Ela sozinha vale já o ingresso! Seminua no palco, sensualiza E faz caras e bocas mil à guisa De quem antes celebra cada excesso.
Mesmeriza com seu olhar travesso Como se ora indecente; ora indecisa... Ainda do que quer me desavisa E me vira a cabeça pelo avesso.
Ela é um tanto nova para mim, Mas diz que vai comigo até o fim, Embora não lh'entenda patavina.
Eu ora apenas sei que aos olhos salta Sua imagem nas luzes da ribalta: Uma mulher com rosto de menina.
Betim - 12 01 2017
379
ULTRARROMÂNTICO
ULTRARROMÂNTICO
Amar, não para ter família e filhos Ou envelhecer tentando ser feliz!... Sim para querer mais do que já quis, Alheio a conveniências e empecilhos.
Dois a morrer d'amor, feito andarilhos, Que têm no coração seu vasto país Todo eterno amador, como se diz, Há-que buscar aos olhos novos brilhos.
Amor, como sentido e até destino, Da forte correnteza que nos leva Indiferentes se à luz ou para a treva...
Pois, ainda que um outro desatino, Sê tu no peito amante quem de novo Me leva ao mal-d'amor que agora trovo.
Betim - 15 01 1998
405
O CABULOSO
O CABULOSO
Faltava à faculdade toda sexta E partia para o baile da favela Em permissividade paralela, Atravessando a noite toda em festa.
Ao longo da semana manifesta Uma extrema ansiedade que atropela O seu curso acadêmico e revela Outra procura intensa e pouco honesta:
Entre bebidas, música e mulheres Dá-se sentido à vida nos prazeres, Certo que tanta zoeira não tem fim.
Em poucos anos mais ele jubila, Deixando essa vidinha tão tranquila Já sem saber sequer se bom ou ruim.
Betim - 12 01 2018
351
A QUEM É D'AQUÉM-MAR
A QUEM é D'AQUéM-MAR
Se escrevo como escrevo é que não devo Nunca nada a ninguém d'aquém ou d'além. Escrevo como quero e me convém Na herdade do vernáculo por coevo.
Se a tais lusitanismos eu me atrevo é porque mais me aprazem e soam bem. De facto, minha escrita sempre tem Um quê de meio arcaico ou de longevo.
Pois escritas assim d'esta maneira As coisas me mantêm a verdadeira Maravilha que tenho quando as leio.
Certo que, se a estranheza se lhe venha, O leitor que a tiver também me tenha, Mas com mais fantasia de permeio.
Belo Horizonte - 20 12 2017
465
DAMA-DA-NOITE
DAMA-DA-NOITE
Eu com ela vez ou outra me deparo. Tinha sombras escuras pelos olhos E perfumada ao extremo em santos óleos, Qual morresse d'amor sem meu amparo...
Alheado em seu olhar de brilho raro, Talvez me pegue a andar de antolhos Atrás de si, pois, qual campo de cóleos, A roupa exuberante lhe reparo.
Não sei por onde andou ou o que procura, Quem, insone, me fez sonhar fecundo Diante de seu sorriso de luz pura.
Só sei que me devassa o olhar profundo, Enquanto me entorpece com brandura A nuca mais cheirosa d'este mundo.
Belo Horizonte - 10 12 2005
492
ENTRE MIM E TI
ENTRE MIM E TI
Não que a alegria tenha nos deixado, Mas tantos os tremores; tantos sismos, Que hoje, entre mim e ti, fundos abismos Nos põe distantes mesmo lado a lado.
Camadas de rancor mal disfarçado Cobertas de rasteiros egoísmos, De tanto cultivar antagonismos De permeio às cizânias do passado.
Firmados por contrato, os compromissos Bem como as velhas juras e intenções Lacrimam em meus olhos insubmissos
Pergunto: -- "O que supera estes senões?" -- Talvez os panoramas fronteiriços Compartilhados pelos corações...
Betim - 24 04 1998
399
A MARIPOSA
A MARIPOSA
Atravessa comigo a noite em claro, Voando ao redor da luz da escrivaninha. Vez ou outra rente à pele me acarinha E vai-se sem que faça mais reparo.
Mas pousa no retrato do preclaro E -- por que não? -- errático poetinha!... De modo que elegante se sustinha Por sobre um rosto a mim sempre tão caro.
Atravessa comigo a noite escura A panejar sua asa adamascada Que bem na calva d'ele ora figura.
Registro que, poesia sublimada, A mariposa em sua desventura Deu vida àquela face iluminada.
