POUCAS E BOAS #PoesiaSim
Se eu disser umas verdades
Talvez m'escutem ou não.
Quem pediu minha opinião?
Como ter tais liberdades
Em tempos de incompreensão?
Posso estar errado em tudo,
Mesmo assim ouso falar
A quem não quer escutar.
Mais errado é ficar mudo
Ou fingindo concordar:
-- "Distinguir entre nós e eles
Prejulgando bons ou maus
-- Ou pior -- pondo em degraus:
P'ra lobos por sob as peles
Justiçar-nos com calhaus!"
"Qual o lado dos sem lado?
Dos que, como eu, não s'entendem
Juízes do que não compreendem?
Enquanto, sem certo ou errado,
Muitos aos grandes se vendem..."
"Qual a razão do Irrazoável
Que desconhece o respeito?
Que bate no próprio peito
E jacta-se respeitável,
Mas dispara preconceito!..."
"Qual o sentido d'esse ódio
Contra quem lhe é diferente?
Não parece um presidente...
Parece querer o pódio
De opressor de sua gente:"
"Começa, a sua limpeza,
Em matar "uns trinta mil"...
Assim, obtuso e febril,
Pondo as cartas sobre a mesa,
Se assenhora do Brasil!
"Sim, por Ordem e Progresso,
Declarar já terroristas
Militantes e activistas...
Por fim, fechar o Congresso
E torturar esquerdistas."
"Vistas grossas aos perigos
De se opor grei contra grei...
Eis na República um rei:
Se tudo para os amigos,
Aos inimigos, a lei!"
"Assim descamba a violência
Nos quatro cantos do país.
Os pobres, feitos servis,
Dobrados sem resistência
Pela estultícia dos vis."
"Os artistas, perseguidos;
Os intelectuais, vigiados;
Os jornais, intimidados;
Todos já embrutecidos,
Divididos em dois lados..."
"D'um lado os homens de bem,
D'outro, os outros (nós?) do mal...
Desde quando ser normal
Ter medo -- e raiva também! --
D'um governo federal?..."
Eu -- que em lados jamais creio --
Dou a estes versos um fim
Que falem melhor de mim...
Escolho o lado do meio:
Ele não... Poesia sim!
Betim - 26 10 2018
MAGNO - A história de Alexandre
MAGNO - A história de Alexandre
CANTO PRIMEIRO
I
Canto, ó musa, dos grandes o maior!
Aquele cujos feitos nunca mais
Haverão pelos tempos de igualar.
Canto o senhor dos helenos e dos persas,
E explorador das Arábias e das Índias!
D'entre todos os homens em seu Fado,
Eu canto quem de Vênus tão dilecto
Quanto de Marte mais favorecido,
Como se não de reis, mas sim de deuses
O houvessem concebido para a glória!
II
Mas não, musa, não cabe ao menor poeta
Cantar, por fim, dos grandes a grandeza...
Tampouco lhe compete se arvorar
Um cronista de cortes tão distantes
No espaço e tempo às suas tortas letras!
Oh sim, como ousa o obscuro lançar luzes
Sobre este cujo nome imenso brilha?
Como, musa, algum poeta 'inda pretenda
D'outro século os transes da Fortuna
Que marcaram os dias de Alexandre?
III
Ou mesmo, como da Hélade traduzir
N'um tardio e vulgar falar latino
Que por terras austrais americanas
Calhou de florescer exuberante?
E como -- para além das conjecturas --
Ter versos onde o velho se renove
A iluminar as mentes d'este tempo
Que pouco ou nada escutam d'outras eras?
Mas haverá ainda d'entre nós
Quem aprecie d'épicos o engenho?
IV
Deveras... Não sabendo responder
Tu silencias, musa, qual dissesses
Dever também o poeta se calar...
Afinal, que aproveita o homem em ter
Vencido todo o mundo se se perde?
Que poderá o poeta contra o Fado
Enquanto o próprio herói, em sua história,
Sem conhecer derrota é esquecido?
Talvez não reste um canto a se cantar
Tampouco história alguma a ser contada...
V
Se canto, ó musa, é antes teimosia
Que talento ou verdade iluminados.
Eu canto porque os homens e mulheres
Coetâneos de Alexandre n'ele vivem!
Eu canto porque os deuses o escolheram
Para levar o saber do Estagirita
Às três partes do mundo conhecido:
Por África, Ásia e Europa, desde Pela,
Avançou até ser tido por Magno
Mesmo onde seu domínio não chegou.
VI
Mas canto, sobretudo, porque falham
Todos os que o tentaram superar...
Mesmo quem o epiteto após houvera:
Pompeu, Gregório, Leão, Carlos, Alberto...
Antes foram desejos d'outras glórias
Do que lumes capazes de ofuscá-lo!
À semelhança de astros que pelo Orbe,
Transitando em concerto gravemente,
Luzem sem contrastar co'a luz mais alta
Vista no céu nocturno entre as estrelas.
