O macho adulto branco anglofalante Tão claramente enxerga o mundo todo, Que pouco ou nada toca de seu lodo, Enquanto lhe consome especulante.
O lucro -- funcional ou exorbitante -- Lhe alimenta os instintos, sobremodo Quando sabe vender algum engodo, Cuja cotação muda a cada instante.
O mérito, decerto desde o gene Traduz-se na indecência tão solene Da fortuna de séculos qu'ele herda.
Pois, se o sucesso mede-se em dinheiro, Tão claramente enxerga o mundo inteiro, Que pouco ou nada toca de sua merda.
Betim - 17 04 2018
287
AFRO-AMERICANO
Terra da Liberdade, a Norte-América Tornou republicana a escravidão: A todo "homem de cor", honesto ou não, Fez a face da lei sempre colérica.
A livre iniciativa, algo quimérica, Se lhe parece ao fim a exploração D'esse país que se crê grande nação, Embora a negra face cadavérica...
A África qu'ele traz em sua pele E a América qu'ele tem por sob os pés Inconciliáveis são aos olhos d'ele.
Mas, a um só tempo síntese e revés, A sua resiliência lhes revele, Da História dos vencidos, o outro viés.
Betim - 23 04 2018
350
FRANCO-CANADENSE
Desenharam um país de costa à costa à revelia então de quem se importe: Era a província entregue à própria sorte, Enquanto d'além-mar buscam resposta...
A paz que pelas armas foi imposta Por britânicos e yanques lhe conforte Se nem a independência e nem a morte à suave flor-de-lis por fim desgosta.
O grande norte branco se conquista A partir da corrida imperialista à Passagem Noroeste indescoberta!
Mas a gente que estava no caminho Em face de interesse tão daninho Da própria identidade viu-se incerta...
Betim - 22 04 2018
350
GRECO-ROMANO
Os deuses se confundem nas histórias Dos povos que se fundem n'um só povo: O vencedor se vê como o renovo Capaz de reviver antigas glórias.
De modo que se veem premonitórias As conquistas do velho para o novo... No afã de descrever tudo de novo, E ao fim prevalecer por tais vitórias.
A civilização assim transita D'um povo que melhor se lhe acredita Para o povo que maior se compreende...
O que resulta d'isso, por cultura Se divulgue em vã nomenclatura, Face àquilo que mítico s'estende.
Betim - 19 04 2018
383
JUDAICO-CRISTÃO
O Deus de Judá reina sobre a Terra Como se uma consciência colectiva!... E o respiro de cada coisa viva, Creem que de seu espírito algo encerra.
Deus d'exércitos sim; Senhor da guerra, Em seu nome vêm ter com mão ativa Os corações e as mentes à deriva, Indiferentes se Ele existe ou se erra:
A ferro e fogo, todos os gentios Fizeram batizar em turvos rios Como fizera Cristo entre os judeus.
Foi assim que passadas eras plenas Ao deus desconhecido, desde Atenas, O Ocidente O elevou a único Deus...
Betim - 18 04 2018
344
ANGLO-SAXÃO
O macho adulto branco anglofalante Tão claramente enxerga o mundo todo, Que pouco ou nada toca de seu lodo, Enquanto lhe consome especulante.
O lucro -- funcional ou exorbitante -- Lhe alimenta os instintos, sobremodo Quando sabe vender algum engodo, Cuja cotação muda a cada instante.
O mérito, decerto desde o gene Traduz-se na indecência tão solene Da fortuna que há séculos ele herda.
Pois, se o sucesso mede-se em dinheiro, Tão claramente enxerga o mundo inteiro, Que pouco ou nada toca de sua merda.
Betim - 17 04 2018
449
OS OUTROS - Crônicas d'anteontem
OS OUTROS
Sim, agora que estamos apenas nós aqui, podemos falar d'eles: Coitados, tão estúpidos... tão simplórios... tão idiotas... Nós, que não somos como eles, é que sabemos a verdade! Como eles não sabem? Quando vão se calar e fingir que concordam conosco? Afinal, temos méritos intelectuais inquestionáveis e sistemas filosóficos inteiros! E eles, oras!...
Quem eles pensam que são? Eles pensam? Doutrinados que foram para repetir frases feitas e acreditar em historinhas infundadas!... Ao contrário de nós, que temos verdades sólidas e perfeitas, mas, justamente por isso, universais: Servem para tudo e todos! Ai d'aqueles que não entendem!... Como podem se cegar diante dos factos que elencamos e, sobretudo, da força de nossas convicções?! Até quando serão escravos de ideias alheias? Até quando se submeterão às ideologias apressadas ou aos maniqueísmos primários que os líderes vociferam continuamente?! A propósito, seus líderes: Que ridículos! Matéria para caricaturas! Contradições ambulantes, tangem feito gado a massa buliçosa...
