RicardoC

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n. 1976 BR BR

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

n. 1976-05-01, Caratinga

Perfil
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UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
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Biografia
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Poemas

184

NAS NUVENS

Tenho elevado versos às alturas
Sem desejar senão frases honestas,
E responder angústias tais como estas
Que atravessam as noites mais escuras

Indiferente a vãs nomenclaturas,
Não cuido se poesias imodestas
Em árvores de arquivos ou florestas
Guardiãs de digitais multiculturas.

Tão-só espalho alhures quanto tinha
Sempre a se acumular na escrivaninha
Em maços de papeis sem mais vaidades.

Mas... Feliz de quem topa em meus escritos
E os lê com prazer porque bonitos...
Ou os lê com ardor porque verdades!

Betim - 01 04 2018
346

OLARIAS

Do barro que sou feito, eu também faço:
Tijolos, telhas, vasos, santos, gentes...
Viver a amassar lama -- sãos ou doentes! --
Mesmo que o pão se veja sempre escasso.

Mas, da casa humilde ao grande paço,
Haverão-d'encontrar bem aparentes
Os sulcos de meus dedos! Entrementes,
Definham meus costados de cansaço...

Isto de ao abstrato dar mais concretude
Traz-me a incomensurável solitude
Com a qual lido desde que m'entendo.

Sem embargo, trabalho por obrar
Até que um dia enfim tenham lugar
Os lares que nos sonhos sigo vendo.

Betim - 31 03 2018
355

DOIS EFEBOS

Nus, têm pele de mármore polido
E cabelos em cachos sobre os ombros.
Por entre colunas jônicas, escombros
Do templo de Apolo, o esclarecido.

Eternamente púberes, ao Olvido
Ignoram em seus amores sem assombos.
Enquanto sob as árvores, ressombros
Filtram os raios d'um sol enternecido.

Mal se tocando as faces, abraçados...
Como se a vislumbrar d'olhos fechados
A expressão de gozo em seu amante.

Dois efebos sorrindo frente a frente
Onde lograsse a pedra simplesmente
Reter-lhes a beleza d'esse instante.

Betim - 29 03 2018
390

ASSOMBRAÇÃO

Não andes pela estrada da ribeira,
A mesma que vai dar no mangueiral.
Além d'aquela curva, o bem e o mal
Têm para si uma última fronteira.

Jamais vá por ali sem companheira,
Tampouco adentre ao sítio seu portal:
N'ele vaga alguma alma tal e qual
A que nos vela a noite derradeira...

Apressa-te ao passares sob o luar,
Senão na encruzilhada a atravessar
O medo te domina com sua arte.

Pois muito pior que a morte, este terror
Te livra de armadilhas d'opressor
Que ronda ao teu redor por devorar-te!

Betim - 29 03 2018
396

VESTÍGIOS

'Inda devem haver restos de nós
Espalhados por esta residência.
Onde vestígios já d'outra existência
Debaixo de tudo quanto veio após...

Mas mais vazio há dentro quando sós
A saudade nos preenche toda a ausência.
Como quando uma luz na transparência
Revela em suspensão nuvens de pós.

Eu sem querer t'encontro de repente
E o passado fazendo-se presente
Me traz o teu sorriso uma outra vez.

E me pego sorrindo aqui também
Com meu olhar perdido para o além
A imaginar que tu longe me vês...

Betim - 02 01 2017
442

SEM SAÍDA

Convém me repetir todos os dias
As razões que me levam a deixar
Os caminhos que seguem sem chegar,
Enquanto muros cercam fantasias.

Em becos; pelas vielas mais sombrias,
Andei a me perder sem encontrar:
Bati em cada porta do lugar!...
Por horas devassei casas vazias.

Debalde... Sem saída nem entrada,
A cada tentativa em derredor
Só vendo todo o esforço dar em nada.

Sequer se trata já de amor ou dor,
Sim de saber findar uma jornada,
Que há muito não tem nada em seu favor.

Betim - 20 12 2003
365

AQUELA MOÇA

Quem era aquela moça que beijei
No sonho que sonhei em pleno dia?
Desconheço-lhe tudo, mas sabia
Ser ela alguém que ainda encontrarei.

