-- "Tu podes me xingar, se isto te conforta. Disse-lhe sem tirar os olhos d'ele -- -- "Vá! Eu não entendo isto que te impele..." -- Respondeu-me parado já na porta.
-- "O que quero é querer! Já não importa Se cu, boceta ou pinto (o que se revele!) Se índio, branco ou retinto, a cor da pele. Só não serei feliz depois de morta!"
-- "Não sabes me causar senão assombros..." -- E ficou ali olhando os olhos meus Com aquela frase à guisa já de adeus.
-- "Meu corpo, minhas regras." -- e dei de ombros. -- "Teu amor, tuas negras..." -- e explodiu: -- "Poliamor é a puta que o pariu!"
Belo Horizonte - 20 02 2018
399
ACONTECIMENTOS
Em face das recentes desventuras, Que tenho atravessado em meu caminho, Parece-me que nunca me avizinho Senão de noites mais e mais escuras.
Resta-me além de tolas conjecturas, De todas as verdades, a do vinho. Na multidão percebo-me sozinho, Ouvindo-os me espalhar as imposturas...
As coisas que me têm acontecido Deram o que pensar e o que falar A algum juízo alheio irrefletido.
Mas fica ainda a dúvida pelo ar, Se a vida, para além de todo o olvido, Não mais que um permanente mal-estar.
Betim - 10 02 2018
497
O PIROMANÍACO
Eu, que aos vinte me fiz incendiário, Aos quarenta pretendo-me bombeiro... Quer pseudo-radical; quer embusteiro O facto é que já fora um temerário.
Louco, salvo evidências em contrário, Hoje em dia me têm por muito ordeiro E dos grandes um grande companheiro, Mesmo não sendo nada extraordinário.
Deliro co'a cidade ardendo em chamas, Mas depois, entre alarmas e proclamas, Exorto o povo a vir em meu socorro.
Da esquerda para o centro se transita Sob pena de tornar-me um parasita, De agravos em juízo 'inda recorro...
Betim - 08 02 2018
451
EU E TU
Até onde eu consigo me lembrar, Aquele foi um dia ensolarado... Talvez tenha sido eu; talvez o Fado Ou apenas te calhou de m'encontrar.
E tu, sem qualquer pressa de chegar, Nem vias quanto havias caminhado. De mãos dadas, paramos lado a lado E soubemos um ao outro desvendar:
Eu não te disse muito. Tu tampouco. Porém parece o mundo menos louco Enquanto é contemplado desde o abismo.
Já de noite, depois de tais assuntos, Eu e tu d'ali saímos nós dois juntos A andar de cataclismo em cataclismo...
Betim - 06 02 2018
394
EVASÃO
Qualquer lugar que não esse onde vivo! Qualquer tempo que não o meu presente!... A vida em devaneios por simplesmente Não lhe saber sentido nem motivo.
Em utopia estar contemplativo! Em fantasia ser quem tenho em mente!... Imaginar o mundo tão-somente Ao invés de o descrever tão objetivo.
Algures bem melhor do que eu aqui; Antanho bem melhor do que eu agora: Distinto é quanto sou do que senti...
Seja eu meio acolá ou meio outrora, Flanando enmimesmado em vão por aí, Diverso ao que hei vivido vida afora.
Betim - 04 02 2018
425
NU FRONTAL
Exposta na parede (um calendário!), Outra nudez perfeita e exuberante... De facto, nada mais interessante, Que ver o que s'esconde de ordinário...
Não tinha ela vergonha, ao contrário, Antes buscava o meu olhar errante E de quem mais ficasse ali bem diante, Entretido entre o real e o imaginário.
Janela de adentrar na fantasia, Aquela costumaz fotografia, Que se via em qualquer suja oficina.
Era expressão de pura liberdade Ao fazer da mulher sensulidade N'uma sexualidade masculina.
Betim - 03 02 2018
383
ARIDEZ
Como ouvisse trovão e não visse raio, No claro céu dos longes dos sertões. Assim também os secos corações No chão esturricado ao sol de maio.
Incoerências à parte, de soslaio, Surpreendo redemunhos d'emoções Varrendo as desoladas amplidões, Onde antes todo o campo verde gaio...
Brilhante, o contraforte do penedo Reluz igual matéria incandescente Àquela claridade onipresente.
De facto um novo sol cada rochedo, Espelhando-se a pino no meio-dia Por sobre a terra tórrida e vazia.