RicardoC

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n. 1976 BR BR

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

n. 1976-05-01, Caratinga

Perfil
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UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
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Biografia
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Poemas

184

GESTUAL

Vontade d'expressar tudo sem falar nada
E n'algo inconsequente, igual um soco no ar,
Pôr tamanha energia onde fosse esmurrar
As fuças do sujeito atrás da papelada!...

Sem embargo, traduza a minha dor calada
N'um acesso tão amplo quanto sem lugar...
Como protesto eu fique a lhe gesticular
Com fúria me chispando ainda a má mirada.

Pareça-lhe agressivo ao passo que, agredido,
Consigo me indignar n'esse gesto incontido
Contra quanto me cala e me oprime e me aliena.

Eu, todavia, expresse algo quase inumano
Como explodisse então, pouco republicano,
Sem lhe verbalizar sequer palavra plena...

Belo Horizonte - 10 04 2018
342

AUTÓFAGA (sextina: fome, carne, pele, mente, toque, mesma.)

Das entranhas lhe vem estranha fome
Que lhe consome toda a sua carne.
Frêmitos de sentir-se à flor da pele
Lhe agitam os desvãos da vaga mente
Ao perceber-se entregue ao próprio toque,
N'uma exploração húmida em si mesma.

Os dedos que percorrem a alma mesma
Têm no êxtase o saciar d'aquela fome
Certa de que, no corpo, o ser se toque.
Assim, a aura que envolve a nua carne
Revele-lhe os recônditos da mente
Em seu dedilhar de harpas pela pele.

Exsude todo o ser por sobre a pele
E, entorpecida, saía de si mesma
No alheamento de quanto tinha em mente.
Autófaga, de si sentia fome...
Era o saciar da carne pela carne
Ao s'entreter consigo em suave toque.

Das entranhas se vê estranha ao toque
Que lhe provoque ardor em toda a pele
E lhe revele a si apenas carne...
Não obstante, perceba-se ela mesma
Como fome de si a sua fome
A ponto de absorver de todo a mente.

Incerta se de pele ou se de mente
Sua explosão de si àquele toque;
D'ela trazer consigo tanta fome.
Incerta se de mente ou se de pele,
Resta-lhe conhecer-se ora a si mesma
No afã de se sentir na própria carne!...

Entenda-se na fome em sua carne,
-- O que for: seja pele; seja mente --
Ser ela toda ao toque d'ela mesma.

Betim - 13 04 2018
424

A BANHAR

O bulício das águas contra as lajes
Ao descer os degraus da corredeira...
Aonde eu te levei por companheira
A nos havermos sem pejo nem trajes.

Não importa por onde ou com quem viajes,
Jamais encontrarás igual ribeira!
Tampouco te verás, aventureira,
Tão mais longe dos vis e seus ultrajes...

Onde toda a nudez jaz inocente
E mulher e homem são naturalmente
Dois bichos a banhar-se em pleno cio.

Guarda no coração aquela tarde,
Cujo recordo ainda em desejo arde
Meu corpo sob as águas d'esse rio.

Santana do Riacho - 12 10 2012
509

DON'ANA (sextilhas)

Era uma mulher do lar;
D'aquelas para casar
E que se quer sempre sua.
Que sabe bem seu lugar,
Pois, tem recato no andar
Quando passa pela rua.

"Don'Ana" tinha por nome
E um desejo que a consome
Desde que bem pequenina:
Senhora sem sobrenome,
De ser alguém tinha fome
Pois para tal se destina.

Noiva, era muito feliz,
Tendo tudo o que quis
Porque sempre do seu lado.
Por fim, para todos diz:
-- "A minha sorte eu que fiz,
Depois de tê-lo encontrado..."

Sim, entre quatro paredes,
Ei-la sem sedas e suedes
Em face d'ele despida.
E cheia de fomes e sedes,
Tal como sereia nas redes
Deixava-se ser possuída.

Era no mundo uma dama,
Mas uma puta na cama,
Tendo-se melhor mulher,
Do que quem no mundo puta
E na cama só computa
O quanto ou quando querer.

Mas, para sua surpresa,
Era bem da natureza
Do seu noivo, de primeiro,
Na mais pura safadeza
Após deixar a princesa,
Ir pernoitar no puteiro:

Contam à boca pequena
A alguma vaga morena
As visitas do seu amor...
Que sentiam até pena
Da noiva que ele apequena
Por não se lhe dar valor.

Que não o deixava em paz,
Dando-se como lhe apraz
E quando se lhe convém.
Vivia lhe andando atrás...
Mas, tanto fez; tanto faz:
Logo há-de passar também.

-- "Don'Ana é quem é Senhora!" --
Diziam cidade afora
-- "As outras, só vêm e vão..."
D'ele mais s'enamora
Havendo em conta que mora
Dentro do seu coração.

E, mais dia, menos dia,
Quem se deu tal ousadia
Mal s'engana de que a engana.
Há-de vê-la, todavia,
Desfilando fidalguia:
-- "É aquela que é Don'Ana!"

Belo Horizonte - 10 04 2018
420

CARÍCIAS (vilanela)

Amemo-nos sem pressa, suavemente,
Ainda que a cidade a todo instante
Se faça com mil sons sempre presente.

