Até onde eu consigo me lembrar, Aquele foi um dia ensolarado... Talvez tenha sido eu; talvez o Fado Ou apenas te calhou de m'encontrar.
E tu, sem qualquer pressa de chegar, Nem vias quanto havias caminhado. De mãos dadas, paramos lado a lado E soubemos um ao outro desvendar:
Eu não te disse muito. Tu tampouco. Porém parece o mundo menos louco Enquanto é contemplado desde o abismo.
Já de noite, depois de tais assuntos, Eu e tu d'ali saímos nós dois juntos A andar de cataclismo em cataclismo...
Betim - 06 02 2018
394
EVASÃO
Qualquer lugar que não esse onde vivo! Qualquer tempo que não o meu presente!... A vida em devaneios por simplesmente Não lhe saber sentido nem motivo.
Em utopia estar contemplativo! Em fantasia ser quem tenho em mente!... Imaginar o mundo tão-somente Ao invés de o descrever tão objetivo.
Algures bem melhor do que eu aqui; Antanho bem melhor do que eu agora: Distinto é quanto sou do que senti...
Seja eu meio acolá ou meio outrora, Flanando enmimesmado em vão por aí, Diverso ao que hei vivido vida afora.
Betim - 04 02 2018
425
NU FRONTAL
Exposta na parede (um calendário!), Outra nudez perfeita e exuberante... De facto, nada mais interessante, Que ver o que s'esconde de ordinário...
Não tinha ela vergonha, ao contrário, Antes buscava o meu olhar errante E de quem mais ficasse ali bem diante, Entretido entre o real e o imaginário.
Janela de adentrar na fantasia, Aquela costumaz fotografia, Que se via em qualquer suja oficina.
Era expressão de pura liberdade Ao fazer da mulher sensulidade N'uma sexualidade masculina.
Betim - 03 02 2018
383
ARIDEZ
Como ouvisse trovão e não visse raio, No claro céu dos longes dos sertões. Assim também os secos corações No chão esturricado ao sol de maio.
Incoerências à parte, de soslaio, Surpreendo redemunhos d'emoções Varrendo as desoladas amplidões, Onde antes todo o campo verde gaio...
Brilhante, o contraforte do penedo Reluz igual matéria incandescente Àquela claridade onipresente.
De facto um novo sol cada rochedo, Espelhando-se a pino no meio-dia Por sobre a terra tórrida e vazia.
Mantena - 30 05 2017
438
RIBEIRÃO DA CACHOEIRA
Luzindo a cada salto; a cada queda, As águas nos lajedos de granito... Era tudo tão bom quanto bonito, Por onde o rio abaixo s'envereda.
Um pássaro outro pássaro arremeda Seu trinado de quero-quero aflito. Mas oculta entre as águas acredito Da própria Uiara ouvir sua voz leda.
Bandos de maritacas fazem festa No dossel verdejante da floresta Até a tarde cair mais preguiçosa.
E, por fim, espraiado n'um remanso, Paro para admirar como descanso O céu se colorir em tons de rosa...
Betim - 14 01 2018
324
ERRATA
Onde se lê "justiça", leia "vingança" Quem se quiser bom entendedor! Dos males d'esta vida, um mal menor É ver cada palavra em sua nuança.
De certo modo, escreve em contradança Aquele que suaviza em tudo a dor E, eufemisticamente, ao seu leitor Deixa ao menos uma última esperança.
De boa ou má fé o erro, em realidade, É o que às ideias muda a intensidade, Mesmo quando mais nada faz sentido.
N'isto, para julgar, antes vingar: Corrija-se o que está subliminar, Na sentença d'um juiz obscurecido...
Betim - 22 01 2018
500
ÀS CLARAS
ÀS CLARAS
AQUINO:
Não se pode negar que te desejo, Embora diga não mais te querer. Pois tudo em ti me atrai tão-logo vejo Meus olhos em teus olhos sem querer.
