Lista de Poemas

DEIXA-ME CHORAR

Deixa-me chorar, te peço, não me acalentes!
Minh'alma almeja suas mágoas dissipar
E não inquiras as angustias que ela sente,
são turvas águas que anseiam ir ao mar

Deixa-me chorar, te peço, os desalentos,
os devaneios, as loucuras e a solidão
Trazer ao peito adormecidos sentimentos,
regar em lagrimas meu espírito em sequidão

Deixa-me chorar, te peço, sem alarido!
Nenhuma compaixão quero despertar
Sufoco e silencio o meu gemido
Somente as lágrimas não consigo segurar

Deixa-me chorar, te peço, não me seques o rosto!
Que adianta minhas mazelas ocultar?
Se lá no íntimo o meu ser morre em desgosto
e o meu pranto é a tristeza a suspirar?

Deixa-me chorar, te peço, pras desventuras
lá do âmago de minh'alma eu desvendar
Buscar vestígios de tristezas e amarguras
pra nas recamaras do silencio as apagar

Deixa-me chorar, te peço, pois só em meu pranto
posso a doçura da vida reencontrar
Lavando em lágrimas de minha vida os desencantos,
pra em sorrisos o meu viver recomeçar


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A LÓGICA E O AMOR


Uma vez, impelido pela lógica matemática que me é peculiar, perguntei a um amigo se a mãe dele não estava ruim da cabeça, pois não tinha renda e mesmo assim, aos 65 anos, pegou duas crianças recém-nascidas e abandonadas para criar?

Ele me respondeu com os olhos rasos d'água:


- Você tem toda a razão, mas se minha mãe não fosse assim eu teria morrido na lixeira onde me abandonaram, há 40 anos atrás, com apenas um dia de vida!
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INTENSIDADE

Amar-te-ei,
Com mais profundidade que o teu olhar,
Com mais intensidade que a tua paixão,
Com mais carinho que o teu mimar,
E com mais fervor que toda sua devoção.

Mas, desprezar-te-ei,
Na velocidade do teu menosprezo,
Na cadência do teu descompasso,
Na proporção da sua frieza,
E magnitude do teu descaso.

E assim, abandonar-te-ei,
Tão longe que a decepção eu esqueça,
Tão ardente que me cauterize as chagas ,
Tão amargo que não mais a reconheça,
E tão sincero que me transpasse a alma.
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PRAIA DAS OSTRAS

Logo o mar da vida nos colocará pra fora
Pra sermos apenas resíduos da história
Onde os mais belos castelos edificados
Já serão meras catacumbas do passado

Por mais bela que seja nossa aparência
Somos apenas moluscos na existência
E quando a areia da ampulheta se esgota
é que se sabe quem deu pérolas ou gosma

Quão mais vultosos sejam os bens deixados
Mais mostram o quanto esteve enganado
Quem optou por viver para si apenas

Vazio e nu chegará por fim na eternidade
Sem no seu bojo portar a fé e a caridade
Apenas lixo de sua arrogância efêmera
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MÃE ROSEIRA

Diria que és rosa em perfume e beleza,
delicada e serena no seu jeito de ser
Mas se vista de perto, te digo: és roseira
em amor e afeto, abnegado viver

Os perfumes e as flores que enfeitam o jardim
são as tuas carícias dedicadas a mim
O ciúme o cuidado com que viver a me olhar
são agudos espinhos o jardim a guardar

Os botões que florescem com inefável vigor
são os rebentos do ventre, frutos do teu amor
Os insetos e pássaros na roseira a pousar
são amigos cativos de sua graça sem par

Cabelos assanhados em meio a aflição
são pétalas que voam sob o vento da dor
Teus olhos cansados por mais um serão
são folhas que murcham no abrasar do calor

As mudas tiradas, pondo o tronco a sangrar,
são teus filhos e filhas que pra longe se vão
E aqueles que partem para não mais voltar
são seus brotos tosados a tesoura e facão

Raízes profundas te fazem resistir
às intempéries que te vem açoitar,
Mas ao raiar da aurora tu já estás a sorrir
em perfume e em flores, o jardim alegrar



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A ORAÇÃO DE JÓ

Restaura-me Senhor, te peço, tira-me do opróbrio
Não de bens e de filhos, pois destes já nasci pobre

