Acordo cedo, procuro a foto, será que ela parece com o sonho?
Quando penso em carinho, sinto meus pés deslizando na areia,
Minhas mãos tocando o rosto, bagunçando o cabelo, movendo,
São impulsos que fariam um moinho girar, alguém ressuscitar.
Penso em um lugar, cachoeira, lareira ou esteira, é muito mais,
Uma jóia rara, uma boa companhia, quem diria, o dia chegaria,
Cerveja ou vinho, um apartamento novinho, tudo é aconchego,
É deixar o medo do lado de fora da porta e crer no tempo certo.
Olha o livro aberto, o rio que passa perto e que sabe até cantar,
O pomar que ficou mais cheio de fruta, a gruta que vi se erguer
Entre girassóis e camélias, entre idéias que passam como avião,
Como embrião de um relacionamento que já existe aqui dentro.
De tanto armazenar amor, os celeiros estão cheios, como seios,
Recreios onde se pode amamentar um pequeno pedaço de ser,
Eu me sinto privilegiado, alguém abençoado, a vida quer sorrir,
Mostrar os dentes mais brancos, pelos flancos, um beijo surgir.
295
INTUMESCIMENTO
Sinto a eletricidade, sangue novo nas veias, as meias foram costuradas,
O pé já reconhece o chão, o pão já chega ao estômago e os olhos riem,
Estamos prontos e excitados para a aventura, de ternura nos vestimos,
Sentimos que é o momento exato de romper o hiato que nos paralisou.
Somos a criança, o adolescente, o jovem expoente de seu tempo, tudo,
Menos cadeira de balanço, porque ganso é que costuma ficar sentado,
O dia deve ser regado a vinho, rostos rubros externam seus excessos,
Que às vezes são convenientes, sob medida, cabem doses de loucura.
Você queria companhia, agora tem, valentia e coragem só fazem bem,
Quem nunca precisou devia conhecer a adrenalina de estar sem freios,
Sem rodeios me beijou e a mágica aconteceu, que venha o jantar farto,
O quarto mal pode esperar, o lençol mais afoito, resolveu se desnudar.
A água morna do banho não relaxa se encaixa a vida, o sonho, o gozo,
Mas, é gostoso vê-la escorrer, satisfazer este instinto natural, profano,
Engano acreditar que arrefeceu os anseios com os seios intumescidos,
Os tecidos já não cabem mais nos corpos que se descobriram quentes.
287
BEATRIZ
Esse sorriso preguiçoso fica ainda mais gostoso se perto quer chegar, Já sabe que não precisa de convite, a minha porta fica sempre aberta, Na certa, você já percebeu o quanto é aguardada, basta aqui chegar. Fiz malabarismos, contorcionismos, paguei micos, por sorte sobrevivi Ao silêncio cortante dos dias, madrugadas frias a espera de um sinal, Afinal, toda resistência encontra sua motivação, essência para seguir. Alimentado por acenos da musa, reclusa em sua rede, parede digital, Mero mortal aprendendo a navegar no mundo louco, peno um pouco, Até desvendar as senhas, criptografias, fotografias tão lindas do perfil. Não posso falar mal de aplicativos e julgá-los nocivos, até superficiais, São atalhos sensacionais para quem aceita exposição e sair do porão, Aventurar-se neste mar de pessoas sem par, só um antídoto à solidão. Quem sabe se desfaça da distância, haja consonância durante o jantar Para lembrar, ao olhar da pessoa à minha frente, o que ele bem sabe, Que pode se tornar freqüente, presente que me permita desembrulhar.
