Da rosa cor de rosa e de açucena, O rosa d'açucena cor de rosa. É cor da flor de cor impetuosa, É flor da cor da flor rosa e serena.
Se n'açucena cor a flor acena, Também na rosa flor a cor formosa: Rosa açucena, não açucena rosa!... A flor na qual a cor se faz mais plena.
Mas entre uma e outra flor, uma só cor: Da açucena e da rosa, o rosicler; Ao que adornasse a face da mulher.
Como se indistintas cor e flor, Tanto rosa e açucena têm por tino Em rosicler um tom mais feminino.
Betim - 15 06 2018
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CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO
Primeira Parte: AO POENTE
Desde o tempo dos antigos Estes dois arqui-inimigos Veem-se às vezes face a face. Tinham os olhos sangrando Ao longo de longo impasse, Soltando, sem que findasse, Faíscas de quando em quando...
Era o sol em agonia. Era a lua em pleno dia. Era ele o sol encarnado. Era ela a lua de sangue!... Eram os dois lado a lado: Ele, rubro e envergonhado; Ela, 'inda pálida e exangue.
O sol, ferido ao declínio, Um firmamento sanguíneo Deixa após si n'Ocidente. Já a lua, vespertina, Surgia em quarto crescente, A luzir quase ao poente Face ao sol e sua sina.
Como acontece há milênios Pelos celestes proscênios, Sucedia a lua ao sol. D'esta feita, todavia, Depois do rubro arrebol Passando à cheia (um farol!) Diversa se prometia...
Segundo efemeridades, Estas astrais potestades Transitam bem regulares Quando vistas cá da Terra: Têm das luzes estelares Certas datas e lugares, Que de cada eclipse encerra.
N'aquela noite, portanto, Para universal espanto Mais um eclipse lunar Estava escrito no quadro: Havia-de se ocultar A lua, até s'escutar Mais alto de cães o ladro.
Com efeito, a lua cheia Às imensidões clareia Enluarando a cordilheira! Pois, finda a fase crescente, A lua se mostra inteira E domina, companheira, A noite resplandecente.
Pouco a pouco, todavia, A sombra da Terra havia- De lhe ocultar toda a face. E o luar obscurecido Avermelha-se fugace, Tornando-se ao desenlace Rubra qual sangue vertido!...
* * * Segunda Parte: PROSÉLITOS
Contudo, por toda parte E com toda a espécie d'arte S'elevaram muitas vozes De líderes religiosos, Que com libelos ferozes Arvoraram-se os algozes Dos erros pecaminosos.
Como se o braço de Deus, Espevitavam os seus Com ardor contra os demais, Porquanto o mal manifesto... Corrompida a Humanidade, Eram eles, na verdade, Dos homens santos um resto.
Arrastavam multidões Com extensas pregações A relembrar profecias D'esses eventos finais. Afirmando em bizarrias Ser aquele o fim dos dias Face aos bíblicos sinais.
Havia, de facto, a imagem - Livro de Joel, passagem Dos oráculos do Senhor - Contando antiga visão: - "Eis que um sol já sem ardor Cede no céu seu fulgor À mais plena escuridão
No lugar, tão-só a lua Sem estrelas continua Reluziria, contudo, Plena e sanguínea no céu. Indicando o fim de tudo, Onde crentes sobretudo Veem a desdita do infiel!..."
Creem que Joel descreveu, Que a lua em seu apogeu Será sanguínea também E aos céus não mais deixaria! Somente um resto, porém, Reunido em Jerusalém Com fé sobreviveria.
Os mais, perdidos nas trevas, Co'as suas paixões malevas Vendo os crentes verdadeiros Livres de tão triste sorte. Onde desastres inteiros E, ao fim, quatro cavaleiros: Peste, guerra, fome e morte.
Após a última trombeta, A cristandade completa Veria o instante esperado. Só então, o crente fiel Com Jesus ressuscitado É também arrebatado Para ir ter com Deus no céu.
Aos que ficam - dizem eles - Resta a mesma a vida reles: O mundo em sua injustiça Permanece sem final. Pois, onde o pecado viça Na luxúria e na cobiça Continua tudo igual!
A leituras desonestas E tão obtusas quanto estas É difícil contrapor, Enfim, o que quer que seja. Se, para meu estupor, Confundir mediante o horror No fundo é o que deseja.
- "Tendo fé como argumento, A verdade é treinamento!" - Eis como por circunstância Um intolerante ensina A sua própria intolerância Àqueles que com grande ânsia Lhe observam a disciplina...
Qualquer frase repetida - Quer banal ou esclarecida - Dogma virava em seus lábios!... Clamando em nome de Deus Contra islamitas arábios, Cientistas, artistas, sábios E seculares ateus.
