E dando tudo certo, eu sempre quis você na minha vida
E ela aturdida te acenou na multidão
Quem sabe você me dê alguma pista
E encha então de paz o meu coração
No domingo sessão de cinema, eu sentado ao seu lado
A pipoca caindo, me deixando encabulado
Num gesto inusitado, apoiei o dedo em sua mão
Ela aninhou-se por baixo e um beijo selou
A herança que eu trago desse dia são duas maravilhas
É por elas que eu vou atravessar o turbilhão
Foi duro ter que abrir a porta da saída
Agora vou seguir sem direção
E se tudo der errado, saiba o vento não percebe a brisa
E ela, por sua vez, vencida, se perde no furacão
Quem sabe ainda exista uma fagulha viva
Mas, sei, choveu demais neste verão
275
BOM-BOCADO
Seu carinho é manhã que nasce e clareia tudo, quero acordar com ela, contigo, Viver o risco de acostumar com o doce antes do salgado, gostoso bom–bocado, Que não enjoa, coisa boa que só me faz bem, aglutina almas, me faz seu refém Com ar de desdém, de quem já sabe que rege tudo ao redor neste ritmo próprio. Óbvio que não será fácil, melodias complexas requerem mais suor na execução, Misto de técnica e paixão, paciência, aderência a coexistências mais singulares, Perdidas entre olhares que se buscam em todos os lugares e alheias ao mundo, Transformando medos em cortinas de fumaça frente à iminência de um furacão. Veja o tempo implacável, irredutível com seus muros de proteção, toda arguição Desmentida pelo beijo sorrateiro, desejado, sem rumo, agora visitante costumaz, Que de tanto fez como tanto faz, quis ser mais que uma simples, bela divagação, Repousou no coração, tão acostumado a viver com o pouco que lhe destinavam. Redesenhado o viver enlouquece, se esquece que acumulará mil compromissos, Ri do novo início, homéricas confusões, corridas de bastões que vivem no chão, Aos que já tenham passado por isso, desatino juvenil, bagunçado e pueril, sorry, O cabeça de vento quer consertar mas, segue amando a causadora de tudo isto.
314
DESPRETENSÃO
Sinto o sol bater na janela enquanto o seu contato aquece tudo por dentro,
Com esse jeito meio desbocado, infantil, sempre querendo me fazer sorrir,
Produzir tenros frutos que a amizade gera, qual a mãe, deveras cuidadosa.
Não importa se pela voz, perfume, presença, pelo roçar do cabelo de anjo,
Esbanjo a alegria que vem desse amor, desse abraço que aperta e estala,
Feito pipoca na panela, feito a alma leve que resvala no chão e repica alto.
Seguimos por caminhos separados, mas, que se esbarram com frequência,
Mesmo em dias de indolência, quando o frio deveria frustrar idas ao parque,
Fazemos desembarque na Praça dos Porquinhos, é próximo ao portão seis.
Gosto dessa gente feliz que transita entre jardins, bicicletas, patins e skates,
Que abre a toalha, faz piquenique, adora pegar um instrumento e sair por aí
Empunhando o sax, o violino, violão, um playback, soltando a voz para valer.
Este circuito, que nem imaginava percorrer toda a semana, veio para encher
A vida com as cores que saltam da tela, com o pé que erra, se suja na terra,
Com este beijo despretensioso, que você ainda não sabe se recusa ou pega.
334
CORDÃO UMBILICAL
Eu carrego uma dor que é feito terra arrasada, vida abreviada,
Cordão umbilical que se corta e é como se estivesse grudado,
Chuva que o vento leva, mas, tanto insiste, termina por voltar.
Tenho rios que não param de correr porque olham para você,
Um mundo cheio de cores, mas, que ainda não conhece o sol,
Um velotrol empoeirado como os porões, salões, minha alma.
Para que buscar razões, a vida é tão insana, só falta de grana
Não justificaria a inquietação, tudo é tão louco, já estou rouco
De tanto explicar, mostrar que não há motivo para separação.
Decisões assim são traumáticas, lunáticas como as emoções,
Quero mais é sair do atoleiro, cruzar o canteiro, livre ser feliz,
Como é bom dar o primeiro choro de vida e conseguir respirar.
Quero mais é tirar dos peitos o alimento, todo o meu sustento,
Aninhar-me neste colo enquanto amolo, quero tanto continuar,
Quem sabe depois de um sono, finalmente viveremos em paz.
378
INTUMESCIMENTO
Sinto a eletricidade, sangue novo nas veias, as meias foram costuradas,
O pé já reconhece o chão, o pão já chega ao estômago e os olhos riem,
Estamos prontos e excitados para a aventura, de ternura nos vestimos,
Sentimos que é o momento exato de romper o hiato que nos paralisou.
Somos a criança, o adolescente, o jovem expoente de seu tempo, tudo,
Menos cadeira de balanço, porque ganso é que costuma ficar sentado,
O dia deve ser regado a vinho, rostos rubros externam seus excessos,
Que às vezes são convenientes, sob medida, cabem doses de loucura.
Você queria companhia, agora tem, valentia e coragem só fazem bem,
Quem nunca precisou devia conhecer a adrenalina de estar sem freios,
Sem rodeios me beijou e a mágica aconteceu, que venha o jantar farto,
O quarto mal pode esperar, o lençol mais afoito, resolveu se desnudar.
A água morna do banho não relaxa se encaixa a vida, o sonho, o gozo,
Mas, é gostoso vê-la escorrer, satisfazer este instinto natural, profano,
Engano acreditar que arrefeceu os anseios com os seios intumescidos,
Os tecidos já não cabem mais nos corpos que se descobriram quentes.
