RicardoC

RicardoC

n. 1976 BR BR

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

n. 1976-05-01, Caratinga

Perfil
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UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
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Biografia
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Poemas

184

EU SOU O UNIVERSAL - Crônicas d'Anteontem

Digo e repito: Após dois mil anos o Deus cristão envelheceu. E sou humilde o bastante para admitir que tal constatação sequer é minha, mas do poeta Guerra Junqueira, ainda nas brumas do novecentos. Aliás, preferiria fazer dessa crônica uma releitura honesta dos poemas de Guerra, o que provavelmente enriqueceria o leitor. Contudo, forçado a destrinchar esse Credo às avessas que proferi recentemente, premio o leitor com algumas páginas de reflexão enmimesmada sob o olhar raivoso de crentes e a esguelha desconfiada de não-crentes. Não que eu não acredite em Deus -- o cristão ou outro. Ao contrário, torço para que exista. Admito que muito me conforta ser grato a esse amigo talvez imaginário quando algo dá certo e poder evocá-lo em meu favor quando dá errado, mas é preciso admitir que a ideia do Deus uno-e-trino da doutrina cristã parece ter se desgastado a ponto de não fazer mais sentido na intelectualidade ocidental. E a culpa, mais do que da secularização da sociedade, é sobretudo das instituições religiosas que se denominam cristãs. Religião já teve a função de moralizar os costumes e dar um sentido maior para a existência humana. Hoje em dia, parece apenas um esforço pragmático por poder, seja econômico; seja político. Incapazes de olhar para as contradições da própria doutrina quando confrontada com os conflitos e emergências da pós-modernidade, religiosos simplesmente se esquivam de pensar.

Mas, e daí? Bem, eu tenho andado obcecado faz alguns anos pela ideia de "ordem social". Sim, aquela irmã do "mercado" smithiniano cuja mão invisível nos oferta, dia após dia, víveres bem diante de nossos narizes sem que uma grande e complexa estrutura estatal actue nos bastidores da coisa. Irmã bastarda, reconheço, visto que falem tão pouco d'ela, a ordem social sintetiza uma ideia ainda mais impressionante, a saber, como milhões de seres humanos convivendo face a face na exíguo espaço d'uma mesma cidade conseguem não se trucidar. Se não convencem boas intenções ou livros de autoajuda, tampouco vão adiantar visões positivas sobre a índole (o coisa que o valha) d'esse animal excepcional que é o homem em sociedade. Para a compreensão de tal fenômeno urbano, é possível se perceber duas grandes fontes de normatizações pré-modernas que estabeleceram os parâmetros para uma "cultura da ordem social": O poder secular e o poder temporal. N'outras palavras, diante dos conflitos e injustiças do dia a dia (que incluem a convivência muito próxima de fome, miséria e ignorância com luxo, opulência e expertise), as regras que são incutidas nos corações e mentes das pessoas evocam "Poderes Maiores" capazes de punir quem decide sair da linha. Com efeito, se todo injustiçado decidisse responder com violência ao querelante, teríamos banhos de sangue nas ruas, não automóveis.

O Estado pune o violento e, se este falhar, Deus punirá. Bem, ao menos essa era a lógica do sistema: Seguir as regras para que todos consigam conviver ainda que ofendidos e incomodados pelas impertinências do próximo. A ordem social, portanto, é baseada no temor ao Estado e no amor a Deus. Seguimos as regras para evitar sermos submetidos pelo "monopólio da violência" que o Estado com suas forças armadas e policiais impõe e procuramos "agradar a Deus" (ou, para além da tradição ocidental, os deuses) na esperança que repetidos sacrifícios, orações e ritos O sensibilizem para nossa condição de seres humanos. Em larga medida, tudo o que fazemos para viver em sociedade depende de regras definidas pelos poderes estabelecidos pela colectividade, neste mundo e no outro.

