RicardoC

RicardoC

n. 1976 BR BR

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

n. 1976-05-01, Caratinga

Perfil
92 459 Visualizações

UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
Ler poema completo
Biografia
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Poemas

16

ENTANTO

Pretendo todo o tempo andar atento,
Mas quanto mais eu tento mais me atenta:
A distância à lembrança só aumenta,
Conquanto nada esteja ora a contento.

Entanto, mesmo sem qualquer intento
Sempre e sempre o passado se apresenta...
E com ele quanto ele representa
De novo em pensamento e sentimento..

Assim, para esquecer um grande amor,
Que se faz presente por saudade e dor
É preciso fingir que não me importe.

Amar, quando o passado é tão presente
Seja algo em todo caso diferente,
Não minha costumaz falta de sorte...

Belo Horizonte - 03 05 1993
1 012

CONCORDES

CONCORDES

De acordo co'os acordes que te fiz,
Eu te acordo co'as cordas do violão
E te acovardo a dor do coração
N'um canto em cujo encanto és feliz.

Incorporado o ritmo, um aprendiz
Eu me faço no compasso da canção.
E, passo a passo, passo-te a emoção
Tão certo quanto bem te quero e quis.

De cor o acorde, pois, te acode e acorda
Quando, a poesia e a música concordes,
Se veem canção que bem o amor aborda.

Talvez assim de mim tu te recordes
Enquanto meu amor por ti transborda:
Na harmonia de versos, mais acordes...

Betim - 09 08 1993
950

PARABÉNS!!

PARABéNS!!

Se tu soubesses qu'eu sou teu poeta,
Com certeza já não surpreenderia
Cantar-te à sereníssima alegria
Versos por tua data predileta.

Mas telegrama em mãos d'um estafeta
Do meu amor por ti pouco diria.
Ou mesmo um ramalhete ao fim do dia
Celebrando a conquista d'outra meta...

No jardim dos teus anos, outra linda
Flor entre as flores colhes hoje ainda
Com toda a delicadeza que tu tens.

Hoje possam por ti se abrir os céus,
A que recebas palmas e troféus:
-- "Felicidades, linda! Parabéns!! "

Belo Horizonte - 11 12 1991
413

D'ORAVANTE

D'ORAVANTE

Não mais ser um refém de meus problemas!
Mas, no que depender de mim então,
Poete eu a minha humana condição
E não outra engrenagem nos sistemas...

Para valer a pena escrever poemas
Carece mais ter dúvidas à mão,
Que sempre para tudo solução
Na vida e seus inúmeros dilemas.

D'oravante serei calmo, não frio
Ciente de que a verdade, na verdade
Se revela n'algum canto sombrio.

E ainda que não seja novidade,
-- Ao contrário, p'ra mim até tardio --
Saiba eu ver tudo com serenidade.

Betim - 30 12 2017
739

GARAPA

GARAPA

Passa a cana na moenda, colhe o caldo
E espreme dois limões mais o bagaço.
Tem-de fazer do jeito como eu faço,
Senão arrisca ao fim ser tudo baldo.

Nas contas lá do céu tem de ter saldo
P'ra Deus abençoar nosso cansaço.
Bebendo, estalo os beiços: -- "Geladaço!..."
E eu um copo após outro já m'esbaldo.

Fazendo assim-assado há-de dar certo.
Qualquer outro refresco nem de perto
Me mata a fome e a sede n'um só gole.

Fica a palavra dada e o arranjo feito:
Garapa preparada d'este jeito
Deixa o sujeito até de miolo mole...

Belo Horizonte - 29 11 2017
421

ILÓGICO

Outra vez, terminou sem começar.
Qual ser sem ser do amor fosse premissa.
Feito um fósforo cujo ardor se atiça
Apenas para após ver se apagar...

Venceu a nulidade ao não amar
Por premissa segunda ou por preguiça:
Sentimento que em vão se desperdiça
É tesouro no fundo d'algum mar...

Tendo por regra ser algo inseguro,
Não me traz o amor mais que insanidade,
Logo, n'ele não há o que procuro.

E em face d'essa ilógica verdade,
Concluo de silogismo tão obscuro
Ter por lugar-comum felicidade.