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A FESTA
Eu sei que é por demais estranho, um absurdo sem tamanho, mas, Não sei desligar, não consigo parar de pensar, de sentir e de sorrir, Como quem viu passarinho verde, como quem joga a rede e pesca. A conquista mexe com o ego, bagunça tudo, rejuvenesce, cria clima, Enquanto a alma esquece, o tempo tece seu melhor momento, favor Que merece mais que gratidão, retribuição, bom uso e compreensão. A distância permite que eu segure a sua mão, concede uma canção, Nossos corpos percebem como são, não escondem, apenas gostam, Fazem das fotos, estradas, dos vídeos, pousadas e se deitam a sós. Nossos versos se misturam e a sopa de letrinhas mexeu bem pouco, Louco foi o querer desses seres, que sem juízo subiram além da lua, Conclua o que quiser e, salve-se quem puder, o assunto é se divertir. O amor da adolescência vira a cama do agora e, sem demora, aflora, A flor do jardim vira jasmim, realça o carmim da boca e, quer seduzir, Agora, ouça a festa pela fresta que resta, que hoje, ninguém dormirá.
286
CORDÃO UMBILICAL
Eu carrego uma dor que é feito terra arrasada, vida abreviada,
Cordão umbilical que se corta e é como se estivesse grudado,
Chuva que o vento leva, mas, tanto insiste, termina por voltar.
Tenho rios que não param de correr porque olham para você,
Um mundo cheio de cores, mas, que ainda não conhece o sol,
Um velotrol empoeirado como os porões, salões, minha alma.
Para que buscar razões, a vida é tão insana, só falta de grana
Não justificaria a inquietação, tudo é tão louco, já estou rouco
De tanto explicar, mostrar que não há motivo para separação.
Decisões assim são traumáticas, lunáticas como as emoções,
Quero mais é sair do atoleiro, cruzar o canteiro, livre ser feliz,
Como é bom dar o primeiro choro de vida e conseguir respirar.
Quero mais é tirar dos peitos o alimento, todo o meu sustento,
Aninhar-me neste colo enquanto amolo, quero tanto continuar,
Quem sabe depois de um sono, finalmente viveremos em paz.
380
QUINTA-FEIRA
Meus olhos choram o mar quando penso que ele já levou muitas vidas,
Quem sonhou águas tranquilas e se deparou com ondas intimidadoras,
Não sabe ainda, mandar que elas obedeçam aos sinais, dores e medos.
Sempre guardei segredo, temendo que ele ouvisse, que se aproveitasse
De qualquer fraqueza, qualquer insegurança, desta criança livre e pura,
Que estendeu as mãos, que trouxe o verão, que ofereceu sua amizade.
Já é quinta-feira e o barco partiu como proposto, com gosto de navegar,
O vento se engraçou pela vela, bela, envolta apenas nela e dela quis mais,
Acariciá-la por vezes, agitá-la demais, fazê-la seguir para onde se recusara.
E veio a aurora, quando a noite selou a tarde e sem alarde te avistou feliz,
Não era a sua primeira vez, mas, era como se fosse, tamanha a descoberta,
Tamanha a oferta de gemidos e sussurros, de gritos que já não eram de dor.
Foi quando se deu conta que era hora de voltar, de aceitar que acabou,
De contabilizar o que restou depois de tantos naufrágios e presságios,
Era só você, a porta destrancada e um frio gostoso na pele e na alma.
363
BAILARINA
Era só um passeio despretensioso, como os que visam gastar o tempo,
Em um momento qualquer, como que saltando aos olhos, estava você,
Na ponta dos pés, de vermelho, curvada para trás, obstinada, que linda.
Ah, essas fotos falam de lua de mel, eu nem sei distinguir jazz de tango,
Ledo engano eu imaginar que os braços que te sustentam são os meus,
A dança que aconteceu aqui dentro de mim, não consegue transparecer.
O que sinto em cada passo leve, em cada breve expressão do seu corpo
É que todas as artes se unem, celebram a vida com os seus movimentos.
O escultor nasce de cada coreografia e o ator se apossa dos seus gestos,
O músico pulsa e marca o ritmo, enquanto o poeta já escancara sua alma.
Somente o pintor enxergou a pose, a musa, o fotógrafo capturou seu vôo,
O cineasta resumiu longos ensaios celebrando o sonho que você não viu.
Nós estamos aqui, depois dos aplausos e percalços, depois do pano subir,
Entre suores, dores e flores, restam a admiração do fã e a luz da bailarina.
