Meus olhos choram o mar quando penso que ele já levou muitas vidas,
Quem sonhou águas tranquilas e se deparou com ondas intimidadoras,
Não sabe ainda, mandar que elas obedeçam aos sinais, dores e medos.
Sempre guardei segredo, temendo que ele ouvisse, que se aproveitasse
De qualquer fraqueza, qualquer insegurança, desta criança livre e pura,
Que estendeu as mãos, que trouxe o verão, que ofereceu sua amizade.
Já é quinta-feira e o barco partiu como proposto, com gosto de navegar,
O vento se engraçou pela vela, bela, envolta apenas nela e dela quis mais,
Acariciá-la por vezes, agitá-la demais, fazê-la seguir para onde se recusara.
E veio a aurora, quando a noite selou a tarde e sem alarde te avistou feliz,
Não era a sua primeira vez, mas, era como se fosse, tamanha a descoberta,
Tamanha a oferta de gemidos e sussurros, de gritos que já não eram de dor.
Foi quando se deu conta que era hora de voltar, de aceitar que acabou,
De contabilizar o que restou depois de tantos naufrágios e presságios,
Era só você, a porta destrancada e um frio gostoso na pele e na alma.
364
LIMÃO AZEDO
Olhei mais de mil vezes a folha em branco, depois que vi e também ouvi Cada frase sua musicada no ouvido, o som preferido de agora em diante, O sorriso dominante e o último retrato, para o caso de você querer postar, Ali perto da cama, antes de dormir, rezar, talvez, é incerto, me acomodar. Tenho respirado muito ar puro, além desse muro, é tanto pó, é tanto mal Que a alma não merece, esquece não de me ver, torço para não chover, Só não pode querer mais que eu, já me convenceu, talvez, queira adotar, Qualquer cantinho serve, a minha verve voltou, dela não lembrava mais, Deixa eu mexer no cabelo, fazer um apelo para que vivamos dias de paz, Que sejam águas tranquilas, que sejam vilas com famílias todas do bem, Quem sabe eu seja o trilho para você correr sem medo, um limão azedo, Que você adoçou, remoçou, já não tem perigo, só um amigo ao seu lado. Peguei toalhas para o banho, se quiser companhia, não tenha vergonha, Tá todo mundo dormindo, eu nem estou pedindo, mas, adoraria o convite, Agora não tem pé descalço e não tem percalço que não se possa reparar, Que não falte pão na mesa e, que a certeza do perdão nos ensine a amar.
381
CORDÃO UMBILICAL
Eu carrego uma dor que é feito terra arrasada, vida abreviada,
Cordão umbilical que se corta e é como se estivesse grudado,
Chuva que o vento leva, mas, tanto insiste, termina por voltar.
Tenho rios que não param de correr porque olham para você,
Um mundo cheio de cores, mas, que ainda não conhece o sol,
Um velotrol empoeirado como os porões, salões, minha alma.
Para que buscar razões, a vida é tão insana, só falta de grana
Não justificaria a inquietação, tudo é tão louco, já estou rouco
De tanto explicar, mostrar que não há motivo para separação.
Decisões assim são traumáticas, lunáticas como as emoções,
Quero mais é sair do atoleiro, cruzar o canteiro, livre ser feliz,
Como é bom dar o primeiro choro de vida e conseguir respirar.
Quero mais é tirar dos peitos o alimento, todo o meu sustento,
Aninhar-me neste colo enquanto amolo, quero tanto continuar,
Quem sabe depois de um sono, finalmente viveremos em paz.
382
O AMOR POR UM TRIZ
Acordo cedo, procuro a foto, será que ela parece com o sonho?
Quando penso em carinho, sinto meus pés deslizando na areia,
Minhas mãos tocando o rosto, bagunçando o cabelo, movendo,
São impulsos que fariam um moinho girar, alguém ressuscitar.
Penso em um lugar, cachoeira, lareira ou esteira, é muito mais,
Uma jóia rara, uma boa companhia, quem diria, o dia chegaria,
Cerveja ou vinho, um apartamento novinho, tudo é aconchego,
É deixar o medo do lado de fora da porta e crer no tempo certo.
