Lista de Poemas

NOVEMBRO

É novembro, eu nem me lembro da última vez que respirei assim aliviado,

Que me vi extasiado com uma foto onde noto que a felicidade deva estar,

Onde também possa desalinhar o cabelo de quem encontre por lá, ah, vá,

Não se dê por desentendida, menina atrevida, conheço sua sede de amar.

Eu quero um mar de ondas que desvendem o seu corpo, esse seu porto

Onde quis ancorar, mal posso esperar para pisar na terra bendita e aflita,

A fome dita qual velocidade empregar para varrer, o território peremptório

Ousei percorrer da forma mais descabida, em cada subida senti o prazer.

Você sabe entregar mais do que foi pedido, ainda aturdido, quero voltar,

Desde o início, seria esse um indício que isto nunca iria parar, até varar,

Trinta noites de férias, etéreas como as nuvens que se movem e morrem

Enquanto escorrem as últimas gotas de suor que o vento veio arrefecer.

Agora as águas dissolvem o atrito e o que foi dito como um grito irá soar,

Ressoar como promessas descontentes, que não aprenderam a esperar

De dezembro a outubro, neste rosto rubro por bobagens que vivo a dizer,

Pelos feriados, todos planejados para que você não consiga me esquecer.
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ALGODÃO DOCE

Quando risos se mostram e encostam em bocas felizes, poderíamos definir como êxtase?

Quem sabe seja apenas um ponto de vista, uma pista do quanto tem sido bom o convívio,

De como é possível deixar coisas para trás, consentir em que o novo estabeleça seu lugar,

Já passei do tempo de ter pressa, essa coisa de olhar eu deixo ganhar corpo naturalmente.

Agora que bateu fundo, não posso negar, já presto atenção, acompanho cada movimento,

Seguro a excitação e aguardo correspondência, uma freqüência agradável, a sintonia fina,

Aquela coisa divina que surpreende os sentidos, que torna as nuvens familiares, os bares

Já não se resumem aos copos cheios, sua companhia ilumina tudo, tão bom te encontrar.

Percebo o barulho da chuva no asfalto, o seu salto pode escorregar e, talvez seja a deixa

Para um abraço mais demorado, para ver incinerado esse cuidado, vejo as asas baterem,

As roseiras tremerem enquanto seguimos à fronteira e você diz quem terá o passe livre,

Quem beberá a cuba libre, gim, uísque, tanto faz, solta a música que o show será nosso.

Sempre acordo cedo e, mesmo com tudo revirado, a sensação é da mais perfeita ordem,

Os cães fingem que mordem, eu finjo que doi, você respira tranquila, sua cara é de paz,

Dá tempo de preparar um café, de repassar a vida, constatar que a espera foi justificada

Por este rosto dão doce, meu algodão doce, pode levantar, já aprendi a sonhar acordado.
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LAMPEJO

Quando a dor aperta no peito, você chama de saudade eu de lampejo,
Quando cede um beijo, cede ao desejo que não foi capaz de controlar,
Se falam que é química, digo que é mímica, balé que sabemos dançar,
Tecnicamente é sexo, mas, acho mais complexo, um convite para ficar.
Se comentam que estou pegando, vou retrucando, digo que é a paixão,
Sussurraram que estamos de quatro, mas de quatro é só uma variação,
Perguntam se não estou mais saindo, é que esta fluindo a empolgação,
E querem saber se isso passa, digo passa, só esperar uma encarnação.
Foi meio um acaso, destino, o acidente de percurso, um último recurso,
A cantada efêmera que soou legal, um pega geral que grudou, não saiu,
Não acredito em sorte, mas, a morte deve ser não rezar para acontecer,
Já decorei seu telefone, todo seu nome, seu corpo, antes que o retome.
Agora que o papo ficou sério, ando meio aéreo e pulo sem paraquedas,
São essas coisas de perder o medo, de jurar segredo, não se aguentar,
Quem sabe seja a fórmula duradoura, manjedoura salvadora, é só amor
Da forma mais simples, sem requintes e, como ele se apresenta melhor.
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NOSSA ESTRADA

Eu não sei se são olhos de mar, de céu, de janelas da minha vida,

Talvez esse corpo aos 20, 30, 50 ou 100 anos, meu doce repouso,

Quem sabe esse jeito de interior, de café fresco, de fogão à lenha,

A varanda, a cadeira de balanço em movimento e tão nossa casa?