O problema é que não parece ser o bastante, haja vista que a felicidade e o sucesso pessoal parecem independer do seguimento honesto de tais regras. E, sendo a sociedade um agrupamento de indivíduos focados em suas necessidade e vontades, a ideia de sacrificar o próprio bem-estar ou sanidade em nome do bem comum (nos termos do que as autoridades assim o consideram) soa simplesmente absurda para as pessoas hoje em dia. O Deus de Jesus Cristo, após acompanhar e abençoar a progressiva expansão dos valores culturais -- a ferro, fogo e vil metal -- do Ocidente mundo afora, chega ao terceiro milênio envelhecido, quase senil. Escrevo não para causar espécie (não apenas, ao menos), mas sim para admitir que mesmo que Sua importância no imaginário colectivo ainda seja perceptível, ninguém mais em sã consciência tem medo de ir para o Inferno bíblico. Por outro lado, se a esperança do Céu ou do Paraíso persistem, ninguém parece estar disposto a fazer muito mais que confiar no amor de Deus para se safar do julgamento de seus hábitos, actos, palavras e pensamentos. Mesmo os ortodoxos -- que, admitamos, são uma minoria quase folclórica -- não resistem ao cinismo para confrontar suas crenças religiosas com as práticas da sociedade secularizada.

Se a velhice de Deus é resultado de dois mil anos de espera na conclusão do cumprimento das Escrituras com a Encarnação do Verbo Divino em Jesus Cristo, Sua senilidade é percebida com a incoerência d'aqueles que exigem Sua presença no mundo, via de regra, por meio das armas e do dinheiro. O que assistimos no mundo, sobretudo a partir de dois mil e um, não é uma odisseia no espaço, sim uma guerra contra o terror. Religiosos ressentidos com a secularização da sociedade decidiram aterrorizá-la ao invés de revisar sua doutrina e e dialogar com não-crentes. Saliente-se, porém, que o fundamentalismo não é um privilégio de muçulmanos, mas ainda um movimento reaccionário também perceptível em grupos de orientação judaico-cristãos, cuja resposta para qualquer questão contemporânea ainda é restrita aos seus livros sagrados. Mais uma vez na História, em nome de Deus, religiosos apresentam um projeto de poder e se organizam para nos governar com o discurso de que são sumamente honestos diante d'um sistema político-estatal corrompido. Não explodem bombas (ainda...), mas perseguem com violência as religiões afro-brasileiras e o catolicismo sincrético, além de abençoar veladamente a barbárie contra minorias LGBT.

Definitivamente, os religiosos do terceiro milênio não são santos! Longe d'isso: São empresários do entretenimento e do jornalismo que mergulham a opinião publica n'uma sensação de urgência constante e artificial. No império das certezas, há pouco ou nenhum lugar para a reflexão, apenas para a acção. Seus jornais, filmes, telenovelas e mesmo propagandas manifestam esse contínuo empoderamento para enfrentar o mundo.

E Deus, se existir, está vendo isso tudo, velho e senil...
161

BISMILÉSIMOS ANOS

Embora não findasse ainda o mundo,
Os anos que seguiram ao dois mil
Viram o transtornar quase febril
Do terror mudar tudo n'um segundo.

O ódio nos corações se fez fecundo,
Mostrando-se ora fútil; ora vil.
Mas Deus envelhecera... E já senil
Evocam-no do abismo mais profundo.

Sim, mais do que vigias p'la manhã
Esperaram p'la aurora do Milênio
Que se mostrou ao fim um tanto vã.

Quando mal se difere o tolo e o gênio
É porque toda esperança jaz mal-sã
Frustrada em meio aos fogos do proscênio...

Betim - 06 05 2018
340

AS PAZES (fado)

Sei que não sei evitar
Teus olhos vorazes.
Mas, se quiseres voltar,
Faz-me como fazes:
Amando-me após brigar,
Façamos as pazes.

Ama-me com tal furor,
Que quando te fores
Te guarde saudade, ou pior:
Eu caia d'amores!...
E ao voltares, sem pudor,
Já te aceite as flores.

Fala-me assim envolvente,
Qu'eu nada te nego.
Cala-me mais frequente
Em teu aconchego.
Vem e serás tão-somente
A quem eu m'entrego.

Sei que não sei evitar
Teus olhos vorazes.
Mas, se quiseres voltar,
Faz-me como fazes:
Amando-me após brigar,
Façamos as pazes.

