RicardoC

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n. 1976 BR BR

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

n. 1976-05-01, Caratinga

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UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
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Biografia
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Poemas

184

DESESPERANÇA

Às voltas co'os excessos do presente,
Andava com saudades do futuro.
Até me acostumei a ver no escuro
De tanto não ter nada à minha frente.

A decepção me fez indiferente,
A ponto de ignorar onde é seguro.
Há tempos que não sonho nem procuro
Senão obrigações de displicente.

Se já não sei torcer pelo melhor,
Tampouco me preparo pr'o pior:
Apenas sigo sombras pela noite.

Entrementes, os homens passarão
E a História julgará se a escuridão
Veio pela ilusão ou pelo açoite...

Belo Horizonte - 14 08 2018
352

A MÃO ARMADA

-- "Estúpido! Facínora!! Assassino!!!" --
Berrava, d'além-túmulo, o coitado
Pelas mãos d'um outro assassinado
Após um entrevero vespertino.

Reteve-lhe tão-só o olhar malino
Ao baque do projétil disparado:
Seu corpo sobre o chão atravessado
Morria como se obra do Destino...

Espírito, porém, evocava às Fúrias,
Rogando maldições, pragas e injúrias
Àquele que lhe dera voz de assalto.

Porque, pior que a morte, era a ilusão
De ser ouvido em face da visão
De si mesmo estirado pelo asfalto...

Betim - 13 08 2018
470

TREZE DE AGOSTO

É o tipo de bobagem que deixa a gente um pouco mais feliz. Sim, as pequenas alegrias que somadas podem compor uma felicidade plena, gratuita e desinteressada. Estar vivo. Olhar e ver. Aceitar a condição humana com suas misérias e maravilhas... Hoje acordei mal. Muita dor de cabeça e mal estar. Tinha a impressão de que o despertador me furtara horas de sono enquanto me dirigia à cozinha e punha água para ferver. Maldisse a noite mal dormida e a angústia dos impasses no trabalho que me tiraram o sono. Maldisse o café que sorvia sem qualquer gosto e ainda o dinheiro gasto sem prazer no fim de semana. Maldizia tudo que, d'um modo ou d'outro, concorrera para aquele despertar tétrico no qual a própria cabeça me impedia de pensar. O dia só estava começando e já desfilavam diante de mim inúmeras situações desagradáveis, sobretudo por atestarem minha incompetência e inabilidade. Eu precisava virar a mesa, mas faltavam-me forças... Chegava a duvidar de que qualquer intervenção minha fosse ainda algo pertinente. Eu me apequenava ante mim mesmo.

Deixei o dia seguir. Fui para o trabalho e parei para ver a manhã: Alguns minutos de contemplação vazia. Não havia nenhuma paisagem extraordinária diante dos meus olhos ou tampouco epifanias espirituais quando os fechava. Eu olhava e via o mundo tal como era, nem feio nem bonito. Percebi então que, o que quer que acontecesse, eu deveria aceitar como parte indissociável da vida. O fracasso que antevia há dias, ainda que se concretizasse hoje, seria bem-vindo, assim como tantos fragorosos fracassos passados hoje são saudados em minh'alma face à pessoa que me tornei. Coleccionar fracassos dizia muito de mim e de minhas limitações. Eu queria ser melhor do que sou, mas não era. Eu queria, sinceramente, ser mais culto, mais centrado, mais ousado e mais capaz de realizações. Todavia, não passava d'um vago sonhador entorpecido. Minhas miragens interiores não serviram para realizar livros, arquiteturas ou imagens excepcionais. Eu continuo trafegando no limbo em busca de fantasmas obscuros. Esse talvez seja o resumo perfeito de minha vida.

Mas o incrível d'isso tudo é que eu estava feliz. Havia uma postura positiva em contemplar o próprio fracasso, mais do que em celebrar uma vitória, pensava. Eu podia seguir lutando, mas o facto é que fora desmascarado e vilmente exposto: Eu não era grande! Não fizera algo grande quando finalmente tive a oportunidade. Eu falhei novamente, como tantas vezes já havia falhado. N'estas horas, se eu me conhecia bem, a vontade de jogar tudo para o alto e m'esconder n'algum buraco só era não era maior que a necessidade de seguir em frente, apesar dos pesares. Sim, eu tinha-de seguir em frente, com as orelhas de burro expostas e sem a menor esperança de que, talvez, nem todos o notassem. Eu e minhas mazelas. Eu e minhas contradições. Eu sou aquele que não é bom o bastante, nunca fui e nunca serei. Minha felicidade, de facto, era sabê-lo.

À medida que a dor de cabeça passava e o momento autocontemplativo se dissipava, eu chegava ao meu posto de trabalho pleno de consciência de minhas limitações. Aceitá-las, ao invés de me martirizar, era o único bem qu'eu poderia me proporcionar. Ser quem eu era, para o bem ou para o mal, era a unica coisa boa que restava d'isso tudo. Aceitar aquela segunda-feira com todos os seus azares era a prioridade d'aquela manhã.

