RicardoC

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n. 1976 BR BR

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

n. 1976-05-01, Caratinga

Perfil
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UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
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Biografia
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Poemas

29

ATRÁS DAS GRADES

Por fim prendi o mundo atrás das grades
Enquanto m'embriagava em minha varanda:
Desde que contra tudo pus demanda,
Privo os outros de suas liberdades.

Ébrio, fico a observar duas cidades
A de quem é mandado e a de quem manda,
Onde cada um que pelas ruas anda
Prisioneiro é das próprias inverdades.

Verdadeira somente a dor que sinto
Por quem manda qual por quem é mandado,
Que os vejo andando em vão n’um labirinto.

E acabo na varanda embriagado,
A olhar na solidão do vinho tinto
Todo o mundo por mim aprisionado...

Belo Horizonte – 20 11 1991
115

O APÓSTATA

Quanto às religiões, não lhe interessa
Trocar velhos grilhões por outros novos.
O divino ainda é imposto aos povos
Ora por ordem; ora por promessa.

À fé que inopinado se confessa
Deixou aos extremistas cristãos-novos
Ao assistir das Igrejas os renovos,
N'uma verborragia ouvida à pressa.

Vira-se desgarrado do rebanho,
Que seguira em verdade desde antanho
Após sozinho ouvir a própria voz.

E decidiu fazer-se diferente
Como gentio em meio àquela gente,
Por certeza do certo, tão feroz...

Betim - 28 09 2018
583

CODICILO

Pelo presente escrito a próprio punho 
E com pleno poder das faculdades,
Expresso as minhas últimas vontades 
Em dar, perto da morte, testemunho.

Deste modo: "Nos idos já de junho, 
Vendo me sem porvires nem verdades, 
Disponho do que é meu com liberdades 
E dou fé às más firmas que cunho:"

"Minha mobília e roupas podem doar,
Mas meu dinheiro o enterro há-de pagar, 
Tão pouco me servira quando vivo…"

"Meus versos deixo a quem os souber ler 
Mais os livros escritos sem saber 
Ao fim para viver qualquer motivo."

Contagem - 03 06 2004
627

QUER SIM QUER NÃO

Tudo depende então do que se quer:
Eu olho nos teus olhos e sorrio.
Tu me sorris de volta em desafio,
Ambígua como sabe uma mulher.

Talvez tu não me olhasses a valer
Ou me sorrisses bem ao teu feitio...
A qu'eu, embora tímido e arredio,
Passe a falar-te quando bem quiser.

Porque querer tem d'essas liberdades
Que às vezes nos carregam pela mão
E põe em turbilhão nossas vontades.

Mas mais busco as razões do coração,
E, entre imaginações e realidades,
O querer a querer -- quer sim quer não!

Betim - 26 09 2018
554

TRÍBADES

(sextina: belas, nuas, seios, dedos, lábios, sexos)

Quando em Lesbos se tocam duas belas,
A luz s'espalha sobre as costas nuas
Até lhes surpreender os alvos seios.
Sentindo o percorrer de suaves dedos,
Elas se amam entretidas com os lábios
A explorar a humidade de seus sexos.

Abandonam a atroz guerra dos sexos
E quanto lhes impõem por serem belas
Os homens que perfídias têm nos lábios:
No afã de lhes cobrir as faces nuas
Co'os véus dos himeneus por sujos dedos,
Proíbem-lhes o gozo dos seus seios!…

Mas não! Têm-se uma n'outra as mãos nos seios
E ardem entumescidas por seus sexos,
Onde se lhes percorrem mútuos dedos.
Ao trocar entre si palavras belas
Elas, enternecidas, se olham nuas
Enquanto os ais de Vênus têm nos lábios.

Descendo por seus púbis ambos lábios,
Gozam-se, ora co'as mãos fortes os seios;
Ora co'as bocas pelas costas nuas…
Avidamente vêm juntar-se os sexos.
Ao que, n'um alongar de curvas belas,
Uma e outra se possuem com seus dedos

Molham em cada lábio os próprios dedos,
Tendo n'um beijo gozo pelos lábios.
Entregam-se ao prazer 'inda mais belas
E em cavalgada veem arfar os seios
Durante o friccionar mútuo dos sexos
Co'o néctar a escorrer nas coxas nuas…

Descansem suas belas formas nuas,
Enquanto pelos seios correm dedos
A ressentir nos lábios os seus sexos.

Nova Lima - 02 10 2018
122

CHORAMINGAS

Ela enxugava as lágrimas n'um lenço
E depois balbuciava alguma queixa.
Também caras e bocas feito gueixa
Fazia ao me mostrar despeito imenso.

Se sempre tinha seus motivos, penso,
Bem maiores do que eram ela os deixa.
Deveras, contrariada a mim se queixa
Após pôr as verdades em suspenso.