Que espetáculo patético! Quanta manipulação interessante-interesseira! Quantos pseudo-pensadores!!!
Os outros estão lá e nós aqui. Entre iguais, falamos e somos compreendidos: Todos como um! Democracia?! O exaustivo debate com quem só escuta a si mesmo e contra-argumenta lugares comuns me esgota: Falar, discutir, parlamentar... É inútil! Muito mais produtivo impor nosso ponto de vista e eliminar as contradições, internas ou externas.
O curioso é que, saindo d'aqui, nos misturamos... Na multidão da metrópole, parecemos todos iguais: As cores simbólicas dão lugar às roupas do dia a dia. Difícil dizer quem é isto ou aquilo: Coexistimos.
E, embora não concordemos em quase nada, nossa humanidade nos exige ao menos a consciência de nosso destino comum, isto é, a morte. Ah, que excepcional a condição humana... Não basta aos homens morrer: É preciso viver tendo consciência de quão breve pode ser a vida!...
Talvez não sejamos, nós e os outros, tão diferentes assim.
Mas, o que estou dizendo? Onde estão os nossos princípios? Onde estão os nossos hinos e bandeiras? Onde as nossas palavras de ordem! Não devemos baixar a guarda jamais!
Pelas palavras ou pela força, venceremos!
(Mesmo que vitória provisória à espera da próximo entrevero...).
Betim - 15 04 2018
324
AURA EXTENSA (sextilhas)
Estender-se no que se tem Faz um homem maior do que é -- Quer lança que estica além O braço e mais longe até; Ou alavanca que, com fé, Movesse o mundo também.
Assim, n'aquilo que se usa Todo ser s'estende todo: É cheiro que impregna a blusa; É calor em pleno denodo A arder em torno, de modo Que a aura nas armas inclusa!
Como se a pessoal energia Em vibrações oscilantes S'expandisse, todavia, Pelas coisas circunstantes Para além do que eram antes Pois pessoais em demasia.
Visto demasiado humanas As coisas depois de usadas: Se a princípio mundanas, Pelo corpo desgastadas São enfim humanizadas À luz d'auras soberanas.
É chamado de "aura extensa" Este estender-se do ser Nas coisas a que dispensa Um extremado prazer Ou as agruras do afazer Por sobre a matéria densa.
O imaterial na matéria Como restos da existência, Sua opulência e miséria Confessa na permanência Uma presença na ausência Durante a ação deletéria.
E a vida que ali resiste Depois que a vida se deixa É a memória que insiste, Indiferente da queixa Que em meio às flores enfeixa Lamúrias d'um luto triste.
É a verdade da vida Que se nega ao vão d'Olvido! É, talvez, a despedida N'um detalhe percebido Pelo coração partido Diante de sua partida.
É a luz que permanece Depois que o sol já se pôs. E, pouco a pouco, anoitece Nos versos que se compôs Quando -- filhos, pais, avôs... -- O homem dos homens esquece.
É, enfim, tudo que se haura Expresso em luz e revolta, Enquanto a mente desaura N'um clarão à sua volta O ser que de si se solta Quão extensa for sua aura...
Betim - 16 04 2018
400
PERTENCES (vilanela)
Algo que permanece d'aura extensa Como a essência invisível dos objetos, Cujo longo uso indicam-nos pertença:
Além do que se faz ou que se pensa De nós em nossos gostos prediletos, Algo que permanece d'aura extensa.
Desgastadas relíquias d'uma crença, Onde os dedos premiram, inquietos, Algo que permanece d'aura extensa.
Alguma fé absurda mas imensa, A fazer-nos abstratos mais concretos... Algo que permanece d'aura extensa.
Os óculos, a pena, o terno, a prensa... Visto de humanidade já repletos, Algo que permanece d'aura extensa.
Em tudo que estivemos nós completos, Quando da ausência, seja-nos presença Nos ressignificando em amuletos, Algo que permanece d'aura extensa...
Betim - 15 04 2018
394
BRAVÍSSIMO!
Queres aplausos? Não os tenho. A árvore de louros secou... Escreves tu com arte e engenho Poemas que o século ignorou.
Poeta, o teu século passou! Baldo é poetar com tanto empenho: A árvore de louros secou... Queres aplausos? Não os tenho.
Poeta, o teu século desdenho: Ouro de tolo, enferrujou... Baldo é poetar assim ferrenho: A árvore de louros secou... Queres aplausos? Não os tenho.