Olhemo-nos nos olhos, frente a frente:
Tudo há-de acontecer ao teu talante...
Amemo-nos sem pressa, suavemente.

Busquemos o sorriso mais contente,
À espera que o prazer no peito arfante
Se faça com mil sons sempre presente.

Porque doce é o amor quando se sente
O rosto aberto em gozo d'uma amante:
Amemo-nos sem pressa, suavemente...

E, alheados do que tínhamos em mente,
Teu corpo no meu corpo d'oravante
Se faça com mil sons sempre presente.

Assim talvez o amor -- tão inconstante... --
Se faça com mil sons sempre presente
Até que em nós o gozo se agigante!...
Amemo-nos sem pressa, suavemente...

Belo Horizonte - 10 04 2018
421

UBÚNTU

Não adormeças sobre os teus anseios,
Tampouco deixes sonhos embotados.
A solidão ligeira faz passados
Os princípios e os fins quando sem meios.

Andaste tu perdido em devaneios
A ver como se d'olhos já vendados...
Não julgues de antemão desencontrados
Tanto os desejos teus quanto os alheios.

Desde que o mundo é mundo, as pessoas
Têm para si razões sempre tão boas
Que nos outros não veem senão conflitos.

Se, contudo, a verdade se partilha
Crescer co'os outros é a maravilha
Que faz os nossos dias mais bonitos.

Belo Horizonte - 05 04 2018
347

EM SÉPIA

Atravessava o largo sob garoa
Abrigado de chapéu e sobretudo.
Quando, entre surpreendido e mudo,
Em sépia figurou sua pessoa.

Sim, um clarão vermelho lhe destoa
O reflexo dos óculos. Contudo,
Causava espécie o rosto 'inda desnudo
Onde um jovem artista se apregoa.

Registo d'um momento interrompido,
Apenas d'entretons foi colorido
Na exposição do filme àquela luz.

Mas a imagem fixada mais provoca
Pelo monocromático que evoca
Bela época a que dândis fazem jus.

Betim - 06 04 2018
434

POR ENGANO

Cumprimentou-me sem saber quem era.
Acenava, sorrindo-me sem graça.
Há tempos não o via e n'uma praça
Calhou de reencontrá-lo: --"Besta-fera!..."

Com efeito, das brumas da quimera
Retorno balbuciando uma chalaça.
E, antes que da surpresa se refaça,
Pede-me um adjutório e fica à espera.

Recordo-me do amigo qu'ele fora
No tempo qu'eu o tinha como amigo
E da distância havida vida afora.

"Mas que cara de pau!" -- pensei comigo --
"Nem se lembra de mim". Digo-lhe, embora:
-- "Perdão, foi por engano." -- e fui embora.

Belo Horizonte - 25 03 2018
327

EM FALSO (décimas)

Há quem se faça de bobo,
Fingindo-se o que não é.
Cordeiro em pele de lobo,
Deseja a fama de probo
Como se digno de fé.
Mas, demasiado pedante,
Fala do que não entende.
Mais do que é se pretende,
Visto o seu ego gigante
Face às luzes que acende.

Por inteiro interesseiro,
Aplaude a ser aplaudido.
Lobo em pele de cordeiro,
Nas letras busca dinheiro
E um nome a fugir d'Olvido.
Sem embargo, é infeliz
Em tudo aquilo que escreve:
Frases de incerto cariz
Mal dissimulam as vis
Intenções que sempre teve.

Do nada ele me procura
Já se dando liberdade:
-- "A mim parece loucura
Tua intrigante figura
Dizendo não ter vaidade..."
Sabendo-o querer barulho
A ele, respondo sem dó:
-- "Deveras, muito me orgulho...
Da minha falta de orgulho
Haja vista ser eu pó".

-- "Se uns pecam por ser demais,
Outros, por querer de menos..."
Argumenta em tons desleais
No afã de parecer mais
Face a meus olhos serenos.
De repente, ele s'exalta
E me aponta os senões todos,
Restando-me a fala incauta:
-- "Antes ter orgulho em falta
Do que ter falta de modos!"

Finalmente ele se afasta
Sem m'entender patavina.
Volta para a sua casta,
Cujo aplauso bem lhe basta.
Enquanto mais se amofina:
Talvez sob monge descalço
Outro impostor se revele
De pé sobre o cadafalso!...
Quem a seguir cai em falso,
Eis lobo e cordeiro em pele!

Betim - 03 04 2018
418

MALFADADO

Todo dia o dia todo,
Ando contrariado
Por saber-me d'algum modo
No amor malfadado...
Tanto que nem me incomodo,
Quando dá errado.

Eu mais dia, menos dia
Desisto de tudo:
Qualquer mínima alegria,
D'amor sobretudo,
Me põe em má companhia
E eu me desiludo.

Tal e qual jogo d'azar
Outro amor em vão
Me fez quase acreditar...
No fim, bem ou não,
Tão-só soube revirar
O meu coração.

Todo dia o dia todo,
Ando contrariado
Por saber-me d'algum modo
No amor malfadado...
Tanto que nem me incomodo,
Quando dá errado.

Betim - 02 04 2018
388

Comentários (5)

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Luciana

Lindos poemas ,meu caro!

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

EDUARDO POETA

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

bom vê-lo por aqui

natalia nuno

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!