VII
Alexandre, após guerras e poderes,
A sua história aos códices da História
Tivera assim, por mérito, elevada.
Deve o poeta, contudo, não o douto
Cantar o homem a além de suas obras.
Certo de que, ao exaltar sua existência,
Celebre antes vivências que conquistas
E entenda, humanamente, o que é ter
Grandeza quando o mundo mais parece
Carecer simplesmente de limites.
Betim - 18 10 2018
DESAVERGONHADOS
Se entre quatro paredes, nós dois nus
Surpreendermos insones a manhã...
Eu te olho espreguiçando no divã
Reclinada de costas contra a luz.
Tanto teu peito arfante me seduz
Que nem cuido se já perco a hora vã
Em admirar-te a pele mais louçã
Onde os seios a meus beijos fazem jus.
Quando pleno teu corpo se oferece,
Logo a Beleza em ti se reconhece
Como se Vênus vendo-se no espelho.
Tu me encaras, por fim, em desafio.
E eu me entrego a adorar-te horas a fio,
Pois diante d'uma deusa me ajoelho.
Betim - 16 10 2018
À MANEIRA POÉTICA
À MANEIRA POÉTICA
Não. Nada nunca é errado em poesia…
Rimar ou não não garante o poético, ou melhor,
nada garante.
Quando o poeta rima
é porque exige dos sons das palavras a magia.
Quando ritma, é que ordena
as tônicas segundo a respiração.
Quando metrifica apenas
põe limite à frase para que não seja
nem curta nem longa demais.
Quando não rima, ritma e metrifica,
ele deixa as frases buscarem sua própria música.
D'um modo ou de outro,
corre o risco de não fazer mais
que preencher folhas em branco…
O poeta não escreve como escrevem;
não fala como falam, nem poderia!
Se o que ele busca é o extraordinário,
exigindo das palavras mais que comunicação.
Se isso o faz maldito, que seja:
Sim, mil vezes maldito por exigir a leitura atenta!
Dez mil vezes por não facilitar a compreensão.
Maldito! Maldito seja!
Por colocar-se como resistência teimosa: Alguém que não vai silenciar enquanto não for silenciado.
Por escrever sem patrão o que lhe vem à cabeça
ou que lhe angustia o peito…
(Jamais concordarei serem necessários genocídios para vivermos em paz).
Por que exigir do poeta, portanto,
a bênção luminosa da superfície
se ele desce às profundezas de si mesmo?
Betim - 15 10 2018
MALDITOS! N°2
Facto: Malditos porque mal falados.
Porque muito mal lidos; mal descritos...
Os bons? Somente os mortos! No passado.
Tantos a maldizer-nos os escritos:
-- "Antiquados! Herméticos!! Absurdos!!!"
Ou sem nem ler (assim assim): -- "Bonitos..."
Se declamamos, fingem estar surdos;
Se publicamos, fingem que são cegos;
Um povo sem país igual os curdos:
Poetas... Filhos de sós desassossegos
Sempre a vagar sem pátria e sem dinheiro,
Indo sobreviver de subempregos;
Ou distante vagando, aventureiro,
Que por entre as palavras em vão erra
Sem nunca encontrar-se paradeiro.
Hoje, até Ahasverus possui terra!
No mesmo confim onde Israel governa
E o ismaelita de novo se desterra...
Não os malditos... D'esses é eterna
A caminhada errante vida afora
Atravessando as noites na taverna.
Ali, já sem saber se ri ou chora,
Senta-se e escreve em plena solidão,
Alheio mesmo da hora de ir embora.
Eis dos poetas a glória e a maldição:
Por fim, indiferentes se são lidos,
S'entregarem à própria escuridão.
Pará de Minas - 14 10 2018
MALDITOS!
Quem são estes cuja luz fora apagada
E, insones, têm nas noites seu refúgio,
Atravessando em vão a madrugada?
Só querem ao poetar vago transfúgio
Da vida d'esperanças comezinhas,
Bem como contra o tédio subterfúgio?
Estes -- que vêm deixar nas entrelinhas
Toda sorte de angústias autorais --
O que buscam por horas tão sozinhas?
Por que se fazem poetas? Por que mais
Buscam tirar das letras o sublime,
Senão por se sentirem sós demais?
Que furtaram aos deuses? Qual o crime
Cometido na aurora dos milênios,
Cuja pena a escrever nunca os redime?
Sem diferir se néscios ou se gênios,
D'onde foi que obtiveram tal saber
Que os obriga a versar entre proscênios?
Como estes que escrevem ousam ler
Nas linhas d'horizonte um sol errático
Por entre arranha-céus ao amanhecer?
Como alguém -- entre excêntrico e lunático --
Gastando a vida inteira com escritos
Despidos de qualquer sentido prático?
Malditos! Sete mil vezes malditos!
