Vontade d'expressar tudo sem falar nada E n'algo inconsequente, igual um soco no ar, Pôr tamanha energia onde fosse esmurrar As fuças do sujeito atrás da papelada!...
Sem embargo, traduza a minha dor calada N'um acesso tão amplo quanto sem lugar... Como protesto eu fique a lhe gesticular Com fúria me chispando ainda a má mirada.
Pareça-lhe agressivo ao passo que, agredido, Consigo me indignar n'esse gesto incontido Contra quanto me cala e me oprime e me aliena.
Eu, todavia, expresse algo quase inumano Como explodisse então, pouco republicano, Sem lhe verbalizar sequer palavra plena...
Das entranhas lhe vem estranha fome Que lhe consome toda a sua carne. Frêmitos de sentir-se à flor da pele Lhe agitam os desvãos da vaga mente Ao perceber-se entregue ao próprio toque, N'uma exploração húmida em si mesma.
Os dedos que percorrem a alma mesma Têm no êxtase o saciar d'aquela fome Certa de que, no corpo, o ser se toque. Assim, a aura que envolve a nua carne Revele-lhe os recônditos da mente Em seu dedilhar de harpas pela pele.
Exsude todo o ser por sobre a pele E, entorpecida, saía de si mesma No alheamento de quanto tinha em mente. Autófaga, de si sentia fome... Era o saciar da carne pela carne Ao s'entreter consigo em suave toque.
Das entranhas se vê estranha ao toque Que lhe provoque ardor em toda a pele E lhe revele a si apenas carne... Não obstante, perceba-se ela mesma Como fome de si a sua fome A ponto de absorver de todo a mente.
Incerta se de pele ou se de mente Sua explosão de si àquele toque; D'ela trazer consigo tanta fome. Incerta se de mente ou se de pele, Resta-lhe conhecer-se ora a si mesma No afã de se sentir na própria carne!...
Entenda-se na fome em sua carne, -- O que for: seja pele; seja mente -- Ser ela toda ao toque d'ela mesma.
Betim - 13 04 2018
424
A BANHAR
O bulício das águas contra as lajes Ao descer os degraus da corredeira... Aonde eu te levei por companheira A nos havermos sem pejo nem trajes.
Não importa por onde ou com quem viajes, Jamais encontrarás igual ribeira! Tampouco te verás, aventureira, Tão mais longe dos vis e seus ultrajes... Onde toda a nudez jaz inocente E mulher e homem são naturalmente Dois bichos a banhar-se em pleno cio. Guarda no coração aquela tarde, Cujo recordo ainda em desejo arde Meu corpo sob as águas d'esse rio. Santana do Riacho - 12 10 2012
509
DON'ANA (sextilhas)
Era uma mulher do lar; D'aquelas para casar E que se quer sempre sua. Que sabe bem seu lugar, Pois, tem recato no andar Quando passa pela rua.
"Don'Ana" tinha por nome E um desejo que a consome Desde que bem pequenina: Senhora sem sobrenome, De ser alguém tinha fome Pois para tal se destina.
Noiva, era muito feliz, Tendo tudo o que quis Porque sempre do seu lado. Por fim, para todos diz: -- "A minha sorte eu que fiz, Depois de tê-lo encontrado..."
Sim, entre quatro paredes, Ei-la sem sedas e suedes Em face d'ele despida. E cheia de fomes e sedes, Tal como sereia nas redes Deixava-se ser possuída.
Era no mundo uma dama, Mas uma puta na cama, Tendo-se melhor mulher, Do que quem no mundo puta E na cama só computa O quanto ou quando querer.
Mas, para sua surpresa, Era bem da natureza Do seu noivo, de primeiro, Na mais pura safadeza Após deixar a princesa, Ir pernoitar no puteiro:
Contam à boca pequena A alguma vaga morena As visitas do seu amor... Que sentiam até pena Da noiva que ele apequena Por não se lhe dar valor.
Que não o deixava em paz, Dando-se como lhe apraz E quando se lhe convém. Vivia lhe andando atrás... Mas, tanto fez; tanto faz: Logo há-de passar também.
-- "Don'Ana é quem é Senhora!" -- Diziam cidade afora -- "As outras, só vêm e vão..." D'ele mais s'enamora Havendo em conta que mora Dentro do seu coração.
E, mais dia, menos dia, Quem se deu tal ousadia Mal s'engana de que a engana. Há-de vê-la, todavia, Desfilando fidalguia: -- "É aquela que é Don'Ana!"
Belo Horizonte - 10 04 2018
420
CARÍCIAS (vilanela)
Amemo-nos sem pressa, suavemente, Ainda que a cidade a todo instante Se faça com mil sons sempre presente.
Olhemo-nos nos olhos, frente a frente: Tudo há-de acontecer ao teu talante... Amemo-nos sem pressa, suavemente.
