QUEM SOU EU
Não sou o clamor da miséria,
Sou alma além da matéria
Que ao corpo em dor esvazia
Não sou o vento do Norte,
Apenas alma que a sorte
Abrasa em sol de meio-dia
Não sou pobreza nem fome,
Apenas a dor de um homem
Que ousou amar algum dia
Não sou do ódio uma chama
Sou só o poeta que clama
E de seu amor faz poesia
Não sou mentira ou verdade,
Sou só lembraça e saudade
Que eternizam a nostalgia
Não sou do olhar a tristeza,
Sou o contemplar da beleza
Que o teu olhar irradia
Não sou mais desesperança,
Sou um sorriso de criança
E em teu regaço, a alegria
A LÓGICA E O AMOR
Uma vez, impelido pela lógica matemática que me é peculiar, perguntei a um amigo se a mãe dele não estava ruim da cabeça, pois não tinha renda e mesmo assim, aos 65 anos, pegou duas crianças recém-nascidas e abandonadas para criar?
Ele me respondeu com os olhos rasos d'água:
- Você tem toda a razão, mas se minha mãe não fosse assim eu teria morrido na lixeira onde me abandonaram, há 40 anos atrás, com apenas um dia de vida!
PRAIA DAS OSTRAS
Logo o mar da vida nos colocará pra fora
Pra sermos apenas resíduos da história
Onde os mais belos castelos edificados
Já serão meras catacumbas do passado
Por mais bela que seja nossa aparência
Somos apenas moluscos na existência
E quando a areia da ampulheta se esgota
é que se sabe quem deu pérolas ou gosma
Quão mais vultosos sejam os bens deixados
Mais mostram o quanto esteve enganado
Quem optou por viver para si apenas
Vazio e nu chegará por fim na eternidade
Sem no seu bojo portar a fé e a caridade
Apenas lixo de sua arrogância efêmera
A ORAÇÃO DE JÓ
Restaura-me Senhor, te peço, tira-me do opróbrio
Não de bens e de filhos, pois destes já nasci pobre
Livra-me das chagas n'alma, eternos aguilhões da dor
Dá-me candura e pureza, condições básicas do amor
Tira-me a amargura da abnegação vazia e do rosto cuspido
Apaga de minh'alma a desilusão, o nojo e o pranto contido
Faze-me esquecer o outono com o despontar da primavera
Quero prazer no que eu sou, não mais a dor de quem eu era
INTENSIDADE
Amar-te-ei,
Com mais profundidade que o teu olhar,
Com mais intensidade que a tua paixão,
Com mais carinho que o teu mimar,
E com mais fervor que toda sua devoção.
Mas, desprezar-te-ei,
Na velocidade do teu menosprezo,
Na cadência do teu descompasso,
Na proporção da sua frieza,
E magnitude do teu descaso.
E assim, abandonar-te-ei,
Tão longe que a decepção eu esqueça,
Tão ardente que me cauterize as chagas ,
Tão amargo que não mais a reconheça,
E tão sincero que me transpasse a alma.
MÃE ROSEIRA
Diria que és rosa em perfume e beleza,
delicada e serena no seu jeito de ser
Mas se vista de perto, te digo: és roseira
em amor e afeto, abnegado viver
Os perfumes e as flores que enfeitam o jardim
são as tuas carícias dedicadas a mim
O ciúme o cuidado com que viver a me olhar
são agudos espinhos o jardim a guardar
Os botões que florescem com inefável vigor
são os rebentos do ventre, frutos do teu amor
Os insetos e pássaros na roseira a pousar
são amigos cativos de sua graça sem par
Cabelos assanhados em meio a aflição
são pétalas que voam sob o vento da dor
Teus olhos cansados por mais um serão
são folhas que murcham no abrasar do calor
As mudas tiradas, pondo o tronco a sangrar,
são teus filhos e filhas que pra longe se vão
E aqueles que partem para não mais voltar
são seus brotos tosados a tesoura e facão
Raízes profundas te fazem resistir
às intempéries que te vem açoitar,
Mas ao raiar da aurora tu já estás a sorrir
em perfume e em flores, o jardim alegrar
O ÚLTIMO TANGO
O Sol tingiu de ouro as águas, como por encanto
Na partida de minha alma pra não mais voltar
Não que fosse eu melhor do que outros tantos
Mas fui, por certo, teu bem maior, particular
Só quando a noite desce é que se entende o dia
É quando as trevas e solidão dão asas à dor
Quando os amigos calam e a madrugada esfria
Em ouro se pesa a valia de um grande amor
Dourar-se-á também teus olhos em fartas lágrimas
Quando noutra tarde o meu barco já não vires mais
Dar-se-ia dos teus tesouros, até última drácma
Para que a sua última insensatez voltasse atrás
Balança a nau em triste valsa de despedida
O mar soluça e chora a dor que certo inda virá
Quantas paixões já viu perderem rumos na vida
E em turvas águas de estultice irem afogar
ÁGUAS DO AMAR
Todos nós sonhamos com um amor de águas cristalinas onde névoas de carícias fluem de cascatas de sonhos. É um amor utópico, fantasioso, mas transporta a nossa alma para um mundo novo onde as nossas dores são esquecidas e tudo de belo acontece. Não é loucura são sonhos, tão necessários ao ego quanto a razão. Sem eles as esperanças morrem e o viver se torna insípido e frio. Contudo, o amor é sempre uma jornada emparelhada onde as almas se misturam lentamente em acalentos mútuos e exercícios de tolerância e compreensão. Ambas têm seus vazios ocultos, suas tristezas incubadas e suas mágoas por lavar. Caminhando juntas vão se misturando em corredeiras e turbilhões de dor. Com o tempo suas necessidades já não têm mais cores distintas, suas mágoas e sonhos se fundiram. De vez em quando, encontram o remanso de uma linda praia onde suas almas descansam e celebram o entrelaçar do amor.
ÀS VEZES
Às vezes eu choro e não sei o porquê
Às vezes eu sei, mas não quero crer
Nem sempre o que sinto, consigo dizer
Mas sempre o que digo está no meu ser
Às vezes sou mágoas, às vezes paixão
Às vezes sou lágrimas e pura emoção
Às vezes dureza, frieza e razão
Às vezes amargura, dor e solidão
Às vezes eu busco por alguém melhor
Às vezes ao relento, prefiro estar só
Às vezes é triste viver sem ninguém
Às vezes esta vida é a que me convém
Às vezes eu quero o que sempre sonhei
Às vezes eu sonho com o que já deixei
Às vezes esqueço o que eu quero ser
Às vezes eu sou o que quero esquecer
Eu sempre falo o que eu devo pensar
Mas nem sempre penso antes de falar
Tenho sempre escrito o que me convém
Mas às vezes escrevo a dor que me tem
AMOR ABSOLUTO
Se queres me falar, escuto
Se aprazes em me amar, tributo
Se há algo a te manchar, indulto
Se ousam te acusar, refuto
Se buscas me agradar, computo
Se tentam te levar, eu luto
Se há algo a maquiar, oculto
Se eu te ver chorar, me culpo
Se alguém te destratar, sou bruto
Se ousam te peitar, eu truco
Se voce me magoar, desculpo
O que eu te perdoar, sepulto
O que te alegrar, eu busco
Mas se deixas de me amar, sou luto
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza