Nada podem as mãos contra o concreto E os gritos que jamais alcançam um. Resta apenas, sujeita à lei comum, Ser reduzida rápido a esqueleto.
De parede à parede, chão ao teto, O espaço não lhe dá conforto algum. Devora-se, por fim, em vão jejum, Vítima d'algum péssimo projeto.
Estranho é que a razão de tal clausura Fora justo a esperança libertária, Perdida em meio à noite mais escura.
E a pena que ela cumpre feito pária Tão-só prolonga a angústia em que figura, À espera d'uma morte solitária...
Betim - 30 08 2013
332
AO PÉ DA LETRA
Entre tudo o que se diz E quanto se quis dizer, Carece reconhecer De quem dizia os ardis E quem ouvia o saber.
Porque ouvir é atentar àquilo que o outro nos disse Mas também ao que desdisse E, conforme a hora e o lugar, Saber se facto ou tolice.
Pois a palavra falada Pelo tom que se lhe dá Em bem ou mal haverá- De nos ser interpretada, Repetindo-a lá e cá.
Porém, à palavra escrita, A voz que fala se cala... E por calada intercala Tanto a verdade infinita, Quanto a mentira mais rala.
No mais, onde for Poesia Só o espírito penetra: Rima, ritmo, metro etcet'ra... Feliz quem tem a alegria De vivê-la ao pé da letra!
Belo Horizonte - 25 08 2018
339
ENXAQUECA
Hipersensível, cubro-me as janelas E submerjo em silêncio e escuridão. Capto do ambiente cada vibração Por carregar da dor suas sequelas.
Isto me é existir quando procelas Põem à deriva mente e coração. Atravesso a absoluta solidão, D'outra noite sem lua nem estrelas.
Insônia, angústia, febre, forte estafa... Verificação cíclica de dados, Onde o fluxo de ideias engarrafa.
Finda em cerco aos meus eus enmimesmados, Mas nada nem ninguém dentro se safa E eu me abandono d'olhos bem fechados...
Betim - 21 08 2018
418
SEJE!
Abundante esse verbo do meu ser Que, imperativo, do sê até o seje Por entre tantos seres se deseje Até se outrar no tu que se quiser.
Um vir a ser de mim por melhor ver: -- "Seje!" -- Para que alcance quanto almeje Ainda que a galera me apedreje Por simplesmente não me compreender.
Porque a língua está viva e se reinventa Na fala d'essa gente que a bem fala E na escrita que a bem ouvir se cala.
Ser trezentos, trezentos e cinquenta... Quando mais e mais almas me consomem, Mais eu saiba dizer a mim: -- "Seje, homem!..."
Contagem - 16 08 2018
1 017
ZIRIGUIDUM, BALACOBACO E TELECOTECO
É festa de batuque no boteco, No que bate e rebate; ouve e repete. Samba é canção puxada no falsete Ao som de tamborim e reco-reco.
É do balacobaco o repeteco! No pique do repique pinta o sete. Quando, desde o barraco ao palacete, D'algum Brasil feliz escutam o eco.
Em zum-ziriguidum, voz e violão Vagueia ensimesmada outra emoção De juntos ver-ouvir a noite toda.
E ali, mais bela a pele mais morena, Enquanto a lua cheia se asserena A batida do samba lhe abre a roda.
Belo Horizonte - 14 08 2018
476
DESESPERANÇA
Às voltas co'os excessos do presente, Andava com saudades do futuro. Até me acostumei a ver no escuro De tanto não ter nada à minha frente.
A decepção me fez indiferente, A ponto de ignorar onde é seguro. Há tempos que não sonho nem procuro Senão obrigações de displicente.
Se já não sei torcer pelo melhor, Tampouco me preparo pr'o pior: Apenas sigo sombras pela noite.
Entrementes, os homens passarão E a História julgará se a escuridão Veio pela ilusão ou pelo açoite...