CLARA:
Sei que foges dos meus olhos. Sim, eu sei! Tentas dissimular e me esconder O que sentes sob tão obtusa lei, Que faz do amor um jogo de poder.
AQUINO:
Não quero mais dizer que não te quero E mesmo que não possa ou que não deva Sem mais nada esperar, ainda espero Do que já me foi luz e agora é treva...
CLARA:
Não há treva que dure: Vem a aurora! O amor que fere é o mesmo que sara... Permite que a verdade surja agora E transforme estas trevas em luz clara.
AQUINO:
Sim, Clara, se me tomas pela mão, Falando enfim à minha fantasia, Talvez finja que não finjo a emoção De tua fala feita de poesia.
Se finjo não saber que te desejo E minto a te dizer que não te quero, Sei que nada te impede um outro beijo Ou de dizer que tudo fora invero.
CLARA:
Deixa apenas falar ao coração O mel que me derrama pela boca Da impossível poética em canção, Que então dentro de mim agora toca.
Deixa que minha boca toque à tua No encontro pleno d'uma estrofe muda: Seja poesia a minha carne nua E seja luz minh'alma em ti desnuda!
Belo Horizonte - 18 12 2016
261
O MONGE E A SERPENTE
O MONGE E A SERPENTE
prólogo
Contam que quando andava pela Terra O iluminado espírito de Buda Vivera em penitência surda e muda Um monge seu ferido pela guerra.
Acolhido por Buda, mais se aferra À sã meditação com que se escuda A alma necessitada mais de ajuda E que uma grande angústia em si encerra.
Aquele monge à paz se disciplina, De sorte que mais nada o encoleriza, Mesmo quando o tinhoso desatina.
Assim, quer na tormenta quer na brisa, Seguia sempre o mesmo a sua sina No carma que só seu mantra suaviza.
* * *
o carma
Na guerra, conduzira ele elefantes Contra inimigos vindos de bem longe. Nada, porém, de qu'ele se lisonje, Sim o atormente todos os instantes.
Ferido após barbáries devastantes, Decide, mudo e só, fazer-se monge... A fim-de que da guerra mais se alonje E o coração da sua vida d'antes.
À espera da impossível redenção, Procura compensar sua violência Com uma radical resolução:
-- "Enquanto eu respirar n'essa existência, Nada mais morrerá por minha mão Até ter de novo limpa a consciência."
* * *
o encontro
'Pós anos de silêncio e solidão, Aquela alma culpada e penitente Encontrara uma filha de serpente Totalmente indefesa sobre o chão.
Tão fraca, o monge a pega com a mão Quedando quase inerte simplesmente Co'os olhos em seus olhos, frente a frente, Sem esboçar a mínima reacção.
O monge a colocou em sua cesta E a carregou consigo para fora Da sempre tão quente e húmida floresta.
A todos no mosteiro ele apavora Como afinal tivesse má a testa Em face da serpente n'aquela hora...
* * *
o concílio
Buda, que às boas almas conhecia, Pede a palavra ao povo alvoraçado: -- "Amigos, escutai cá do meu lado! É necessário mais sabedoria..."
"Deixai-o co'a serpente noite e dia Até que por fim todo o seu cuidado Mostre-nos a que fora destinado Isto o que só loucura parecia."
-- "Ouço e obedeço." -- disse-lhe um por um. Assim o monge pôde co'a serpente Viver essa vida um tanto incomum.
Por resto, vivia ele tão-somente Como se fosse sem perigo algum Aquela realidade surpreendente.
* * *
a ophiophagus
Pelas selvas dos Gates Orientais Já na estação das chuvas das monções, Cobras que comem cobras são vilões D'estas tórridas terras tropicais.
Deveras, as imensas cobras reais S'elevam tão ferozes quanto leões E inoculam peçonha aos borbotões Sobre maiores e mais fortes rivais.
Essa serpente, pouco antes que nasça, É logo pela mãe abandonada Pr'os próprios filhos não haver por caça.
Ainda bem pequena é encontrada Pelo silente monge cuja graça Lhe acreditava ser por ela dada.
* * *
a iluminação
Dia após dia, o monge em seu cuidado Alimentava a cobra presa ao cesto, Trazendo camundongos que, de resto, Ninguém mais parecia achar errado.
Tinha fé que co'o tempo do seu lado Perderia ela instinto tão molesto A ponto de entender do monge o gesto E ter o seu furor pacificado.
Julgava que seria agradecida Ao ser tratada com suma bondade Ao longo já de toda a sua vida.
Mas se aproximava ele da verdade, Por uma estrada então desconhecida, Cercado de total perplexidade...
* * *
o nirvana
Grande demais pr'o cesto em que vivia, A serpente s'eleva toda ereta. Em frente o monge jaz, silente e asceta, A lhe encarar nos olhos, todavia.
Ameaçadoramente bela e esguia, Já prepara seu bote por repleta D'uma violência própria, pois abjeta E tão diversa ao qu'ele oferecia.
N'um átimo, ela voa em seu pescoço... E crava as suas presas já tristonha N'aquele qu'ela mata 'inda tão moço.
Após, ela inocula-lhe a peçonha Que lhe faz já da morte abrir o fosso E logo morrer como alguém que sonha.
* * *
o darma
Procuraram o Buda entristecidos Seus discípulos mais a má serpente. E pretendiam matá-la simplesmente Depois dos factos já acontecidos.
Que, embora fossem bem esclarecidos Sobre o valor de todo ser senciente, Bradavam por justiça, mas somente Buscavam a vingança dos perdidos.
E Buda disse: -- "Leva para a mata A cobra ainda viva, com certeza!" Mas os monges: -- "Jamais! É uma ingrata!!!"
Pagou tanta bondade com torpeza..." E Buda: "Só segue ela a Lei inata: Agiu conforme sua natureza.
* * *
epílogo
"Estamos todos -- Buda diz -- sujeitos À lei do Darma, isto é, Lei Natural. Tanto um humano quanto um animal Vive segundo seus sábios preceitos."
"E ainda que dotados de direitos, Seres sencientes somos afinal. A luz está em ver o próprio mal Para então renunciar a seus malfeitos."
"Pois, mais que da serpente essa maldade -- Na qual vedes traiçoeira ingratidão - Havia sim desejo à liberdade!"
"Aos olhos da serpente, era prisão E os cuidados no monge -- a tal bondade -- A mais só e absoluta reclusão."
Betim - 20 02 2002
570
MARAVILHOSO
MARAVILHOSO
Já cansado de ser, talvez lograsse Tornar-me a personagem vã de mim. De sorte que quem sou, ao cabo e ao fim Aquele que não sou melhor ficasse.
Estivesse eu de mim bem face a face à maravilha em ser quem fosse, enfim, Eu sequer saberia d'onde vim, E tão perdido n'outros eu me outrasse.
Porque quem se torna outro se projeta No vazio da imagem predileta, E dá-se aos outros o outro que bem quer.
Quem é, no entanto, está subentendido: No melhor de mim, não tão comedido, Soube maravilhoso estar e ser.
Inhapim - 22 04 2016
401
E A COISA TODA
E A COISA TODA
Não há-de haver debate verdadeiro Se se reduz ao absurdo um adversário. As certezas impostas pelo ideário Nos limitam somente ao costumeiro.
Cada homem é de si bom conselheiro, Mas o mais, por complexo e mesmo vário, Transita entre o caótico e o arbitrário N'um posicionamento derradeiro.
Estar mais à direita ou mais à esquerda Revela tão-só mais ou menos perda Dos discursos em face da verdade.
Quem busca a verdade antes a investiga E não repete o que quer que se lhe diga Como se sem consciência nem vontade.