Lista de Poemas

LUAR DAS VALQUÍRIAS

LUAR DAS VALQUÍRIAS

I
O que se diz das nornas cavalgantes
A serviço dos deuses e dos homens
É que escolhem guerreiros para a morte
Ao se lhes surpreender com beijos gélidos.
Montam os corcéis brancos das neblinas
Que descem sobre os campos de batalha.
Enquanto isso, enluarada, a noite cai
Àqueles que s'entregam para a guerra
No espetáculo sangrento dos infantes.
Atravessam planícies que, nevadas,
Tingem-se aqui e ali de sangue nobre.
Gemidos, baforadas de vapor,
Partiam dos caídos destripados
Que, exangues, contemplavam as estrelas
À espera do Valhala e suas glórias.

II
Elas são as mulheres escudeiras
Que cumprem os desígnios do Destino
Elevando os espíritos dos bravos.
Alvíssimas, têm elas olhos grises
Frios como os glaciares das montanhas.
Passando por portais de gelo e fogo,
Vêm à mansão dos mortos escolhidos
A reforçar as hostes do alto Odin
Em sua guerra contra os mundos últimos
Que antecede a Nova Era d'Universo.
Possam com o seu sangue sobre a neve
Já como heróis marcharem destemidos!
Após terem n'olhar a vida e a morte,
Nunca estaquem em face de ninguém
Tampouco deixem sonhos por sonhar.
Assim seja, nos céus como na Terra.

III
Têm como prêmio após tantas jornadas
Os cuidados e os carinhos das donzelas
Que, pensando as feridas com unguentos
E servindo canecas de hidromel,
Curam um após outro dos desastres
Ao lhes fortalecer o amplo espírito
Como homens superiores qu'eles eram
Testados e medidos pela guerra.
As Valquírias, senhoras de dois mundos,
Vêm conduzir os grandes à grandeza.
Amantes da beleza e da coragem,
Acompanham a estrada do guerreiro
Enquanto avança sobre os inimigos,
Deixando-se mostrar ao destemido
Como se antevisão da boa morte.

IV
No olhar d'essa mulher iluminada
Que lhe vem ter no meio d'um entrevero,
Reconhece o chamado do mais Alto
E s'entrega ao beijo frio da morte.
Oh bem-aventurado o que recebe
A morte como amante e rega a terra
Co'o sangue de incontáveis inimigos!
Sacerdote, ele eleva-se oferenda
No altar feito na terra sob os céus
N'uma carnificina sanguinária.
Sim, por seu braço a morte sega os campos
A entulhar seus celeiros de cadáveres!
E as Valquírias com seus corvos retintos
Vêm se refestelar sob a alva lua.

Belo Horizonte - 25 09 2018
115

À BEIRA-MAR

Ritmado em agudo martelo, o galope
Por metro pretende n'um verso onze pés
Mais rimas de décimas postas de viés
E adeuses na beira do mar onde eu tope
O sábio Ulisses co'o grande ciclope:
Partindo com pressa d'aquele lugar,
Contém Polifemo depois de o cegar,
E brada 'inda impávido contra o homicida
Dos crimes havidos lá dentro da ermida,
Enquanto s'evade na beira do mar.

Aquele, porém, de Neptuno era filho
E evoca em desgraça desditas sem fim
D'encontro aos helenos com tempo ruim
Os mares extremos fechando o seu trilho
E estrelas no céu renegando-lhes brilho
Até que, perdidos, se veem naufragar
E Ulisses sozinho ali vindo chegar:
Saúda, entretanto, às gaivotas pairando
E às ondas insãs que ao quebrar quando em quando
S'espraiam em espumas na beira do mar.

Chegara estrangeiro na própria cidade,
Oculto d'aqueles que lhe andam em roda
Da esposa tão só que jamais se incomoda
P'la espera do rei cuja imensa saudade
Tecendo ao tear vê passar sua idade
Refém de mesquinhos no eterno manjar:
Enquanto conspiram tomar seu lugar
No trono que vago demanda outro rei…
Embora buscando ao arrepio da lei
Um novo senhor para a beira do mar!

Consuma a vingança e a vontade dos deuses
Quem fora escolhido p'ra ser vencedor!
Conquiste da glória o mais alto penhor
Deixando na beira do mar os adeuses!
No mais, os mercados com vis enfiteuses
Arrendem as naus para além navegar
E busquem colônias por onde habitar
Nas terras distantes que o nauta pisou
E cheguem tão longe quanto ele chegou
Nas praias extremas da beira do mar.

Peruíbe - 24 07 2018
144

POR TI (fado)

Eu por ti fiz quanto pude...
Fosse muito ou não,
Passei de gentil a rude
Ao estender-te a mão.
D'oravante, Deus te ajude
Co'a tua ilusão!

Sem nunca te negar nada,
Sequer tu me és grata!
Passas por mim enfeitada
Toda em ouro e prata
Como eu fosse pela estrada
Um cão vira-lata.
 
Vistas altas quem se crê
Ou princesa ou rainha.
Quem te viu e quem te vê:
Tu, quando eras minha,
Rias sem quê nem p'ra quê
Co'o pouco qu'eu tinha.
 
Cuida que por teus caminhos
Zelem mais por ti
Do qu'eu com os meus carinhos
Em vão consegui.
Hoje junto dos sozinhos
Choro quanto eu ri... 
 
Eu por ti fiz quanto pude...
Fosse muito ou não,
Passei de gentil a rude
Ao estender-te a mão.
D'oravante, Deus te ajude
Co'a tua ilusão!