Betim - 05 05 1996
483

UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
1 115

N'OUTRAS PALAVRAS

N'OUTRAS PALAVRAS

Tem gente que se faz ora de mouca
Certa que uma palavra mais aflita
Não cale ao peito a dor, tão-só a grita,
Seja a sua desdita muita ou pouca.

Contudo, mesmo quando dita louca,
Soa à poesia ainda não escrita...
Pode variar de errática à infinita
Até deixar-me a fala quase rouca.

Tem gente que se faz ora de surda,
Pois crê toda a poesia ser absurda,
Ficando o dito por não dito ou mudo...

N'outras palavras, poeto do que quero
Se, e somente se, quanto for sincero
Emergir do inconsciente mais agudo!

Gov. Valadares - 04 04 1995
361

ELA E ELE – amor em três actos

ELA E ELE - amor em três actos

PROÊMIO

Diante de nossos olhos acontece
Alguma história assim todos os dias:
Ela e Ele compartilham-se alegrias
À medida que um ao outro mais conhece.

Esta história tantas mais parece...
Tanto, que não importam as etnias,
Pátrias, lugares, épocas, poesias
Ou nem sequer o deus de cada prece.

Tampouco hão-de importar que nomes tomem...
Seja Ela mulher; Ele, apenas homem.
Vós-outros os chamais como quiserdes!

Resta, contudo, a vós eu advertir
Que os três actos d'amor logo a seguir
Também repetireis se não souberdes...

* * *

ACTO PRIMEIRO - O enamoro

PRAZER EM CONHECER

Ele vem sem saber para que vem...
Anda tão distraído que por nada
Espera que lhe exista alguma estrada
Para se seguir junto com alguém.

Ela chega sem qu'Ele olhe. Porém,
Quando a vê a percebe inalterada...
Ao certo pensa ainda uma hora errada
Para o querer consigo Ela também.

Ele conversa mesmo sendo em vão
Manter-se longe o olhar do coração
E deixar de qualquer outra esperança.

Ela, por mais sensata, se protege
Por entender que a estrela que lhe rege
Não brilha tanto quanto na lembrança.

* * *

ATÉ BREVE

Caminhos que se cruzam e após vão
Aonde for possível e além ir...
Ele não foi sequer se despedir
Quando Ela partiu com seu coração.

Ela o levou consigo, embora em vão.
Por temer consequências no porvir,
Afastou-se a melhor se descobrir,
Sem saber d'Ele e sua escuridão.

Ele espera; Ela, não. Ou melhor, vê
Cada extremo senão, cada porquê,
Em face já de sua ampla insistência.

Ele, por distraído ou tolo, fala
Ao passo que, atenciosa, Ela se cala
Sem saber que esperar da experiência.

* * *

POR OBSÉQUIO

Ele se derrama em mimos e atenções;
E Ela, entre lisonjeada e reticente,
Confrontando o homem ora à sua frente,
Contesta uma a uma suas ilusões.

Ele responde já não ter opções:
Precisa conhecê-la tão somente.
E se algo acontecer qual tem em mente
Não sofrem eles maiores decepções.

Curiosa, Ela já quer saber seu plano
Apenas a mostrar com quanto engano
Pretendia Ele entrar em sua vida.

Ele se reconhece enamorado
D'Ela e, deverasmente, culpa o Fado
Querer quem a Ele tão desconhecida.

* * *

ACTO SEGUNDO - os amantes

ANTEGOZO

Ela já se deleita em tê-lo ao lado
E sente falta d'Ele se se ausenta.
Ele, sempre que pode, se apresenta
À sua porta com ledo cuidado.

Lá chegando, se sente transportado
Ao aconchego que alegre experimenta.
Horas gozosas... Quando Ela o contenta
E às quais Ele, aliás, se fez rogado...

Ele lhe beija as mãos com tal ternura
Qu'Ela enfim se abandona à calentura
De o ter tão docemente junto d'Ela.

Mas sem um mais nem quê, logo Ela chora...
Vendo-a emotiva, tímido, Ele cora
E beija o rosto tépido à donzela.

* * *

TONS SOBRE TONS

Ela chora. Dois olhos d'água ao rosto.
Ele lhe bebe as lágrimas... E sorri!...
Beija-a violentamente aqui e ali
Até da própria dor Ela ter gosto.

Ele toma do cinto ao largo posto
E ata seus pulsos bem junto de si.
Cheira-lhe o pescoço, a colibri...
Após, rasga o vestido descomposto.