286
QUINTA-FEIRA
Meus olhos choram o mar quando penso que ele já levou muitas vidas,
Quem sonhou águas tranquilas e se deparou com ondas intimidadoras,
Não sabe ainda, mandar que elas obedeçam aos sinais, dores e medos.
Sempre guardei segredo, temendo que ele ouvisse, que se aproveitasse
De qualquer fraqueza, qualquer insegurança, desta criança livre e pura,
Que estendeu as mãos, que trouxe o verão, que ofereceu sua amizade.
Já é quinta-feira e o barco partiu como proposto, com gosto de navegar,
O vento se engraçou pela vela, bela, envolta apenas nela e dela quis mais,
Acariciá-la por vezes, agitá-la demais, fazê-la seguir para onde se recusara.
E veio a aurora, quando a noite selou a tarde e sem alarde te avistou feliz,
Não era a sua primeira vez, mas, era como se fosse, tamanha a descoberta,
Tamanha a oferta de gemidos e sussurros, de gritos que já não eram de dor.
Foi quando se deu conta que era hora de voltar, de aceitar que acabou,
De contabilizar o que restou depois de tantos naufrágios e presságios,
Era só você, a porta destrancada e um frio gostoso na pele e na alma.
361
DRA. MONICA VIANA
Quando os anjos dormem os passarinhos fazem silêncio,
Eu me arrependo dos pecados que cometi e peço perdão,
Olho esta expressão tão desgastada e ainda apaixonada
Como da primeira vez que serviu, tinha traços de criança.
O rock como atitude, a virtude de não se dar por vencida,
Destemida como heroína em fúria, mãe cuidando do filho,
Estudando a lição, preparando o coração, tantos milagres,
A oração como início, solo propício ao dom, pode realizar.
Não há tempo para lamentações, consolações para dores,
Flores que renascem na alma enferma, querendo se curar,
Um mero instrumento que por si só jamais poderia realizar
As obras que foram sopradas e que agora se fazem ouvir.
A música celeste inunda as salas, as mãos firmes operam,
São filhos que esperam, que rezam, nós somos pequenos,
A grandeza divina é impenetrável, inefável vê-la realizar-se,
É tão lindo o seu manto, um avental branco escrito médica.
460
BAILARINA
Era só um passeio despretensioso, como os que visam gastar o tempo,
Em um momento qualquer, como que saltando aos olhos, estava você,
Na ponta dos pés, de vermelho, curvada para trás, obstinada, que linda.
Ah, essas fotos falam de lua de mel, eu nem sei distinguir jazz de tango,
Ledo engano eu imaginar que os braços que te sustentam são os meus,
A dança que aconteceu aqui dentro de mim, não consegue transparecer.
O que sinto em cada passo leve, em cada breve expressão do seu corpo
É que todas as artes se unem, celebram a vida com os seus movimentos.
O escultor nasce de cada coreografia e o ator se apossa dos seus gestos,
O músico pulsa e marca o ritmo, enquanto o poeta já escancara sua alma.
Somente o pintor enxergou a pose, a musa, o fotógrafo capturou seu vôo,
O cineasta resumiu longos ensaios celebrando o sonho que você não viu.
Nós estamos aqui, depois dos aplausos e percalços, depois do pano subir,
Entre suores, dores e flores, restam a admiração do fã e a luz da bailarina.
346
NOSSA ESTRADA
Eu não sei se são olhos de mar, de céu, de janelas da minha vida,
Talvez esse corpo aos 20, 30, 50 ou 100 anos, meu doce repouso,
Quem sabe esse jeito de interior, de café fresco, de fogão à lenha,
A varanda, a cadeira de balanço em movimento e tão nossa casa?
Filhos que ainda não nasceram e rosas que ainda não cresceram,
Os frutos fartos como os riachos que não secam, somente brilham,
Seria a pequena sereia que cresceu e que canta cada vez melhor,
Areias fofas que recebem, que massageiam a pele tão sem juízo?
Não tenho a menor idéia se poderia ser mais uma história de lutas,
Esses campos e uns grampos que caem quando ela corre de mim,
Os dois seios que alimentam minha criança mimada e ainda ávida,
Aves que riscam os ares, certos lugares, em que teimas em reinar?
Não sei se acreditaria se eu falasse quanto o amor faz doer, moer,
Ele clama cada segundo por viver, morrer, quer renascer por você,
Mas, como não sei mais o que fazer com tudo isso me consumindo,
Me entrego, aceito seu sim e o seu não, aperto a sua mão, prossigo.
381
CONEXÃO
Quando o tempo se depara com o despertar sonolento
De sonhos ambientados em imponentes arranha-céus
Ali mesmo onde os pássaros causam inveja aos mortais
Estes olhos que alimentaram rios contemplam horizontes
Dentes que se confundem com as nuvens, cama do piano
Manancial da alma, luz que acalma, fagulha de sentimento
Sentinela do desejo, começo do beijo incipiente, embrionário
Cabelos que se aninham onde os dedos queriam estar, ninho
Paladar que a boca veio aguçar, num acaso do destino, vinho
Seiva que circula entre amontoados de cinza e concreto, vida
Matéria que deu forma à perfeição confinada em uma tela
Imagem permeável irrigando veias como corpo do espírito
Tamanho atrito não rompe as barreiras e a sede não finda
É só o lençol de vidro irradiando calor digital aos conectados
Ania, querida! Muito obrigado pelos carinhosos elogios, apesar do tanto que me falta melhorar e que sigo em busca. Tenhas dias lindos e inspirados!
ania
Poeta, bom dia! Obrigada pelo carinhoso comentário ue me ensejou teus versos ler. Li alguns, e todos a alma me tocaram pelo lirismo, pela sensibilidade, parabéns! abraços, ania..