Tenho claro que tais falas Ecoando por amplas salas Tocam muitos corações. Mas são mais sobre política Do que sobre religiões: A estes extensos sermões Sempre falta autocrítica!
E tais mensagens pastoras, - Autolegitimadoras!... - Têm em comum entre si O senso de que a Verdade É a mesma aqui e ali, Reluzindo igual rubi Para toda a Humanidade.
Em discussões cheias de nada Tão-somente confirmada A doutrina em seus enigmas Deve ser por seus doutores... Se, entre dogmas e querigmas, De Jesus vendo os estigmas Vêm celebrar-lhe louvores.
Assim, condenam o mundo E o descrevem moribundo À espera de seu final. Em tudo vendo prodígios, Já creem do bem contra o mal A lua em sangue um sinal Após guerras e litígios.
* * * Terceira Parte: EM NARRATIVA
De que servem os artistas Os poetas, os romancistas E os contadores de histórias, Senão com vilões e heróis Ter inventadas memórias?... E ir das contendas às glórias Entre eclipses e arrebóis!...
Historiar é encontrar Onde os actos têm lugar E onde o herói se movimenta Em plena metamorfose: Muito sofre, pena, tenta, Perde, ganha, luta e enfrenta Até a sua apoteose!...
Há-que pôr em narrativa Quanto bem ou mal se viva: Ver o que, como, quando e onde... Em tempo e espaço cobertos, Às vastas questões responde Ao dispor o que s'esconde Como se livros abertos.
Carece que o bom enredo Surpreenda - quer triste ou ledo - Pois história bem contada É a que do início ao fim Lê-se a varar madrugada, Mantendo a mente encantada Como fosse mesmo assim.
E que cada personagem Nos traga alguma mensagem Do que seja estar e ser. E de tanta humanidade Se lhe possa perceber, Em cada lance a vencer Por fim, a sua verdade.
Lua e sol ponho em cordel Para um eclipse no céu, Além de nos encantar, Iluminar nossas vidas. E 'inda desmistificar Lendas que tomam lugar De verdades bem sabidas.
Mas compete ao narrador Falsos profetas expor Para no fim demonstrar O quão vagos e inexactos, Que vendo o agouro falhar São capazes de afirmar Errados serem os factos!
Se arautos do fim do mundo Põem sementes no fecundo Chão da esperança humana, Venha a poesia e conteste Quem à fé alheia engana E às profecias profana, Torcendo as luzes do Agreste.
Quem quiser manipular A fé do povo em lugar De se procurar respostas, Tenha ao menos a visão De que verdades impostas Por religiões, são apostas; Apenas outra opinião.
Pois Deus mesmo ninguém viu E da morte não se ouviu Qualquer palavra de volta: Tudo é especulação!... Sem mais, fica só revolta Ou lamento que nos solta Por angústia o coração.
Já depois do fim do mundo - Ou da morte - n'um segundo Tudo deixará de ser. Portanto, o que quer que seja Não se finja mais saber Que os demais pelo poder De impor-lhes quanto deseja!
Quer d'aqui ou de nenhures Aonde algures e alhures Nos leva a imaginação, A história nos transporte Pelas voltas da ficção Com razão mais emoção Para além de vida e morte.
* * * Quarta Parte: O SOL ENCARNADO
Cor de carne em chaga viva, O sol a morrer reaviva A beleza aos olhos meus. Eu, embora embevecido, Reflito que existe Deus Diante de prodígios Seus Como o sol entardecido.
Sim, se há Deus é na beleza Do esplendor da Natureza E em nossos olhos a vê-la. O mais, é vontade humana De ver na encarnada estrela Mais do que uma coisa bela Outro deus no qual s'engana...
Ou pior, cego à maravilha D'ela faz outra partilha Que confirma as Escrituras... E, arvorando-se profeta, Com tenebrosas figuras Exorta às demais criaturas A vida que acha correta.
Entrementes, ele mesmo Vocifera culpas a esmo Sem mover seu próprio jugo! Fala em nome do Senhor, Mas não passa de refugo: Se d'outros juiz e verdugo De si grande absolvedor...
Se há Deus é porque no céu O sol despede-se fiel A cada dia que passa. E vê-lo partir traz paz, Maravilhamento e graça Mesmo qu'ele nada faça Além de pôr-se lilás.
E depois, lento desdouro Como se perdesse o tesouro Que espalhou no firmamento. Mas, enquanto empalidece, Um céu de melancolia: Anoitecendo em poesia, Outra hora azul oferece...
