Quando em Lesbos se tocam duas belas, A luz s'espalha sobre as costas nuas Até lhes surpreender os alvos seios. Sentindo o percorrer de suaves dedos, Elas se amam entretidas com os lábios A explorar a humidade de seus sexos.
Abandonam a atroz guerra dos sexos E quanto lhes impõem por serem belas Os homens que perfídias têm nos lábios: No afã de lhes cobrir as faces nuas Co'os véus dos himeneus por sujos dedos, Proíbem-lhes o gozo dos seus seios!…
Mas não! Têm-se uma n'outra as mãos nos seios E ardem entumescidas por seus sexos, Onde se lhes percorrem mútuos dedos. Ao trocar entre si palavras belas Elas, enternecidas, se olham nuas Enquanto os ais de Vênus têm nos lábios.
Descendo por seus púbis ambos lábios, Gozam-se, ora co'as mãos fortes os seios; Ora co'as bocas pelas costas nuas… Avidamente vêm juntar-se os sexos. Ao que, n'um alongar de curvas belas, Uma e outra se possuem com seus dedos
Molham em cada lábio os próprios dedos, Tendo n'um beijo gozo pelos lábios. Entregam-se ao prazer 'inda mais belas E em cavalgada veem arfar os seios Durante o friccionar mútuo dos sexos Co'o néctar a escorrer nas coxas nuas…
Descansem suas belas formas nuas, Enquanto pelos seios correm dedos A ressentir nos lábios os seus sexos.
Nova Lima - 02 10 2018
122
CHORAMINGAS
Ela enxugava as lágrimas n'um lenço E depois balbuciava alguma queixa. Também caras e bocas feito gueixa Fazia ao me mostrar despeito imenso.
Se sempre tinha seus motivos, penso, Bem maiores do que eram ela os deixa. Deveras, contrariada a mim se queixa Após pôr as verdades em suspenso.
Tenho para mim qu'ela nem é triste E chora tão clamosa porque insiste Em ver sua vontade realizada.
Logo eu, que sou tão triste, lhe sorrio E enxugo as suas lágrimas por brio: -- "Não chores, meu neném, não muda nada..."
Belo Horizonte - 04 06 2018
316
LUAR DAS VALQUÍRIAS
LUAR DAS VALQUÍRIAS
I O que se diz das nornas cavalgantes A serviço dos deuses e dos homens É que escolhem guerreiros para a morte Ao se lhes surpreender com beijos gélidos. Montam os corcéis brancos das neblinas Que descem sobre os campos de batalha. Enquanto isso, enluarada, a noite cai Àqueles que s'entregam para a guerra No espetáculo sangrento dos infantes. Atravessam planícies que, nevadas, Tingem-se aqui e ali de sangue nobre. Gemidos, baforadas de vapor, Partiam dos caídos destripados Que, exangues, contemplavam as estrelas À espera do Valhala e suas glórias.
II Elas são as mulheres escudeiras Que cumprem os desígnios do Destino Elevando os espíritos dos bravos. Alvíssimas, têm elas olhos grises Frios como os glaciares das montanhas. Passando por portais de gelo e fogo, Vêm à mansão dos mortos escolhidos A reforçar as hostes do alto Odin Em sua guerra contra os mundos últimos Que antecede a Nova Era d'Universo. Possam com o seu sangue sobre a neve Já como heróis marcharem destemidos! Após terem n'olhar a vida e a morte, Nunca estaquem em face de ninguém Tampouco deixem sonhos por sonhar. Assim seja, nos céus como na Terra.
III Têm como prêmio após tantas jornadas Os cuidados e os carinhos das donzelas Que, pensando as feridas com unguentos E servindo canecas de hidromel, Curam um após outro dos desastres Ao lhes fortalecer o amplo espírito Como homens superiores qu'eles eram Testados e medidos pela guerra. As Valquírias, senhoras de dois mundos, Vêm conduzir os grandes à grandeza. Amantes da beleza e da coragem, Acompanham a estrada do guerreiro Enquanto avança sobre os inimigos, Deixando-se mostrar ao destemido Como se antevisão da boa morte.
IV No olhar d'essa mulher iluminada Que lhe vem ter no meio d'um entrevero, Reconhece o chamado do mais Alto E s'entrega ao beijo frio da morte. Oh bem-aventurado o que recebe A morte como amante e rega a terra Co'o sangue de incontáveis inimigos! Sacerdote, ele eleva-se oferenda No altar feito na terra sob os céus N'uma carnificina sanguinária. Sim, por seu braço a morte sega os campos A entulhar seus celeiros de cadáveres! E as Valquírias com seus corvos retintos Vêm se refestelar sob a alva lua.
Belo Horizonte - 25 09 2018
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BARCAROLA
Menina morena, De não e de sim. Pela lua plena, Que queres de mim?
Menina morena, Tu cheiras tão bem! És toda açucena E rosas também!
Menina morena, que tens de melhor? Tua fala amena E dois seios em flor.
Menina morena, De sim e de não... És a flor que acena Ao meu coração!
