Não te amo por me amares ou quereres, Mas sim porque te amando me conheço. Amar foi me saber desde o começo Aprendiz nos mistérios dos prazeres...
Desde então, entre todas as mulheres, Eu quis o teu olhar a qualquer preço, Mas tive muito mais do que mereço Após me submeter aos teus poderes:
Amar? Não, eu não te amo. Eu te idolatro! Deusa em meu templo; diva do meu teatro, Deste-me a conhecer teu esplendor.
Não sei se aqui é inferno ou paraíso, Apenas sei, divina, é qu'eu preciso D'aquela em cujos olhos vi amor.
Belo Horizonte - 06 10 2018
605
ÍNTIMO TARDIO
Tenho estado acordado à noite toda N'outra vigília em meio aos pernilongos, A contar em sinalefas os ditongos E ainda dispor hiatos à áurea moda.
A despeito de quanto me incomoda Na insônia me buscar dias mais longos, Adivinho no escuro camundongos, Que sobre o forro vão e vêm em roda...
No silêncio onde habita mil ruídos, Recordo de meus versos esquecidos Enquanto o vento me uiva um assobio.
E, entendendo que contam minha vida, Eu atravesso a noite mal dormida Na escuta atenta do íntimo tardio.
Betim - 08 10 2018
580
HOMENS DE BEM
Aqueles que se arvoram justiceiros Pretendem ter as leis a seu favor. Onde cada um juiz e executor, Impondo veredictos a terceiros.
Têm-se em conta de grandes brasileiros, Porém confundem ordem com vigor, Quando em favelas tocam o terror Como lá fossem todos desordeiros...
O autointitulado homem de bem, No afã de justiçar co'as próprias mãos, Atira sem saber ao certo em quem.
Até porque, se uns bons por entre os vãos Forem vistos caídos lá também, Vão contá-los ladrões, não cidadãos...
Betim - 05 10 2018
585
SAIDEIRA
Dia de feira, não de féria, Amanhã, afinal, é quarta! Tiro a barriga da miséria, Se a terça, além de gorda, é farta.
É carnaval! Nem qu'eu infarta Com tanta pinga pela artéria! Amanhã, afinal, é quarta: Dia de feira, não de féria...
É carnaval! Nem por pilhéria... Vão dizer que morri por carta Ou que peguei uma bactéria! Amanhã, afinal, é quarta: Dia de feira, não de féria...
Betim - 02 10 2018
140
VERSILIBRISMO
Que meus versos não sirvam a ninguém, E que mais nunca os prendam a cadenas! Sem carecer senhores nem mecenas, Ou mesmo esperar d’outrem qualquer bem.
São lumes que não sabem a que vêm Estes versos que escrevo a duras penas. Se de mim para mim servem apenas, Serão de quem quiser lê-los também.
Passado o cativeiro, porém, ando Serras e terras vãs atravessando Tão-só pela alegria de escrever.
Alheio aos privilégios dos perversos, Estejam por direito estes meus versos Livres para que todos possam ler.
Betim – 17 09 2007
654
ALFORRIA
Pois, se a liberdade é uma conquista, De facto não se nasce livre, torna-se; A face d'um sorriso aberto adorna-se Com aquilo que os olhos têm em vista.
Ninguém nos dá ardor com que resista. Ao que o espírito, aqui e ali, amorna-se. Mas mesmo a escuridão d'estrelas orna-se E as quedas não demovem o optimista.
Porque tal carta não me fora herdada, Tampouco por senhores concedida, Antes com sangue e lágrimas comprada.
E àqueles que hão-de vir, dou por sabida N'uma alforria a ser reconquistada Viver todos os dias d'essa vida.
Betim - 01 10 2018
571
ATRÁS DAS GRADES
Por fim prendi o mundo atrás das grades Enquanto m'embriagava em minha varanda: Desde que contra tudo pus demanda, Privo os outros de suas liberdades.
Ébrio, fico a observar duas cidades A de quem é mandado e a de quem manda, Onde cada um que pelas ruas anda Prisioneiro é das próprias inverdades.
Verdadeira somente a dor que sinto Por quem manda qual por quem é mandado, Que os vejo andando em vão n’um labirinto.
E acabo na varanda embriagado, A olhar na solidão do vinho tinto Todo o mundo por mim aprisionado...
Belo Horizonte – 20 11 1991
115
O APÓSTATA
Quanto às religiões, não lhe interessa Trocar velhos grilhões por outros novos. O divino ainda é imposto aos povos Ora por ordem; ora por promessa.
À fé que inopinado se confessa Deixou aos extremistas cristãos-novos Ao assistir das Igrejas os renovos, N'uma verborragia ouvida à pressa.
Vira-se desgarrado do rebanho, Que seguira em verdade desde antanho Após sozinho ouvir a própria voz.
E decidiu fazer-se diferente Como gentio em meio àquela gente, Por certeza do certo, tão feroz...
Betim - 28 09 2018
583
CODICILO
Pelo presente escrito a próprio punho E com pleno poder das faculdades, Expresso as minhas últimas vontades Em dar, perto da morte, testemunho.
Deste modo: "Nos idos já de junho, Vendo me sem porvires nem verdades, Disponho do que é meu com liberdades E dou fé às más firmas que cunho:"
"Minha mobília e roupas podem doar, Mas meu dinheiro o enterro há-de pagar, Tão pouco me servira quando vivo…"
"Meus versos deixo a quem os souber ler Mais os livros escritos sem saber Ao fim para viver qualquer motivo."
Contagem - 03 06 2004
627
QUER SIM QUER NÃO
Tudo depende então do que se quer: Eu olho nos teus olhos e sorrio. Tu me sorris de volta em desafio, Ambígua como sabe uma mulher.
Talvez tu não me olhasses a valer Ou me sorrisses bem ao teu feitio... A qu'eu, embora tímido e arredio, Passe a falar-te quando bem quiser.
Porque querer tem d'essas liberdades Que às vezes nos carregam pela mão E põe em turbilhão nossas vontades.
Mas mais busco as razões do coração, E, entre imaginações e realidades, O querer a querer -- quer sim quer não!