Mas se há Deus é simplesmente Por estar aqui presente O mundo inteiro comigo. Não entendo santidade Obcecada co'o perigo De cair frente ao inimigo, Que também Humanidade.
Os conflitos são História, Onde até grande vitória Logo passa por derrota: Quem é um vencedor hoje Nem será digno de nota Se então por terra remota Amanhã ou depois foge...
Se há Deus é que estou vivo E, nem humilde nem altivo, Eu me ponho em frente ao sol. E, até o vir encarnado S'espalhar pelo arrebol, Paro para o pôr-do-sol, Sem já futuro ou passado.
* * * Quinta Parte: A LUA DE SANGUE
Havendo Deus ou não, eu Vi quando o sol s'escondeu E a lua cresceu no céu. Quando plena, todavia, Sangrou por sobre o papel Até se tornar cordel E resplender em poesia:
A lua à sombra da Terra Sumia como se a guerra Que tem co'o sol a cortasse E, ao fim, a ocultasse inteira. De facto, quem ora olhasse Mais e mais obscura a face Veria d'esta maneira.
Mas quando escura de vez, Ao invés de sumir, talvez Quisesse o sol lhe sangrar Tal como fora sangrado. Assim, n'esta hora e lugar, O sol soube à lua outrar Com seu rubor encarnado.
Plena noite, a lua plena Deixa d'enluarar serena Os céus da minha terra Para sangrar d'encarnado Feito o sol que se desterra Ao se pôr de trás da serra Depois do dia acabado.
Porém, além da beleza - E, sobretudo, rareza - Nada sobrenatural: A lua volta da sombra A pratear sempre igual... Sem vir juízo final O eclipse já não assombra.
Não que não houvesse guerra Ou peste e fome na Terra, Além de grandes tragédias, - Quer naturais ou nem tanto... - Mas nada acima das médias A grafar enciclopédias Com mais verbetes de espanto.
Não houve o que estava escrito; Nenhum poder infinito Perseguiu os cristãos justos. Tampouco arrebatamentos Ou outros eventos robustos A deflagrar entre sustos Finais acontecimentos.
O que houve foi outro dia Com a sua travessia Para o crente e para o ateu. Nada novo se contou... Nada novo s'escreveu... Pois tudo isto aconteceu E o mundo não se acabou.
Betim - 02 06 2018
442
CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO / Terceira Parte: EM NARRATIVA
Terceira Parte: EM NARRATIVA
De que servem os artistas Os poetas, os romancistas E os contadores de histórias, Senão a elevar heróis? Com inventadas memórias Exaltando as suas glórias Entre rubros arrebóis!...
Historiar é encontrar Onde os actos têm lugar E onde o herói se movimenta Em plena metamorfose: Muito sofre, pena, tenta, Perde, ganha, luta e enfrenta Até a sua apoteose!...
Há-que pôr em narrativa Quanto bem ou mal se viva Por o que, como, quando e onde... Em tempo e espaço cobertos, Vastas questões responde Ao dispor o que s'esconde Como se livros abertos.
Mas dizem que o bom enredo Surpreende, quer triste ou ledo, Até o próprio escritor!... Que uma história bem contada É a que do início ao fim Lê-se a varar madrugada, Mantendo a mente encantada Como fosse mesmo assim.
E que cada personagem Nos traz alguma mensagem Do que seja estar e ser. E de tanta humanidade Se lhe possa perceber, Em cada lance a vencer Por fim, a sua verdade.
Quer d'aqui ou de nenhures Aonde algures e alhures Nos leva a imaginação, A história nos transporte Pelas voltas da ficção Com razão mais emoção Para além de vida e morte.
Lua e sol ponho em cordel Para um eclipse no céu, Além de nos encantar, Iluminar nossas vidas. E 'inda desmistificar Lendas que tomam lugar De verdades conhecidas.
Quem quiser manipular A fé do povo em lugar De se procurar respostas, Tenha ao menos a visão De que a sua opinião É igual a outras apostas:
Se Deus mesmo ninguém viu E da morte não se ouviu Qualquer palavra de volta, Tudo é especulação!... Sem mais, fica só revolta Ou lamento que nos solta Por angústia o coração.
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CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO - Segunda Parte: PROSÉLITOS
Segunda Parte: PROSÉLITOS
Contudo, por toda parte E com toda a espécie d'arte S'elevaram muitas vozes De líderes religiosos, Que com libelos ferozes Arvoraram-se os algozes Dos erros pecaminosos.
Como se o braço de Deus, Espevitavam os seus Com ardor contra os demais, Porquanto o mal manifesto... Corrompida a Humanidade, Eram eles, na verdade, Dos homens santos um resto.
