DESPRETENSÃO
Sinto o sol bater na janela enquanto o seu contato aquece tudo por dentro, Com esse jeito meio desbocado, infantil, sempre querendo me fazer sorrir, Produzir tenros frutos que a amizade gera, qual a mãe, deveras cuidadosa. Não importa se pela voz, perfume, presença, pelo roçar do cabelo de anjo, Esbanjo a alegria que vem desse amor, desse abraço que aperta e estala, Feito pipoca na panela, feito a alma leve que resvala no chão e repica alto. Seguimos por caminhos separados, mas, que se esbarram com frequência, Mesmo em dias de indolência, quando o frio deveria frustrar idas ao parque, Fazemos desembarque na Praça dos Porquinhos, é próximo ao portão seis. Gosto dessa gente feliz que transita entre jardins, bicicletas, patins e skates, Que abre a toalha, faz piquenique, adora pegar um instrumento e sair por aí Empunhando o sax, o violino, violão, um playback, soltando a voz para valer. Este circuito, que nem imaginava percorrer toda a semana, veio para encher A vida com as cores que saltam da tela, com o pé que erra, se suja na terra, Com este beijo despretensioso, que você ainda não sabe se recusa ou pega.
MORADA
Eu não entendo as voltas que a vida dá e que você aumenta Enquanto tenta explicar porque prefere fugir do que buscou, Do que a vida generosamente concedeu sem cobrar por isso. Coisas são como são, pessoas tomam decisões e, às vezes, Criam distâncias seguras, alimentam ilusões, adiam perdões, Trancam em porões os melhores sonhos de vida e liberdade. Quem poderá impedir as piores escolhas e o cair das folhas, Que cresceram ainda outro dia e que os ventos carregaram? Eu já não preciso de consolo e nem busco aconselhamento, Enquanto este perfume se dissipa no ar, sem deixar feridas, Mantenho vivas as convicções quanto ao gostar de ser feliz. Abraço minha sorte como quem vê o céu azul todos os dias, Sabendo que cultivar o amor é vê-lo invadindo este espaço, Criado por você, mas, que não me impediu de ir em frente. Quem ousará dizer que não tentei encher de brilho o olhar, De quem veio de tão longe e agora sabe que mora comigo?
DEISE
Eu não sei restringir sonhos, quando eles se desgarram do controle, Também não tenho modos, quando o assunto é esperar o momento, Meu alento, é que vale à pena ser assim, por quem faz por merecer. Seus olhos derramam em mim, toda esta pressa, a intensa vontade De puxar o tapete, roubar o chão, seqüestrar e saquear sem perdão, Porque eles me acompanham, ainda que, persista em esconder-me. A boca que é um exagero, um desespero para quem gosta de beijar, Quer abusar, selar a noite, o dia, a eternidade, a cumplicidade, tudo, Tudo fica parado, quando ela quer, linda, linda, esplendor de mulher. Quando penso saber tudo e, sortudo ter decorado as curvas e traços, Laços desfeitos, o feixe aberto, ela desnorteia, incendeia ainda mais, Tonto, um novo brinquedo, mais parece o João Bobo, é bobo demais, Já não tenho receios, nem meios, de evitar que prossiga, me domine, Que incline o corpo e jogue o cabelo para trás, sentencie, até ilumine, Que exija um pedido de clemência, enquanto eu só penso em morrer.
NOSSA ESTRADA
Eu não sei se são olhos de mar, de céu, de janelas da minha vida, Talvez esse corpo aos 20, 30, 50 ou 100 anos, meu doce repouso, Quem sabe esse jeito de interior, de café fresco, de fogão à lenha, A varanda, a cadeira de balanço em movimento e tão nossa casa? Filhos que ainda não nasceram e rosas que ainda não cresceram, Os frutos fartos como os riachos que não secam, somente brilham, Seria a pequena sereia que cresceu e que canta cada vez melhor, Areias fofas que recebem, que massageiam a pele tão sem juízo? Não tenho a menor idéia se poderia ser mais uma história de lutas, Esses campos e uns grampos que caem quando ela corre de mim, Os dois seios que alimentam minha criança mimada e ainda ávida, Aves que riscam os ares, certos lugares, em que teimas em reinar? Não sei se acreditaria se eu falasse quanto o amor faz doer, moer, Ele clama cada segundo por viver, morrer, quer renascer por você, Mas, como não sei mais o que fazer com tudo isso me consumindo, Me entrego, aceito seu sim e o seu não, aperto a sua mão, prossigo.
