Lista de Poemas

O VENTO NÃO PERCEBE A BRISA

No começo tudo era lindo, o seu pai na calçada

O muro ruindo a três quadras da minha casa

O ônibus subindo e eu sempre atrasado

Quanto entrei afobado, meu mundo parou

 

E dando tudo certo, eu sempre quis você na minha vida

E ela aturdida te acenou na multidão

Quem sabe você me dê alguma pista

E encha então de paz o meu coração

 

No domingo sessão de cinema, eu sentado ao seu lado

A pipoca caindo, me deixando encabulado

Num gesto inusitado, apoiei o dedo em sua mão

Ela aninhou-se por baixo e um beijo selou

 

A herança que eu trago desse dia são duas maravilhas

É por elas que eu vou atravessar o turbilhão

Foi duro ter que abrir a porta da saída

Agora vou seguir sem direção

 

E se tudo der errado, saiba o vento não percebe a brisa

E ela, por sua vez, vencida, se perde no furacão

Quem sabe ainda exista uma fagulha viva

Mas, sei, choveu demais neste verão
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AURORA

Que graça maior pode existir além desta simples oferta de amor,
Onde o nascer do sol não finda, onde linda, divide o seu melhor,
Entre atropelos, excesso de zelos, novelos desta vida atribulada,
Que se embaraçam, aquecem, como seus braços entre os meus.
A frágil presença, feito a formiguinha carregando folhas gigantes,
Ombros que suportam este mundo, respiram fundo e caminham,
Porque o inverno promete ser mais rigoroso, não há maior gozo
Do que um cantinho acolhedor para guardar e proteger os seus.
Agora livres do perigo, da desconfiança que balança a sua lança
Mas, não fere, apenas confere, livre acesso a quem ousou e deu
Um largo sorriso, aquele que transpareceu, quando chovia forte,
Quando o único norte era contemplar solitárias rosas de inverno.
Num impulso quando o pulso não se conteve, viu um céu aberto,
Viu que estava perto o que buscara entre nuvens tão carregadas,
Tão propensas a raios, soslaios que a sua timidez adiou de vez,
Ao menos era isto que pensara até que pressentiu a primavera.
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RECADO A UMA MULHER INDEPENDENTE

Ouço sobre conquistas, independência, empoderamento, autossuficiência,

Respeito todas essas coisas, fruto do trabalho notável de grandes pessoas,

Vejo também como constatação cruel de que o sustento único, não basta,

Hoje o casal precisa abrir mão da proximidade dos filhos para alimentá-los.

Enquanto fala em liberdade, providenciei asas para os seus próximos vôos,

Apesar de não precisar, peço licença para cuidar como uma criança frágil,

Acho notável a coragem para fazer mil coisas ao mesmo tempo, namorar,

Dizer que não precisa de ninguém, por já ser feliz, pequena alma inocente.

A vida deixa as pessoas tão duras, quando percebem, já perderam o brilho,

Gastam os melhores anos atrás do mesmo conforto que sufoca suas almas,

A maternidade, colocam no armário enquanto a carreira decola, esquecem

Que esse tempo é um ciclo que não volta, perdê-lo é morrer bem devagar.

A mulher não depende mais do homem, parece com ele, no melhor e pior,

O homem se permite a cuidados que não tinha, sensibilidade incorporada,

Entre tantas mudanças, apaixonam-se por quem as entende, às vezes elas,

Quero dizer com a maior sinceridade possível, vou cuidar tão bem de você!
271

DOMADOR DE LEÕES

Você desperta a paixão, enquanto eu domo os leões em mim,

Porque os dias são maus, porque as naus devem partir enfim,

É o que dizem os astros, mastros a postos, rumo aos confins,

Território de ninguém, esta terra de águas, dos claros marfins

Saqueados à luz do dia, não corroborando à divina harmonia.

Apresento o santuário dos medos, dedos entrelaçados a orar,

Súplica que atravessa o ar e que o céu pode alcançar e ecoar

No ouvido da Divina Providência, como um salmo ou antifonia,

Como o canto, misto de lamento e encantamento, pode gritar

Até que o semblante inabalável repouse sutilmente neste olhar.