Olha o livro aberto, o rio que passa perto e que sabe até cantar,
O pomar que ficou mais cheio de fruta, a gruta que vi se erguer
Entre girassóis e camélias, entre idéias que passam como avião,
Como embrião de um relacionamento que já existe aqui dentro.
De tanto armazenar amor, os celeiros estão cheios, como seios,
Recreios onde se pode amamentar um pequeno pedaço de ser,
Eu me sinto privilegiado, alguém abençoado, a vida quer sorrir,
Mostrar os dentes mais brancos, pelos flancos, um beijo surgir.
296
BOM-BOCADO
Seu carinho é manhã que nasce e clareia tudo, quero acordar com ela, contigo, Viver o risco de acostumar com o doce antes do salgado, gostoso bom–bocado, Que não enjoa, coisa boa que só me faz bem, aglutina almas, me faz seu refém Com ar de desdém, de quem já sabe que rege tudo ao redor neste ritmo próprio. Óbvio que não será fácil, melodias complexas requerem mais suor na execução, Misto de técnica e paixão, paciência, aderência a coexistências mais singulares, Perdidas entre olhares que se buscam em todos os lugares e alheias ao mundo, Transformando medos em cortinas de fumaça frente à iminência de um furacão. Veja o tempo implacável, irredutível com seus muros de proteção, toda arguição Desmentida pelo beijo sorrateiro, desejado, sem rumo, agora visitante costumaz, Que de tanto fez como tanto faz, quis ser mais que uma simples, bela divagação, Repousou no coração, tão acostumado a viver com o pouco que lhe destinavam. Redesenhado o viver enlouquece, se esquece que acumulará mil compromissos, Ri do novo início, homéricas confusões, corridas de bastões que vivem no chão, Aos que já tenham passado por isso, desatino juvenil, bagunçado e pueril, sorry, O cabeça de vento quer consertar mas, segue amando a causadora de tudo isto.
316
INTUMESCIMENTO
Sinto a eletricidade, sangue novo nas veias, as meias foram costuradas,
O pé já reconhece o chão, o pão já chega ao estômago e os olhos riem,
Estamos prontos e excitados para a aventura, de ternura nos vestimos,
Sentimos que é o momento exato de romper o hiato que nos paralisou.
Somos a criança, o adolescente, o jovem expoente de seu tempo, tudo,
Menos cadeira de balanço, porque ganso é que costuma ficar sentado,
O dia deve ser regado a vinho, rostos rubros externam seus excessos,
Que às vezes são convenientes, sob medida, cabem doses de loucura.
Você queria companhia, agora tem, valentia e coragem só fazem bem,
Quem nunca precisou devia conhecer a adrenalina de estar sem freios,
Sem rodeios me beijou e a mágica aconteceu, que venha o jantar farto,
O quarto mal pode esperar, o lençol mais afoito, resolveu se desnudar.
A água morna do banho não relaxa se encaixa a vida, o sonho, o gozo,
Mas, é gostoso vê-la escorrer, satisfazer este instinto natural, profano,
Engano acreditar que arrefeceu os anseios com os seios intumescidos,
Os tecidos já não cabem mais nos corpos que se descobriram quentes.
289
A FESTA
Eu sei que é por demais estranho, um absurdo sem tamanho, mas, Não sei desligar, não consigo parar de pensar, de sentir e de sorrir, Como quem viu passarinho verde, como quem joga a rede e pesca. A conquista mexe com o ego, bagunça tudo, rejuvenesce, cria clima, Enquanto a alma esquece, o tempo tece seu melhor momento, favor Que merece mais que gratidão, retribuição, bom uso e compreensão. A distância permite que eu segure a sua mão, concede uma canção, Nossos corpos percebem como são, não escondem, apenas gostam, Fazem das fotos, estradas, dos vídeos, pousadas e se deitam a sós. Nossos versos se misturam e a sopa de letrinhas mexeu bem pouco, Louco foi o querer desses seres, que sem juízo subiram além da lua, Conclua o que quiser e, salve-se quem puder, o assunto é se divertir. O amor da adolescência vira a cama do agora e, sem demora, aflora, A flor do jardim vira jasmim, realça o carmim da boca e, quer seduzir, Agora, ouça a festa pela fresta que resta, que hoje, ninguém dormirá.
