Busca antes à vaidade que à verdade Aquele se coloca sobre todos, Embora com bravatas e denodos A jactar-se com grande propriedade.
Quem se dá excessiva liberdade, Tentando aconselhar de muitos modos, Não percebe por sobre seus engodos A espada por um fio de maldade...
Assemelha-se a Dâmocles no trono: Refestelado em luxo aqui e ali Como de tudo aquilo fosse dono.
Patético, dos outros zomba e ri. Até que horrorizado, quase ao sono, À espada vê pendente sobre si!
Betim - 12 12 2018
593
MANÍACO
Caminha pelas sombras, predador, Belo e mau como um lívido Satã. À caça de mulheres cujo amor Revelará mortal pela manhã…
Com efeito, as mais ávidas em flor Quedam hipnotizadas n'esse elã Que envolve todo grão conquistador Às voltas com orgia assim pagã.
Finge ser dos amantes o melhor. Porém, tão-logo as deita no divã, Parece confundir prazer e horror Pronto a lhes devorar a carne chã.
Sua ânsia de prazer só não é maior Que o apetite por sangue cujo afã O leva a conduzir ao seu sabor Às moças que seduz com lábia vã.
Deveras, a ocasião se faz melhor A sós na alcova… Pois, moral mal-sã Dá razão ao misógino valor Que ainda faz da vítima a vilã…
Matava indiferente do estupor, Fosse ela donzela ou cortesã… Em plena foda, ao gozo, em pleno ardor; Deixando-a inerte já sem amanhã.
Traz consigo, em memória do terror À guisa de troféu ou talismã D'elas alguma joia em seu favor, Quer fosse um camafeu ou cruz cristã.
E some… Sem deixar senão pavor. Após tomar a morte como irmã, Um maníaco em série matador Se mostra a insanidade mais insã.
Betim - 08 12 2018
121
NÓS COMO VÓS
Também nós temos sangue sob a pele -- Vermelho, não azul como sonhais... -- Mas, derramados, correm tão iguais, Que sequer se distingue este d'aquele.
Entre nós e vós, tal sangue enfim revele Menos as diferenças do que os ais E mostre que todos perdem mais Quando o afã de vitórias os impele.
Nós como vós havemos-de morrer, Andando n'esse mundo sem saber Aonde se vai dar com tanta briga.
O certo é respeitar a liberdade E sorrir sem ser dono da verdade Àquele que m'estende a mão amiga.
Belo Horizonte - 17 11 2018
582
ESTROBOSCÓPIA
Mostra-se quadro a quadro ou fotograma, Como que congelando o movimento. Somente a iluminar cada momento No instante que o lampejo se derrama.
Sequência de instantâneos cujo drama Põe entre claro e escuro um andamento. Onde o corpo à luz do pensamento Diverso espaço-tempo a si proclama.
Em longa exposição se lhe captura A trajetória toda n'um só plano, Fazendo o passo a passo da figura.
E se, por cinemático esse engano, Revelar-se inusual nomenclatura, Far-se-á tão-só de luzes outro humano.
Betim - 21 11 2018
593
CANTIGA
Eu amar-te, amiga, me tem sido D'uma alegria pura e insuspeitada. Guarda-tu para mim a asa quebrada, Visto eu arcanjo em sombras decaído…
Se canto co'o alaúde enternecido Cantiga que deixei inacabada, É antes porque a lua serenada Me faz velar-te o sono combalido.
Dorme, meu bem-querer, em dó menor. Não cuides já se a noite se estender N'essa pequena morte que é o amor.
Permite qu'eu me achegue a te fazer Doce acalanto ao sonho em meu ardor E ao fim, junto de ti, adormecer.
Betim - 12 02 1996
138
MALDITOS!
Quem são estes cuja luz fora apagada E, insones, têm nas noites seu refúgio, Atravessando em vão a madrugada?
Só querem ao poetar vago transfúgio Da vida d’esperanças comezinhas, Bem como contra o tédio subterfúgio?
Estes -- que vêm deixar nas entrelinhas Toda sorte de angústias autorais -- O que buscam por horas tão sozinhas?
Por que se fazem poetas? Por que mais Buscam tirar das letras o sublime, Senão por se sentirem sós demais?
Que furtaram aos deuses? Qual o crime Cometido na aurora dos milênios, Cuja pena a escrever nunca os redime?