Tenho para mim qu'ela nem é triste
E chora tão clamosa porque insiste
Em ver sua vontade realizada.

Logo eu, que sou tão triste, lhe sorrio
E enxugo as suas lágrimas por brio:
-- "Não chores, meu neném, não muda nada..."

Belo Horizonte - 04 06 2018
316

LUAR DAS VALQUÍRIAS

LUAR DAS VALQUÍRIAS

I
O que se diz das nornas cavalgantes
A serviço dos deuses e dos homens
É que escolhem guerreiros para a morte
Ao se lhes surpreender com beijos gélidos.
Montam os corcéis brancos das neblinas
Que descem sobre os campos de batalha.
Enquanto isso, enluarada, a noite cai
Àqueles que s'entregam para a guerra
No espetáculo sangrento dos infantes.
Atravessam planícies que, nevadas,
Tingem-se aqui e ali de sangue nobre.
Gemidos, baforadas de vapor,
Partiam dos caídos destripados
Que, exangues, contemplavam as estrelas
À espera do Valhala e suas glórias.

II
Elas são as mulheres escudeiras
Que cumprem os desígnios do Destino
Elevando os espíritos dos bravos.
Alvíssimas, têm elas olhos grises
Frios como os glaciares das montanhas.
Passando por portais de gelo e fogo,
Vêm à mansão dos mortos escolhidos
A reforçar as hostes do alto Odin
Em sua guerra contra os mundos últimos
Que antecede a Nova Era d'Universo.
Possam com o seu sangue sobre a neve
Já como heróis marcharem destemidos!
Após terem n'olhar a vida e a morte,
Nunca estaquem em face de ninguém
Tampouco deixem sonhos por sonhar.
Assim seja, nos céus como na Terra.

III
Têm como prêmio após tantas jornadas
Os cuidados e os carinhos das donzelas
Que, pensando as feridas com unguentos
E servindo canecas de hidromel,
Curam um após outro dos desastres
Ao lhes fortalecer o amplo espírito
Como homens superiores qu'eles eram
Testados e medidos pela guerra.
As Valquírias, senhoras de dois mundos,
Vêm conduzir os grandes à grandeza.
Amantes da beleza e da coragem,
Acompanham a estrada do guerreiro
Enquanto avança sobre os inimigos,
Deixando-se mostrar ao destemido
Como se antevisão da boa morte.

IV
No olhar d'essa mulher iluminada
Que lhe vem ter no meio d'um entrevero,
Reconhece o chamado do mais Alto
E s'entrega ao beijo frio da morte.
Oh bem-aventurado o que recebe
A morte como amante e rega a terra
Co'o sangue de incontáveis inimigos!
Sacerdote, ele eleva-se oferenda
No altar feito na terra sob os céus
N'uma carnificina sanguinária.
Sim, por seu braço a morte sega os campos
A entulhar seus celeiros de cadáveres!
E as Valquírias com seus corvos retintos
Vêm se refestelar sob a alva lua.

Belo Horizonte - 25 09 2018
125

BARCAROLA

Menina morena,
De não e de sim.
Pela lua plena,
Que queres de mim?

Menina morena,
Tu cheiras tão bem!
És toda açucena
E rosas também!

Menina morena,
que tens de melhor?
Tua fala amena
E dois seios em flor.

Menina morena,
De sim e de não...
És a flor que acena
Ao meu coração!

Peruíbe - 12 07 2018
123

ARREPENDIMENTOS

Tudo o que todos querem nos ouvir
É que as coisas vão dar certo no fim.
Fiz quanto pude; dei tudo de mim,
Mas hoje desconfio inexistir...

Do que vi e vivi deixo ao porvir
Esse passado tantas vezes ruim,
Que quase não distingo não e sim,
Receoso de que vá me ressentir.

Andando sem olhar mais para trás,
Passei a acreditar que tanto faz
O ponto aonde a gente vai chegar.

Talvez me reconheça arrependido
De tudo que podia ou não ter sido
Até poder de facto m'encontrar.

Betim - 24 09 2018
333

GRÃOS DE POESIA

Não me interessa ser mais e melhor
N'esse mundo onde tantos são tão bons.
Cuido de m'expressar tendo ou não dons
Sem lhes pedir licença nem louvor.

Àqueles que me leem peço o favor
Que não me julgueis mal em meus frissons
Se entre preto e branco há mil entretons,
Mesmo maus versos têm o seu valor...

Escrevo mal e pouco, mas escrevo.
Ao menos do que faço nunca devo
Inspiração a quem mais quer que seja.

Mas podem não gostar... Ninguém obrigo!
Só obrigado estou de mim comigo
Em dar grãos de poesia a quem deseja.

Betim - 23 09 2018
375

Comentários (5)

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Luciana

Lindos poemas ,meu caro!

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

EDUARDO POETA

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

bom vê-lo por aqui

natalia nuno

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!