Como posso lembrar do que não sei?
Como não pode haver quem só eu via?
Em meus lábios seus lábios eu sentia
N'outro tempo insubmisso a qualquer lei:

Sem passado ou futuro no presente,
Súbito amor alhures se pressente,
Pois presença na ausência presumida.

Ela... Jamais a vi e nunca esqueço!
Reencontro aquela qu'eu tão-só conheço
Do sonho que sonhei por toda a vida...

Betim - 25 03 2018
420

LUNÁTICO

Enquanto quatro fases mostra a lua,
Também eu apresento aos meus iguais
Mais personalidades disformais,
Onde algum mal da mente se insinua.

Penso que quando um eu meu s'extenua
Outro o sucede e, assim, um outro mais...
De modo que com modos impessoais
Evite enfim expor minh'alma nua.

Em vão: Muitos me têm por louco à solta!
Como se fosse à lua alguém sujeito
E andasse sempre ao léu não sem revolta.

Embora não o negue, contrafeito,
Sinto a lua afastar-se a cada volta
D'um mundo cada vez mais imperfeito.

Betim - 24 03 2018
378

OÁSIS

No meio do meu caminho, haja um lugar
Onde eu queira parar quando cansado.
Lá, me ocupe em estar desocupado
E em contemplar os céus me demorar.

A vida ali transcorra devagar
Como se, sem futuro nem passado,
Pudesse meus pesares pôr de lado
Para mais docemente repousar.

Quedas d'água brilhando contra o sol
N'um chiado permanente mas tranquilo,
Enquanto olho o ir e vir do meu anzol.

E, indiferente em ser eu isto ou aquilo,
Inclinar-me tal-qual o girassol
Grato pela ventura d'este asilo.


Betim - 08 03 2018



360

LUPERCÁLIA (écloga)

LUPERCÁLIA (écloga)

I
Tinha uns olhos buliçosos
D'enxergar tão-só malícias...
Salivando d'antegozos
As rebuscadas delícias
De jovens belas mulheres.

Face a seus rostos mimosos
Imaginava as carícias
Que, virgens, guardam a esposos...
E busca, mesmo a sevícias,
Arrancar-se-lhes prazeres!

II
Dissimulava, contudo,
A sua extrema avidez,
Passando por sério e mudo
Àquelas que por sua vez
Lhe admiravam a prudência.

Tomado de cupidez,
Bastava um ombro desnudo,
Ou algum decote talvez,
Para esquecer-se de tudo
E perder-se na indecência.

III
Ele -- homem de meia-idade --
Sempre em roda às raparigas
Quase um lobo, na verdade,
Como o de velhas cantigas,
À espera da hora mais certa...

Dava-se tal liberdade
Que, com palavras amigas,
Impunha-se a outra beldade
Em meio a suas fadigas
Ou quando menos alerta.

IV
E, obtendo sua confiança,
Sugere um fácil desvio
Que de dedo em dedo avança
Por sobre o peito arredio
Até que revele um seio...

Ao pôr as ideias em dança
E o corpo donzel no cio,
Goza a súbita mudança,
Com um sorriso sombrio,
Visto seu secreto anseio.

V
Ao fauno s'entrega a ninfa
Nas folhas de doce outono...
Junto à translúcida linfa
Das florestas sem dono
E seu borbulhar constante.

Longe, uma andorinha grinfa
A despertá-la do sono
Como fosse a paraninfa
D'esse seu só abandono
Por tão sedutor amante.

VI
Clama em vão de tal desdouro
Após que a virtude lhe falha...
Ignora o passo vindouro
E até se chora ou gargalha
Em face do acontecido.

O outro, grinalda de louro,
Orna-lhe a fronte grisalha!...
Da mesma andorinha, o agouro
Escuta sem que lhe valha
Mais que um olhar atrevido.

VII
Ela seguirá co'a vida
E ele seguirá co'a sua.
Mas a inocência perdida
Para o fauno se insinua
Tão-somente canalhice.

Já a ninfa adormecida,
Sempre pálida e nua,
Ser-lhe-á a imagem retida
Que em lembranças atenua
A solidão da velhice.

Contagem - 22 03 2018
164

Comentários (5)

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Luciana

Lindos poemas ,meu caro!

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

EDUARDO POETA

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

bom vê-lo por aqui

natalia nuno

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!