Guarda-tu para mim a asa quebrada,
Visto eu arcanjo em sombras decaído…
Se canto co'o alaúde enternecido
Cantiga que deixei inacabada,
É antes porque a lua serenada
Me faz velar-te o sono combalido.
Dorme, meu bem-querer, em dó menor.
Não cuides já se a noite se estender
N'essa pequena morte que é o amor.
Permite qu'eu me achegue a te fazer
Doce acalanto ao sonho em meu ardor
E ao fim, junto de ti, adormecer.
Betim - 12 02 1996
129
Comentários (5)
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Lindos poemas ,meu caro!
Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns
POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!
bom vê-lo por aqui
Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!