Lista de Poemas

FRATERNIDADE

Abre os braços bem amplos e recebe o amigo
Que o tempo a muito de sua mente apagou.
E não franzas a testa, mas lhe esboça um sorriso.
Volta a ser o garoto que com ele brincou

Mata o frango cevado, prepara-lhe um jantar.
O melhor vinho da adega te apressa em tirar.
Não lhe conte os problemas nem os seus dissabores,
Não lhe esnobe riqueza nem lhe peça favores

Não perguntes o que quer nem o que veio fazer,
Não o inquiras acima do que ele quer te dizer.
Não censures os caminhos que tomou em sua vida.
Oferece-lhe chinelo, banho quente e dormida.

Não perguntes quanto tempo ele pretende ficar,
Nem lhe indagues a que hora pensa em se levantar.
Deixa-lhe um chave da casa, informa o seu celular,
Não restrinja os horários para ele te procurar.

Se for agradecido, devolve-lhe um abraço,
Mas se não for educado não lhe pregues um sermão,
E na sua saída, não contabilize seus gastos.
Se te perguntarem quem era, dize apenas: um irmão.

561

AMOR MORIBUNDO

No lado esquerdo
da cama e do peito
há um vazio profundo

Já não há alegria,
calor, euforia,
nada a palpitar

O rugir de sua fonte
é o som do desmonte
de um amor moribundo

Que suspira latente
e sofre penitente
sem querer se entregar

Quando o amor vai embora,
o que fica por fora
pode até enganar,

Nas não vibra nem canta,
não abraça ou encanta,
não há como negar:

É uma trova sem rima,
sequidão na campina
esperando queimar

Triste de quem não assume
o apagar de seu lume,
para recomeçar

614

AMOR ABSOLUTO

Se queres me falar, escuto
Se aprazes em me amar, tributo
Se há algo a te manchar, indulto
Se ousam te acusar, refuto
Se buscas me agradar, computo
Se tentam te levar, eu luto
Se há algo a maquiar, oculto
Se eu te ver chorar, me culpo
Se alguém te destratar, sou bruto
Se ousam te peitar, eu truco
Se voce me magoar, desculpo
O que eu te perdoar, sepulto
O que te alegrar, eu busco
Mas se deixas de me amar, sou luto

513

INSÔNIA



Quando a angústia o peito invade e rouba-te o sono
Pergunta então a tua alma: Quem está no trono?

Sendo o Senhor o teu guia, o teu destino e teu norte
Porque te afliges minh’alma e temes assim tua sorte?

Quem no Senhor confia e tem nele a esperança

Põe nas mãos dele sua vida e assim em paz descansa

Se o teu projeto arruína e aos poucos desvanece

Desce depressa do trono e assenta nele o Mestre
687

AMIGO LEAL

Em cada alvorada a Deus eu bendigo
Pelo celeste amparo e também dos amigos

Bendigo a riqueza do amor fraternal
Pela doce ternura de um amigo leal

E na dor do insucesso, na amargura do fel
Como é doce a ternura de um amigo fiel

Mas se o amigo é impuro ou de caráter venal
Mui depressa o excluo e me afasto do mal

Quão mesquinho me mostro procedendo assim
Quão mais frágil o amigo, mais precisa de mim

Se assim fosse Cristo, excludente qual sou
Que seria de mim, longe do salvador?


754

NOITE TRISTE

A chuva cai fina e constante,
é a noite chorando a ausência tua.

O vento uiva e clama a falta de ti.
Os pássaros emudecem e clamam por ti em gorjeios soturnos.

O céu em crepúsculo espanta as estrelas e se embrulha na noite
na esperança de que voltes com o amanhecer.

E eu sozinho, assim com a noite, sofro a tua falta e,
trôpego de saudade, adormeço pensando em ti.

Volta logo, pois só tu és capaz de fazer luzir a aurora
e alegrar meu viver.
558

VENERAÇÃO

Afasta-te de mim, razão mesquinha
Não quero ouvir tua voz, nem mesmo a minha
Minh'alma a sós com Deus quer conversar

Não vim buscar razões, reclamar dolos

E nada peço a Ti, senão consolo
Longe de mim, Teus desígnios julgar

Nada trago a Ti, que sirva de oferenda

Sou pobre, débil e vil, alma em contenda
Nada de bom coloco em teu altar

Não anseio promessas para cobrar-te à frente

Nenhuma explicação me deves, sou indigente
Apraz-me em tuas veredas poder trilhar

Perdão se na pouca fé nasce a tristeza

Tu és minha rocha, escudo e fortaleza
Ensina-me em Tua sombra eu descansar

Não sei quão curto ou longo é meu caminho

Nem se no meu pisar há relva ou espinho
Mas basta-me a tua mão a me afagar

Não quero ter jornada esplendorosa

Vanglórias pueris ou mar de rosas
Apenas Tua paz pra eu repousar
553

TORRÃO DA ILUSÃO




Encantado por ti eu estendi meus braços
Buscando em teus abraços o realizar de sonhos
Mas entre eu e tu, um cruel espaço
E de alçar asas, um pavor medonho

Ah meu torrão que adoro e que me faz cativo
Que meus sonhos de amores faz desvanecer
Quem me fez seu dono em conto primitivo
Que por ti insano, pronto até a morrer?


Quimeras de sonhos e de falsas posses
Monturo de estórias contos de ilusão
Terra ingrata e triste, de minha alma entorse
Raízes das mágoas em meu coração

534

SOMBRAS



No vale das sombras, a confiança é nada
Nem é luz nem é treva, visão falsificada
Vultos fantasiosos, mente apavorada
Não arrisca outro passo, mesmo vendo a estrada

Quando a mente falseia, tudo é pesadelo
Se atrasar um minuto ou se chegar mais cedo
Se fizer um agrado é consciência pesada
Mas se passas batido, é porque não quer nada

Não há hábil marujo no mar da insegurança
Todos lá enlouquecem, morrem em desesperança
Vivem eterna tormenta, mesmo em mar de bonança

Não atrele a sua alma a uma mente em tormenta  
Em turbilhão de mágoas, nenhuma poeira assenta
A jornada é loucura,  nenhum santo a aguenta
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FASES DA LUA


FASES DA LUA
(Samuel da Mata)

Eu vi a tristeza no rosto da lua
Dilacerada, sofrendo em dor
Calada e sozinha na noite escura
Nenhuma estrela a seu favor

Eu vi a esperança na face da lua
Sua boca larga, tentando sorrir
Estrelas alinhadas na volta sua
Vestido de noiva pra ela vestir

Eu vi a lua, em um sorriso crescente
Desfilando na noite em excelso glamour
Esqueceu suas dores, olhava pra frente
Passado de mágoas a muito deixou

Eu vi a lua em plena alegria 
Reluzindo no céu e sorrindo a brilhar
Refletindo nos mares cores de  fantasias
E aos amantes da noite fazendo sonhar
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Comentários (2)

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Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço

            Nasci e cresci pobre, mas não tenho vergonha disso. Sofri na pele as injustiças da pobreza, mas mesmo assim vivi feliz pois não conhecia a sua verdadeira fonte. Saudei heróis forjados na podridão, mas vestidos no linho fino do engodo e da publicidade paga. Sobrevivi milagrosamente à miséria por puro lampejo da graça divina.
            Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
            Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
            Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha.  Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
            Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.