Betim - 09 05 1995
656
UM QUARTO E UMA MEIA
UM QUARTO E UMA MEIA
Uma meia esquecida no meu quarto. Olho no relógio e é meia noite e meia... E igual àquela noite, outra lua cheia De cujo recordar jamais me farto.
O perfume, já por meio e um quarto, É teu cheiro que no ar tudo permeia... Dilata-se a pupila; estufa a veia: De novo para aquela noite eu parto.
Brilho da lua em só noite de quarta... Da qual ora escureço; ora clareio Para ti cada poema, foto ou carta.
No fim das contas, perco-me no enleio: Dividido por zero ou posto à quarta... O que é ser nada? Ser um par ao meio?...
Cap. Andrade - 22 03 1995
648
CIHUACÓATL – a mulher chorona
CIHUACÓATL - a mulher chorona introito I Quem foi, depois de ser tantas, A mais triste das mulheres?... Aquela a chorar quereres, Vagando nas noites santas Face a dores e prazeres.
II Deusa de imensos poderes, Servira aos Astecas na guerra. Hoje, está presa a essa terra Sem mais outros afazeres, Senão ser aquela que erra.
III Ela, a Chorona, que aterra Os sós em noite de lua E sobre as águas flutua: Espectro que alhures berra As dores da culpa sua...
IV Quem em prantos continua Sempre a vagar cerca às águas Onde se repete as mágoas Que leva após pela rua Aos sobrados e meias-águas
V D'alvos véus, saias e anáguas, A atravessar toda a vila... Que nas desoras, tranquila, Contrastava com as fráguas De seu olhar que cintila.
VI Gravada em minha pupila Feito uma fotografia: Defronte à matriz sombria, Enquanto no adro desfila Em meio à noite vazia.
VII Já sem descanso ou alegria, Anda a clamar pelos filhos E a murmurar estribilhos De cantigas que se ouvia Entre bardos andarilhos.
VIII Segue sem mais empecilhos Alhures a lamentar Até com algum topar E, refulgente de brilhos, Mais ess'outro assombrar.
IX Deveras n'esse lugar, Onde Deus é tão benquisto, Muitos ainda a têm visto Chorosa a Chorona a andar Sem jamais pôr termo n'isto... a chorona do lago X "Quem será esta que avisto, Por sobre as águas do lago!?" -- "Quem vem lá?" -- eu mais indago. -- "Quem lá vem?" - ainda insisto. "És ser d'outro mundo ou mago?!"
XI Só o vento, frio e pressago, Ora à minha voz responde. Na noite escura s'esconde Aquele ser tão aziago Vindo não se sabe d'onde.
XII -- "Mais às profundezas sonde À procura da verdade!" - Berrava para a entidade Ainda que a mesma estronde Sismos fendendo a cidade.
XIII Nas ondas, a claridade Se aproximou lentamente. Mas, incertos se alma ou gente, Fomos em comunidade Co'os sacerdotes na frente:
XIV O mais velho simplesmente Calou-se contemplativo. Ainda que sem motivo Ou outra razão aparente De tão súbito emotivo:
XV -- "É Cihuacóatl! Eu vivo A escutar de nosso fim..." - De facto, irrompe ela assim Clamar do povo cativo Ao soar d'estranho clarim:
XVI -- "Ai, meus filhos! Ai de mim! Aonde os levarei, de resto, Por de destino tão funesto Poderem fugir enfim? Só a lamentos me presto!..."
XVII E abria os braços n'um gesto Que abarcava toda a vila... Triste visão à pupila, Clamando em seu só protesto Desde a lagoa tranquila.
XVIII Nas águas o luar cintila E o vento frio do Norte Envolvente, agudo e forte, Sobre as campinas siliba Augúrios de dor e morte.
XIX Advertidos da má sorte, Antes que o mal se consuma Fomos ter com Montezuma, Anunciar em sua corte As profecias, uma a uma:
XX -- "Alteza, como costuma A deusa ao povo falar, Cihuacóatl a prantear É vista em meio à bruma Vossa desgraça anunciar."
XXI "Conta que vêm pelo mar Gentes mais sábias e antigas, Que muito embora inimigas Com poucos irão triunfar Quer com finezas; quer brigas."
XXII "Vossas alianças e ligas Que haveis na paz e na guerra -- A expandir do mar à serra Com glórias e com fadigas A ordem dos céus sobre a terra" -
XXIII "Caem sob a treva que aterra Os homens em confusão E os faz perdidos em vão: Sois império que s'encerra Na mais plena escuridão!..."
