RicardoC

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n. 1976 BR BR

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

n. 1976-05-01, Caratinga

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UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
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Biografia
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Poemas

184

ATEUS NÃO DIZEM ADEUS

Ateus não dizem adeus,
Eles só dizem "ao nada"...
Estes que vivem sem Deus
Despedindo-se dos seus
Creem vazia sua estrada.

Não que nada lhes importe
Ou que a ausência lhes console,
Só não veem facto mais forte
Sobre a vida após a morte
Ou que ao Universo controle.

O que veem é o infinito...
Bilhões e bilhões d'estrelas
Onde, nem feio nem bonito,
O homem como um mosquito
Se apequena diante d'elas.

Necessitam ver para crer
E pensar ao demonstrar
As verdades d'um saber,
Em vez de sem entender
Bem ou mal acreditar.

Enfim uma explicação
Que a religião se lhes nega.
Ao que, embora sem paixão,
Veem tão-só escuridão
Na luz a que a fé se cega.

Betim - 08 09 2018
138

DEUS E TODO MUNDO

Não venham me falar do que inexiste
Ou aquilo que está muito além de mim.
Pois Deus e todo mundo veem, por fim,
Que o que conta é tão-só não ser tão triste.

Certo que mais feliz é quem insiste
Em jamais deixar tudo ser tão ruim
E, sem se perturbar se não ou sim,
Faz das próprias misérias algum chiste.

Todo mundo se faz mais crente ou casto,
Na fé de que o Divino lhe acompanha
E tem que Deus é pai; não é padrasto.

Mas a vida reduz-se a um perde-ganha,
No qual as paixões levam-nos de arrasto
E ao fim gozo por pranto se barganha...

Betim - 06 09 2018
308

EM SÃ CONSCIÊNCIA

Nunca! A não ser que já de todo louco...
Nada nem ninguém há-de me mudar
De ideia se as ideias fora do lugar,
Falando até que fique quase rouco.

Não que das razões faça muito pouco:
-- Razões que a Razão sabe ignorar... --
O facto é contra os factos eu sonhar,
Ouvindo até deixar o ouvido mouco.

Sandice! Parvoíce!! Insanidade!!!
Não há quem seja sábio de verdade
Sem um grão de loucura mais fecundo.

Assim, para curar a mente insã,
Há-que se andar ao sol cada manhã,
Poetando para Deus e todo mundo.

Betim - 05 09 2018
302

VOSSO E REVOSSO

De tanto eu pertencer a vós, Senhora,
Haveis de mim a posse e a propriedade.
Tanto a alma quanto o corpo, em realidade,
Possuis-me em vosso peito antes e agora...

Inelutavelmente, desde outrora
Eu vivo sob a vossa autoridade.
Na ânsia de merecer-vos amizade
E graça aos vossos olhos vida afora.

E embora sejam muitos os haveres
Que tendes recebido da Fortuna,
Aceitai-me os impávidos quereres.

Vosso e revosso, clamo da tribuna:
-- "Por quem sois, oh mulher entre as mulheres!
Não vos negueis a mim na hora oportuna..."

Betim - 04 09 2018
300

CRÔNICAS D'EL REY - coroa de sonetos

CRÔNICAS D'EL REY - coroa de sonetos

CRÔNICAS D'EL REY - soneto geratriz

Escuto o velho rei em seu lamento
D'experiência inútil, pois tardia:
Glosa o mote da vã sabedoria,
Pois sem valia ao sábio em sofrimento.

Outro beija-mãos... Sua Majestade
Reina absoluto pela Boa-Vista!
Alta noite, porém, passa em revista
Todo o Paço vagueando em soledade.

Ao fim, como um rosário de remorsos
Recorda a si seus ávidos esforços
Como se algum espírito noturno.

Parvo! Não obtêm glórias a obsessão...
Esplendores tampouco... Vãos ou não,
Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno.


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto primeiro

Escuto o velho rei em seu lamento
De figura admirável na ampla sala
-- Mais bruxuleiam círios sobre a opala,
Pondo as sombras do Paço em movimento.

