Tenho elevado versos às alturas Sem desejar senão frases honestas, E responder angústias tais como estas Que atravessam as noites mais escuras
Indiferente a vãs nomenclaturas, Não cuido se poesias imodestas Em árvores de arquivos ou florestas Guardiãs de digitais multiculturas.
Tão-só espalho alhures quanto tinha Sempre a se acumular na escrivaninha Em maços de papeis sem mais vaidades.
Mas... Feliz de quem topa em meus escritos E os lê com prazer porque bonitos... Ou os lê com ardor porque verdades!
Betim - 01 04 2018
346
OLARIAS
Do barro que sou feito, eu também faço: Tijolos, telhas, vasos, santos, gentes... Viver a amassar lama -- sãos ou doentes! -- Mesmo que o pão se veja sempre escasso.
Mas, da casa humilde ao grande paço, Haverão-d'encontrar bem aparentes Os sulcos de meus dedos! Entrementes, Definham meus costados de cansaço...
Isto de ao abstrato dar mais concretude Traz-me a incomensurável solitude Com a qual lido desde que m'entendo.
Sem embargo, trabalho por obrar Até que um dia enfim tenham lugar Os lares que nos sonhos sigo vendo.
Betim - 31 03 2018
355
DOIS EFEBOS
Nus, têm pele de mármore polido E cabelos em cachos sobre os ombros. Por entre colunas jônicas, escombros Do templo de Apolo, o esclarecido.
Eternamente púberes, ao Olvido Ignoram em seus amores sem assombos. Enquanto sob as árvores, ressombros Filtram os raios d'um sol enternecido.
Mal se tocando as faces, abraçados... Como se a vislumbrar d'olhos fechados A expressão de gozo em seu amante.
Dois efebos sorrindo frente a frente Onde lograsse a pedra simplesmente Reter-lhes a beleza d'esse instante.
Betim - 29 03 2018
390
ASSOMBRAÇÃO
Não andes pela estrada da ribeira, A mesma que vai dar no mangueiral. Além d'aquela curva, o bem e o mal Têm para si uma última fronteira.
Jamais vá por ali sem companheira, Tampouco adentre ao sítio seu portal: N'ele vaga alguma alma tal e qual A que nos vela a noite derradeira...
Apressa-te ao passares sob o luar, Senão na encruzilhada a atravessar O medo te domina com sua arte.
Pois muito pior que a morte, este terror Te livra de armadilhas d'opressor Que ronda ao teu redor por devorar-te!
Betim - 29 03 2018
396
VESTÍGIOS
'Inda devem haver restos de nós Espalhados por esta residência. Onde vestígios já d'outra existência Debaixo de tudo quanto veio após...
Mas mais vazio há dentro quando sós A saudade nos preenche toda a ausência. Como quando uma luz na transparência Revela em suspensão nuvens de pós.
Eu sem querer t'encontro de repente E o passado fazendo-se presente Me traz o teu sorriso uma outra vez.
E me pego sorrindo aqui também Com meu olhar perdido para o além A imaginar que tu longe me vês...
Betim - 02 01 2017
442
SEM SAÍDA
Convém me repetir todos os dias As razões que me levam a deixar Os caminhos que seguem sem chegar, Enquanto muros cercam fantasias.
Em becos; pelas vielas mais sombrias, Andei a me perder sem encontrar: Bati em cada porta do lugar!... Por horas devassei casas vazias.
Debalde... Sem saída nem entrada, A cada tentativa em derredor Só vendo todo o esforço dar em nada.
Sequer se trata já de amor ou dor, Sim de saber findar uma jornada, Que há muito não tem nada em seu favor.
Betim - 20 12 2003
365
AQUELA MOÇA
Quem era aquela moça que beijei No sonho que sonhei em pleno dia? Desconheço-lhe tudo, mas sabia Ser ela alguém que ainda encontrarei.