XXIV "Por tal, reporto a visão De sacerdotes e povo Que têm, de novo e de novo, Visto da deusa o clarão N'estes versos que vos trovo." os oito sinais XXV "Se este clamor vos renovo É por recordar sinais Que vos encadeiam finais. Se em face de vós me comovo É por sabê-los mortais:"
XXVI "À deusa com os seus ais Mais outros sete presságios Vêm se somar feito estágios De moléstias terminais Ou de sinistros naufrágios..."
XXVII "Ou tal contam os adágios: "'Nada há tão ruim que não piore.'"... Mas, antes que algo melhore, O invasor busca apanágios, Ainda que nos explore!"
XXVIII "Primeiro, não se apavore Quem vir cair uma estrela Em pleno dia e, após ela, Qual sarça de fogo core O céu da noite singela!..."
XXIX "Depois, em meio à procela Chamas altas eu contemplo A consumir todo o templo Onde um deus se revela Nosso antepassado exemplo!"
XXX "E ainda, qual contraexemplo, Dois relâmpagos seguidos Explodem incandescidos Sobre o jardim do antetemplo De Tzonmolco e mil feridos!"
XXXI "Por mais e mais desvalidos Inunda-se Anáhuac, o vale... Das alturas da Huey teocale Tenochtitlã vê perdidos Os prédios de quanto se vale."
XXXII "Passados males seguidos, Eis que caminhando às pressas Homens de muitas cabeças De mundos desconhecidos Em meio a trevas espessas!..."
XXXIII "Por fim, cumprindo as promessas Da volta de nosso deus Trazem rara ave os plebeus A ver nas íris possessas Soldados nos olhos seus."
XXXIV "Montezuma, semideus E grão-senhor dos Astecas! Após quatro anos de secas, Eis diante dos olhos meus A deusa-mãe dos Toltecas..."
XXXV "Por entre agaves e arecas Andando junto a junquilhos Antevê tolos rastilhos Nos quais as hordas carecas São mortas feito novilhos."
XXXVI "E assim, coberta de brilhos, Vinha chorando lamúrias. Augúrios de tais penúrias Os massacres de seus filhos Ecoam pelas centúrias"... a filicida XXXVII -- "Quem é essa cujas fúrias Fizeram-na desgraçar?!? Como ousa uma mãe matar Filhos de suas luxúrias E seus amores sem par?..."
XXXVIII "Quem crianças fez afogar Para horror de seu amante!? -- Mas agora, a todo instante, Mira e remira o lugar Tendo-se os meninos diante.
XXXIX E desde então vaga errante Sempre a chorar, de sorte Que até se lhe nega a Morte De pôr-lhe termo consoante À maldição do ex-consorte.
XL Muito embora desconforte Seu choro a quem longe a vê, Logo lhe nega mercê Ao sabê-la por seu porte Alma, não gente que crê...
XLI O mal por paga se dê Este mal pior, pois, eterno! Falta do zelo materno, Fez o que nenhum porquê Responde senão no inferno.
XLII Porém, no mundo moderno Ainda a veem caminhando Pelas noites, quando em quando, Em meio às nevoas do inverno Chorosa e chorona errando. mulheres da meia-noite XLIII Pelos lugares onde ando Escuto histórias como estas De mulheres tão molestas Pela escuridão penando Por suas acções funestas.
XLIV Com semelhanças honestas Às famosas mexicanas, Lendas sul-americanas Também recordam modestas As tristes almas mundanas.
XLV Embora pareçam humanas, Há tempos elas não são... E alhures vagando em vão Espalham, belas e insanas, Murmúrios na escuridão.
XLVI Têm em comum a ilusão De repararem malfeitos Ao aterrorizar sujeitos Que encontram na escuridão E logo lhe estão afeitos.
XLVII Visto a princípio insuspeitos Seus olhos na noite escura, Aproximam-se à procura De serem por ela aceitos Face à tão bela figura.
XLVIII Têm uma certa finura De suaves gestos e falas Enquanto lh'enchem de galas E exaltam-lhe a formosura, Coçando-se as barbas ralas...
XLVII E ela, tentando tocá-las, Não dão senão arrepios Visto d'ela os dedos frios Lhe traem as mãos ao mostrá-las Pálidas a homens vadios.
XLVIII Estes percebem sombrios Os olhos d'aquela bela, Passando a ter junto d'ela Pasmos um tanto tardios Tal repulsa lhes revela.
