robsonvieira

robsonvieira

n. 1986 BR BR

Gosta de matemática, física, astronomia, psicanálise, mineralogia, arte, música e até poesia um tanto.Se ocupa de Freud, Dalí, Newton, Chopin, Andrey Tarkovsky, Camille Corot, Fernando Pessoa, Anna Frank.Surrealismo, platonismo, filosofia da matemática, psique, o abstrato, o concreto e o surreal.

n. 1986-10-28, Curitiba, Paraná

Perfil
4 046 Visualizações

De par em par

Eu não queria estar aqui, mas dizer isso é fácil, ora, já estou aqui, se não estivesse, faria mais sentido. 

Mas cá estou e vou dizer: os dias deveriam ser de par em par!
Vivemos um dia por vez porque não dá pra viver dois dias ao mesmo tempo. 

Se possível fosse, em qual dia cairia o nosso melhor dia?
Se os dias fossem de par em par, a dor também seria? Não sei dizer.

O que sei, é que é melhor fingir que cada dia é o melhor, pois tudo bem se a felicidade vem aos bocados, afinal, a vida é longa e só se morre uma vez. 

Robson Vieira
Ler poema completo

Poemas

30

Teu muito amor pode matar-me

Não sei quantas bocas há em ti,

me chamas com cada uma delas.

Deves ter um milhão de olhos, 

 não escapo de nenhum.

 

Tuas muitas mãos e teus dedos incontáveis

seguram tudo em mim,

mesmo que não queira.

 

De todos os braços que há em ti, 

desconheço o mais leal, 

por todos sou puxado.

 

Mas teu coração é unitário,

avassalador, mas unitário.

Vale por mil teu nobre órgão,

não sei como podes tanto amor 

num pedaço único de carne.

 

Donzela, teu muito amor pode matar-me!

 

Robson Vieira
174

Intrusão

É duvidosa a intrusão que parte dessa nobre alma,
insiste e apela à alta corte mesmo 
uma humilde permissão. 

Não te aceito, mas se te rejeito,
é certo que à vida só serei eleito.

Não tenho espaço para ti,
meu braço é curto, encurvado. 
Repare no que digo,
meu leito é puro, ocupado.

Não queira ter razão,
esquece-te de mim.
Toma teu caminho agora,
esqueço-me de ti.

Robson Vieira 

186

Mãe

Mãe, ninguém jamais te amou como eu.
Quantas mães no mundo há...
todas nobres e bonitas...
mas em todas uma falta há.
Nenhuma amada foste como tu.
Mãe, jamais alguém te amou como eu.

Robson Vieira
186

Mãe, eu sei

Mãe 
Viu-me em teus olhos no final? 
Não era a dor o seu temor,
Nem a conta por pagar,
Não era a cama mal feita,
Nem a louça por lavar.
Mãe, eu sei,
Lembraste foi de mim no teu último momento, 
Lembrar-me-ei de ti quando chegar o meu.

73

Mãe (2)

Por que levou embora os olhos que me deste?
Contigo também estão meus dentes, lábios e sorriso.
E em teus bolsos foram junto meus ouvidos e meus sonhos.
Sem dizer do meu coração que foi enterrado junto de ti por entre teus dedos cerrados levemente debruçados sobre o peito.
Mãe, teu tempo por inveja a culpou por não ter sido eterna. Dou de ombros, te absolvo.

Robson Vieira
25

Beijo

É certo o que se diz a teu respeito?

Que esculpiste em pedra a figura da angústia?

Da musa suicida te aproximas,

quer por capricho ou por pura inspiração?

 

É certo o que se diz a teu respeito?

Vendeste os teus bens e compraste só decepção?

Pagas com os olhos o alto preço pela dor,

temendo ser escrava de alheia ingratidão?

 

É certo  o que se diz a teu respeito?

Enquanto o juro espera, penhora o próprio coração?

Disponha o coração, 

mas retém boca e pulmão, 

que ao menos respires enquanto a cortejo docemente,

antes da nossa conjunção.

 

Cuida-te amada minha, isso é solidão.

Vou curá-la agora com um beijo, 

não, não se preocupe, não é ‘aquele’ tipo de beijo,

meu beijo é curandeiro.

 

Robson Vieira

47

Gigantes



Deparei-me com um gigante, mas não recuei.

Ergui o homem pelas orelhas, 

quebrei-lhe os ossos,

 subi-lhe os ombros, 

dobrei-lhe as costas, 

subi-lhe os lombos,

 fiz o caminho inverso.

Por fim, fitei-lhe os olhos sofridos mas amáveis

que me diziam:

“Gigantes somos todos”.

Robson Vieira
94

Palavrinha

Uma palavrinha sussurrou-me em meu ouvido:

“Moço, escreve meu nome num poema teu”...

Assustado, respondi: “Sim, mas qual é teu nome”?

Ela me disse: “Sou aquela, tua favorita”.

“Eu sei, mas qual? Eu tenho tantas”, repliquei.

Ela me disse: “Cerre os olhos e me procure na caixinha dourada que você guarda dentro do seu coração, estarei atrás do camafeu”.

Quando atendi o pedido percebi que a palavrinha tinha razão, 

Num bilhete estava escrita a palavra:

“Sonho”.

Robson Vieira
55

Invejo as árvores

Invejo as árvores porque embora tristes 

não se queixam de nada,

nem mesmo do cansaço,

quanta força é necessária para não deitar.

 

Invejo as árvores, 

é preciso dose de coragem para ser despercebida e odiada,

não pedir para ser amada,

contentar-se em não ser.

 

Invejo as árvores,

especialmente as mortas,

quanta honra há em estar morto e não sentir,

ter havido e jazido com apenas a terra,

o sol e a chuva por seus amigos.

De que não é capaz a solidão!

 

Robson Vieira

 

68

Palavras duras

As minhas palavras juntaram-se contra mim em vingança,

tornaram-se fortes e amigas,

formaram versos, alguns brandos, 

outros rimados,

alguns simétricos.

 

Remexem as minhas entranhas em desespero por liberdade das cadeias em que as encerro.

Imploram para ser escritas, 

juram-me lealdade.

 

De meus intestinos fazem graça, 

cortam o fôlego de meus pulmões

e prendem o pranto que meus olhos anseiam.

 

Ainda me matam esses versos inquietos que sugam a substância pegajosa do meu ser.

Dou de ombros, pois desejo.

As palavras duras quando desenterradas beijam-me o rosto em gratidão.

 

Robson Vieira  

 

42

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.