Hesita El-Rey em cada mal momento
Até quase inaudível sua fala...
Por tão terrível crime, ele se cala:
E às paredes segreda o seu tormento.

Percebe-se o remorso ali tão denso
Que poderia El-Rey tocá-lo -- eu penso --
Enquanto a narrativa reinicia.

Sequer justificava mais seu trono,
Tal a sinceridade no abandono
D'experiência inútil, pois tardia...


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto segundo

D'experiência inútil, pois tardia:
Renuncia à realeza e à realidade...
Habitante das nuvens, em verdade,
Entre sombras e luz se refugia.

--"Trovador" -- diz El-Rey -- "Quem o diria?..."
"Canta meu Reinado que se evade
Fazendo-me memória da vontade
Que desde cedo o espírito me ardia"

"A noite nos acolhe em seu regaço
Tão-só constelo estrelas pelo espaço
Enquanto te relato outra ousadia

Jamais favorecida pela sorte..." --
Ora El-Rey, quer alerte; quer conforte,
Glosa o mote da vã sabedoria:


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto terceiro

-- "Glosa o mote da vã sabedoria
Quem pelas convicções mais verdadeiras
Por extremos de tão móveis fronteiras,
Derrota após derrota conhecia..."

"O Reino em expansão nos florescia,
Quando ascendi ao trono por maneiras
Tão vis qu'eu nem sequer às derradeiras
Palavras de meu pai obedecia."

"Eu fora convencido por bandidos
A governar nomeando-os meus validos,
Movido pela urgência do momento."

"Feito por fazedores de maus reis,
Governava ao arrepio já das leis,
Pois sem valia ao sábio em sofrimento".


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto quarto

Pois, sem valia ao sábio em sofrimento,
Mal diferia já o certo e o errado.
El-Rey -- pela lembrança atormentado --
Cala-se com um esgar mais violento...

Ele me olha em profundo desalento
Sem saber que dizer de seu passado.
Por crimes bem sabia ser lembrado,
Esperando da História o julgamento.

Anseia ser esquecido ao fim, talvez...
Porém, quer confessar tudo o que fez
Em rimas a guardar-lhe o pensamento.

Pressentindo-se a queda da Coroa,
Manda-me vir poetar para Lisboa...
(Outro " beija-mãos" Sua Majestade?).


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto quinto

Outro beija-mãos, Sua Majestade:
-- "Vossa Alteza Real, grão senhor nosso!
Se for de seu agrado, ainda posso
Dar das Reais razões a realidade."

"Oxalá seja eu fiel só à verdade
E logre ater-me aos factos com o endosso
Já d'El-Rey dado a mim, servo revosso,
Fazendo jus a tal grandiosidade."

Ao que interrompe El-Rey subitamente:
--" Um grande? Não! Far-me-ás de novo gente,
Mediante rimas límpidas de artista."

Dito isso, ambos quedamos expectantes
Enquanto o silêncio, tal como antes,
Reina absoluto pela Boa-Vista...


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto sexto

-- "Reina absoluto pela Boa-Vista
Um rei velho, cansado e lamentoso.
Vislumbra pelas sombras o andrajoso
Poeta cuja desgraça conhecia."

"Coube a este pôr em letras quanto ouvia,
Memorando um Reinado desgostoso..."
-- E calo... Eu me interrompo pesaroso
Que tal sinceridade me traía. --

--"Prossegue, trovador, já não te cales.
O retrato que narras tem os males
Do retratado, não do retratista."

Ao que respondo: --"Sim, assim farei."
Toda a historia a narrar, o velho rei
Alta noite, porém, passa em revista:


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto sétimo

--"Alta noite, porém, passa em revista
O Infante aos conjurados pelo trono.
Cercam-no outros larápios, cujo sono
Se perde na ambição de má conquista:"

"-- "Por morto o irmão e louca a mãe, invista
Em tirar a Coroa do abandono!..." -
Logo após, negociavam-se outro abono,
Tão-só suas fortunas tendo em vista."

"Assim fora Regente e, após, El-Rey...
E, por confuso, o Corso eu enganei
Quando o Antigo Regime ruía lento."