Sem diferir se néscios ou se gênios, D’onde foi que obtiveram tal saber Que os obriga a versar entre proscênios?
Como estes que escrevem ousam ler Nas linhas d’horizonte um sol errático Por entre arranha-céus a amanhecer?
Como alguém -- entre excêntrico e lunático -- Gastando a vida inteira com escritos Despidos de qualquer sentido prático?
Malditos! Sete mil vezes malditos! Estes que têm os versos por oráculo Havendo além dos céus mais infinitos...
Malditos os que têm pelo vernáculo Um carinho de artista incompreendido, Que se imola no altar do tabernáculo!...
Dom às avessas!... Bênção ao inavido!... À margem das promessas e das glórias, Poetar é desdenhar o conhecido...
É saber inventadas as memórias Ou, de belas mentiras, a verdade Pretendida em suas vãs histórias.
Desastrólogos do alto! Sede, poetas, Malditos pelos séculos dos séculos, No augúrio de catástrofes completas!...
Vinde e vede: Reviram-vos d’espéculos As vossas cavidades buscando alma, Tal como fazem monges ‘inda séculos.
Terminais por viver tão-só o trauma Com que fordes há muito amaldiçoados Com nenhuma paciência e pouca calma.
Facto: Malditos porque mal falados. Porque muito mal lidos; mal descritos... Os bons? Somente os mortos, os finados.
Tantos a maldizer-nos os escritos: -- “Antiquados!! Herméticos!! Absurdos!!!” Ou sem nem ler (assim assim): -- “Bonitos...”
Se declamamos, fingem estar surdos; Se publicamos, fingem que são cegos; Um povo sem país igual os curdos:
Poetas... Filhos de sós desassossegos Sempre a vagar sem pátria e sem dinheiro, Indo sobreviver de subempregos;
Ou distante vagando, aventureiro, Que por entre as palavras em vão erra Sem nunca encontrar um paradeiro.
Hoje, até Ahasverus possui terra! No mesmo confim onde Israel governa E o ismaelita de novo se desterra...
Não os malditos... D’esses é eterna A caminhada errante vida afora Atravessando as noites na taverna.
Ali, já sem saber se ri ou chora, Senta-se e escreve em plena solitude, Alheio mesmo da hora de ir embora.
Eis dos poetas a glória e a finitude: Por fim, indiferentes se são lidos, Já nada nem ninguém ora os ilude.
E ainda que por todos combatidos Gargalham das desgraças do passado Enquanto as do presente nos ouvidos.
Mas por fim se revoltam contra o Fado, Quando entregues à própria escuridão Caminham co'a miséria lado a lado.
E, d’entre eles, eu: Com talento ou não, Arrasto estes meus versos qual grilhões, Sabendo-os meu tesouro e maldição.
Peno eu -- mais três ou quatro gerações -- Amaldiçoando todos no pecado Que nos predestinou junto aos vilões!
Deveras, parvo e obscuro antepassado, Pus minha iniquidade sobre os meus, Uma vez para sempre amaldiçoado...
Antes já natimorto entre os plebeus Que agora constranger-nos desde o gen Viver em guerra infinda contra Deus!
Como ignorasse d’onde a bênção vem, Sem temer me cobrir de pestilências... Maldito, escolho o mal e evito o bem.
Ao desdenhar de Deus suas violências Sobre mim e meus tristes descendentes É que busquei nos vícios experiências.
Uma vez condenado, ranjo os dentes Urrando contra as hostes celestiais E a multidão submissa de seus crentes.
Sim, vêm me perseguir feito animais: Tendo a marca de Caim -- homem de cor -- Com os filhos de Cam eu ergui baais!
Excluído do povo do Senhor, Sigo a errar d’outro lado do Jordão Como a face d’opróbrio e do terror:
Quem de longe me vê na imensidão M’escojura qual visse o deus Moloque Com chifres a queimar na escuridão!
E vem me apedrejar sem que o provoque Para que assim me afaste mais ainda, Pintando-me um demônio sem retoque.
Certo que minha culpa jamais finda, Aos olhos d’estes homens bons e justos Convém lhes evitar a terra linda.
Vagando nos desertos entre arbustos A medo de topar quem quer que seja E alerta de perigos e outros sustos...