Peruíbe - 12 07 2018
123
ARREPENDIMENTOS
Tudo o que todos querem nos ouvir É que as coisas vão dar certo no fim. Fiz quanto pude; dei tudo de mim, Mas hoje desconfio inexistir...
Do que vi e vivi deixo ao porvir Esse passado tantas vezes ruim, Que quase não distingo não e sim, Receoso de que vá me ressentir.
Andando sem olhar mais para trás, Passei a acreditar que tanto faz O ponto aonde a gente vai chegar.
Talvez me reconheça arrependido De tudo que podia ou não ter sido Até poder de facto m'encontrar.
Betim - 24 09 2018
333
GRÃOS DE POESIA
Não me interessa ser mais e melhor N'esse mundo onde tantos são tão bons. Cuido de m'expressar tendo ou não dons Sem lhes pedir licença nem louvor.
Àqueles que me leem peço o favor Que não me julgueis mal em meus frissons Se entre preto e branco há mil entretons, Mesmo maus versos têm o seu valor...
Escrevo mal e pouco, mas escrevo. Ao menos do que faço nunca devo Inspiração a quem mais quer que seja.
Mas podem não gostar... Ninguém obrigo! Só obrigado estou de mim comigo Em dar grãos de poesia a quem deseja.
Betim - 23 09 2018
375
FLORES INÚTEIS
Sinto como se tudo à minha volta Fosse uma epifania ainda adiada Ou meus olhos olhando para o nada Ardessem de desejo e de revolta.
Eu vago pela noite sem escolta A surpreender azuis na madrugada, E ignoraria o afã da caminhada Não fosse o eco d'alguma frase solta:
No altar d'um deus finado me persigno Enquanto velhos fiéis cantando um hino Ornam flores inúteis para os mortos.
Contribuo com meu cravo na lapela E deixo enternecido essa capela Aonde vieram dar meus passos tortos.
Belo Horizonte - 16 09 2018
306
À BEIRA-MAR
Ritmado em agudo martelo, o galope Por metro pretende n'um verso onze pés Mais rimas de décimas postas de viés E adeuses na beira do mar onde eu tope O sábio Ulisses co'o grande ciclope: Partindo com pressa d'aquele lugar, Contém Polifemo depois de o cegar, E brada 'inda impávido contra o homicida Dos crimes havidos lá dentro da ermida, Enquanto s'evade na beira do mar.
Aquele, porém, de Neptuno era filho E evoca em desgraça desditas sem fim D'encontro aos helenos com tempo ruim Os mares extremos fechando o seu trilho E estrelas no céu renegando-lhes brilho Até que, perdidos, se veem naufragar E Ulisses sozinho ali vindo chegar: Saúda, entretanto, às gaivotas pairando E às ondas insãs que ao quebrar quando em quando S'espraiam em espumas na beira do mar.
Chegara estrangeiro na própria cidade, Oculto d'aqueles que lhe andam em roda Da esposa tão só que jamais se incomoda P'la espera do rei cuja imensa saudade Tecendo ao tear vê passar sua idade Refém de mesquinhos no eterno manjar: Enquanto conspiram tomar seu lugar No trono que vago demanda outro rei… Embora buscando ao arrepio da lei Um novo senhor para a beira do mar!
Consuma a vingança e a vontade dos deuses Quem fora escolhido p'ra ser vencedor! Conquiste da glória o mais alto penhor Deixando na beira do mar os adeuses! No mais, os mercados com vis enfiteuses Arrendem as naus para além navegar E busquem colônias por onde habitar Nas terras distantes que o nauta pisou E cheguem tão longe quanto ele chegou Nas praias extremas da beira do mar.
Peruíbe - 24 07 2018
153
POR TI (fado)
Eu por ti fiz quanto pude... Fosse muito ou não, Passei de gentil a rude Ao estender-te a mão. D'oravante, Deus te ajude Co'a tua ilusão!
Sem nunca te negar nada, Sequer tu me és grata! Passas por mim enfeitada Toda em ouro e prata Como eu fosse pela estrada Um cão vira-lata. Vistas altas quem se crê Ou princesa ou rainha. Quem te viu e quem te vê: Tu, quando eras minha, Rias sem quê nem p'ra quê Co'o pouco qu'eu tinha. Cuida que por teus caminhos Zelem mais por ti Do qu'eu com os meus carinhos Em vão consegui. Hoje junto dos sozinhos Choro quanto eu ri... Eu por ti fiz quanto pude... Fosse muito ou não, Passei de gentil a rude Ao estender-te a mão. D'oravante, Deus te ajude Co'a tua ilusão!
Betim - 18 09 2018
130
D'OLHOS FECHADOS
Deixo... Não sei se beijo ou sou beijado. Eu apenas te sinto e após me sinto... Pratico e o sofro o acto que desminto Tão-logo me percebo do teu lado.
Não deixo... Tudo ainda está errado! Sim, o amor vence tudo, mas pressinto Não ser a hora tão bela quanto pinto, Amando um olho aberto e outro fechado.
Não cuido se questão de sim ou não: É preciso cegar-me para cair D'amores e de dores pelo chão.
Mas busco o teu punhal a me ferir... E quando enfim partir meu coração Sei eu, d'olhos fechados, te sorrir.