Estes que têm os versos por oráculo
Havendo além dos céus mais infinitos...
Malditos os que têm pelo vernáculo
Um carinho de artista incompreendido
Que se imola no altar do tabernáculo!...
Dom às avessas!... Bênção ao inavido!...
À margem das promessas e das glórias,
Poetar é desdenhar o conhecido...
É saber inventadas as memórias
E de belas mentiras a verdade
Pretendida em suas vãs histórias.
Desastrólogos do alto, sejam poetas
Malditos pelos séculos dos séculos,
No augúrio de catástrofes completas!...
Belo Horizonte - 11 10 2018
ATRÁS DAS GRADES
Por fim prendi o mundo atrás das grades
Enquanto m'embriagava em minha varanda:
Desde que contra tudo pus demanda,
Privo os outros de suas liberdades.
Ébrio, fico a observar duas cidades
A de quem é mandado e a de quem manda,
Onde cada um que pelas ruas anda
Prisioneiro é das próprias inverdades.
Verdadeira somente a dor que sinto
Por quem manda qual por quem é mandado,
Que os vejo andando em vão n’um labirinto.
E acabo na varanda embriagado,
A olhar na solidão do vinho tinto
Todo o mundo por mim aprisionado...
Belo Horizonte – 20 11 1991
SAIDEIRA
Dia de feira, não de féria,
Amanhã, afinal, é quarta!
Tiro a barriga da miséria,
Se a terça, além de gorda, é farta.
É carnaval! Nem qu'eu infarta
Com tanta pinga pela artéria!
Amanhã, afinal, é quarta:
Dia de feira, não de féria...
É carnaval! Nem por pilhéria...
Vão dizer que morri por carta
Ou que peguei uma bactéria!
Amanhã, afinal, é quarta:
Dia de feira, não de féria...
Betim - 02 10 2018
BARCAROLA
Menina morena,
De não e de sim.
Pela lua plena,
Que queres de mim?
Menina morena,
Tu cheiras tão bem!
És toda açucena
E rosas também!
Menina morena,
que tens de melhor?
Tua fala amena
E dois seios em flor.
Menina morena,
De sim e de não...
És a flor que acena
Ao meu coração!
Peruíbe - 12 07 2018
LUAR DAS VALQUÍRIAS
LUAR DAS VALQUÍRIAS
I
O que se diz das nornas cavalgantes
A serviço dos deuses e dos homens
É que escolhem guerreiros para a morte
Ao se lhes surpreender com beijos gélidos.
Montam os corcéis brancos das neblinas
Que descem sobre os campos de batalha.
Enquanto isso, enluarada, a noite cai
Àqueles que s'entregam para a guerra
No espetáculo sangrento dos infantes.
Atravessam planícies que, nevadas,
Tingem-se aqui e ali de sangue nobre.
Gemidos, baforadas de vapor,
Partiam dos caídos destripados
Que, exangues, contemplavam as estrelas
À espera do Valhala e suas glórias.
II
Elas são as mulheres escudeiras
Que cumprem os desígnios do Destino
Elevando os espíritos dos bravos.
Alvíssimas, têm elas olhos grises
Frios como os glaciares das montanhas.
Passando por portais de gelo e fogo,
Vêm à mansão dos mortos escolhidos
A reforçar as hostes do alto Odin
Em sua guerra contra os mundos últimos
Que antecede a Nova Era d'Universo.
Possam com o seu sangue sobre a neve
Já como heróis marcharem destemidos!
Após terem n'olhar a vida e a morte,
Nunca estaquem em face de ninguém
Tampouco deixem sonhos por sonhar.
Assim seja, nos céus como na Terra.
III
Têm como prêmio após tantas jornadas
Os cuidados e os carinhos das donzelas
Que, pensando as feridas com unguentos
E servindo canecas de hidromel,
Curam um após outro dos desastres
Ao lhes fortalecer o amplo espírito
Como homens superiores qu'eles eram
Testados e medidos pela guerra.
As Valquírias, senhoras de dois mundos,
Vêm conduzir os grandes à grandeza.
Amantes da beleza e da coragem,
Acompanham a estrada do guerreiro
Enquanto avança sobre os inimigos,
Deixando-se mostrar ao destemido
Como se antevisão da boa morte.
IV
No olhar d'essa mulher iluminada
Que lhe vem ter no meio d'um entrevero,
Reconhece o chamado do mais Alto
E s'entrega ao beijo frio da morte.
Oh bem-aventurado o que recebe
A morte como amante e rega a terra
Co'o sangue de incontáveis inimigos!
Sacerdote, ele eleva-se oferenda
No altar feito na terra sob os céus
N'uma carnificina sanguinária.
Sim, por seu braço a morte sega os campos
A entulhar seus celeiros de cadáveres!
E as Valquírias com seus corvos retintos
Vêm se refestelar sob a alva lua.
Belo Horizonte - 25 09 2018