Resta rogar a Deus, por onde esteja, Que me mate antes qu’eu, de todo aflito, Devolva ao mundo o mal que me deseja!
Só sei não ver justiça no infinito Expurgo de más culpas cuja pena Me faz eternamente ser maldito.
Turvando a vista pela tarde amena, Como encontrasse Deus um peito ateu Em ascensão por sobre a luz terrena.
Foi então, do profundo abismo, qu’eu Tive a visão do fim de tudo e todos Pós-que o sol trás-às-nuvens s’escondeu.
A noite fez-se eterna nos engodos D’um extremista, homem de bem ou ambos Para vencer por todos meios e modos:
Os narcotraficantes com escambos Mais os supremacistas pelas armas Contra negros, asiáticos ou jambos...
Seguem todos às voltas com seus carmas, Fomentando desastres para, enfim, Ouvir sete trombetas soando alarmas.
Fazem o escatológico festim: Em celebrações de ódio genocida, Urgem d’Humanidade o triste fim.
Rudes, vêm vomitar sobre a avenida Toda espécie d’estúpida revolta Tendo absoluto horror da própria vida.
Como fossem corcéis à rédea solta!... Como em carga de audaz cavalaria!... Vão levando violência à sua volta.
Irmanados na ardente primazia, Impõem enfim seus males a oprimidos Embora revestidos de ousadia.
Longe, escuta-se o pranto dos vencidos, Bem como outros tantos uivos e ais Já n’um clamor uníssono vertidos:
Partem agora para nunca mais As utopias d’uma terra justa Onde, sem males, todos são iguais.
Curvam-se a uma ilusão que nos assusta Pelo que nos pretende distinguir Por entre bons e maus à face augusta.
Senhores do presente e do porvir, Os bárbaros já uivam sob a lua E clamam por façanhas de se ouvir...
Jactam-se sobre gente seminua Que vaga pelas sombras da cidade... E acabara morando em plena rua.
Ameaçam, com toda a propriedade, Àqueles que muito pouco têm... Certos de que já donos da verdade!
Pois bodes expiatórios lhes convêm E as cabeças jogadas contra o asfalto Mal sobre seus pescoços se sustêm...
Avançam sobre o douto e sobre o incauto Céleres em calar todas as vozes, Nos mantendo em constante sobressalto.
Vão vindo como as hordas mais ferozes Sempre com mais exércitos por trás, Fazendo correr sangue feito algozes.
Com guerra, vêm impor-nos sua paz E após jogar na vala mais comum, Onde pouco importa quem lá jaz.
Milhões vociferando como se um Os mesmíssimos ódios e violências; Indo apressados p’ra lugar nenhum.
Esvaziaram as suas consciências Berram d'olhos vidrados para além, Indiferentes já às consequências.
Culpa de todo mundo e de ninguém, Co'as mãos sujas de sangue dizem ser Maldade contra os maus acto de bem...
Vêm em nome de Deus estremecer -- Frase após frase infeliz -- Amizades a ponto de as perder.
Clamam todos por Deus n'esse país! Como o Senhor amasse uns e outros não. Sem embargo, Ele nada faz ou diz...
Sim, Deus se cala face à escuridão Que s'estende por sobre a Terra inteira, E os homens abandona à danação.
Pois nega-se a negar a verdadeira Razão por trás de tais atrocidades, Queimando bons e maus pela fogueira.
Permite que a maldade nas cidades S'eleve finalmente como regra Acima de quaisquer necessidades.
Desunida, a Nação se desintegra N'um fundamentalismo evangélico Que ainda amaldiçoa a pele negra.
Dos generais, de novo o sonho bélico D'entrar em território fronteiriço Ou arrastá-lo n'um jogo maquiavélico.
Entrementes, o povo já submisso Tolera que se mate e se torture, Como fosse patriota tal serviço.
Mas homem com outro homem configure Uma abominação contra a Natura, Onde assassine ou exija que se cure!
E, evocando do Apóstolo a luz pura, Com Doutrina cristã e militar S'ensine nas escolas a Escritura.
Se mesmo contra Deus alguém ousar Ainda escrever seus versos satânicos Não deixe algum censor os apanhar.
Tempos mudam; as mentes, não... Tirânicos Os modos de calar a quem escreve, Enlouquecendo-o com cismas e pânicos.
