Escureceu e apenas vagalumes Luzindo aqui e ali pelo caminho... Nos longes, relampeava bem clarinho Instantâneos de serras e seus cumes.
Em concerto ritmado nos friúmes Solfejos que nas sombras adivinho: Dois sapos coachando e um passarinho Responde assoberbado de ciúmes...
Nem lua nem estrelas vêm brilhar Tão carregado o céu de nuvens grossas Pouco antes d'um dilúvio desabar.
Libélulas chapinham pelas poças E as corujas azulam do lugar Co'a chuva que abençoa nossas roças.
Pará de Minas - 26 12 2017
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FIGURA DE PROA
Irrompe contra as ondas o veleiro Co'os três mastros vergados pelo vento. Na proa, uma sereia face ao tormento, Cantando para mar e marinheiro.
Em belíssima mulher, esse madeiro Fora esculpido apenas com o intento De afastar-lhes o espírito agourento, Que aos homens rouba o sopro derradeiro.
Estes que pelo mar foram espalhando Sua visão de mundo e sua língua, Certos que toda luz aos poucos míngua...
Mas 'inda a ouvem cantar de vez em quando Os versos d'uma gente navegante, Que foi ao fim do mundo e mais avante.
Betim - 20 12 2017
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SOLFEJOS
Estes sons sem qualquer significado Além do serem sons e soarem bem, Têm me invadido o quarto e a alma também Vindos d'alguém algures acordado. A melodia qu'eu tenho escutado Não chegava a ser música, porém, Repetia-se como mais convém A quem do canto faz aprendizado: -- "Dó, ré, dó, dó, ré, mi. Mi, ré, dó... Seguia a solfejar na noite só. E, a batucar co'os dedos, eu ouvindo. A voz atravessava a escuridão E acalentava em plena solidão... Me vi quase chorando de tão lindo! Betim - 23 12 2017
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GENUÍNO
A par de dramaturgos e ensaístas, Tenho procurado ouvir-me a própria voz. E não os emular em versos sós No afã de figurar por fúteis listas.
Não me vejo ranqueado entre os artistas Que de antigas escritas sopram pós: Reescrevem a fazer pouco de nós, Furtando d'outros bem diante das vistas.
É como se escrever só fosse certo Após subir nos ombros d'um experto E, lá do alto, admirar nossas vidinhas.
Não importa se sou ou não de interesse; O que escrevo, correto me parece. Pobres as rimas? São ao menos minhas!
Betim - 23 12 2017
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ESPÓLIO LITERÁRIO
Deixo para depois da minha morte A ilusão de influenciar quem quer que seja. Resulte n'algum bem tanta peleja, Onde o desesperado se conforte.
Afinal hão-de seguir-me o esconso norte, Certos de que a verdade ali esteja. E, embora eu não mereça tal inveja, Muitos se alegrarão de tão má sorte!
Meus males serão bens de qualidade Àqueles que buscarem, por absortos, Aspectos de qualquer dourada idade.
Sem ter-de endireitar caminhos tortos, Outro exemplo da estranha realidade Da poesia viver de poetas mortos.
Betim - 22 12 2017
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CONHECENÇA
Mas como é bom rever a ponta aguda Depois de navegar por mar aberto!... Saber-me do canal de novo perto, Onde aos olhos cada angra se desnuda.
Pelos costões de pedra ir sem ajuda Até topar co'o cabo indescoberto. E em todo o litoral quase deserto, Reconhecer mesmo a ilha mais miúda.
Dos rasos de arrecifes e de abrolhos Passei ao largo pondo longos olhos Para avistar enfim a extensa costa.
Agora é só fundear a embarcação No estuário d'água doce d'um rincão Onde coisa nenhuma me desgosta.