Belo Horizonte - 14 08 2018
352
A MÃO ARMADA
-- "Estúpido! Facínora!! Assassino!!!" -- Berrava, d'além-túmulo, o coitado Pelas mãos d'um outro assassinado Após um entrevero vespertino. Reteve-lhe tão-só o olhar malino Ao baque do projétil disparado: Seu corpo sobre o chão atravessado Morria como se obra do Destino... Espírito, porém, evocava às Fúrias, Rogando maldições, pragas e injúrias Àquele que lhe dera voz de assalto. Porque, pior que a morte, era a ilusão De ser ouvido em face da visão De si mesmo estirado pelo asfalto... Betim - 13 08 2018
470
TREZE DE AGOSTO
É o tipo de bobagem que deixa a gente um pouco mais feliz. Sim, as pequenas alegrias que somadas podem compor uma felicidade plena, gratuita e desinteressada. Estar vivo. Olhar e ver. Aceitar a condição humana com suas misérias e maravilhas... Hoje acordei mal. Muita dor de cabeça e mal estar. Tinha a impressão de que o despertador me furtara horas de sono enquanto me dirigia à cozinha e punha água para ferver. Maldisse a noite mal dormida e a angústia dos impasses no trabalho que me tiraram o sono. Maldisse o café que sorvia sem qualquer gosto e ainda o dinheiro gasto sem prazer no fim de semana. Maldizia tudo que, d'um modo ou d'outro, concorrera para aquele despertar tétrico no qual a própria cabeça me impedia de pensar. O dia só estava começando e já desfilavam diante de mim inúmeras situações desagradáveis, sobretudo por atestarem minha incompetência e inabilidade. Eu precisava virar a mesa, mas faltavam-me forças... Chegava a duvidar de que qualquer intervenção minha fosse ainda algo pertinente. Eu me apequenava ante mim mesmo.
Deixei o dia seguir. Fui para o trabalho e parei para ver a manhã: Alguns minutos de contemplação vazia. Não havia nenhuma paisagem extraordinária diante dos meus olhos ou tampouco epifanias espirituais quando os fechava. Eu olhava e via o mundo tal como era, nem feio nem bonito. Percebi então que, o que quer que acontecesse, eu deveria aceitar como parte indissociável da vida. O fracasso que antevia há dias, ainda que se concretizasse hoje, seria bem-vindo, assim como tantos fragorosos fracassos passados hoje são saudados em minh'alma face à pessoa que me tornei. Coleccionar fracassos dizia muito de mim e de minhas limitações. Eu queria ser melhor do que sou, mas não era. Eu queria, sinceramente, ser mais culto, mais centrado, mais ousado e mais capaz de realizações. Todavia, não passava d'um vago sonhador entorpecido. Minhas miragens interiores não serviram para realizar livros, arquiteturas ou imagens excepcionais. Eu continuo trafegando no limbo em busca de fantasmas obscuros. Esse talvez seja o resumo perfeito de minha vida.
Mas o incrível d'isso tudo é que eu estava feliz. Havia uma postura positiva em contemplar o próprio fracasso, mais do que em celebrar uma vitória, pensava. Eu podia seguir lutando, mas o facto é que fora desmascarado e vilmente exposto: Eu não era grande! Não fizera algo grande quando finalmente tive a oportunidade. Eu falhei novamente, como tantas vezes já havia falhado. N'estas horas, se eu me conhecia bem, a vontade de jogar tudo para o alto e m'esconder n'algum buraco só era não era maior que a necessidade de seguir em frente, apesar dos pesares. Sim, eu tinha-de seguir em frente, com as orelhas de burro expostas e sem a menor esperança de que, talvez, nem todos o notassem. Eu e minhas mazelas. Eu e minhas contradições. Eu sou aquele que não é bom o bastante, nunca fui e nunca serei. Minha felicidade, de facto, era sabê-lo.
À medida que a dor de cabeça passava e o momento autocontemplativo se dissipava, eu chegava ao meu posto de trabalho pleno de consciência de minhas limitações. Aceitá-las, ao invés de me martirizar, era o único bem qu'eu poderia me proporcionar. Ser quem eu era, para o bem ou para o mal, era a unica coisa boa que restava d'isso tudo. Aceitar aquela segunda-feira com todos os seus azares era a prioridade d'aquela manhã.
E assim o fiz.
Betim - 2018
156
A BORDO
A barca que me leva para as ilhas Sulca as ondas d'um mar esmeraldino. D'olhos arregalados me amenino, Navegante entre sais e maravilhas...
Carreira dos Açores às Antilhas Onde poentes segredam-me o destino! Alma atlântica posta em desatino Após atravessar milhas e milhas.
Desperto em meio à névoa matutina Na qual mui lentamente em derredor A imensidão além se descortina.
Ali, envolto todo em pleno albor, O mundo evanescente na retina À voz que vem de dentro faz maior.
Peruíbe - 20 07 2018
365
A VOLTA DO MAR
Passando muito ao largo em seu retorno Mareavam para além do conhecido... E os ventos que governam desde o Olvido Encurvam caprichosos tal contorno.
Pois apesar do abismo logo em torno Ousaram pelo mundo reduzido Avançar com as velas que têm sido Na imensidão do mar estranho adorno.
Assim, de volta da Índia ou do Japão, Desviam-se do Norte em direcção Das Ilhas pelos céus afortunadas.
Ali gozam riquezas mais futuras Lavadas no suor das aventuras E ornadas no relato das jornadas.