Betim - 18 09 2018
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METAFÍSICAS À PARTE

Sempre tive dificuldade em entender o discurso metafísico tanto quanto as grandezas astronômicas. De facto, os conceitos absolutos e transcendentes do Ser pareciam não caber nas palavras comuns, constrangendo os filósofos a lançarem mão de neologismos ou, como faziam normalmente, à ressignificância dos vocábulos disponíveis mediante à redação pormenorizada de conceitos. Assim, na Psicanálise e no Existencialismo, assistimos a contínua criação de categorias ontológicas que fossem capazes de explicar o ser humano em sua condição, em sua dor e, sobretudo, em sua contradição. Sem embargo, atravessados pelo desenvolvimento da Neurologia em particular e das Bio-medicinas em geral, somos convidados n'esse Milênio que mal se inicia a reduzir o Ser Humano à Química Molecular. Sim, nada mais prosaico: "Tenho múltiplas personalidades? Vamos começar com Diazepan 10mg!" - ou ainda: "Odeio tudo e todos, inclusive a mim!" - diz um outro - "Melhor suspender os opioides e entrar direto com o Lítio" - e por ai vai... Que decepção para a intelectualidade dos novecentos! Que absurdo admitir os esforços dos homens e mulheres mais brilhantes do século XX relativizados por um burocrático vade-mécum de medicamentos!... Fazer o quê?...

Bem, seria prudente não desdenhar tamanha produção filosófica ontológica apenas porque outros meios apareceram. Pode-se argumentar que a Filosofia não prescinde de aplicação na solução de problemas práticos ou que a Psicanálise continua à serviço da Medicina na missão de investigar Consciência, Interioridade, Alma ou qualquer coisa que o valha. A realidade, porém, é a latente perda de prestígio de disciplinas diante d'um público que, ao invés de autoconhecimento, prefere buscar narcóticos. O que resta à Metafísica é seu olhar desmistificador, capaz de reduzir discursos pretensiosos a papagaidas conforme o interesse do intelectual de plantão. Por essa e outras qu'eu, faz muitos anos, desisti de procurar verdade em debates intelectuais, sejam os acadêmicos; sejam os judiciários, afinal, mesmo os arrazoados mais rigorosos são contrapostos indefinidamente em réplicas e tréplicas apenas como condição para haver o pensamento ("Vaidade de vaidade! Tudo é vaidade" - já dizia o Eclesiastes...). Não deveria haver vencedores no debate de ideias, sim mútua influência para que cada um dos debatedores saia d'ali com uma percepção diferente da que tinha quando entrou. Refugiados no pensamento abstrato acerca do indivíduo, os metafísicos assistem as disputas ideológicas propostas pela Mídia Eletrônica como se árbitros não autorizados enquanto o público consome avidamente aquela baixaria como se um desporto qualquer, torcendo para um vencedor... Demonstrar incoerências tornou-se um passatempo infeliz para filósofos existencialistas desencantados com seu objeto de estudo já um tanto avacalhado, a saber, o homem contemporâneo em sua interioridade subjetiva.

Não havendo concordâncias, a construção de sínteses também se torna inviável, ou pior, arbitrária. Pelas armas, pelo voto, pelo medo, pela ilusão coletiva, pelas estatísticas, pelas mentiras condescendentes etc... D'um modo ou de outro os fortes dominarão os fracos até que novos e mais fortes dominem os então enfraquecidos, eis como ciclicamente a História se repete há milênios. O povo - a multidão plebeia de desfavorecidos - esse há-de passar de mão em mão, indiferente ou persuadido, observando à distância o xadrez dos grandes... Para alguns, esclarecidos ou nem tanto, restará a antropofagia criativa da Metafísica pela Arte. Evocada pelos artistas em seu caos, a Metafísica senta-se na galeria e se congratula em espalhar abstrações conceituais capazes de dar sentido àquelas pinceladas nervosas ou ainda a instalações provocativas. O vago se encontra com o vazio e as estranhezas se completam, celebrando o casamento entre Metafísica e Arte Contemporânea.

Mas, exactamente por se pôr a serviço dos poderosos, discordo que seja missão da Arte buscar a verdade. Desde entreter até fazer pensar, o que a Arte faz é especular e descrever subjetivamente. Aliás, esse é o poder do método artístico: É livre e mesmo irresponsável no que se propõe. Ninguém em sã consciência deveria acreditar que Deus existe apenas porque um artista tentou imaginar como seria sua aparência e a materializou n'uma tela. Tal liberdade, todavia, é sedutora e continuamente ao longo da História fora convocada pelos Donos do Poder para induzir ao erro seus governados. Celebrizando as imagens de Deus, as monarquias e repúblicas mundo afora buscavam tão-somente um equilíbrio moral capaz de construir a Ordem Social de que necessitavam para continuarem tendo o que governar. O grande argumento em favor da limitação das liberdades individuais sempre foi o temor de assistir a sociedade se fragmentar em tribos, clãs e, por fim, famílias, n'um estado contínuo de todos contra todos, como apresentou tão vivamente Maquiavel em sua "História de Florença". Ou seja, a tutela do Estado e dependência do Mercado são admitidas amplamente pelos homens e mulheres pós-modernos por desilusão ou comodismo ou ambas as coisas. O caos que advém ao rompimento da Ordem Social tal como assistimos on-line desde a Síria, o Iraque e o Afeganistão em seus rios de sangue infindáveis parecem carregar dentro de si a advertência plena contra o cidadão, exortando-o a viver ordeiramente na "terra que lhe cabe d'esse latifúndio" e, por bem ou por mal, viver pagando os boletos que lhe chegam pelos Correios. Em última análise, existir é pagar para ver.

