ALGODÃO DOCE
Quando risos se mostram e encostam em bocas felizes, poderíamos definir como êxtase? Quem sabe seja apenas um ponto de vista, uma pista do quanto tem sido bom o convívio, De como é possível deixar coisas para trás, consentir em que o novo estabeleça seu lugar, Já passei do tempo de ter pressa, essa coisa de olhar eu deixo ganhar corpo naturalmente. Agora que bateu fundo, não posso negar, já presto atenção, acompanho cada movimento, Seguro a excitação e aguardo correspondência, uma freqüência agradável, a sintonia fina, Aquela coisa divina que surpreende os sentidos, que torna as nuvens familiares, os bares Já não se resumem aos copos cheios, sua companhia ilumina tudo, tão bom te encontrar. Percebo o barulho da chuva no asfalto, o seu salto pode escorregar e, talvez seja a deixa Para um abraço mais demorado, para ver incinerado esse cuidado, vejo as asas baterem, As roseiras tremerem enquanto seguimos à fronteira e você diz quem terá o passe livre, Quem beberá a cuba libre, gim, uísque, tanto faz, solta a música que o show será nosso. Sempre acordo cedo e, mesmo com tudo revirado, a sensação é da mais perfeita ordem, Os cães fingem que mordem, eu finjo que doi, você respira tranquila, sua cara é de paz, Dá tempo de preparar um café, de repassar a vida, constatar que a espera foi justificada Por este rosto dão doce, meu algodão doce, pode levantar, já aprendi a sonhar acordado.
DRA. MONICA VIANA
Quando os anjos dormem os passarinhos fazem silêncio, Eu me arrependo dos pecados que cometi e peço perdão, Olho esta expressão tão desgastada e ainda apaixonada Como da primeira vez que serviu, tinha traços de criança. O rock como atitude, a virtude de não se dar por vencida, Destemida como heroína em fúria, mãe cuidando do filho, Estudando a lição, preparando o coração, tantos milagres, A oração como início, solo propício ao dom, pode realizar. Não há tempo para lamentações, consolações para dores, Flores que renascem na alma enferma, querendo se curar, Um mero instrumento que por si só jamais poderia realizar As obras que foram sopradas e que agora se fazem ouvir. A música celeste inunda as salas, as mãos firmes operam, São filhos que esperam, que rezam, nós somos pequenos, A grandeza divina é impenetrável, inefável vê-la realizar-se, É tão lindo o seu manto, um avental branco escrito médica.
NOSSA ESTRADA
Eu não sei se são olhos de mar, de céu, de janelas da minha vida, Talvez esse corpo aos 20, 30, 50 ou 100 anos, meu doce repouso, Quem sabe esse jeito de interior, de café fresco, de fogão à lenha, A varanda, a cadeira de balanço em movimento e tão nossa casa? Filhos que ainda não nasceram e rosas que ainda não cresceram, Os frutos fartos como os riachos que não secam, somente brilham, Seria a pequena sereia que cresceu e que canta cada vez melhor, Areias fofas que recebem, que massageiam a pele tão sem juízo? Não tenho a menor idéia se poderia ser mais uma história de lutas, Esses campos e uns grampos que caem quando ela corre de mim, Os dois seios que alimentam minha criança mimada e ainda ávida, Aves que riscam os ares, certos lugares, em que teimas em reinar? Não sei se acreditaria se eu falasse quanto o amor faz doer, moer, Ele clama cada segundo por viver, morrer, quer renascer por você, Mas, como não sei mais o que fazer com tudo isso me consumindo, Me entrego, aceito seu sim e o seu não, aperto a sua mão, prossigo.
NOSSOS PECADOS
Sei que gostar delas, sequelas vão lhe causar, quirelas alimentam os bicos Que quando se bicam, provocam atrito, como delito, pretendem classificar, Abandonam na terra as pedras que não podem jogar, valentes e covardes, Pelos dias, noites e tardes, vivem sempre em maquinação, raça de víboras. Quem recebeu perdão, ouviu também o não peques mais e arrependeu-se, Essa parte não consigo mudar, flexibilizar nunca foi o meu forte, sem sorte Na escolha da defesa, católico praticante, em nada melhor, sem vergonha, Por conhecer o certo e não executá-lo, a minha cobrança será muito maior. Como artista, acho lindo, como homem, mais ainda, ainda que irrelevante, Uma opinião pessoal não significa muito, celebra nosso respeito, amizade, Lá dentro ninguém quer saber disto, tudo será visto como o quiserem ver, Eu sei que as coisas mudam, só não posso escrever o terceiro testamento. Você sabe o quanto acredito em casamento, foi ele o meu projeto de vida, Os filhos que não seguram o dos outros, seguraram o meu, só que morreu Pouco antes de te conhecer, o que sobrou, não terá grande valia, nostalgia Propícia para entender a impossibilidade de defesa, aceitemos a sentença.
NOVEMBRO
É novembro, eu nem me lembro da última vez que respirei assim aliviado, Que me vi extasiado com uma foto onde noto que a felicidade deva estar, Onde também possa desalinhar o cabelo de quem encontre por lá, ah, vá, Não se dê por desentendida, menina atrevida, conheço sua sede de amar. Eu quero um mar de ondas que desvendem o seu corpo, esse seu porto Onde quis ancorar, mal posso esperar para pisar na terra bendita e aflita, A fome dita qual velocidade empregar para varrer, o território peremptório Ousei percorrer da forma mais descabida, em cada subida senti o prazer. Você sabe entregar mais do que foi pedido, ainda aturdido, quero voltar, Desde o início, seria esse um indício que isto nunca iria parar, até varar, Trinta noites de férias, etéreas como as nuvens que se movem e morrem Enquanto escorrem as últimas gotas de suor que o vento veio arrefecer. Agora as águas dissolvem o atrito e o que foi dito como um grito irá soar, Ressoar como promessas descontentes, que não aprenderam a esperar De dezembro a outubro, neste rosto rubro por bobagens que vivo a dizer, Pelos feriados, todos planejados para que você não consiga me esquecer.