Filhos que ainda não nasceram e rosas que ainda não cresceram,

Os frutos fartos como os riachos que não secam, somente brilham,

Seria a pequena sereia que cresceu e que canta cada vez melhor,

Areias fofas que recebem, que massageiam a pele tão sem juízo?

Não tenho a menor idéia se poderia ser mais uma história de lutas,

Esses campos e uns grampos que caem quando ela corre de mim,

Os dois seios que alimentam minha criança mimada e ainda ávida,

Aves que riscam os ares, certos lugares, em que teimas em reinar?

Não sei se acreditaria se eu falasse quanto o amor faz doer, moer,

Ele clama cada segundo por viver, morrer, quer renascer por você,

Mas, como não sei mais o que fazer com tudo isso me consumindo,

Me entrego, aceito seu sim e o seu não, aperto a sua mão, prossigo.
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A FESTA

Eu sei que é por demais estranho, um absurdo sem tamanho, mas,
Não sei desligar, não consigo parar de pensar, de sentir e de sorrir,
Como quem viu passarinho verde, como quem joga a rede e pesca.
A conquista mexe com o ego, bagunça tudo, rejuvenesce, cria clima,
Enquanto a alma esquece, o tempo tece seu melhor momento, favor
Que merece mais que gratidão, retribuição, bom uso e compreensão.
A distância permite que eu segure a sua mão, concede uma canção,
Nossos corpos percebem como são, não escondem, apenas gostam,
Fazem das fotos, estradas, dos vídeos, pousadas e se deitam a sós.
Nossos versos se misturam e a sopa de letrinhas mexeu bem pouco,
Louco foi o querer desses seres, que sem juízo subiram além da lua,
Conclua o que quiser e, salve-se quem puder, o assunto é se divertir.
O amor da adolescência vira a cama do agora e, sem demora, aflora,
A flor do jardim vira jasmim, realça o carmim da boca e, quer seduzir,
Agora, ouça a festa pela fresta que resta, que hoje, ninguém dormirá.
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NEUZA

Tenho mãos que deslizam, contornam cada uma dessas curvas sem fim,

Eu me aproprio dos sonhos e quero seus olhos verdes reluzindo em mim,

Enquanto os corpos dançam, enquanto lançam toda a sorte de encantos

Que a imaginação permita, o coração não resista, a manhã possa chegar.

O tempo rompeu as barreiras, invadiu as fronteiras e esqueceu de voltar,

Mesmo com lareira, a clareira trazia o seu brilho de outro fogo a queimar,

Enquanto ardia, nenhuma sede resistia e ninguém iria se atrever a parar,

Mas, a energia é finita e, a vontade que fica, jura que algum dia irá voltar.

A saudade nasce do aceno, de tudo que é pleno, ela encontrou seu lugar

Para morrer, também renascer, para seguir atormentando quem a cultive,

E se a vive, é porque conheceu o amor, é nele que tudo acha um sentido,

Mesmo num dia corrido como este, encontrou um momento para namorar.

Agora que existe afinidade, a intimidade migrou para uma ligação estreita,

Para aquela mão direita com quem se pode sempre contar, vou mergulhar,

Espalhar aos quatro ventos, aos ouvidos menos atentos, por este achado,

O corpo suado pode enfim descansar, aqui tem tudo que sempre busquei.
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BAILARINA

Era só um passeio despretensioso, como os que visam gastar o tempo,

Em um momento qualquer, como que saltando aos olhos, estava você,

Na ponta dos pés, de vermelho, curvada para trás, obstinada, que linda.

Ah, essas fotos falam de lua de mel, eu nem sei distinguir jazz de tango,

Ledo engano eu imaginar que os braços que te sustentam são os meus,

A dança que aconteceu aqui dentro de mim, não consegue transparecer.

O que sinto em cada passo leve, em cada breve expressão do seu corpo

É que todas as artes se unem, celebram a vida com os seus movimentos.

O escultor nasce de cada coreografia e o ator se apossa dos seus gestos,

O músico pulsa e marca o ritmo, enquanto o poeta já escancara sua alma.