Sempre me causou profunda espécie que justamente a Alemanha de Weimar - Pátria da Bauhaus, da Fenomenologia e da Psicanálise, junto com seus satélites germanófonos - viesse a se tornar berço do Nazismo e túmulo de etnias inteiras em plena era da Modernidade! Sim, pasmo de ver os aforismas de Nietzsche sendo usados para modelar um Super-Homem ariano, nobre e ilimitado visto que livre de Deus e inteligente o bastante para sepultar moralidades pré-industriais. Oh sim, pasmo de reconhecer o carácter de Heidegger como nazista de carteirinha e alçado a Reitor-substituto por seus pares nazistas. Aparentemente, a Metafísica do século XX renunciou à tentativa de entender o homem moderno pós-cristão e passou subsidiar fundamentalismos desastrosos como o Eurocentrismo... Esvaziadas as ideologias pelo embate francamente militar da Guerra Fria, o desinteresse pela possibilidade de entender o homem sem Deus em sua moral relativista tornou a Metafísica um território paradoxalmente desabitado e vazio, pois, à margem das questões levantadas pelo Socialismo Internacionalista d'um mundo pós-colonial mas repartido em distintos níveis de desenvolvimento econômico. A questão já não era apenas "o que é a vida/existência" - como provocava até bem recentemente o saudoso Abujamra - mas antes: "quando a tecnologia e o conforto material serão para todos?" ... Sem Deus, a grande ambição humana passa ser o acesso aos bens de consumo e o registro exaustivo de suas "experiências" sejam elas psicodélicas, intelectuais, artísticas, gastronômicas, sexuais, espirituais, corporativas, internacionais... O humano, em sua interioridade, passa a ser sobretudo a frustração de não participar desse "Admirável Mundo Novo" - que, aliás, se afasta conscientemente do mundo cinza, cientificista e totalitário pintado por Aldous Huxley... - onde o valor continuamente agregado aos objetos de consumo pela tecnologia, pelo design e pela publicidade torna a existência um silenciar contínuo de qualquer voz que possa ter a Consciência. Não há certo ou errado e tampouco questões de consciência para quem a felicidade consiste em ostentar o novo iPhone XS | Apple‎... Tudo d'uma simplicidade espantosa quando se considera o ser humano em seu tédio e busca de reconhecimento. Afinal, qualquer coisa serve para adquirir celebridade ou ao menos fazer sentir o coração, ainda que seja atirar a esmo n'um cinema ou n'uma escola infantil. Somos bilhões e bilhões ordenados por aplicativos de celular, d'olhos vidrados nas telas azuis que nos bombardeiam com informações interessantíssimas enquanto nossos pensamentos aguardam n'um eterno estado de alheamento. Não pensamos, não sentimos, logo, não sofremos. Vamos morrer um dia, e dai? Façamos um meme idiota para trabalhar objetivamente nosso medo da morte, da dor e da solidão enquanto enchemos a cara de álcool e cannabis. É como diria mestre Alberto Caieiro: "Há Metafísica bastante em não se pensar em nada".

É isso.
101

ANDRÓGINO

Nem homem nem mulher, eu sou humano;
Sou um pouco de tudo e mais além...
Posso ser quem desejo, mas também
Quem s'encontrara só e por engano.

Se não tenho p'ra mim um grande plano,
Tampouco mudo como me convém:
Somente o coração conhece bem
A luz e a escuridão do quotidiano.

Os meus dias são noites na berlinda
Onde me quero mais; me quero linda
Como reflexo d'olhos cobiçosos.

E ainda que meus anos sejam poucos
Não me furto a vivê-los muitos loucos,
À margem de caminhos tortuosos.

Belo Horizonte - 12 09 2018
128

CRÔNICAS D'EL REY - coroa de sonetos

CRÔNICAS D'EL REY - coroa de sonetos

CRÔNICAS D'EL REY - soneto geratriz

Escuto o velho rei em seu lamento
D'experiência inútil, pois tardia:
Glosa o mote da vã sabedoria,
Pois sem valia ao sábio em sofrimento.

Outro beija-mãos... Sua Majestade
Reina absoluto pela Boa-Vista!
Alta noite, porém, passa em revista
Todo o Paço vagueando em soledade.

Ao fim, como um rosário de remorsos
Recorda a si seus ávidos esforços
Como se algum espírito noturno.

Parvo! Não obtêm glórias a obsessão...
Esplendores tampouco... Vãos ou não,
Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno.


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto primeiro

Escuto o velho rei em seu lamento
De figura admirável na ampla sala
-- Mais bruxuleiam círios sobre a opala,
Pondo as sombras do Paço em movimento.

Hesita El-Rey em cada mal momento
Até quase inaudível sua fala...
Por tão terrível crime, ele se cala:
E às paredes segreda o seu tormento.

Percebe-se o remorso ali tão denso
Que poderia El-Rey tocá-lo -- eu penso --
Enquanto a narrativa reinicia.

Sequer justificava mais seu trono,
Tal a sinceridade no abandono
D'experiência inútil, pois tardia...


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto segundo

D'experiência inútil, pois tardia:
Renuncia à realeza e à realidade...
Habitante das nuvens, em verdade,
Entre sombras e luz se refugia.

--"Trovador" -- diz El-Rey -- "Quem o diria?..."
"Canta meu Reinado que se evade
Fazendo-me memória da vontade
Que desde cedo o espírito me ardia"

"A noite nos acolhe em seu regaço
Tão-só constelo estrelas pelo espaço
Enquanto te relato outra ousadia

Jamais favorecida pela sorte..." --
Ora El-Rey, quer alerte; quer conforte,
Glosa o mote da vã sabedoria:


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto terceiro

-- "Glosa o mote da vã sabedoria
Quem pelas convicções mais verdadeiras
Por extremos de tão móveis fronteiras,
Derrota após derrota conhecia..."

"O Reino em expansão nos florescia,
Quando ascendi ao trono por maneiras
Tão vis qu'eu nem sequer às derradeiras
Palavras de meu pai obedecia."

"Eu fora convencido por bandidos
A governar nomeando-os meus validos,
Movido pela urgência do momento."

"Feito por fazedores de maus reis,
Governava ao arrepio já das leis,
Pois sem valia ao sábio em sofrimento".


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto quarto

Pois, sem valia ao sábio em sofrimento,
Mal diferia já o certo e o errado.
El-Rey -- pela lembrança atormentado --
Cala-se com um esgar mais violento...

Ele me olha em profundo desalento
Sem saber que dizer de seu passado.
Por crimes bem sabia ser lembrado,
Esperando da História o julgamento.

Anseia ser esquecido ao fim, talvez...
Porém, quer confessar tudo o que fez
Em rimas a guardar-lhe o pensamento.

Pressentindo-se a queda da Coroa,
Manda-me vir poetar para Lisboa...
(Outro " beija-mãos" Sua Majestade?).