NOVOS PAPÉIS
Quando o amor precede um desejo, o beijo fica muito melhor, Seu corpo reconhece quem conquistou e quem se aventurou, O coração não esquece quem cativou e o fez bater mais forte, Quanta sorte por conhecer, explorar e perder todas as rédeas. Já não precisa de convite, se quiser grite ou chore de prazer, Só não espere que eu vá parar, mesmo querendo descansar Um impulso virou seu mundo, respire fundo, basta se render Enquanto se contorce, torce para que o momento não acabe. Seu olhar perdeu a inocência, o caminhar vai com indolência Onde a coragem alcança, seu lado criança, aquele tão bonito, Por vezes anda descalço, abraça o perigo e segue sem rumo, Sem pensar que cada escolha trás uma consequência, e daí? É mesmo hilário esse acesso de loucura, a cura com desdém, Tanta vida vivida pequena e onde sua voz sumia, dizia amém, Agora segura, não atura desaforo de ninguém, vai mais além, Provoca a cena, convida à figuração, quem já foi protagonista.
MMA
Nesta guerra de provocações, convido para que escolha as armas, Quem sabe as marcas se tornem medalhas e somente sobreviver Não signifique necessariamente a vitória, motivo de estupefação, Há quem morra de prazer com sorriso nos lábios, sábios negarão. No underground, apenas um round na base do ground and pound, Próxima técnica será surpresa, cartas na mesa, veja a esperteza, O aparente domínio não significa extermínio, exerce um fascínio, A montada é gigante, tipo de elefante, bastará enxergar adiante. Na situação adversa, quem tira um coelho da cartola, faz escola, Se não pede esmola, ficará na sarjeta, escapou feito um cometa, Segure essa treta, abriu a gaveta, agora é salve-se quem puder, Se queria uma colher, ganhou o prato cheio, é só partir ao meio. Se tem pegada mais forte, posicione o quadril, derrube o arredio, Caindo com a guarda passada, é só evitar a raspada com o suor, Trabalho incessante, é deixar o adversário inoperante, só faturar, Mesmo o bicho mais bravo, engole o travo e dará os três tapinhas.
LUA DO AMOR DIVINO
Gosto de escalar montanhas, de ficar mais perto da lua, do amor divino, Procuro encontrar um motivo para cada nova escalada e ali me deleitar Entre o silêncio e a respiração contida, entre gaivotas, águias e feridas. Diversas culturas, diferentes relevos, sempre mantenho a cabeça vazia Como se nada mais existisse entre o céu e o precipício, só o bem-estar De proporcionar paz de espírito, de meditar, orar, amar, perdoar e viver. Quem dera o tivesse sempre como ofício, como o vício que não faz mal, Mas, tudo ficou lá embaixo, aguardando pacientemente pela minha volta, Feito a mão que não solta do pai, por sentir medo, por querer aconchego. Tenho apego por coisas, pessoas que conquistei, os caminhos que trilhei E sempre retorno como quem revê o velho mestre e, que volta a aprender, Sem saber se a lição de ontem servirá, se quem aprendeu agora ensinará. Eis que a vida, que não gera vidas, fez outra vida se tornar melhor e vibra, Porque encontrou um sentido, porque encontrou o amigo e o amor brotou E agora quem plantou um sorriso, beija a flor, escreve umas histórias, crê.
ENTRE O BANHO E O SONO
Como um breve lapso de memória, sem distinguir o real do imaginário, Enquanto a água caia, o ritual se repetia com duas ou até quatro mãos, As únicas certezas são da porta destrancada, de o cão não querer latir. Se os dedos se entrelaçavam, arranhavam azulejos, uma vez ou outra, Nada perderia seu valor, no campo físico ou fictício, no frio ou no calor, Sei que entre deslizar e se agarrar, restaram forças contrárias e felizes. O vapor criou uma nuvem densa e tudo se perdeu, tudo se achou aqui, A espuma que escondia, a água desnudou, o olhar abriu, arregalou-se, E, entre superfícies úmidas e quentes, dispersas em inúmeras frentes, Vieram sensações, novas dimensões, tudo se encaixou, tudo se fundiu. Como fosse pouco, tudo recomeçou do ponto que normalmente termina, O que era frescor se converteu em adrenalina, suor, desejo e endorfina, Quem gritava não, implorou pelo sim, mãos que afastavam, já acolhiam, O cérebro apagou, acordou, e, a casa também estava virada do avesso.
NATHALIA
Bem vindo seja o pássaro que me acorda de manhã É como um amigo mandando um recado: Venha depressa, o dia nasceu Voando este ser tão querido, não sabe o bem que me faz Com ele aprendi a cantar coisas boas e simples da vida Meu irmão, te quero aqui dentro do coração Meu irmão, tua presença me deixa em paz Quem dera eu fosse um pássaro a te acordar de manhã Te desse um beijo, um abraço E te alegrasse sempre Lia Voando para você minha filha, que não sabe o bem que me faz Contigo aprendi a cantar coisas boas e simples da vida Nathalia, te quero aqui dentro do coração Minha filha, tua presença me deixa em paz