XLIX -- "Mas que mulher era aquela?"... -- Dizem consigo ao partir Ainda sem descobrir Qual plano que teria ela Quando o parou a sorrir. a loura do bonfim L Em Minas costuma-se ouvir Da loura que ao sem-abrigo Leva, amorosa, consigo Para o seu lar sem porvir Que é o seu frio jazigo!...
LI Sim, esta de que algo digo Reside n'um cemitério... Buscando a si refrigério, Seduz quem se acha a perigo De cometer um adultério.
LII Envolta em alvo mistério Cerca o rapaz linda e loura. Enquanto a coruja agoura, Lhe invita a falar a sério Antes d'aurora vindoura.
LIII Ela o coitado desdoura De admirar seu triste fim. E, manso, o encaminha enfim Qual rés furtada à lavoura Por ardiloso festim.
LIV Chorando, diz: "Ai de mim!!" E tão-logo o carro estaca Rápido o passa na faca!... "Cemitério do Bonfim" Estava escrito na placa!
LV Amanhã, no edifício Acaiaca, Pouco antes que o sol desponte, A ver o céu traz-do monte Que à serrania destaca A bela Belo Horizonte.
LVI A loura outra vez nos conte Sua história passional Estampada no jornal: "Dama do Bonfim na fronte Esfaqueia um marginal."
LVII Desgraçada tal-e-qual, Sabe viver seu papel: Morta sem amor e anel, Vagará espiritual Sem nunca chegar ao céu.
LVIII Andando de déu em déu Toda noite se renova Repetindo a sua trova: Dos altos do arranha-céu Até as funduras da cova!
LIX Mas quem de seus beijos prova Há-de viver assombrado Ferido ou não no costado. Certo de que se comova De à própria morte beijado... a saiona LX -- "Qual o mais terrível Fado D'entre as almas penadas? O da mulher das baixadas Que homens infiéis tem matado Vagando pelas estradas..."
LXI Como as outras desgraçadas Esta também enlouquece Ao ouvir quem mal a conhece Contar do esposo escapadas E grande ciúme padece.
LXII E logo após lhe acontece De homicida se tornar: Filho e esposo faz matar Além da mãe que parece Pouco antes a amaldiçoar:
LXIII -- "Matas quem soube te amar? Maldita sejas: Não morres! D'oravante tu percorres As planuras sem findar Buscando quem te desforres!"
LXIV E, n'isso, do alto das torres Das célebres catedrais Um brilho intenso demais Incandesceu sobre os jorres Das fontes dos mananciais...
LXV Desde então caça os mortais, Belíssima de saião preto A seduzir o incorreto: Quem da regra dos casais Burlando em passeio secreto.
LXVI Se d'esses o país repleto, Nos Llanos de Venezuela, Muito comentam d'aquela Que esmagava feito inseto Quantos bulissem com ela.
LXVII Tão violenta quanto bela Tem para nossos desvelos Negros e longos cabelos E olhos aos que sem cautela Têm sido o pior dos flagelos:
LXVIII Cortantes, são dois cutelos Sua mirada de luta, Que na amorosa disputa Hipnotizam os donzelos N'uma mudez absoluta!...
LXIX -- "Portanto, nem se discuta: Mulherengo d'esta zona, Que com as outras desfruta Reveja a sua conduta Antes que apareça a Saiona! epílogo LXX De volta à vossa poltrona, Eu vos deixo n'este ponto. Pois já, assombrado e tonto, Como alguma beladona M'entorpecesse de pronto...
LXXI Mas vós, leitor que confronto, Apurai vossos ouvidos A perceber os gemidos, Passando conto por conto, Em desespero vividos.
LXXII Buscai ouvir os sofridos Que vagam por esse mundo Para entender quão profundo O pavor dos tempos idos 'Inda nos homens fecundo.
LXXIII Ainda que horrendo e imundo Insisti, haja o que houver, Sobre os abismos do querer. Perguntai, sempre mais fundo: -- "Quem é aquela mulher!?"
Betim - 13 01 2017
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À PROENÇAL
À PROENÇAL
Dormi, ó bela, em torres de marfim, Sem mais porvir, sem dor dormir, sem nada... Ei-vos o corpo estátua inacabada, Tendo voss'alma pálida por fim!
Não esperais por reis d'além-jardim, Sim por vós -- quintessência decantada -- Onde as virtudes todas têm morada, Enquanto os vícios todos sobre mim.
Mas seja meu cantar vosso acalanto. Pois, embora a poesia amor mundano, A música traz d'anjos o amor santo.
Sois toda ideal, não carne, cerne humano... Sede-o, ó bela: Incorpórea! Abstrato encanto!!! E eu tão-só os ouvidos vos profano...