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto quinto

Outro beija-mãos, Sua Majestade:
-- "Vossa Alteza Real, grão senhor nosso!
Se for de seu agrado, ainda posso
Dar das Reais razões a realidade."

"Oxalá seja eu fiel só à verdade
E logre ater-me aos factos com o endosso
Já d'El-Rey dado a mim, servo revosso,
Fazendo jus a tal grandiosidade."

Ao que interrompe El-Rey subitamente:
--" Um grande? Não! Far-me-ás de novo gente,
Mediante rimas límpidas de artista."

Dito isso, ambos quedamos expectantes
Enquanto o silêncio, tal como antes,
Reina absoluto pela Boa-Vista...


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto sexto

-- "Reina absoluto pela Boa-Vista
Um rei velho, cansado e lamentoso.
Vislumbra pelas sombras o andrajoso
Poeta cuja desgraça conhecia."

"Coube a este pôr em letras quanto ouvia,
Memorando um Reinado desgostoso..."
-- E calo... Eu me interrompo pesaroso
Que tal sinceridade me traía. --

--"Prossegue, trovador, já não te cales.
O retrato que narras tem os males
Do retratado, não do retratista."

Ao que respondo: --"Sim, assim farei."
Toda a historia a narrar, o velho rei
Alta noite, porém, passa em revista:


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto sétimo

--"Alta noite, porém, passa em revista
O Infante aos conjurados pelo trono.
Cercam-no outros larápios, cujo sono
Se perde na ambição de má conquista:"

"-- "Por morto o irmão e louca a mãe, invista
Em tirar a Coroa do abandono!..." -
Logo após, negociavam-se outro abono,
Tão-só suas fortunas tendo em vista."

"Assim fora Regente e, após, El-Rey...
E, por confuso, o Corso eu enganei
Quando o Antigo Regime ruía lento."

Saboreia a ironia vã da História
Ainda a recordar sua mor glória,
Todo o Paço vagueando em soledade.


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto oitavo

-- "Todo o Paço vagueando em soledade,
Napoleão a enganar fora enganado...
Na partida ao Brasil, trouxe ao meu lado
Um misto de esperança e desalento."

"Sem embargo, encontrei mais sofrimento...
Não vi senão conflitos no Reinado!
Mesmo ao fugir de guerras, derrotado
Fora ao longo d'um século violento."

"Vencido o Corso, a Corte me apregoa!
Sequer posso voltar para Lisboa,
Sem contar com britânicos reforços."

"El-Rey de Portugal, Brasil e Algarve
Remoendo pelo Paço, insone e alarve,
Ao fim, como um rosário de remorsos..."


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto nono

-- "Ao fim, como um rosário de remorsos,
Muitos a recordar-me indecisões.
Em derredor, tão-só conspirações
Para após anistiar de maus desforços "

"Os corruptos às voltas com extorsos
E os fidalgos com outros galardões.
São parasitas vistos aos milhões
Sobre sangue e suor de negros dorsos..."

"Acompanho este século perplexo.
Nem a Corte, ou outro arranjo desconexo,
Haverá-de livrar-nos d'outros Corsos..." --

Hesita novamente o soberano,
Pois, buscando ser fiel ao próprio plano,
Recorda a si seus ávidos esforços.


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto décimo

Recorda a si seus ávidos esforços:
--"Para manter unido o Reino inteiro,
Ordenei desde o Rio de Janeiro
Organizar a volta co'os reforços.

"Todavia, grassavam os extorsos,
Quer em solo europeu; quer brasileiro.
Contra os quais me isolei por altaneiro.
Embora claudicando entre estorços."

"Ousara o que jamais um rei ousara.
Quando, ao sul do Equador, tive a luz clara,
De ver o Corso em França mais soturno."

"No Brasil, fiz o Reino ser reunido.
Por isso, o Paço tenho percorrido
Como se algum espírito noturno..."


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto undécimo

--"... Como se algum espírito noturno,
Em insones andanças pelo Paço.
Concilio a minha angústia co'o cansaço
D'esse terrível ímpeto diuturno."

"Há anos n'essa sala cá me enfurno
Em longos beija-mãos que aqui refaço
E após vir, alta noite, passo a passo
Carregando um semblante taciturno."

"Quem por acaso vê não me compreende
A dor que do Encoberto 'inda descende
Obrigada às razões do coração." --

E embora insone sonhe o Quinto Império,
Ele súbito explode ao extremo hespério:
-- "Parvo! Não obtêm glórias a obsessão!..."


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto duodécimo

"Parvo... Não obtêm glórias a obsessão..." --
Repete El-Rey a si já se acalmando.
Após tal paroxismo, ao seu comando,
Tornei a acompanhar sua narração:

-- "Dos remorsos que trago ao coração,
O pecado maior; o erro mais nefando,
Foi não manter o Reino unido quando
Caiu em definitivo Napoleão

"A partilha do Império já tramada
Pelas nações amigas... Cuja entrada
Em nossos portos dera eu permissão!..."

"Assim vimos partir mais rios d'ouro:
Exauridas as Minas, sem Tesouro...
Esplendores tampouco, vãos ou não..."


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto tredécimo

-- "Esplendores tampouco, vãos ou não?..." --
Contesto: -- " Vossa Alteza reina ao sul!"
-- "Deveras... Qual andasse por um paul
Ir governar dos trópicos Nação..."

"Britânicos com brigues vêm e vão;
Franceses, de Lisboa a Istambul...
Parecem almejar-se o céu azul
E o mundo reduzir a quase um grão".

"Terras e reinos reuni n'um mesmo cântico
D'uma margem até a outra do Atlântico
N'esse meu caminhar só e noturno." --

Todavia -- penso eu comigo mesmo --
Por caminhar insólito, à noite e a esmo,
Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno...


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto quadridécimo

-- "Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno,
Alteza Real, não grande ou clemente...
A sua caminhada, verazmente,
Mais faz especular o horror noturno."

"Se fora Napoleão corso e soturno,
Também um vencedor, cuja alva gente,
Parece idolatrar como somente
Veneraram romanos a Saturno..."