Suga faminto, pálidos, seus seios...
Mais torturando-a até sentir anseios:
Faz com que implore ser toda desnuda.

Ele a olha... Ela é mais bela que a beleza!
Vê em seus olhos sós a chama acesa
E afinal a possui, confusa e muda.

* * *

ÊXTASE

Amaram-se em silêncio, sem ousar
Que palavras quebrassem esse encanto.
Ela se arqueia e freme... Cai a um canto
E o abraça forte sem nada falar.

Ele logo a aninha ávido a secar
Aquela última lágrima em seu pranto.
Quando beija seus olhos ao acalanto
De carícia impossível de findar.

Ela reluz igual gema brilhante
Ao palor que Ele exsuda n'esse instante
E molha os lençóis sob o casal.

Ela sorri. Alumbra-se seu rosto.
Ele registra o quadro ali composto
E adormece em seus braços afinal.

* * *

ACTO TERCEIRO - o desenlace

DEPOIS DO AMOR

Acorda co'o barulho do retrete
E levanta, automático, para ir.
Espera que Ela saia para partir,
Despedindo-se pouco antes das sete.

E, na saída, a cena se repete:
Mais beijos estalados a se ouvir!
Ela o abraça, querendo lhe impedir.
Ele a beija, deixando-a no tapete...

No caminho, remorsos e segredos
O acompanham até os arvoredos
Onde tenta ocultar todo pecado.

Sob as sombras, mil vezes se maldiz...
Infeliz por ter sido tão feliz,
Ainda que em lugar ou dia errado!

* * *

ANTES DA DOR

Ela está tão contente! Mal sabe Ela...
Pensa qu'Ele saiu para o trabalho.
Mas volta n'um horário incerto e falho
Enquanto Ela observava da janela.

Passou as horas lívida e singela,
À espera d'um patético espantalho,
Que volta com cara de paspalho
E ainda atucanado para vê-la.

Abre a porta sorrindo e o faz entrar.
Ela procura em vão lhe animar,
A Ele que vai partir seu coração.

Quando sua mudez enfim se impôs,
Percebe o seu silêncio ser o algoz,
Que traz a Ela de volta a escuridão.

* * *

ENTRE OLHOS

Ela olha para Ele: Estava arredio.
A conversa sem fio e sem lugar.
Ela o acarinha; Ele a repele ao tocar:
Enquanto o arde d'amor, gela-a de frio.

Perdido o olhar, Ele a olha vazio.
Em si vagou e só foi se encontrar:
O coração, medroso para amar;
O corpo, seco por saciado o cio.

Ela o olha, mas Ele não está ali!
Ora chora quem por último ri
E os olhos nos seus olhos não são seus...

Espelham-se sem ver quem bem à frente...
Se impossível dizer que têm em mente
Só o silêncio entre olhos diz -- "Adeus..."

* * *

EPÍLOGO

Como vos adverti, conto comum
Esse que a vós narrei de amor e dor.
Ide de volta ao lar com mais ardor
Reviver tudo com alguém ou algum.

Se o gozo d'essa vida for nenhum,
Ao menos a lembrança tem valor
D'aqueles que se amaram sem supor,
Que repetissem um lugar-comum.

Assim também amais e sois amados,
Mas vós -- por bem ou mal enamorados
Ou que buscais no amor algum conforto. --

Ouvi, portanto, a luz da narrativa:
-- "Antes morrer d'amor para que viva,
Que avivar o amor depois morto."

Galileia - 04 01 1994
240

ASSENTAMENTO

Era roça, mas tinha ardor de luta.
Não era terra herdada, era conquista.
Pois não fora comprada a prazo ou a vista,
Ao que a sua valia era absoluta.

Por nada nem ninguém se lhe permuta
Esta terra a seus olhos tão bem-quista,
Retomada d'algum monopolista,
Visto que improdutiva e devoluta...

Cabanas e roçados dão a posse
Aos homens e mulheres assentados
N'um chão regado à lágrima agridoce.

Mas sonhos pelos campos veem semeados.
E, prontos a enfrentar quem quer que fosse,
Verdejam os terrenos ocupados.

Pará de Minas - 26 12 2017
1 087

Comentários (5)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Luciana

Lindos poemas ,meu caro!

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

EDUARDO POETA

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

bom vê-lo por aqui

natalia nuno

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!