Indelével sentimento quer torturar quem aceite, se deixe levar

Por esta nuvem que precede o atoleiro, o timoneiro a titubear,

Sina onde administro o caos, degraus que me obriguei a subir,

Mas, pude avistar um diamante gigante, bem ao lado, um rubi,

Coração enorme que não dorme sem antes, cada dor subtrair,

A paz, o último estandarte do mártir, com seu sangue a esvair.
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DESPRETENSÃO

Sinto o sol bater na janela enquanto o seu contato aquece tudo por dentro,

Com esse jeito meio desbocado, infantil, sempre querendo me fazer sorrir,

Produzir tenros frutos que a amizade gera, qual a mãe, deveras cuidadosa.

Não importa se pela voz, perfume, presença, pelo roçar do cabelo de anjo,

Esbanjo a alegria que vem desse amor, desse abraço que aperta e estala,

Feito pipoca na panela, feito a alma leve que resvala no chão e repica alto.

Seguimos por caminhos separados, mas, que se esbarram com frequência,

Mesmo em dias de indolência, quando o frio deveria frustrar idas ao parque,

Fazemos desembarque na Praça dos Porquinhos, é próximo ao portão seis.

Gosto dessa gente feliz que transita entre jardins, bicicletas, patins e skates,

Que abre a toalha, faz piquenique, adora pegar um instrumento e sair por aí

Empunhando o sax, o violino, violão, um playback, soltando a voz para valer.

Este circuito, que nem imaginava percorrer toda a semana, veio para encher

A vida com as cores que saltam da tela, com o pé que erra, se suja na terra,

Com este beijo despretensioso, que você ainda não sabe se recusa ou pega.
318

BEATRIZ

Esse sorriso preguiçoso fica ainda mais gostoso se perto quer chegar,
Já sabe que não precisa de convite, a minha porta fica sempre aberta,
Na certa, você já percebeu o quanto é aguardada, basta aqui chegar.
Fiz malabarismos, contorcionismos, paguei micos, por sorte sobrevivi
Ao silêncio cortante dos dias, madrugadas frias a espera de um sinal,
Afinal, toda resistência encontra sua motivação, essência para seguir.
Alimentado por acenos da musa, reclusa em sua rede, parede digital,
Mero mortal aprendendo a navegar no mundo louco, peno um pouco,
Até desvendar as senhas, criptografias, fotografias tão lindas do perfil.
Não posso falar mal de aplicativos e julgá-los nocivos, até superficiais,
São atalhos sensacionais para quem aceita exposição e sair do porão,
Aventurar-se neste mar de pessoas sem par, só um antídoto à solidão.
Quem sabe se desfaça da distância, haja consonância durante o jantar
Para lembrar, ao olhar da pessoa à minha frente, o que ele bem sabe,
Que pode se tornar freqüente, presente que me permita desembrulhar.
274

NOSSOS PECADOS

Sei que gostar delas, sequelas vão lhe causar, quirelas alimentam os bicos

Que quando se bicam, provocam atrito, como delito, pretendem classificar,

Abandonam na terra as pedras que não podem jogar, valentes e covardes,

Pelos dias, noites e tardes, vivem sempre em maquinação, raça de víboras.

Quem recebeu perdão, ouviu também o não peques mais e arrependeu-se,

Essa parte não consigo mudar, flexibilizar nunca foi o meu forte, sem sorte

Na escolha da defesa, católico praticante, em nada melhor, sem vergonha,

Por conhecer o certo e não executá-lo, a minha cobrança será muito maior.

Como artista, acho lindo, como homem, mais ainda, ainda que irrelevante,

Uma opinião pessoal não significa muito, celebra nosso respeito, amizade,

Lá dentro ninguém quer saber disto, tudo será visto como o quiserem ver,

Eu sei que as coisas mudam, só não posso escrever o terceiro testamento.

