Lista de Poemas

FLORES DAS ESTAÇÕES


As flores que deixei cair, vento medonho as levou
As pétaças não recolherei, mas plantarei nova flor

Dos dias que não vivi, o tempo fez refeição
Aproveitarei a alvorada e viverei a estação

Águas passadas se foram em corredeiras de dor
Mas na montanha ainda brota, límpidas águas de amor

Pra os dias que nascem frios, deu-me meu Deus cobertor
E para as noites brilhantes, sonhos de estrelas e de amor

582

MÃOS SEM ROSTO

Que as minhas mãos abençoem

Não porque são minhas, mas porque sob a Tuas estejam
Que a minha boca abençoe
Não que ela seja boa, mas que a Tua voz em mim ecoe
Que a minha voz emudeça
Para que eu não me glorie em mim, mas que em Ti eu cresça
Que meu caminhar não fraqueje
Não que eu seja forte, mas que eu em Ti permaneça

599

PROSA EM ROSA

A cor dá rosa se a mistura é vermelho e branco
A corda rosa prende em ciúmes e gera o pranto
Acorda rosa! O dia raiou, ja é seu o momento
A cor-de-rosa é prá românticos: encantamento
E a cor das rosas revela profundos sentimentos

579

Beleza Essencial


Quero achar em ti a essencial beleza
Que em curvas e formas não se vê
Intrínseca da alma, doçura e pureza
Glamour que acompanha o entardecer

Não se engane com a sensual vulgaridade
Atrativos das fantasias de sedução
Pois quanto mais exposta a intimidade
Menor é dos sinceros a cotação

Quem assim se faz mercadoria
Com o corpo desnudo a se vender
Em breve será só melancolia
Quando um novo produto aparecer

888

DOCE AMOR

Não conheci a dor antes dos teus olhos

Mas somente neles eu aprendi voar
Nem sai das flores a colher os molhos
Antes de em teu sorriso eu me encantar

Não via eu da lua o prateado encanto
E nem nas estrelas quão doce é sonhar
Nem a amargura que envolve o pranto
Quando noutros olhos os teus vão pousar

Do mel a doçura que teus lábios emana
Nenhuma colmeia a pôde imitar
Nem melhor repouso acha a alma humana
Do quem em teu regaço dormir e sonhar


781

SALTO DO ITIQUIRA

Oh cascata mui fria de tão doce encanto

Que ecoa no valado, ao seu despencar

Que capta as lágrimas de mil desencantos

De amores perdidos, que ali vão chorar


Suas águas em neblina se estendem no vale

Umedecem as tristezas pra fazer aflorar

Chagas ressequidas e feridas de males

De amores desfeitos, mas ainda a queimar


Seu manto sagrado consola aos amantes

E lava-lhes o pranto sem os recriminar

Devolve-lhes suas almas, curadas o bastante

Pra que novas venturas ainda ousem sonhar

744

DEZ APEGOS

Apego-me a vida, quão doce é o viver
Apego-me aos amigos, parceiros na lida
Apego-me a escola, lá posso aprender
Apego-me ao leito, lá deixo a fadiga

Apego-me a família, meu sangue a correr
Apego-me a Terra, pérola única no universo
Apego-me ao trabalho, donde vem meu suster
Apego-me as artes, razão dos meus versos

Apego-me ao lar, amor e paixão
Apego-me a Deus, minha salvação
A estes me agarro com força total

Porém chega o dia que tudo se esvazia
No desapego agonia, acaba-se a poesia
Só em Deus a alegria e meu apego final

900

HIPÉRBOLE DO AMOR

Vida da minha distante

Em outro quadrante a brilhar
Linhas curvas e insinuantes
Razão do meu delirar

Olhos se curvam em anelo
Função do amor a traçar
Sonhos, distintos e paralelos,
Vão no infinito se encontrar

Focos distintos e ligados
Por atração e amor
Mas cada foco tem lado
Numa simetria de flor

Sai do espaço imaginário
Alegrias de um sonhador
Desejos e borrões tracejados
Mas em sintonia de amor

1 106

SOMBRAS AO VENTO

Quantas despedidas marcantes

Partidas sem se dizer um adeus
Quantas amizades pulsantes
Que o tempo em dor as desfez

Quantos momentos vividos
De exuberância sem par
Foram-se em saudade esquecidos
Quais águas turvas pra o mar

Velhos retratos mofados
Nas cinzas do envelhecer
Jazem escuros e apagados
Paixões que recusam morrer

Dos sonhos desfaz a esperança
Bem antes do Sol se por
Alegria só surge em lembranças
Do jardim que um dia foi flor

874

A COR DA ROSA

Num momento és branca de nívea paz

De infante pureza, que a mim satisfaz
Já em outro és malícia, ardileza e rubor
Chama que explode em lascívia e calor

Num dia és sorriso, singela inocência
No outro artimanha e maldade intensa
Ramalhete sublime, mas de tez furta-cor
Daltônico inseguro, junto a ti sempre sou

Esta flor oscilante, é meu eterno buquê
Jardineiro cativo deste meu bem-querer
A esta rosa venero em contenda e prazer

Quem espera das rosas, só amor, sedução
Cairá muito em breve, em tremenda aflição
Pois perfume e malícia, sempre foram irmãos

1 034

Comentários (2)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço

            Nasci e cresci pobre, mas não tenho vergonha disso. Sofri na pele as injustiças da pobreza, mas mesmo assim vivi feliz pois não conhecia a sua verdadeira fonte. Saudei heróis forjados na podridão, mas vestidos no linho fino do engodo e da publicidade paga. Sobrevivi milagrosamente à miséria por puro lampejo da graça divina.
            Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
            Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
            Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha.  Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
            Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.



© 2026 Escritas