Beijo
É certo o que se diz a teu respeito? Que esculpiste em pedra a figura da angústia? Da musa suicida te aproximas, quer por capricho ou por pura inspiração? É certo o que se diz a teu respeito? Vendeste os teus bens e compraste só decepção? Pagas com os olhos o alto preço pela dor, temendo ser escrava de alheia ingratidão? É certo o que se diz a teu respeito? Enquanto o juro espera, penhora o próprio coração? Disponha o coração, mas retém boca e pulmão, que ao menos respires enquanto a cortejo docemente, antes da nossa conjunção. Cuida-te amada minha, isso é solidão. Vou curá-la agora com um beijo, não, não se preocupe, não é ‘aquele’ tipo de beijo, meu beijo é curandeiro. Robson Vieira
Ruído
Quanto dó há em ver uma paisagem apenas uma vez e não poder fotografar. Quanto dó há em sentir algo apenas uma vez e confundi-lo com um sonho. Quanto dó há em não marcar a página do livro e fechá-lo para sempre. Quanto dó há em desejar ser eterno mas contentar-se em ser apenas uma fina e pálida fatia de um momento indesejado. Não te importa em ser ruído errante? Robson Vieira
Teu muito amor pode matar-me
Não sei quantas bocas há em ti, me chamas com cada uma delas. Deves ter um milhão de olhos, não escapo de nenhum. Tuas muitas mãos e teus dedos incontáveis seguram tudo em mim, mesmo que não queira. De todos os braços que há em ti, desconheço o mais leal, por todos sou puxado. Mas teu coração é unitário, avassalador, mas unitário. Vale por mil teu nobre órgão, não sei como podes tanto amor num pedaço único de carne. Donzela, teu muito amor pode matar-me! Robson Vieira
Palavras duras
As minhas palavras juntaram-se contra mim em vingança, tornaram-se fortes e amigas, formaram versos, alguns brandos, outros rimados, alguns simétricos. Remexem as minhas entranhas em desespero por liberdade das cadeias em que as encerro. Imploram para ser escritas, juram-me lealdade. De meus intestinos fazem graça, cortam o fôlego de meus pulmões e prendem o pranto que meus olhos anseiam. Ainda me matam esses versos inquietos que sugam a substância pegajosa do meu ser. Dou de ombros, pois desejo. As palavras duras quando desenterradas beijam-me o rosto em gratidão. Robson Vieira
Palavrinha
Uma palavrinha sussurrou-me em meu ouvido: “Moço, escreve meu nome num poema teu”... Assustado, respondi: “Sim, mas qual é teu nome”? Ela me disse: “Sou aquela, tua favorita”. “Eu sei, mas qual? Eu tenho tantas”, repliquei. Ela me disse: “Cerre os olhos e me procure na caixinha dourada que você guarda dentro do seu coração, estarei atrás do camafeu”. Quando atendi o pedido percebi que a palavrinha tinha razão, Num bilhete estava escrita a palavra: “Sonho”. Robson Vieira
Intrusão
É duvidosa a intrusão que parte dessa nobre alma, insiste e apela à alta corte mesmo uma humilde permissão. Não te aceito, mas se te rejeito, é certo que à vida só serei eleito. Não tenho espaço para ti, meu braço é curto, encurvado. Repare no que digo, meu leito é puro, ocupado. Não queira ter razão, esquece-te de mim. Toma teu caminho agora, esqueço-me de ti. Robson Vieira
Invejo as árvores
Invejo as árvores porque embora tristes não se queixam de nada, nem mesmo do cansaço, quanta força é necessária para não deitar. Invejo as árvores, é preciso dose de coragem para ser despercebida e odiada, não pedir para ser amada, contentar-se em não ser. Invejo as árvores, especialmente as mortas, quanta honra há em estar morto e não sentir, ter havido e jazido com apenas a terra, o sol e a chuva por seus amigos. De que não é capaz a solidão! Robson Vieira
Posso amar um objeto
Um par dourado de brincos sobre meu bloco de notas, sei bem sua intenção, lia meus poemas em segredo. Posso amar um objeto caso queira, ou seu par com mais esforço... posso apaixonar e ser feliz, amor eterno entre nós, mas que será de nossos filhos? Eu tenho um filho, só meu, eu mesmo o fiz sozinho, leia-o nas palavras, está aqui, sentidos que sentem meu sentido. Mas este par de brincos...dourados... em forma de coração...ah eu não sei, com ele é diferente, me chama de meu bem, promete inspiração, suplica meu amor, não sei dizer-lhe não. Robson Vieira
Gigantes
Deparei-me com um gigante, mas não recuei. Ergui o homem pelas orelhas, quebrei-lhe os ossos, subi-lhe os ombros, dobrei-lhe as costas, subi-lhe os lombos, fiz o caminho inverso. Por fim, fitei-lhe os olhos sofridos mas amáveis que me diziam: “Gigantes somos todos”. Robson Vieira
Cuidado com o tempo
O tempo pensa que me engana, acha que não sei, que até mesmo o tempo, de tempo em tempo, se arrepende pelo tempo que perdeu. Robson Vieira