Betim - 05 05 2018
351

DEVERAS

Seus olhos reluzindo o entardecer
Davam-lhe uma beleza quase triste,
-- Se é que, deveras, algo assim existe
E, mesmo se existir, se possa ver... --

Talvez lhe contemplasse sem saber
Que algo triste no belo 'inda persiste
E mesmo que sorrisse d'algum chiste
Não lhe perceberia um bem sequer.

Estando o belo e o triste pouco distos,
Talvez não fosse nada de estupendo
A luz n'aqueles olhos tão benquistos.

Deveras, tal tristeza ali havendo,
Não estava em seus belos olhos vistos,
Mas antes em meus tristes olhos vendo.

Betim - 04 05 2018
350

MIGO COMIGO

Tenho o estranho costume de sozinho
Falar comigo mesmo a pensar alto.
Talvez porque emoções vindas de assalto
Deem voz ao sentimento em desalinho.

Talvez, em solidão, de mim mesquinho.
Ou ainda extravagância d'um incauto...
Verbalizar-me ao abismo n'outro salto,
Que de mim sobre mim faz descaminho.

Assim -- meio neologismo; meio pleonasmo:
Migo comigo, ou seja, enmimesmado
E em autocompanhia ante o marasmo...

Chamem como quiser!... O mais errado
É nunca a si falar para se ouvir
Exacto o que lhe está a consumir.

Belo Horizonte - 19 10 2005
374

REMORSOS

Se alguma utilidade têm os erros,
Está no evidenciar a imperfeição...
Tem consciência da própria condição
Quem vaga taciturno pelos serros.

Na noite mais escura anda aos berros
Em busca da impossível redenção.
D'um abismo a outro, ecoa em cantochão
O lamentar uivante dos desterros.

As pegadas que deixa pela terra
São as mesmas que todo aquele que erra,
Indo sem saber onde e sem porquê.

E os recordos d'escolhas infelizes
Leva consigo feito cicatrizes
Ao vazio que em seus olhos se vê.

Betim - 30 04 2018
358

A CIDADE AO MEU REDOR - Crônicas d'Anteontem

De repente paro no canteiro central da avenida e me sinto rodeado pela cidade. Como se desperto de um sono conturbado, deixo de seguir o fluxo que me impelia a seguir em frente. Paro e observo. Rostos desconhecidos passam por onde também eu acabei de passar: "Eu fora mais um" -- pensei comigo -- enquanto lidava confuso com meu súbito despertar. Carros vêm e vão pelo asfalto sinalizado enquanto a sombra dos edifícios se projeta sobre os largos. Escurecia aos poucos e havia pressa, muita pressa, em tudo e todos que passavam por ali. Apenas eu estava parado.

Embora não fizesse sentido minha hesitação -- se é que se podia chamar de hesitação àquela actitude -- decidi não retornar ao caminho imediatamente. Ao contrário, deixei que o bulício da cidade me envolvesse n'um estranho abandono contemplativo. Era interessante ver a pressa dos outros em contraste com minha apatia, como se eu tivesse conseguido me colocar à parte d'aquela realidade e fosse capaz de percebê-la sem a sentir em mim. Eu era um observador, mas o que observava? Fosse outra a situação, decerto projetaria sobre a cidade em movimento novos espledores e peculiaridades. Mas, não. Tampouco me coloquei ali como cientista social a descrever conflitos urbanos ou como publicitário de agências de viagens para apregoar as excelências do lugar. Humildemente, estava ali com minhas inquietudes e misérias a reconhecer-me no anonimato de cada pessoa que passava, de cada auto que trafegava. Distinguia-me apenas por não ter pressa de sair d'ali. Há quem defenda que o ser humano tenha aversão ao vazio e, por isso, se ocupe em inventar adornos de bom gosto ou histórias tranquilizantes para cada vão percebido no espaço que habita. A cidade ao meu redor, porém -- cenário de existências comuns -- talvez escape d'essa avidez em dar sentido a tudo que caracteriza a existência humana. Ao contrário, tudo o que vejo é a lento decantar de ações humanas n'um lugar que é antes resultado que intenção. É como a poeira que o movimento constante agita indefinidamente por quilômetros até pousar sobre o concreto e encardi-lo, pintando de cinza escuro todas as superfícies aparentes e apagando todas as marcas individuais capazes de indicar pessoalidade: Monumentos, publicidades, pichações, ornamentos, sinalizações, paisagismos... Qualquer esboço de assinatura de pessoal que tente se impor ao olhar coletivo é continuamente coberto e recoberto pela pátina acinzentada de minúsculos sólidos em suspensão.