350
AURORA
Que graça maior pode existir além desta simples oferta de amor, Onde o nascer do sol não finda, onde linda, divide o seu melhor, Entre atropelos, excesso de zelos, novelos desta vida atribulada, Que se embaraçam, aquecem, como seus braços entre os meus. A frágil presença, feito a formiguinha carregando folhas gigantes, Ombros que suportam este mundo, respiram fundo e caminham, Porque o inverno promete ser mais rigoroso, não há maior gozo Do que um cantinho acolhedor para guardar e proteger os seus. Agora livres do perigo, da desconfiança que balança a sua lança Mas, não fere, apenas confere, livre acesso a quem ousou e deu Um largo sorriso, aquele que transpareceu, quando chovia forte, Quando o único norte era contemplar solitárias rosas de inverno. Num impulso quando o pulso não se conteve, viu um céu aberto, Viu que estava perto o que buscara entre nuvens tão carregadas, Tão propensas a raios, soslaios que a sua timidez adiou de vez, Ao menos era isto que pensara até que pressentiu a primavera.
289
LIMÃO AZEDO
Olhei mais de mil vezes a folha em branco, depois que vi e também ouvi Cada frase sua musicada no ouvido, o som preferido de agora em diante, O sorriso dominante e o último retrato, para o caso de você querer postar, Ali perto da cama, antes de dormir, rezar, talvez, é incerto, me acomodar. Tenho respirado muito ar puro, além desse muro, é tanto pó, é tanto mal Que a alma não merece, esquece não de me ver, torço para não chover, Só não pode querer mais que eu, já me convenceu, talvez, queira adotar, Qualquer cantinho serve, a minha verve voltou, dela não lembrava mais, Deixa eu mexer no cabelo, fazer um apelo para que vivamos dias de paz, Que sejam águas tranquilas, que sejam vilas com famílias todas do bem, Quem sabe eu seja o trilho para você correr sem medo, um limão azedo, Que você adoçou, remoçou, já não tem perigo, só um amigo ao seu lado. Peguei toalhas para o banho, se quiser companhia, não tenha vergonha, Tá todo mundo dormindo, eu nem estou pedindo, mas, adoraria o convite, Agora não tem pé descalço e não tem percalço que não se possa reparar, Que não falte pão na mesa e, que a certeza do perdão nos ensine a amar.
378
DESPRETENSÃO
Sinto o sol bater na janela enquanto o seu contato aquece tudo por dentro,
Com esse jeito meio desbocado, infantil, sempre querendo me fazer sorrir,
Produzir tenros frutos que a amizade gera, qual a mãe, deveras cuidadosa.
Não importa se pela voz, perfume, presença, pelo roçar do cabelo de anjo,
Esbanjo a alegria que vem desse amor, desse abraço que aperta e estala,
Feito pipoca na panela, feito a alma leve que resvala no chão e repica alto.
Seguimos por caminhos separados, mas, que se esbarram com frequência,
Mesmo em dias de indolência, quando o frio deveria frustrar idas ao parque,
Fazemos desembarque na Praça dos Porquinhos, é próximo ao portão seis.
Gosto dessa gente feliz que transita entre jardins, bicicletas, patins e skates,
Que abre a toalha, faz piquenique, adora pegar um instrumento e sair por aí
Empunhando o sax, o violino, violão, um playback, soltando a voz para valer.
Este circuito, que nem imaginava percorrer toda a semana, veio para encher
A vida com as cores que saltam da tela, com o pé que erra, se suja na terra,
Com este beijo despretensioso, que você ainda não sabe se recusa ou pega.
Ania, querida! Muito obrigado pelos carinhosos elogios, apesar do tanto que me falta melhorar e que sigo em busca. Tenhas dias lindos e inspirados!
ania
Poeta, bom dia! Obrigada pelo carinhoso comentário ue me ensejou teus versos ler. Li alguns, e todos a alma me tocaram pelo lirismo, pela sensibilidade, parabéns! abraços, ania..
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