robsonvieira

robsonvieira

n. 1986 BR BR

Gosta de matemática, física, astronomia, psicanálise, mineralogia, arte, música e até poesia um tanto.Se ocupa de Freud, Dalí, Newton, Chopin, Andrey Tarkovsky, Camille Corot, Fernando Pessoa, Anna Frank.Surrealismo, platonismo, filosofia da matemática, psique, o abstrato, o concreto e o surreal.

n. 1986-10-28, Curitiba, Paraná

Perfil
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De par em par

Eu não queria estar aqui, mas dizer isso é fácil, ora, já estou aqui, se não estivesse, faria mais sentido. 

Mas cá estou e vou dizer: os dias deveriam ser de par em par!
Vivemos um dia por vez porque não dá pra viver dois dias ao mesmo tempo. 

Se possível fosse, em qual dia cairia o nosso melhor dia?
Se os dias fossem de par em par, a dor também seria? Não sei dizer.

O que sei, é que é melhor fingir que cada dia é o melhor, pois tudo bem se a felicidade vem aos bocados, afinal, a vida é longa e só se morre uma vez. 

Robson Vieira
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Poemas

29

Temo a morte

Temo a morte, não porque seja ingrata, 
não porque seja triste.

Temo a morte, não porque seja crua, 
não porque seja justa.

Temo a morte, mas temo mesmo com temor descomunal,
com temor sepulcral, não porque não seja a minha...

Mas temo a morte, porque temo que o amor que por ela tenho,
o súbito amor que por ela tenho, não seja jamais correspondido. 


Robson Vieira
147

Aquela palavra

Que se faça como dito e combinado anteriormente.
Que não se use a palavra, santa e profana em uma só.
Não seja dita nem predita, nem em cor e sem frescor.
Seja esquecida e abolida, desventura seja seu porém.

Palavra malgrada e assassina, que não se ensine a ninguém.
Enfraquece a tua face, relembra teus pecados e faz-te de refém.

Palavra bonita e tediosa, se soubesse seu dano, não lhe daria prosa,
preferindo com agrado a mais doce e pura mudez, 
que não serve de nota para o santo, 
mas lhe cede rica esmola de quando em quando.

É de amor essa palavra, um tanto, mas é de ódio ainda mais forte.
Não se diga o nome, nem se faça alusão,
ela corrompe o sentimento daquele que por ela se entrega, 
quando enlaça o tolo e inculpe coração.

Robson Vieira
183

Alegoria da paixão

Dos devaneios mais profundos de minhas intenções brotam as palavras mais cálidas e perfumadas de que tenho conta.

Tanta pujança, tanta fervura, não há de ser medida em dedos finos ou em palmos de mãos miúdas nunca calejadas.

Te chamam pelo nome por mera convenção, mas desconheço por demais o nome da imagem que tanto se me permite amar, com tal estampido desumano, prefiro chamá-la de santa alegoria, infame apreciação.

Da vida ou da morte, alegoria da paixão, traçada pelo medo advindo do profundo e intenso,
oh como é insano o nosso traço, o que tivemos feito, tempo algum pode narrar.

Robson Vieira
183

Se te amo mais que a mim?

Se te amo mais que a mim?
Te amo do modo claro como vês,
ofusca o próprio sol, 
colhe o brilho das estrelas, 
faz o mesmo do luar.

Conduzo-te em meu lombo à terra santa que nos viu nascer,
em alva branca como a neve, rápido ou devagar,
desde que se defina o quanto se entrega no caminho o nosso par.

Seca nosso lábio em sol escaldo,
racha nossos olhos grandes, coloridos em confusão premeditada.
É meu amor atroz e violento, como a gota sobre a relva da qual se apaixona até o fim...
fim trazido apenas no escaldo pelo sol, que os separa enquanto ri-se de prazer.

Robson Vieira
185

Gertrudes

Me impressionou sobremaneira o modo que fizeste aquela feita,
intrigando minha alma com o desprezo doce da sua voz a me dizer que não me quer de namorado.

Me impressionei comigo mesmo ao ver-me forte ante a ti,
mesmo aspirando a morte qual refúgio velado em que debruçar o fôlego restante.

Aquele gesto miúdo, aquele gestículo inventado que cobre a vergonha mas não a dor me fere agora,
adeus vida, Deus e mãe...pois esse é o preço combinado.

Meu fim sorri-me com prazer, foi-se assim o meu viver por entre os que amam e se amam sem dizer,
tal como o sorriso tosco que esboçaste, meu destino selava entre os dedos que nunca ofertaste.

Robson Vieira
196

Mortais

Pouco a pouco abandonas os meus sonhos, 
esvanecida se desfaz.
Fazes-te distante sem querer,
cópia nua, marca d´água.
Será assim nosso final.

É certo meu destino, vejo agora,
não há como não ser...
desmembrado pelo peso da lembrança,
por não podê-la ver.

Má façanha, pois é lembrança que não há,
lembrança que veio e não ficou...
já sei, não hei de tê-la aqui,
não diga-me que não.

De tempo em tempo te memoro,
todo instante marginal.
De tempo em tempo me despeço, 
me odeie por fazê-lo.
De tempo em tempo vou morrendo,
mortais não vivem afinal.

Robson Vieira
185

Alento

Anseio-te amada minha, tanto quanto posso, enquanto forças tenho.
Lembro-te amiga minha, tanto quanto quero, posto que não quero.
Sinto-te distante meu amor, tanto quanto...tanto quanto...

Da profusão que há em mim, que é tanto quanto se queira, 
rastejam fragmentos teus que me rodeiam.

Há muitos de mim em ti, há muitos de ti em mim,
há muitos de nós em nós, colosso indefinido.

A difusão causada em mim por teu afeto, 
desmembra repulsivos argumentos contra ti.

Nosso caso indelicado se avulta contra nós,
apelo gago, mudo e resumido.
Dele e tu vem meu tormento, 
te juro, nunca te esqueci, 
vem a mim por meu alento, 
que doce ensejo tê-la aqui.

Robson Vieira
183

Mãe

Mãe, ninguém jamais te amou como eu.
Quantas mães no mundo há...
todas nobres e bonitas...
mas em todas uma falta há.
Nenhuma amada foste como tu.
Mãe, jamais alguém te amou como eu.

Robson Vieira
186

Abelhinha ignorante

Oh abelhinha ignorante, detentora de todo poder que há, 
em cujas patinhas há quem diga haver prosperidade e paz, 
cujo sangue amargo é mais doce do que o mel.

Tua lenda te precede, adoça o palato cujo doce beijo rouba com desvelo impoluto,
o mesmo que oferece a mim qual voto de amizade.

O que mais há de se dizer a teu respeito, oh abelhinha ignorante?
Não deixo que atestem contra ti, 
em língua unívoca te rogo, dá-me tua benção por portento.

Oh abelhinha ignorante, não espalhe meu segredo pelo vento em que revoas,
que amo teu mel com mais força que o zumbido em meu ouvido que ressoas.

Robson Vieira
213

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