"Enquanto o sirvo pela noite, Alteza,
Eu tento traduzir dor em beleza
E ainda acompanhar seu passo lento.

"Mas digo se perguntam o que faço
Alta noite vagueando pelo Paço:
--"Escuto o velho rei em seu lamento.""

Contagem - 30 09 2012
130

O EXTRAORDINÁRIO SR. GENTIL

Certas coisas nos emocionam sem que a gente consiga explicar por quê. Toma-se conhecimento de figuras quase anônimas no tecido da sociedade com vidas que pouco ou nada têm a ver co'as nossas e, inexplicavelmente, a notícia de sua existência atrai de modo misterioso à nossa sensibilidade e atenção. Foi assim com o extraordinário Sr. Gentil. O homem viveu uma vida desinteressada e desinteressante até o dia em que decidiu que seria feliz. Sim, feliz, mas não uma felicidade vulgar como tantas que se vê por aí. Não. Não desejava o extraordinário Sr. Gentil a fumaça de uma carreira amplamente reconhecida ou a fantasia de um amor perfeito correspondido. Tampouco era a felicidade dos que se dizem autossuficientes e veem alegria e beleza em qualquer coisa que aparecesse diante de seus olhos, n'um engano de si mesmos que beira o patológico. Com efeito, a felicidade buscada por ele era muito peculiar, mas nada tinha da resignação afetada de tantos que, sendo infelizes, preferem sistematicamente ignorá-lo.

Se o extraordinário Sr. Gentil não se contentava com pequenas coisas, tampouco se iludia com as grandes. Via o mundo como era, com uma lucidez que raras vezes a maioria de nós se permite. Ele tinha sua família e seu trabalho, como tantos, mas jamais os idealizava a ponto de afirmar que lhe bastavam. Sabia precisar de mais. Sabia haver em sua interioridade um universo inteiro a explorar e isso o divertia imensamente. Sem embargo, desconfiava sumamente dos sorrisos fáceis para embelezar rostos sob os holofotes, não confundindo nunca alegria com felicidade: ser admirado pelos outros lhe produzia uma indiferença absoluta e desejar tal disparate lhe parecia quase imbecilidade. Esperar pela aprovação de estranhos não contribuía em nada com seu desejo de ser feliz, ao contrário, parecia-lhe outra amarra na qual o espírito humano se prende para não lidar com o aleatório da vida. Ser livre, entendeu o extraordinário Sr. Gentil, era gostar do imprevisto e admirar a pessoa que nos tornamos à medida que as circunstâncias vão nos exigindo.

Mas tudo isto, embora filosófico, não era nada demais. O que fizera o Sr. Gentil, portanto, para se tornar extraordinário? Sim, vivera uma vida única, no limite entre a moralidade e o crime. Seu extraordinário feito fora d'uma ambiguidade absoluta, onde certo e errado não apenas se confundiam como se complementavam. Difícil dizer algo sobre a sua história senão que era extraordinária: Amor, dor, ódio, sexo, egoísmo, conveniência, ira, canalhice... Todas estas abstrações descrevem adequadamente sua vida sem esgotá-la. Eu mesmo, cada vez que recordo do Sr. Gentil, deparo-me com um viés novo cuja pertinência faz mudar radicalmente meu juízo sobre sua existência. No fundo é apenas por isso qu'eu, na falta de palavra melhor, qualifico a ele e sua vida de extraordinários. Escrevendo, convido o leitor a tirar as suas próprias conclusões.

........

Gentil era um homem de quase cinquenta anos quando o conheci na casa de minha sogra. Era um solteirão bem apessoado com uma fala algo janota; algo aristocrática... Lembro-me que não me causara grandes impressões a princípio. Apertei-lhe a mão como a de tantos n'aquele dia em que conhecera a ele e seus irmãos. Era, com efeito, o mais expansivo e bem trajado dos três. Conhecera-os por ocasião do meu noivado, visto serem parentes ricos e distantes de minha noiva. Ela, muito jovem ainda, apresentara-me aqueles seus três primos com idade para serem tios dos quais jamais comentava, todos bem sucedidos e fora do seu círculo de convivência familiar. Quanto a mim, com vinte e poucos anos, eu não me interessava absolutamente pelos seus parentes. O Sr. Gentil, porém, tinha um hábito que logo me deu o que pensar: Usava ele uma espécie de piteira para fumar, de modo que seus dedos tão tinham as manchas de nicotina comuns aos fumantes. Embora não fosse inédito para mim saber de pessoas que evitassem tal nódoa, confesso que jamais tive notícia d'um homem não afeminado que o fizesse... Esta fora uma peculiaridade entre tantas que conheci a seu respeito, à medida que tomava conhecimento de sua vida. N'um segundo ou terceiro encontro -- tivemos uma convivência esporádica antes do meu casamento -- conheci sua filha e a mãe dela. Causou-me espécie o facto de que ele não só não usava aliança como demonstrava morar tanto com a filha -- uma menina tímida d'uns onze anos -- quanto com a mãe -- uma senhora quase tão velha quanto Gentil, mas que ele tratava como se sua empregada fosse... Engoli em seco minha curiosidade ao longo de todo aquele encontro e qual não foi minha surpresa ao indagar de minha sogra, que era tia d'ele, o porquê d'aquela estranha convivência. E ela, para meu pasmo, confirmou que aquela senhora era efectivamente a empregada doméstica de Gentil! Insisti, perguntando da filha, ao que ela se furtou de fazer qualquer comentário além do óbvio: "Era filha d'ele com a empregada"...