Arrastavam multidões Em extensas pregações A relembrar profecias D'esses eventos finais. Afirmando em gritarias Ser aquele o fim dos dias Face aos bíblicos sinais.
Havia, de facto, a imagem -- No livro de Joel passagem Dos oráculos do Senhor -- Contando a sua visão: Onde um sol já sem ardor Cede no céu seu fulgor À mais plena escuridão
No lugar, tão-só a lua Sem estrelas continua A reluzir, contudo, Plena e sanguínea no céu. Indicando o fim de tudo, Onde crentes sobretudo Veem a desdita do infiel!...
Como Joel descreveu, A lua em seu apogeu Fez-se sanguínea também E os céus não mais deixaria. Somente um resto, porém Reunido em Jerusalém Com fé sobreviveria.
Os mais, perdidos nas trevas, Co'as suas paixões malevas Vendo os crentes verdadeiros Livres de tão triste sorte Onde desastres inteiros E, ao fim, quatro cavaleiros: Peste, guerra, fome e morte.
Após a última trombeta, A cristandade completa Veria o instante esperado Só então, o crente fiel Com Jesus ressuscitado É também arrebatado A ir ter com Deus no céu.
Aos que ficam -- diziam eles -- Resta a mesma a vida reles: O mundo e sua injustiça Permanece sem final. Pois, onde o pecado viça Na luxúria e na preguiça Continua tudo igual!
A leituras desonestas E tão obtusas quanto estas É difícil contrapor, Enfim o que quer que seja. Se, para meu estupor, Confundir mediante o horror No fundo é o que deseja.
-- "Tendo fé como argumento, A verdade é treinamento!" -- Eis como com inconstância Um intolerante ensina A sua própria intolerância Àqueles que com grande ânsia O veem igual lamparina...
Qualquer frase repetida -- quer banal ou esclarecida -- Dogma virava em seus lábios. Clamando em nome de Deus Contra islamitas arábios, Cientistas, artistas, sábios E seculares ateus.
Tenho claro que tais falas Ecoando por amplas salas Tocam muitos corações. Porém, são sobre política E não sobre religiões... A estes extensos sermões Sempre falta autocrítica!
Mas as mensagens pastoras, -- Autolegitimadoras!... -- Têm em comum entre si O senso de que a Verdade É a mesma aqui e ali, A reluzir igual rubi Para toda a Humanidade.
Em discussões cheias de nada Tão-somente confirmada A doutrina em seus enigmas Deve ser por seus doutores... Onde dogmas e querigmas, De Jesus veem os estigmas Ao celebrar-lhe louvores.
Assim, condenam o mundo E o descrevem moribundo À espera de seu final. Em tudo vendo prodígios, Já creem do bem contra o mal A lua em sangue um sinal Após guerras e litígios.
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CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO/ Primeira Parte: AO POENTE
Foi no tempo dos antigos Quando dois arqui-inimigos Viram-se enfim face a face. Tinham os olhos sangrando Ao longo de longo impasse, Soltando, sem que findasse, Faíscas de quando em quando...
Era o sol em agonia. Era a lua em pleno dia. Era ele o sol encarnado. Era ela a lua de sangue!... Eram os dois lado a lado: Ele, rubro e envergonhado; Ela, 'inda pálida e exangue.
O sol, ferido ao declínio, Um firmamento sanguíneo Deixa após si n'Ocidente. Já a lua, vespertina, Surgia em quarto crescente, A luzir quase ao poente Face ao sol e sua sina.
Como acontece há milênios Pelos celestes proscênios, Sucedia a lua ao sol. D'esta feita, todavia, Depois do rubro arrebol Passando à cheia (um farol!) Diversa se prometia...
Segundo efemeridades, Estas astrais potestades Transitam bem regulares Quando vistas cá da Terra: Têm das luzes estelares Certas datas e lugares, Que cada eclipse encerra.
N'aquela noite, portanto, Para universal espanto Mais um eclipse lunar Estava escrito no quadro: Havia-de se ocultar A lua, até s'escutar Mais alto de cães o ladro.
Com efeito, a lua cheia Às imensidões clareia Enluarando a cordilheira! Pois, finda a fase crescente, A lua se mostra inteira E domina, companheira, A noite resplandecente.
Pouco a pouco, todavia, A sombra da Terra havia- De lhe ocultar toda a face. E o luar obscurecido Avermelha-se fugace, Tornando-se ao desenlace Rubro qual sangue vertido.
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REVÊNCIA
À jusante, por onde o açude sangra Roçados reverdecem os baixios. E mesmo quando já rasos os rios Ainda o milharal na névoa mangra...