Saboreia a ironia vã da História
Ainda a recordar sua mor glória,
Todo o Paço vagueando em soledade.


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto oitavo

-- "Todo o Paço vagueando em soledade,
Napoleão a enganar fora enganado...
Na partida ao Brasil, trouxe ao meu lado
Um misto de esperança e desalento."

"Sem embargo, encontrei mais sofrimento...
Não vi senão conflitos no Reinado!
Mesmo ao fugir de guerras, derrotado
Fora ao longo d'um século violento."

"Vencido o Corso, a Corte me apregoa!
Sequer posso voltar para Lisboa,
Sem contar com britânicos reforços."

"El-Rey de Portugal, Brasil e Algarve
Remoendo pelo Paço, insone e alarve,
Ao fim, como um rosário de remorsos..."


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto nono

-- "Ao fim, como um rosário de remorsos,
Muitos a recordar-me indecisões.
Em derredor, tão-só conspirações
Para após anistiar de maus desforços "

"Os corruptos às voltas com extorsos
E os fidalgos com outros galardões.
São parasitas vistos aos milhões
Sobre sangue e suor de negros dorsos..."

"Acompanho este século perplexo.
Nem a Corte, ou outro arranjo desconexo,
Haverá-de livrar-nos d'outros Corsos..." --

Hesita novamente o soberano,
Pois, buscando ser fiel ao próprio plano,
Recorda a si seus ávidos esforços.


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto décimo

Recorda a si seus ávidos esforços:
--"Para manter unido o Reino inteiro,
Ordenei desde o Rio de Janeiro
Organizar a volta co'os reforços.

"Todavia, grassavam os extorsos,
Quer em solo europeu; quer brasileiro.
Contra os quais me isolei por altaneiro.
Embora claudicando entre estorços."

"Ousara o que jamais um rei ousara.
Quando, ao sul do Equador, tive a luz clara,
De ver o Corso em França mais soturno."

"No Brasil, fiz o Reino ser reunido.
Por isso, o Paço tenho percorrido
Como se algum espírito noturno..."


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto undécimo

--"... Como se algum espírito noturno,
Em insones andanças pelo Paço.
Concilio a minha angústia co'o cansaço
D'esse terrível ímpeto diuturno."

"Há anos n'essa sala cá me enfurno
Em longos beija-mãos que aqui refaço
E após vir, alta noite, passo a passo
Carregando um semblante taciturno."

"Quem por acaso vê não me compreende
A dor que do Encoberto 'inda descende
Obrigada às razões do coração." --

E embora insone sonhe o Quinto Império,
Ele súbito explode ao extremo hespério:
-- "Parvo! Não obtêm glórias a obsessão!..."


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto duodécimo

"Parvo... Não obtêm glórias a obsessão..." --
Repete El-Rey a si já se acalmando.
Após tal paroxismo, ao seu comando,
Tornei a acompanhar sua narração:

-- "Dos remorsos que trago ao coração,
O pecado maior; o erro mais nefando,
Foi não manter o Reino unido quando
Caiu em definitivo Napoleão

"A partilha do Império já tramada
Pelas nações amigas... Cuja entrada
Em nossos portos dera eu permissão!..."

"Assim vimos partir mais rios d'ouro:
Exauridas as Minas, sem Tesouro...
Esplendores tampouco, vãos ou não..."


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto tredécimo

-- "Esplendores tampouco, vãos ou não?..." --
Contesto: -- " Vossa Alteza reina ao sul!"
-- "Deveras... Qual andasse por um paul
Ir governar dos trópicos Nação..."

"Britânicos com brigues vêm e vão;
Franceses, de Lisboa a Istambul...
Parecem almejar-se o céu azul
E o mundo reduzir a quase um grão".

"Terras e reinos reuni n'um mesmo cântico
D'uma margem até a outra do Atlântico
N'esse meu caminhar só e noturno." --

Todavia -- penso eu comigo mesmo --
Por caminhar insólito, à noite e a esmo,
Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno...


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto quadridécimo

-- "Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno,
Alteza Real, não grande ou clemente...
A sua caminhada, verazmente,
Mais faz especular o horror noturno."