Você sabe o quanto acredito em casamento, foi ele o meu projeto de vida,

Os filhos que não seguram o dos outros, seguraram o meu, só que morreu

Pouco antes de te conhecer, o que sobrou, não terá grande valia, nostalgia

Propícia para entender a impossibilidade de defesa, aceitemos a sentença.
335

MORTE ANUNCIADA

Um dia eu vou morrer de tanto pensar, de tanto escrever,

Até dei de tocar, cismei de cantar e não consigo entender,

Se está tudo bem, sem mais, porém, ponho tudo a perder,

São ciclos disformes, vazios enormes, começou a chover.

É tanta inundação, tanta embarcação cortando as ondas,

Por onde andas, meu bem, meu amém termina em você,

Minha linda, a dinda que todo mundo sonhou, aí fechou,

Só dá um alô, que eu passo um café, venha hoje, se der.

Uma noite irei ressuscitar, por cansar de morrer e sofrer,

Até levantar uns trocados, assustar no halloween, enfim,

Está tudo bem, vamos pegar o trem e pedir uma cerveja,

Chame o garçom, mande encher a mesa, bora lá beber.

Quando cansar de loucuras, vamos falar bem mais sério,

Moramos no mesmo hemisfério, hora do namoro render,

Quero tanto ser pai, gêmeos, mesmo boêmios, pode ser?

Fica assim não, vai dar tudo certo, já podemos começar?
289

MORADA

Eu não entendo as voltas que a vida dá e que você aumenta

Enquanto tenta explicar porque prefere fugir do que buscou,

Do que a vida generosamente concedeu sem cobrar por isso.

Coisas são como são, pessoas tomam decisões e, às vezes,

Criam distâncias seguras, alimentam ilusões, adiam perdões,

Trancam em porões os melhores sonhos de vida e liberdade.

Quem poderá impedir as piores escolhas e o cair das folhas,

Que cresceram ainda outro dia e que os ventos carregaram?

Eu já não preciso de consolo e nem busco aconselhamento,

Enquanto este perfume se dissipa no ar, sem deixar feridas,

Mantenho vivas as convicções quanto ao gostar de ser feliz.

Abraço minha sorte como quem vê o céu azul todos os dias,

Sabendo que cultivar o amor é vê-lo invadindo este espaço,

Criado por você, mas, que não me impediu de ir em frente.

Quem ousará dizer que não tentei encher de brilho o olhar,

De quem veio de tão longe e agora sabe que mora comigo?
322

LUA DO AMOR DIVINO

Gosto de escalar montanhas, de ficar mais perto da lua, do amor divino,

Procuro encontrar um motivo para cada nova escalada e ali me deleitar

Entre o silêncio e a respiração contida, entre gaivotas, águias e feridas.

Diversas culturas, diferentes relevos, sempre mantenho a cabeça vazia

Como se nada mais existisse entre o céu e o precipício, só o bem-estar

De proporcionar paz de espírito, de meditar, orar, amar, perdoar e viver.

Quem dera o tivesse sempre como ofício, como o vício que não faz mal,

Mas, tudo ficou lá embaixo, aguardando pacientemente pela minha volta,

Feito a mão que não solta do pai, por sentir medo, por querer aconchego.

Tenho apego por coisas, pessoas que conquistei, os caminhos que trilhei

E sempre retorno como quem revê o velho mestre e, que volta a aprender,

Sem saber se a lição de ontem servirá, se quem aprendeu agora ensinará.

Eis que a vida, que não gera vidas, fez outra vida se tornar melhor e vibra,

Porque encontrou um sentido, porque encontrou o amigo e o amor brotou

E agora quem plantou um sorriso, beija a flor, escreve umas histórias, crê.
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Comentários (2)

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sergios

Ania, querida! Muito obrigado pelos carinhosos elogios, apesar do tanto que me falta melhorar e que sigo em busca. Tenhas dias lindos e inspirados!

ania
ania

Poeta, bom dia! Obrigada pelo carinhoso comentário ue me ensejou teus versos ler. Li alguns, e todos a alma me tocaram pelo lirismo, pela sensibilidade, parabéns! abraços, ania..