Um pesqueiro fazendo as vezes d'angra E barcos navegando igual navios. Longes, os carcarás dos serros frios Na rapina da preá e da calangra.
Sertãozinho bonito esse d'aqui!... É por toda a planície uma verdura Como por poucas vezes antes vi.
Os frutos do trabalho, com fartura, Eu finalmente em paz usufruí, Tão perto que cheguei da grã-ventura!...
Betim - 05 06 2018
431
INDO-EUROPEU
Indo, porque antiquíssimo e distante; Europeu, porque louro e ocidental... Assim o mais remoto fez-se igual Na ilusão d'uma etnia dominante.
'Té gente inteligente e interessante Caiu n'esta esparrela... E, no final, Sendo o líder supremo um anormal, Foi só dor e violência d'aí em diante... Quem buscava dos povos as raízes Viu se lhe deturparem a teoria, Pinçando algo entre frases infelizes. A saga dos arianos, todavia, Deixou por sobre a pele cicatrizes, Que se aprofundam mais a cada dia. Betim - 04 06 2018
349
A REPRIMENDA
Entregou o manuscrito e ficou esperando que o outro terminasse de ler. Como não dissesse nada resolveu quebrar o silêncio que já se tornava incômodo.
-- "Estás com cara de quem leu e não gostou. É um pouco como te vejo..." -- "Não faças isso" -- o outro disse -- -- "Isso o quê? -- atalhou. -- "Analisar-me como se eu fosse uma personagem de romance. Tenho certeza que sou mais complicado que isso".
Não esperava por aquela reacção. Assumiu um tom mais sério a partir d'ali.
-- "Na verdade, meu caro, as pessoas mais interessantes que conheço são personagens de romance. É quase um elogio ser descrito como ou analisado como uma..."
-- "Discordo." -- interrompeu o segundo -- "Parece uma necessidade humana pôr o acaso em narrativa; dar sentido ao caos." -- e concluiu: -- "Não precisas tentar me encaixar n'algum perfil psicológico para deduzir minhas motivações. As coisas simplesmente acontecem e nos afectam. É apenas isso! Não há um grande plano, humano ou divino, por detrás. Não há uma sociedade secreta ou coisa que o valha manipulando os liames que nos movem. Não há nada além de gente tentando viver sua vida da melhor forma que consegue."
-- "Agora quem vai discordar sou eu. -- disse, por fim, o primeiro -- Há muita gente "fora da curva" que faz coisas impressionantes ou que sentem o mundo de modo diferente. Essas pessoas que busco conhecer. Essas que chamo de interessantes ou extraordinárias".
-- "Ah, sei: Assassinos que cometem crimes perfeitos; homens que vão para uma guerra e trazem um olhar pessoal da História; mulheres belíssimas que olhos seguem deslumbrados... Queres saber? Estou farto d'este monte de nada a que a indústria cultural chama de entretenimento."
Betim - 03 02 2018
159
TANGOLOMANGO
Fiquei n'uma mão de calango Depois de dar tudo que tinha. Agora debalde me zango Por aquela que fora minha.
Agora debalde me vinha Longe a zoeira do fandango: Depois de dar tudo que tinha, Fiquei n'uma mão de calango.
Agora debalde balango A mão já de todo sozinha: N'ela deu tangolomango... Depois de dar tudo que tinha, Fiquei n'uma mão de calango.
Betim - 02 06 2018
355
EM NARRATIVA
De que servem os artistas Os poetas, os romancistas E os contadores de histórias, Senão a elevar heróis? Com inventadas memórias Exaltando as suas glórias Entre rubros arrebóis!...
Historiar é encontrar Onde os actos têm lugar E onde o herói se movimenta Em plena metamorfose: Muito sofre, pena, tenta, Perde, ganha, luta e enfrenta Até a sua apoteose...
Há-que pôr em narrativa Quanto bem ou mal se viva Por o que, como, quando e onde... Em tempo e espaço cobertos, Vastas questões responde Ao dispor o que s'esconde Como se livros abertos.
Mas dizem que o bom enredo Surpreende, quer triste ou ledo, Até o próprio escritor!... Que uma história bem contada É a que do início ao fim Lê-se a varar madrugada, Mantendo a mente encantada Como fosse mesmo assim.
E que cada personagem Nos traz alguma mensagem Do que seja estar e ser. E de tanta humanidade Se lhe possa perceber, Em cada lance a vencer Por fim, a sua verdade.
Quer d'aqui ou de nenhures Aonde algures e alhures Nos leva a imaginação, A história nos transporte Pelas voltas da ficção Com razão mais emoção Para além de vida e morte.