Livra-me das chagas n'alma, eternos aguilhões da dor
Dá-me candura e pureza, condições básicas do amor

Tira-me a amargura da abnegação vazia e do rosto cuspido
Apaga de minh'alma a desilusão, o nojo e o pranto contido

Faze-me esquecer o outono com o despontar da primavera
Quero prazer no que eu sou, não mais a dor de quem eu era


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O ÚLTIMO TANGO



O Sol tingiu de ouro as águas, como por encanto
Na partida de minha alma pra não mais voltar
Não que fosse eu melhor do que outros tantos
Mas fui, por certo, teu bem maior, particular

Só quando a noite desce é que se entende o dia
É quando as trevas e solidão dão asas à dor
Quando os amigos calam e a madrugada esfria
Em ouro se pesa a valia de um grande amor

Dourar-se-á também teus olhos em fartas lágrimas
Quando noutra tarde o meu barco já não vires mais
Dar-se-ia dos teus tesouros, até última drácma
Para que a sua última insensatez voltasse atrás

Balança a nau em triste valsa de despedida
O mar soluça e chora a dor que certo inda virá
Quantas paixões já viu perderem rumos na vida
E em turvas águas de estultice irem afogar

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ÁGUAS DO AMAR


Todos nós sonhamos com um amor de águas cristalinas onde névoas de carícias fluem de cascatas de sonhos. É um amor utópico, fantasioso, mas transporta a nossa alma para um mundo novo onde as nossas dores são esquecidas e tudo de belo acontece. Não é loucura são sonhos, tão necessários ao ego quanto a razão. Sem eles as esperanças morrem e o viver se torna insípido e frio. Contudo, o amor é sempre uma jornada emparelhada onde as almas se misturam lentamente em acalentos mútuos e exercícios de tolerância e compreensão. Ambas têm seus vazios ocultos, suas tristezas incubadas e suas mágoas por lavar. Caminhando juntas vão se misturando em corredeiras e turbilhões de dor. Com o tempo suas necessidades já não têm mais cores distintas, suas mágoas e sonhos se fundiram. De vez em quando, encontram o remanso de uma linda praia onde suas almas descansam e celebram o entrelaçar do amor.
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Grandes Sonhos

Do vôo das aves, da águia e do falcão
Mobilidade de lêmure e força de leão
Mergulho dos peixes que ao fundo vão
Do enxergar predatório em plena escuridão

Do radar do morcego, às cegas a voar

Do pombo-correio, o saber se achar
Do elefante a quilômetros, o se comunicar
Engenharia de grilo, tão longe a saltar

Sonhos milenários, ao homem a aguçar

Coisas só alcançadas de cem anos pra cá
Hoje: mundo interativo, radiante a brilhar
E meninos que pensam: tudo já estava lá
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ÀS VEZES

Às vezes eu choro e não sei o porquê
Às vezes eu sei, mas não quero crer

Nem sempre o que sinto, consigo dizer
Mas sempre o que digo está no meu ser

Às vezes sou mágoas, às vezes paixão
Às vezes sou lágrimas e pura emoção

Às vezes dureza, frieza e razão
Às vezes amargura, dor e solidão

Às vezes eu busco por alguém melhor
Às vezes ao relento, prefiro estar só

Às vezes é triste viver sem ninguém
Às vezes esta vida é a que me convém

Às vezes eu quero o que sempre sonhei
Às vezes eu sonho com o que já deixei

Às vezes esqueço o que eu quero ser
Às vezes eu sou o que quero esquecer

Eu sempre falo o que eu devo pensar
Mas nem sempre penso antes de falar

Tenho sempre escrito o que me convém
Mas às vezes escrevo a dor que me tem

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Comentários (2)

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Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço

            Nasci e cresci pobre, mas não tenho vergonha disso. Sofri na pele as injustiças da pobreza, mas mesmo assim vivi feliz pois não conhecia a sua verdadeira fonte. Saudei heróis forjados na podridão, mas vestidos no linho fino do engodo e da publicidade paga. Sobrevivi milagrosamente à miséria por puro lampejo da graça divina.
            Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
            Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
            Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha.  Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
            Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.