Busquemos o sorriso mais contente, À espera que o prazer no peito arfante Se faça com mil sons sempre presente.
Porque doce é o amor quando se sente O rosto aberto em gozo d'uma amante: Amemo-nos sem pressa, suavemente...
E, alheados do que tínhamos em mente, Teu corpo no meu corpo d'oravante Se faça com mil sons sempre presente.
Assim talvez o amor -- tão inconstante... -- Se faça com mil sons sempre presente Até que em nós o gozo se agigante!... Amemo-nos sem pressa, suavemente...
Belo Horizonte - 10 04 2018
421
UBÚNTU
Não adormeças sobre os teus anseios, Tampouco deixes sonhos embotados. A solidão ligeira faz passados Os princípios e os fins quando sem meios.
Andaste tu perdido em devaneios A ver como se d'olhos já vendados... Não julgues de antemão desencontrados Tanto os desejos teus quanto os alheios.
Desde que o mundo é mundo, as pessoas Têm para si razões sempre tão boas Que nos outros não veem senão conflitos.
Se, contudo, a verdade se partilha Crescer co'os outros é a maravilha Que faz os nossos dias mais bonitos.
Belo Horizonte - 05 04 2018
347
EM SÉPIA
Atravessava o largo sob garoa Abrigado de chapéu e sobretudo. Quando, entre surpreendido e mudo, Em sépia figurou sua pessoa.
Sim, um clarão vermelho lhe destoa O reflexo dos óculos. Contudo, Causava espécie o rosto 'inda desnudo Onde um jovem artista se apregoa.
Registo d'um momento interrompido, Apenas d'entretons foi colorido Na exposição do filme àquela luz.
Mas a imagem fixada mais provoca Pelo monocromático que evoca Bela época a que dândis fazem jus.
Betim - 06 04 2018
434
POR ENGANO
Cumprimentou-me sem saber quem era. Acenava, sorrindo-me sem graça. Há tempos não o via e n'uma praça Calhou de reencontrá-lo: --"Besta-fera!..."
Com efeito, das brumas da quimera Retorno balbuciando uma chalaça. E, antes que da surpresa se refaça, Pede-me um adjutório e fica à espera.
Recordo-me do amigo qu'ele fora No tempo qu'eu o tinha como amigo E da distância havida vida afora.
"Mas que cara de pau!" -- pensei comigo -- "Nem se lembra de mim". Digo-lhe, embora: -- "Perdão, foi por engano." -- e fui embora.
Belo Horizonte - 25 03 2018
327
EM FALSO (décimas)
Há quem se faça de bobo, Fingindo-se o que não é. Cordeiro em pele de lobo, Deseja a fama de probo Como se digno de fé. Mas, demasiado pedante, Fala do que não entende. Mais do que é se pretende, Visto o seu ego gigante Face às luzes que acende.
Por inteiro interesseiro, Aplaude a ser aplaudido. Lobo em pele de cordeiro, Nas letras busca dinheiro E um nome a fugir d'Olvido. Sem embargo, é infeliz Em tudo aquilo que escreve: Frases de incerto cariz Mal dissimulam as vis Intenções que sempre teve.
Do nada ele me procura Já se dando liberdade: -- "A mim parece loucura Tua intrigante figura Dizendo não ter vaidade..." Sabendo-o querer barulho A ele, respondo sem dó: -- "Deveras, muito me orgulho... Da minha falta de orgulho Haja vista ser eu pó".
-- "Se uns pecam por ser demais, Outros, por querer de menos..." Argumenta em tons desleais No afã de parecer mais Face a meus olhos serenos. De repente, ele s'exalta E me aponta os senões todos, Restando-me a fala incauta: -- "Antes ter orgulho em falta Do que ter falta de modos!"
Finalmente ele se afasta Sem m'entender patavina. Volta para a sua casta, Cujo aplauso bem lhe basta. Enquanto mais se amofina: Talvez sob monge descalço Outro impostor se revele De pé sobre o cadafalso!... Quem a seguir cai em falso, Eis lobo e cordeiro em pele!
Betim - 03 04 2018
418
MALFADADO
Todo dia o dia todo, Ando contrariado Por saber-me d'algum modo No amor malfadado... Tanto que nem me incomodo, Quando dá errado. Eu mais dia, menos dia Desisto de tudo: Qualquer mínima alegria, D'amor sobretudo, Me põe em má companhia E eu me desiludo. Tal e qual jogo d'azar Outro amor em vão Me fez quase acreditar... No fim, bem ou não, Tão-só soube revirar O meu coração. Todo dia o dia todo, Ando contrariado Por saber-me d'algum modo No amor malfadado... Tanto que nem me incomodo, Quando dá errado. Betim - 02 04 2018