Somente o pintor enxergou a pose, a musa, o fotógrafo capturou seu vôo,

O cineasta resumiu longos ensaios celebrando o sonho que você não viu.

Nós estamos aqui, depois dos aplausos e percalços, depois do pano subir,

Entre suores, dores e flores, restam a admiração do fã e a luz da bailarina.
325

LIMÃO AZEDO

Olhei mais de mil vezes a folha em branco, depois que vi e também ouvi
Cada frase sua musicada no ouvido, o som preferido de agora em diante,
O sorriso dominante e o último retrato, para o caso de você querer postar,
Ali perto da cama, antes de dormir, rezar, talvez, é incerto, me acomodar.
Tenho respirado muito ar puro, além desse muro, é tanto pó, é tanto mal
Que a alma não merece, esquece não de me ver, torço para não chover,
Só não pode querer mais que eu, já me convenceu, talvez, queira adotar,
Qualquer cantinho serve, a minha verve voltou, dela não lembrava mais,
Deixa eu mexer no cabelo, fazer um apelo para que vivamos dias de paz,
Que sejam águas tranquilas, que sejam vilas com famílias todas do bem,
Quem sabe eu seja o trilho para você correr sem medo, um limão azedo,
Que você adoçou, remoçou, já não tem perigo, só um amigo ao seu lado.
Peguei toalhas para o banho, se quiser companhia, não tenha vergonha,
Tá todo mundo dormindo, eu nem estou pedindo, mas, adoraria o convite,
Agora não tem pé descalço e não tem percalço que não se possa reparar,
Que não falte pão na mesa e, que a certeza do perdão nos ensine a amar.
362

MMA

Nesta guerra de provocações, convido para que escolha as armas,

Quem sabe as marcas se tornem medalhas e somente sobreviver

Não signifique necessariamente a vitória, motivo de estupefação,

Há quem morra de prazer com sorriso nos lábios, sábios negarão.

No underground, apenas um round na base do ground and pound,

Próxima técnica será surpresa, cartas na mesa, veja a esperteza,

O aparente domínio não significa extermínio, exerce um fascínio,

A montada é gigante, tipo de elefante, bastará enxergar adiante.

Na situação adversa, quem tira um coelho da cartola, faz escola,

Se não pede esmola, ficará na sarjeta, escapou feito um cometa,

Segure essa treta, abriu a gaveta, agora é salve-se quem puder,

Se queria uma colher, ganhou o prato cheio, é só partir ao meio.

Se tem pegada mais forte, posicione o quadril, derrube o arredio,

Caindo com a guarda passada, é só evitar a raspada com o suor,

Trabalho incessante, é deixar o adversário inoperante, só faturar,

Mesmo o bicho mais bravo, engole o travo e dará os três tapinhas.
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NOVOS PAPÉIS

Quando o amor precede um desejo, o beijo fica muito melhor,

Seu corpo reconhece quem conquistou e quem se aventurou,

O coração não esquece quem cativou e o fez bater mais forte,

Quanta sorte por conhecer, explorar e perder todas as rédeas.

Já não precisa de convite, se quiser grite ou chore de prazer,

Só não espere que eu vá parar, mesmo querendo descansar

Um impulso virou seu mundo, respire fundo, basta se render

Enquanto se contorce, torce para que o momento não acabe.

Seu olhar perdeu a inocência, o caminhar vai com indolência

Onde a coragem alcança, seu lado criança, aquele tão bonito,

Por vezes anda descalço, abraça o perigo e segue sem rumo,

Sem pensar que cada escolha trás uma consequência, e daí?

É mesmo hilário esse acesso de loucura, a cura com desdém,

Tanta vida vivida pequena e onde sua voz sumia, dizia amém,

Agora segura, não atura desaforo de ninguém, vai mais além,

Provoca a cena, convida à figuração, quem já foi protagonista.
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Comentários (2)

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sergios

Ania, querida! Muito obrigado pelos carinhosos elogios, apesar do tanto que me falta melhorar e que sigo em busca. Tenhas dias lindos e inspirados!

ania
ania

Poeta, bom dia! Obrigada pelo carinhoso comentário ue me ensejou teus versos ler. Li alguns, e todos a alma me tocaram pelo lirismo, pela sensibilidade, parabéns! abraços, ania..