"Se fora Napoleão corso e soturno,
Também um vencedor, cuja alva gente,
Parece idolatrar como somente
Veneraram romanos a Saturno..."

"Enquanto o sirvo pela noite, Alteza,
Eu tento traduzir dor em beleza
E ainda acompanhar seu passo lento.

"Mas digo se perguntam o que faço
Alta noite vagueando pelo Paço:
--"Escuto o velho rei em seu lamento.""

Contagem - 30 09 2012
141

EMPAREDADA

Nada podem as mãos contra o concreto
E os gritos que jamais alcançam um.
Resta apenas, sujeita à lei comum,
Ser reduzida rápido a esqueleto.

De parede à parede, chão ao teto,
O espaço não lhe dá conforto algum.
Devora-se, por fim, em vão jejum,
Vítima d'algum péssimo projeto.

Estranho é que a razão de tal clausura
Fora justo a esperança libertária,
Perdida em meio à noite mais escura.

E a pena que ela cumpre feito pária
Tão-só prolonga a angústia em que figura,
À espera d'uma morte solitária...

Betim - 30 08 2013
332

AO PÉ DA LETRA

Entre tudo o que se diz
E quanto se quis dizer,
Carece reconhecer
De quem dizia os ardis
E quem ouvia o saber.

Porque ouvir é atentar
àquilo que o outro nos disse
Mas também ao que desdisse
E, conforme a hora e o lugar,
Saber se facto ou tolice.

Pois a palavra falada
Pelo tom que se lhe dá
Em bem ou mal haverá-
De nos ser interpretada,
Repetindo-a lá e cá.

Porém, à palavra escrita,
A voz que fala se cala...
E por calada intercala
Tanto a verdade infinita,
Quanto a mentira mais rala.

No mais, onde for Poesia
Só o espírito penetra:
Rima, ritmo, metro etcet'ra...
Feliz quem tem a alegria
De vivê-la ao pé da letra!

Belo Horizonte - 25 08 2018
339

ENXAQUECA

Hipersensível, cubro-me as janelas
E submerjo em silêncio e escuridão.
Capto do ambiente cada vibração
Por carregar da dor suas sequelas.

Isto me é existir quando procelas
Põem à deriva mente e coração.
Atravesso a absoluta solidão,
D'outra noite sem lua nem estrelas.

Insônia, angústia, febre, forte estafa...
Verificação cíclica de dados,
Onde o fluxo de ideias engarrafa.

Finda em cerco aos meus eus enmimesmados,
Mas nada nem ninguém dentro se safa
E eu me abandono d'olhos bem fechados...

Betim - 21 08 2018
418

SEJE!

Abundante esse verbo do meu ser
Que, imperativo, do sê até o seje
Por entre tantos seres se deseje
Até se outrar no tu que se quiser.

Um vir a ser de mim por melhor ver:
-- "Seje!" -- Para que alcance quanto almeje
Ainda que a galera me apedreje
Por simplesmente não me compreender.

Porque a língua está viva e se reinventa
Na fala d'essa gente que a bem fala
E na escrita que a bem ouvir se cala.

Ser trezentos, trezentos e cinquenta...
Quando mais e mais almas me consomem,
Mais eu saiba dizer a mim: -- "Seje, homem!..."

Contagem - 16 08 2018
1 017

ZIRIGUIDUM, BALACOBACO E TELECOTECO

É festa de batuque no boteco,
No que bate e rebate; ouve e repete.
Samba é canção puxada no falsete
Ao som de tamborim e reco-reco.

É do balacobaco o repeteco!
No pique do repique pinta o sete.
Quando, desde o barraco ao palacete,
D'algum Brasil feliz escutam o eco.

Em zum-ziriguidum, voz e violão
Vagueia ensimesmada outra emoção
De juntos ver-ouvir a noite toda.

E ali, mais bela a pele mais morena,
Enquanto a lua cheia se asserena
A batida do samba lhe abre a roda.

Belo Horizonte - 14 08 2018
476

Comentários (5)

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Luciana

Lindos poemas ,meu caro!

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

EDUARDO POETA

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

bom vê-lo por aqui

natalia nuno

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!