E assim o fiz.

Betim - 2018
156

A BORDO

A barca que me leva para as ilhas
Sulca as ondas d'um mar esmeraldino.
D'olhos arregalados me amenino,
Navegante entre sais e maravilhas...

Carreira dos Açores às Antilhas
Onde poentes segredam-me o destino!
Alma atlântica posta em desatino
Após atravessar milhas e milhas.

Desperto em meio à névoa matutina
Na qual mui lentamente em derredor
A imensidão além se descortina.

Ali, envolto todo em pleno albor,
O mundo evanescente na retina
À voz que vem de dentro faz maior.

Peruíbe - 20 07 2018
365

A VOLTA DO MAR

Passando muito ao largo em seu retorno
Mareavam para além do conhecido...
E os ventos que governam desde o Olvido
Encurvam caprichosos tal contorno.

Pois apesar do abismo logo em torno
Ousaram pelo mundo reduzido
Avançar com as velas que têm sido
Na imensidão do mar estranho adorno.

Assim, de volta da Índia ou do Japão,
Desviam-se do Norte em direcção
Das Ilhas pelos céus afortunadas.

Ali gozam riquezas mais futuras
Lavadas no suor das aventuras
E ornadas no relato das jornadas.

Peruíbe - 21 07 2018
284

A BORDO

A barca que me leva para as ilhas
Sulca as ondas d'um mar esmeraldino.
D'olhos arregalados me amenino,
Navegante entre sais e maravilhas...

Carreira dos Açores às Antilhas
Onde poentes segredam-me o destino!
Alma atlântica posta em desatino
Após atravessar milhas e milhas.

Desperto em meio à névoa matutina
Na qual mui lentamente em derredor
A imensidão além se descortina.

Ali, envolto todo em pleno albor,
O mundo evanescente na retina
À voz que vem de dentro faz maior.

Peruíbe - 10 07 2018
444

A RESPEITO

Quem tudo sabe mui pouco conhece.
Não concordas? Convém olhar direito:
Se desconheço, mais penso a respeito;
Em vez de julgar como me apetece.

Sabes que menos sábio me parece
Quando me impõem o mundo do seu jeito...
Preguiça intelectual o preconceito!
Mesmo elevado a Deus em meio à prece.

Mas, para censurar-me dedo em riste,
Lês à pressa senões em demasia
Já desqualificando quanto viste.

Peço que me respeites a poesia,
Sem apenas taxar se alegre ou triste,
S'encaixa em tua vã sabedoria...

São Paulo - 20 07 2018
327

ANTIFASCISTA

De embrutecido apelo aquela união
De fortes se fazendo 'inda mais fortes
Contra uma ordem corrupta de vãs cortes
Mais o Mercado e sua avara mão.

Assim bem se seduz uma nação
Ao atapetar co'o sangue de mais mortes
A estrada do Poder após recortes
Que expurguem d'entre os bons qualquer vilão...

Mas, o que pode a pena contra a espada
Co'a violência corroendo feito cárie
A voz esclarecida ante a barbárie?...

-- Que ela escreva até ser silenciada.
E, a despeito do horror ou do egoísmo,
Jamais se curve em face do fascismo!

Peruíbe - 22 07 2018
420

NA REBORDOSA

Mal acordo e começa a girar tudo...
Olhos cerrados contra o sol brilhando,
Enquanto latejava quando em quando
Minha cabeça a cada espasmo agudo.

No espelho, muito pálido e barbudo,
Eu miro e me remiro; ando e desando.
E então, suando frio e vomitando,
De noitadas assim me desiludo.

Eu tento me lembrar d'algo que fiz
Na esperança que um pouco mais feliz
Atravessara a insana bebedeira.

Mas não guardei sequer um só momento,
Pois, em plena alegria, o esquecimento:
Eis a manhã seguinte à noite inteira!...

São Paulo - 10 07 2018
1 044

LAMIRÉ

É porque ao diapasão do trem de ferro
Que se afina a alvorada do sertão...
A passarada vem da imensidão
A s'espalhar nas névoas pelo serro.

Agudo, canta em solo o trinca-ferro;
Respondem zabelês em cantochão.
E, uma após outra, as aves de arribação
Solfejam seus lamentos no desterro.

Mais ao longe, entre errático e dolente,
O concerto dos bois e dos aboios
Ecoa pelos vales amplamente.

É porque no andamento dos comboios
Que se compassa logo ao sol nascente,
A música a verter pelos arroios.

Betim - 28 06 2018
368

Comentários (5)

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Luciana

Lindos poemas ,meu caro!

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

EDUARDO POETA

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

bom vê-lo por aqui

natalia nuno

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!