Aquela revelação esdrúxula me fez revisitar cada detalhe da fugaz convivência que tive com o Sr. Gentil. Marcara-me o carinho que tinha com a filha em contraste com a secura reservava à mãe. Sim, era uma coisa quase palpável o estranhamento que aquela singular família causava a todos ao redor. Ninguém comentava, como se a situação não fosse nenhuma novidade, mas todos pareciam pisar em ovos cada vez que falavam com o Sr. Gentil e ninguém, absolutamente ninguém, ousava dirigir a palavra à sua filha ou para a mãe d'ela. Apenas Gentil conversava com as duas, alternando o tom da voz entre uma e outra de modo quase bipolar, expressando ora o amor de pai; ora o rigor de patrão. Parecera-me ele junto d'elas uma pessoa assaz diversa d'aquela que conhecera em companhia só dos irmãos: Suas maneiras foram mais reservadas, muito pouco participando das conversas então. A filha, muito bem vestida e comportada, não se misturava às outras crianças que reinavam em brinquedos aqui e ali. Quanto a mãe, servia-o em tudo que se mostrasse, obsequiando-lhe os petiscos e as bebidas servidos no buffet da casa de minha sogra. Aos quais ele jamais agradecia! Julguei-o a partir de então da pior forma possível, como um canalha! Bem como a pobre mulher como uma espécie de prisioneira de circunstâncias inconfessáveis. Muito me aborreci com aquelas cenas que somente após o encontro lograva compreender minimamente: Sim, o Sr. Gentil era um miserável misógino a torturar a mãe da própria filha com uma servidão absurda, apenas isso explicava!

Passaram-se dez anos e muita coisa mudou, sobretudo eu. Meu casamento não dera certo e, embora dois filhos, separamo-nos após sete anos de convivência. Fora uma separação muito difícil, pois, havia apostado tudo que construí n'aquele casamento. Ao fim, fiquei sem patrimônio e sem a convivência diária com meus filhos. Todos os dias, levantar-me para trabalhar era um fardo, visto que quase tudo que obtivesse seria para o sustento de meus filhos longe de mim com minha ex-mulher... Não foi uma nem duas vezes em que perambulei pela cidade sem buscar senão distração para a insônia que me acometia. Vivia deprimido e angustiado n'um período a que chamava de "a noite mais escura" em versos ruins de mau perdedor. Fiz-me íntimo de bêbados, prostitutas e andarilhos na imensidão da cidade noite afora. Tinha trinta e poucos, mas parecia ter cinquenta! Foi então que, do nada, encontrei o velho Sr. Gentil n'um inferninho. A princípio, fingi não o reconhecer, mas ele saiu de sua mesa e veio em minha direção com seu inconfundível cigarro na piteira seguro entre os dedos.

Era ele, indubitavelmente. Saudou-me com um largo: "Há quanto tempo!", ao que eu me encolhi junto ao balcão do bar enquanto uma gostosa seminua rebolava no palco ao som de "Promiscuous" e afins. Sempre muito constrangedor encontrar alguém do passado n'um lugar como aquele... Em todo caso, se quem está na chuva é para se molhar, quem está no inferno é para se queimar: Retribui a saudação do Sr. Gentil com toda a intimidade que jamais tivemos e o convidei a se sentar ao meu lado. Eu bebia uma cerveja qualquer mais uma dose de pinga e ele pediu o mesmo para si.

Começou falando exacto do que não queria falar: -- "Soube do fim de seu casamento com minha priminha." -- calhou-lhe de introdução -- "Desculpe-me a franqueza, mas você parece bem melhor agora.

Aquilo caiu em meus ouvidos como um imenso contrassenso, afinal, não enxergava em mim senão decadência. Pedi que ele continuasse: -- "Mulheres são complicadas. Não digo que sejam inimigas, mas com certeza não são companheiras. Ou melhor, digo "companheiras" no sentido primitivo da palavra, isto é, "com-pão-eiro": aquele com quem se reparte o pão". Respondi-lhe intrigado: "Um tanto paroquial essa sua colocação..." E ele: "Sim, já fui um homem religioso.".

Bebericávamos a cerveja e, de tempos em tempos, entornávamos a cachaça. A noite só estava começando em as belas se sucediam no palco exibindo caras, bocas, pernas e bundas. Ele fumava seu cigarro na piteira enquanto eu olhava para as garotas encabulado: "Será que ele vai contar que me viu aqui para a família da minha ex? Quer saber: Foda-se!" E tornava a enxugar o lagoinha. Ele riu para si e comentou: -- "Quando lhe conheci, você parecia um ingênuo; um pato para ser depenado. E você não me decepcionou!". Cada vez mais desconfiado com o caminho que aquela conversa tomava, resolvi dar vazão à minha antiga curiosidade e quis saber mais de sua vida, até para eu não dizer nada que comprometesse com a família da mãe de meus filhos: -- "Isso agora é passado, mas, e o senhor, casou-se com a mãe de sua filha?" -- Ele gargalhou como se eu lhe houvesse contado a maior piada do mundo. Ficou vermelho, sem fôlego, de tanto rir e exclamou interrogando: -- "O quê?!" -- e voltou gargalhar até chamar a atenção em volta e me deixar sem graça -- "Quer dizer que você tinha interesse em minha vidinha, heim?!" -- e completou -- "Mas que surpresa!" -- Para não ficar mais sem graça ainda (e tirar de mim o foco d'aquela conversa), concordei com ele: -- "É verdade: Aquela ocasião em que conheci sua filha e a mãe d'ela nunca me saiu da cabeça." -- ao que o Sr. Gentil, com o mínimo de palavras, me desmascarou: -- "Mas, por quê?..." -- Pronto! Eu seria obrigado a lhe revelar meu mau julgamento d'antanho... Para que revirar o lixo humano do passado? Céus, se eu não tivesse bebido tanto, eu pagava uma garota d'essas para subir para algum quarto! Mas, do jeito que estou, será só para broxar e queimar dinheiro... Não estou em condições para comprar uma trepada. Aliás, já apertei o botão de FODA-SE com esse cara mesmo: -- "Apenas achei fora do comum o facto de a mãe de sua filha ser sua empregada..." -- saí-me com esta. Ele não se intimidou. Acendeu outro cigarro e contou-me sua história.

.....