Como posso lembrar do que não sei? Como não pode haver quem só eu via? Em meus lábios seus lábios eu sentia N'outro tempo insubmisso a qualquer lei:
Sem passado ou futuro no presente, Súbito amor alhures se pressente, Pois presença na ausência presumida.
Ela... Jamais a vi e nunca esqueço! Reencontro aquela qu'eu tão-só conheço Do sonho que sonhei por toda a vida...
Betim - 25 03 2018
420
LUNÁTICO
Enquanto quatro fases mostra a lua, Também eu apresento aos meus iguais Mais personalidades disformais, Onde algum mal da mente se insinua.
Penso que quando um eu meu s'extenua Outro o sucede e, assim, um outro mais... De modo que com modos impessoais Evite enfim expor minh'alma nua.
Em vão: Muitos me têm por louco à solta! Como se fosse à lua alguém sujeito E andasse sempre ao léu não sem revolta.
Embora não o negue, contrafeito, Sinto a lua afastar-se a cada volta D'um mundo cada vez mais imperfeito.
Betim - 24 03 2018
378
OÁSIS
No meio do meu caminho, haja um lugar Onde eu queira parar quando cansado. Lá, me ocupe em estar desocupado E em contemplar os céus me demorar.
A vida ali transcorra devagar Como se, sem futuro nem passado, Pudesse meus pesares pôr de lado Para mais docemente repousar.
Quedas d'água brilhando contra o sol N'um chiado permanente mas tranquilo, Enquanto olho o ir e vir do meu anzol.
E, indiferente em ser eu isto ou aquilo, Inclinar-me tal-qual o girassol Grato pela ventura d'este asilo.
Betim - 08 03 2018
360
LUPERCÁLIA (écloga)
LUPERCÁLIA (écloga)
I Tinha uns olhos buliçosos D'enxergar tão-só malícias... Salivando d'antegozos As rebuscadas delícias De jovens belas mulheres.
Face a seus rostos mimosos Imaginava as carícias Que, virgens, guardam a esposos... E busca, mesmo a sevícias, Arrancar-se-lhes prazeres!
II Dissimulava, contudo, A sua extrema avidez, Passando por sério e mudo Àquelas que por sua vez Lhe admiravam a prudência.
Tomado de cupidez, Bastava um ombro desnudo, Ou algum decote talvez, Para esquecer-se de tudo E perder-se na indecência.
III Ele -- homem de meia-idade -- Sempre em roda às raparigas Quase um lobo, na verdade, Como o de velhas cantigas, À espera da hora mais certa...
Dava-se tal liberdade Que, com palavras amigas, Impunha-se a outra beldade Em meio a suas fadigas Ou quando menos alerta.
IV E, obtendo sua confiança, Sugere um fácil desvio Que de dedo em dedo avança Por sobre o peito arredio Até que revele um seio...
Ao pôr as ideias em dança E o corpo donzel no cio, Goza a súbita mudança, Com um sorriso sombrio, Visto seu secreto anseio.
V Ao fauno s'entrega a ninfa Nas folhas de doce outono... Junto à translúcida linfa Das florestas sem dono E seu borbulhar constante.
Longe, uma andorinha grinfa A despertá-la do sono Como fosse a paraninfa D'esse seu só abandono Por tão sedutor amante.
VI Clama em vão de tal desdouro Após que a virtude lhe falha... Ignora o passo vindouro E até se chora ou gargalha Em face do acontecido.
O outro, grinalda de louro, Orna-lhe a fronte grisalha!... Da mesma andorinha, o agouro Escuta sem que lhe valha Mais que um olhar atrevido.
VII Ela seguirá co'a vida E ele seguirá co'a sua. Mas a inocência perdida Para o fauno se insinua Tão-somente canalhice.
Já a ninfa adormecida, Sempre pálida e nua, Ser-lhe-á a imagem retida Que em lembranças atenua A solidão da velhice.