Percebo que a cidade resiste a ser obra de indivíduos, apagando nervosa os traços d'este ou d'aquele em sua tecitura. E toda arquitetura e todo urbanismo e todo paisagismo são, no fundo, tentativas meios desesperadas de criar o extraordinário da arte dentro do ordinário da vida metropolitana. O espalhafatoso, o confortável, o dispendioso e o elegante são jogados no espaço urbano no afã de fazer com que o citadino abra seus olhos diante da paisagem quotidiana, mas, sobretudo, são jogados ali para se fazerem assinatura d'um indivíduo cercado por oceano de anônimos. Debalde: Assim como a poeira homogeniza a cidade com seu cinza-carvão, também o olhar cansado do cidadão apressado em deixar a metrópole ruidosa o faz insensível ao diferente. Ninguém enxerga nada.

Essa incapacidade de beleza, essa estoica afirmação do funcional e essa negação contínua do individual me exasperavam às vezes: A cidade ao meu redor não é bela senão enquanto paisagem vista de longe. Não é bela aqui n'essa esquina escura cercada de prédios altos e cinzentos. Sem embargo, dou-me conta que essa impessoalidade é mais justa e realista que a assinatura de algum mestre do desenho. Sim, a cidade ao meu redor é matéria modelada por milhões de pés e mãos, não pelo gênio de um só. Quem quiser ver a arte do indivíduo, não será aqui. Ei-lo: O prédio colorido e ousado que causou espécie em minha juventude hoje passa quase desapercebido após envelhecer como eu... Mal se distingue dos demais para evocar qualquer lembrança de seus ideadores. Está ali, mas não estava até eu parar para vê-lo coberto pela mesma poeira cinza que o fez semelhante ao cubo de concreto armado que lhe ladeia.

É esse espetáculo do indistinto que a cidade ao meu redor me oferece. Eu me sento na guia da calçada e aplaudo.

Belo Horizonte - 20 04 2018
157

LAMPEJOS

Eu pouco a pouco volto à realidade.
Ao acordar, lamento antes o sonho perdido,
Que o sono bruscamente interrompido:
Sim, outra sensação pela metade...

É bem como se alguma alteridade
Se colocasse diante do sentido
E me perdesse vago em meio ao Olvido,
Ao quase revelar d'uma verdade.

D'olhos abertos, cerra-se minh'alma.
Permanecem imagens interiores...
Talvez reminiscência ou mesmo trauma.

Já segue o quotidiano e seus rigores.
Ainda qu'eu, por sob a face calma,
Passe o dia à procura d'esplendores.

Betim - 26 04 2018
340

SÍRIO-LIBANÊS

Quando a guerra tornou-se realidade
Despatriar-se foi a única saída.
Por ironia, quem lhe deu guarida
Chamava-lhe de "turco"... Na verdade,

Tomaram d'ele até a identidade
Para que então seguisse sua vida.
Aqui, a sua guerra foi vencida
No trabalho, não na insanidade.

Hoje em dia, no campo damasceno
De novo vê-se a guerra e seu veneno
Como há séculos tem acontecido.

Entretanto, tamanha é a mudança
Que essa terra que fora d'esperança
Também agora o deixa desvalido.

Betim - 25 04 2018
324

LUSO-BRASILEIRO

Assim como a cor d'olho não colore
Aquilo que se tem à sua frente,
Tampouco a cor da pele ao que se sente
Altera o quanto ria e o quanto chore.

Não me queiram, portanto, que deplore
A língua como força d'essa gente
Na voz de quem não cala e não consente
E à luz de quanto a mente rememore.

Ao contrário, mestiço que sou eu,
Reconheçam pela híbrida linguagem
O vernáculo audaz do verso meu.

Pois certo de que não tão bom selvagem
-- Cujo belo paraíso se perdeu... --
Transmito mais além minha mensagem!

Betim - 24 04 2018
334

Comentários (5)

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Luciana

Lindos poemas ,meu caro!

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

EDUARDO POETA

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

bom vê-lo por aqui

natalia nuno

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!