-- "Acho que você não sabe de nada. Então, vou começar do começo. Meu pai foi um homem tão rico quanto mal casado. Vivia como se fosse o mais miserável dos homens sob a tirania de minha mãe que, aliás, fora a fonte de sua fortuna e carreira. Trabalhava nas empresas de meu avô materno e lhe herdou a filha, o nome e a riqueza. Minha mãe o tratava pior do que você me vira tratando a mãe de minha filha. Se aos seus olhos ela era uma empregada; aos meus olhos meu pai era pouco menos que um escravo de minha mãe.". Falava d'aquelas coisas íntimas e tristes sem qualquer emoção, com uma indiferença didática, dir-se-ia: -- "Meu pai me fez prometer que jamais passaria pelo que ele passou e tenho cumprido minha promessa com louvor." -- e ainda -- "Jamais me casei nem me casarei."

-- "Mas, e sua filha" insisti. -- "O que é que tem?" -- indagou -- "Eu prometi nunca ser marido, não pai." Ele pediu outra cachaça e virou n'uma talagada: -- "Eu contratei uma empregada e comecei a trepar com ela: Simples assim." -- eu o olhava como se diante d'um lampejo de lucidez. Ele continuou: --"Eu sabia que ela queria dar o golpe, mas eu queria ser pai. Quando ela veio me depenar, a menina já havia nascido. Eu a despedi com todos os direitos empregatícios e tomei a guarda dela alegando que a pobre não tinha como educar a menina. Ela se desesperou e eu me mantive impassível. Até que ela, para ficar perto da filha e tornar ter casa e emprego, se sujeitou a assinar de novo a carteira de trabalho como minha empregada. E foi a melhor mãe e mulher que alguém poderia desejar, paga com salário mínimo, décimo terceiro e férias!"

Ouvi aquilo embasbacado e, não podia negar, com certa inveja. Afinal, o que eu mesmo deixara e deixava com a mãe de meus filhos era muito mais para eu ter muito menos... Ele, o extraordinário Sr. Gentil, em sua canalhice dera um golpe de mestre. Ou melhor, um contra-golpe!

-- "Mas, e o amor?!" perguntei, embora a pergunta soasse tola desde o instante em que saíra de minha boca... Mesmo assim, ele respondeu: -- "O amor é um luxo a que nos permitimos quando moços. Olha para ti mesmo" -- a intimidade ébria já lhe permitia tratar por "tu" -- "Aqui n'este antro" -- olhou-me nos olhos frisando as palavras -- "a intimidade comprada que tens com qualquer uma d'estas garotas é incomparavelmente maior que a que tiveste com minha priminha!" E continuou: -- "Sexo é um encontro humano. É algo concreto; é um acontecimento. Já amor é uma abstração" -- e sorveu o resto da cerveja.

Pedi mais uma e fui para o banheiro. Esvaziei a bexiga que já doía de tão cheia e me olhei demoradamente no espelho: "Quem sou eu?". Foi então que eu tive o meu momento de lucidez: "Percebo, enfim, que aquela história de piteira para não enodar os dedos era, nada mais nada menos, que a metáfora perfeita d'uma vida onde os vícios não deviam deixar marcas". Perguntei-me em voz alta, ainda diante do espelho, feito demente: -- "Quem diria que um canalha, no final das contas, teria razão?".

Não sei quanto tempo permaneci ali parado, olhando-me. Só sei que quando retornei ao balcão do bar o extraordinário Sr. Gentil já havia ido embora.. E -- o melhor -- pago a conta toda! Saí d'aquela espelunca de alma lavada, livre, enquanto assobiava um samba antigo sob a luz da lua.

Betim - 08 09 2018
139

ATEUS NÃO DIZEM ADEUS

Ateus não dizem adeus,
Eles só dizem "ao nada"...
Estes que vivem sem Deus
Despedindo-se dos seus
Creem vazia sua estrada.

Não que nada lhes importe
Ou que a ausência lhes console,
Só não veem facto mais forte
Sobre a vida após a morte
Ou que ao Universo controle.

O que veem é o infinito...
Bilhões e bilhões d'estrelas
Onde, nem feio nem bonito,
O homem como um mosquito
Se apequena diante d'elas.

Necessitam ver para crer
E pensar ao demonstrar
As verdades d'um saber,
Em vez de sem entender
Bem ou mal acreditar.

Enfim uma explicação
Que a religião se lhes nega.
Ao que, embora sem paixão,
Veem tão-só escuridão
Na luz a que a fé se cega.