287
ALGODÃO DOCE
Quando risos se mostram e encostam em bocas felizes, poderíamos definir como êxtase?
Quem sabe seja apenas um ponto de vista, uma pista do quanto tem sido bom o convívio,
De como é possível deixar coisas para trás, consentir em que o novo estabeleça seu lugar,
Já passei do tempo de ter pressa, essa coisa de olhar eu deixo ganhar corpo naturalmente.
Agora que bateu fundo, não posso negar, já presto atenção, acompanho cada movimento,
Seguro a excitação e aguardo correspondência, uma freqüência agradável, a sintonia fina,
Aquela coisa divina que surpreende os sentidos, que torna as nuvens familiares, os bares
Já não se resumem aos copos cheios, sua companhia ilumina tudo, tão bom te encontrar.
Percebo o barulho da chuva no asfalto, o seu salto pode escorregar e, talvez seja a deixa
Para um abraço mais demorado, para ver incinerado esse cuidado, vejo as asas baterem,
As roseiras tremerem enquanto seguimos à fronteira e você diz quem terá o passe livre,
Quem beberá a cuba libre, gim, uísque, tanto faz, solta a música que o show será nosso.
Sempre acordo cedo e, mesmo com tudo revirado, a sensação é da mais perfeita ordem,
Os cães fingem que mordem, eu finjo que doi, você respira tranquila, sua cara é de paz,
Dá tempo de preparar um café, de repassar a vida, constatar que a espera foi justificada
Por este rosto dão doce, meu algodão doce, pode levantar, já aprendi a sonhar acordado.
324
DOMADOR DE LEÕES
Você desperta a paixão, enquanto eu domo os leões em mim,
Porque os dias são maus, porque as naus devem partir enfim,
É o que dizem os astros, mastros a postos, rumo aos confins,
Território de ninguém, esta terra de águas, dos claros marfins
Saqueados à luz do dia, não corroborando à divina harmonia.
Apresento o santuário dos medos, dedos entrelaçados a orar,
Súplica que atravessa o ar e que o céu pode alcançar e ecoar
No ouvido da Divina Providência, como um salmo ou antifonia,
Como o canto, misto de lamento e encantamento, pode gritar
Até que o semblante inabalável repouse sutilmente neste olhar.
Indelével sentimento quer torturar quem aceite, se deixe levar
Por esta nuvem que precede o atoleiro, o timoneiro a titubear,
Sina onde administro o caos, degraus que me obriguei a subir,
Mas, pude avistar um diamante gigante, bem ao lado, um rubi,
Coração enorme que não dorme sem antes, cada dor subtrair,
A paz, o último estandarte do mártir, com seu sangue a esvair.
357
BEATRIZ
Esse sorriso preguiçoso fica ainda mais gostoso se perto quer chegar, Já sabe que não precisa de convite, a minha porta fica sempre aberta, Na certa, você já percebeu o quanto é aguardada, basta aqui chegar. Fiz malabarismos, contorcionismos, paguei micos, por sorte sobrevivi Ao silêncio cortante dos dias, madrugadas frias a espera de um sinal, Afinal, toda resistência encontra sua motivação, essência para seguir. Alimentado por acenos da musa, reclusa em sua rede, parede digital, Mero mortal aprendendo a navegar no mundo louco, peno um pouco, Até desvendar as senhas, criptografias, fotografias tão lindas do perfil. Não posso falar mal de aplicativos e julgá-los nocivos, até superficiais, São atalhos sensacionais para quem aceita exposição e sair do porão, Aventurar-se neste mar de pessoas sem par, só um antídoto à solidão. Quem sabe se desfaça da distância, haja consonância durante o jantar Para lembrar, ao olhar da pessoa à minha frente, o que ele bem sabe, Que pode se tornar freqüente, presente que me permita desembrulhar.
Ania, querida! Muito obrigado pelos carinhosos elogios, apesar do tanto que me falta melhorar e que sigo em busca. Tenhas dias lindos e inspirados!
ania
Poeta, bom dia! Obrigada pelo carinhoso comentário ue me ensejou teus versos ler. Li alguns, e todos a alma me tocaram pelo lirismo, pela sensibilidade, parabéns! abraços, ania..
Reportar erro ou incorreção
Obrigado! O seu reporte foi enviado e será analisado.