No mais, nunca se julgue a pena leve D'este que sempre às voltas com escritos Tem p'ra si que longa a arte e a vida breve.
Poetas... Se no horizonte d'olhos fitos, É sabermos ter logo de fugir Ouvindo a multidão gritar: Malditos!
Betim - 06 11 2018
619
DE PÉS JUNTOS
Ele jurou. Não apenas pelos céus Ou nem "por esta luz que me alumia!"... E jurou "de pés juntos" -- qual dizia Minha finada avó por sob os véus.
Como o acusado n'um banco de réus Ou como o cristão-novo junto à pia. Verdade verdadeira, pois -- dir-se-ia -- A de doutor dar fé; tirar chapéus...
E, embora fosse laico o juramento, Evocava o Senhor todo momento, Por lhe fazer o Altíssimo fiador.
Ao final, convencendo tudo e todos, Traiu, mentiu e baniu de muitos modos, Distorcendo a verdade ao seu sabor!
Betim - 04 11 2018
611
O SUBVERSIVO
Apenas escrevia ele seus versos E se dizia um livre pensador. Talvez também sonhasse algo melhor Em utopias d'outros Universos.
Poucos liam-lhe os poemas por dispersos E menos d'ele ouviam o alto ardor. Ainda assim passou por corruptor De jovens por uns ditos controversos...
A Ordem clamada pela autoridade Acusou do mais vil charlatanismo Àquele que buscava só verdade.
Mas d'olhos expectantes face ao abismo Prefere antes a morte à liberdade Pelas mãos dos chacais do imbecilismo.
Betim - 28 10 2018
580
AMENIDADES
Sim, falemos do tempo, da cidade; Evitemos falar de tudo o mais... Passemos por dois superficiais Incapazes de ver qualquer verdade.
Tratemo-nos com grande liberdade, Fingindo-nos ao máximo normais. E a sorrir -- nem de menos nem demais -- Como se verdadeira ora a amizade.
Sem passado, presente e nem futuro Busquemos pelo assunto mais seguro N'uma hora de forçada convivência.
E depois, no momento de ir embora Ao nos acompanharmos para fora Esqueçamos-nos já por conveniência.
Betim - 27 10 2018
527
POUCAS E BOAS #PoesiaSim
Se eu disser umas verdades Talvez m'escutem ou não. Quem pediu minha opinião? Como ter tais liberdades Em tempos de incompreensão?
Posso estar errado em tudo, Mesmo assim ouso falar A quem não quer escutar. Mais errado é ficar mudo Ou fingindo concordar:
-- "Distinguir entre nós e eles Prejulgando bons ou maus -- Ou pior -- pondo em degraus: P'ra lobos por sob as peles Justiçar-nos com calhaus!"
"Qual o lado dos sem lado? Dos que, como eu, não s'entendem Juízes do que não compreendem? Enquanto, sem certo ou errado, Muitos aos grandes se vendem..."
"Qual a razão do Irrazoável Que desconhece o respeito? Que bate no próprio peito E jacta-se respeitável, Mas dispara preconceito!..."
"Qual o sentido d'esse ódio Contra quem lhe é diferente? Não parece um presidente... Parece querer o pódio De opressor de sua gente:"
"Começa, a sua limpeza, Em matar "uns trinta mil"... Assim, obtuso e febril, Pondo as cartas sobre a mesa, Se assenhora do Brasil!
"Sim, por Ordem e Progresso, Declarar já terroristas Militantes e activistas... Por fim, fechar o Congresso E torturar esquerdistas."
"Vistas grossas aos perigos De se opor grei contra grei... Eis na República um rei: Se tudo para os amigos, Aos inimigos, a lei!"
"Assim descamba a violência Nos quatro cantos do país. Os pobres, feitos servis, Dobrados sem resistência Pela estultícia dos vis."
"Os artistas, perseguidos; Os intelectuais, vigiados; Os jornais, intimidados; Todos já embrutecidos, Divididos em dois lados..."
"D'um lado os homens de bem, D'outro, os outros (nós?) do mal... Desde quando ser normal Ter medo -- e raiva também! -- D'um governo federal?..."
Eu -- que em lados jamais creio -- Dou a estes versos um fim Que falem melhor de mim... Escolho o lado do meio: Ele não... Poesia sim!