Betim - 08 09 2018
128

O ESQUELETO DE PINGUIM

-- "Hoje eu vi um esqueleto de pinguim." -- disse-lhe a menina, do nada. Ele coçou a cabeça e olhou para a distância como se tentasse visualizar a incomum imagem da ave que não voa sem a roupagem negra que o caracteriza. Não conseguiu. Sem saber bem o que dizer, saiu-se com um vago: -- "Que bom, filhinha." -- e escondeu a total ignorância sobre pinguins esqueléticos no jornal que lia. A menina, frustrada, com a reacção do pai, voltou para o parquinho e foi brincar no escorrega.
Ele, contudo, não conseguia mais fixar na leitura das notícias. A ideia do esqueleto de pinguim lhe parecia quase surreal. Não que imaginasse tais aves invertebradas ou que se dissolvessem imediatamente nas nevascas após a morte, mas era incapaz de dar imagem àquele pensamento. Isso o frustrava profundamente enquanto olhava para sua filha brincando, já esquecido de todo do jornal. Sim, n'aquela tarde tranquila, enquanto a filha brincava, quedou enfeitiçado pelo demônio da monomania...
Nada a fazer, nada fez. Não havia ali livros para consultar. O telefone móvel, inútil, estava sem bateria. Ele era, aliás, um d'aqueles raros seres do milênio passado que odiava atender ligações na rua e que frequentemente se esquecia de pôr para carregar o celular antes de sair. Considerava uma impertinência sem tamanho as pessoas pensarem que todos estão o tempo todo disponíveis para todos. Ele, não! Ele queria estar ali, agora, relacionando-se com o presente imediato ao invés de se perder em nuvens de informações com fotos ruins ou vídeos ainda piores. Saíra de casa para levar a filha ao parquinho e levara o jornal mais para se proteger do sol do que para se informar. E eis que, provocado pela imagem absurda, deseja subitamente ter um celular à mão para fazer uma busca. Tateou os bolsos, mas, como de hábito, o aparelho estava apagado... Maldisse, como tantas vezes já o fizera, àquela mania de se sabotar deixando telefones sem carga. Olhou para os lados e viu alguns pais e mães que, como ele, estavam esperando a brincadeira dos filhos terminar para irem para outro lugar. Como se tornou comum hoje em dia, quase todos estavam olhando para as telas azuis dos seus aparelhos, totalmente desligados do que faziam os filhos no parquinho. Pensou em pedir um celular emprestado, mas repeliu quase de imediato a ideia. Afinal, que haveria-de dizer: -- "Por favor, empreste-me o celular para saber como é um esqueleto de pinguim..."! -- Não, não... Nada a ver!... Poderia mentir, dizendo estar n'uma emergência, mas aquilo lhe pareceu ainda pior: Era péssimo mentiroso! Quando ousava soltar uma mentirinha, por mais inofensiva que fosse, seu corpo parecia se pôr em revolta contra sua mente e a denunciava por todos os meios possíveis: Gaguejava, furtava-se a olhar o outro nos olhos, corava sem mais nem quê e ria sem que houvesse do que rir.... Era um embusteiro patético que não enganava nem uma criança de colo. Tinha de haver outra solução!
Não, aquilo era absurdo! Não tinha-de saber como era o esqueleto d'um pinguim! Valha-me Deus! Por que a menina teve-de lhe falar d'aquilo? Mas era horrível a sensação de não saber... Por mais que se esforçasse, a ideia do pinguim sem carne não correspondia a qualquer imagem possível em sua mente. E a angústia o tomava d'uma maneira absurda de modo que repetidas vezes se imaginou abordando um dos presentes para pedir o celular e sanar sua curiosidade. Não o fez, contudo, contendo-se heroicamente do ridículo de ser denunciado em sua curiosidade mal-sã tão logo devolvesse o aparelho e o outro lhe visse a busca absurda no histórico. Não. Absolutamente, não! Não se exporia a um vexame d'esses com desconhecidos.
Tinha-de haver outra forma... Ir para casa, então! Mas havia prometido aquele passeio à menina durante a semana toda!... Não podia simplesmente arrancá-la d'ali e ir para casa: Ela não entenderia. E com razão! Foi com muita insistência que a menina o fizera vir ao parquinho. Semanas de insistência! Pensou n'algum artifício, mas nada lhe vinha além das mentiras mais toscas e das desculpas mais vazias. Não havia meio: Tinha-de esperar a filha querer ir para casa. Ela era demasiado esperta para cair n'uma esparrela qualquer. Ademais, haviam acabado de chegar.
Ele se sentou no banco do parquinho e pôs o jornal de lado. Por mais que se esforçasse, via apenas o pinguim, negro e simpático, bem encarnado e penado. Confundia-se: Pinguim tem bico ou não? Dá para ver seus olhos? Evocando lembranças de documentários assistidos em tardes de tédio mal conseguia fixar alguma imagem para além dos desenho caricatos que as animações consagraram. Os pinguins em sua mente não se pareciam sequer com a ideia de pinguim que guardava... Vivendo nos trópicos e longe dos grandes centros, obviamente jamais vira um pinguim de perto. Não sabia quase nada sobre o bicho e admiti-lo era doloroso n'aquele momento. Como podia ser? Como o esqueleto de pinguim?!
Exausto após quase uma hora de devaneio, chamou a filha e lhe perguntou: -- "Querida, onde mesmo viste o tal esqueleto de pinguim? Foi no caminho para cá? Vamos voltar lá para o papai ver também! Exclamou vitorioso com a solução enfim encontrada.
-- "Que pinguim? Não, não era um pinguim... -- respondeu ela sem entender -- Era uma avestruz!" -- e, de novo, ele olhou para o vazio, preso àquel'outra imagem ainda mais inimaginável...

Betim - 22 06 2018
205

A REPRIMENDA

Entregou o manuscrito e ficou esperando que o outro terminasse de ler. Como não dissesse nada resolveu quebrar o silêncio que já se tornava incômodo.

-- "Estás com cara de quem leu e não gostou. É um pouco como te vejo..."
-- "Não faças isso" -- o outro disse --
-- "Isso o quê? -- atalhou.
-- "Analisar-me como se eu fosse uma personagem de romance. Tenho certeza que sou mais complicado que isso".

Não esperava por aquela reacção. Assumiu um tom mais sério a partir d'ali.

-- "Na verdade, meu caro, as pessoas mais interessantes que conheço são personagens de romance. É quase um elogio ser descrito como ou analisado como uma..."

-- "Discordo." -- interrompeu o segundo -- "Parece uma necessidade humana pôr o acaso em narrativa; dar sentido ao caos." -- e concluiu: -- "Não precisas tentar me encaixar n'algum perfil psicológico para deduzir minhas motivações. As coisas simplesmente acontecem e nos afectam. É apenas isso! Não há um grande plano, humano ou divino, por detrás. Não há uma sociedade secreta ou coisa que o valha manipulando os liames que nos movem. Não há nada além de gente tentando viver sua vida da melhor forma que consegue."

-- "Agora quem vai discordar sou eu. -- disse, por fim, o primeiro -- Há muita gente "fora da curva" que faz coisas impressionantes ou que sentem o mundo de modo diferente. Essas pessoas que busco conhecer. Essas que chamo de interessantes ou extraordinárias".

-- "Ah, sei: Assassinos que cometem crimes perfeitos; homens que vão para uma guerra e trazem um olhar pessoal da História; mulheres belíssimas que olhos seguem deslumbrados... Queres saber? Estou farto d'este monte de nada a que a indústria cultural chama de entretenimento."

Betim - 03 02 2018
148

Comentários (5)

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Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />

edu2018

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet

bom vê-lo por aqui

rosafogo

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.