ENTRE O BANHO E O SONO
Como um breve lapso de memória, sem distinguir o real do imaginário, Enquanto a água caia, o ritual se repetia com duas ou até quatro mãos, As únicas certezas são da porta destrancada, de o cão não querer latir. Se os dedos se entrelaçavam, arranhavam azulejos, uma vez ou outra, Nada perderia seu valor, no campo físico ou fictício, no frio ou no calor, Sei que entre deslizar e se agarrar, restaram forças contrárias e felizes. O vapor criou uma nuvem densa e tudo se perdeu, tudo se achou aqui, A espuma que escondia, a água desnudou, o olhar abriu, arregalou-se, E, entre superfícies úmidas e quentes, dispersas em inúmeras frentes, Vieram sensações, novas dimensões, tudo se encaixou, tudo se fundiu. Como fosse pouco, tudo recomeçou do ponto que normalmente termina, O que era frescor se converteu em adrenalina, suor, desejo e endorfina, Quem gritava não, implorou pelo sim, mãos que afastavam, já acolhiam, O cérebro apagou, acordou, e, a casa também estava virada do avesso.
GÊNESIS
No princípio era só eu, abrindo os olhos, aprendendo a amar, a ver Porque havia luz, havia paz, eu sentia o ar, o mar, um lar nascer E se ele não tinha forma, como a terra que também era vazia, Precisou Deus fazer tudo luzir, a solidão se despedir, primazia, Aquecer o coração, desenhar o firmamento, por um momento, E já era paraíso aqui, quando aquela barriga cresceu, na certa Existiu aquela mulher entre você e eu, que fez a descoberta, Que deixou os traços, aqueles braços abertos para mim, enfim, A terra já havia sido criada, já tinha o sol, já tinha a lua, estrelas, E ao vê-las, sorriu a natureza, aves, peixes, conheci a beleza Representada à imagem, à semelhança divina, nesta menina, Nathalia, Ná, Naná, Lia, não importa, a porta da casa abria, A vida em festa te recebia, para morar e ganhar o alimento, Teu sustento no seio que eu primeiro amara, tomara para si, No jardim, plantas e frutos a surgirem, a florirem, a sorrirem, A repetirem, como o Criador, que era bom, o som do seu choro, Que acalentei no colo, que vi crescer neste solo e comemoro, Hoje, sempre, meu presente, agora, como Deus, posso descansar.
NOVEMBRO
É novembro, eu nem me lembro da última vez que respirei assim aliviado, Que me vi extasiado com uma foto onde noto que a felicidade deva estar, Onde também possa desalinhar o cabelo de quem encontre por lá, ah, vá, Não se dê por desentendida, menina atrevida, conheço sua sede de amar. Eu quero um mar de ondas que desvendem o seu corpo, esse seu porto Onde quis ancorar, mal posso esperar para pisar na terra bendita e aflita, A fome dita qual velocidade empregar para varrer, o território peremptório Ousei percorrer da forma mais descabida, em cada subida senti o prazer. Você sabe entregar mais do que foi pedido, ainda aturdido, quero voltar, Desde o início, seria esse um indício que isto nunca iria parar, até varar, Trinta noites de férias, etéreas como as nuvens que se movem e morrem Enquanto escorrem as últimas gotas de suor que o vento veio arrefecer. Agora as águas dissolvem o atrito e o que foi dito como um grito irá soar, Ressoar como promessas descontentes, que não aprenderam a esperar De dezembro a outubro, neste rosto rubro por bobagens que vivo a dizer, Pelos feriados, todos planejados para que você não consiga me esquecer.
NOVOS PAPÉIS
Quando o amor precede um desejo, o beijo fica muito melhor, Seu corpo reconhece quem conquistou e quem se aventurou, O coração não esquece quem cativou e o fez bater mais forte, Quanta sorte por conhecer, explorar e perder todas as rédeas. Já não precisa de convite, se quiser grite ou chore de prazer, Só não espere que eu vá parar, mesmo querendo descansar Um impulso virou seu mundo, respire fundo, basta se render Enquanto se contorce, torce para que o momento não acabe. Seu olhar perdeu a inocência, o caminhar vai com indolência Onde a coragem alcança, seu lado criança, aquele tão bonito, Por vezes anda descalço, abraça o perigo e segue sem rumo, Sem pensar que cada escolha trás uma consequência, e daí? É mesmo hilário esse acesso de loucura, a cura com desdém, Tanta vida vivida pequena e onde sua voz sumia, dizia amém, Agora segura, não atura desaforo de ninguém, vai mais além, Provoca a cena, convida à figuração, quem já foi protagonista.
DRA. MONICA VIANA
Quando os anjos dormem os passarinhos fazem silêncio, Eu me arrependo dos pecados que cometi e peço perdão, Olho esta expressão tão desgastada e ainda apaixonada Como da primeira vez que serviu, tinha traços de criança. O rock como atitude, a virtude de não se dar por vencida, Destemida como heroína em fúria, mãe cuidando do filho, Estudando a lição, preparando o coração, tantos milagres, A oração como início, solo propício ao dom, pode realizar. Não há tempo para lamentações, consolações para dores, Flores que renascem na alma enferma, querendo se curar, Um mero instrumento que por si só jamais poderia realizar As obras que foram sopradas e que agora se fazem ouvir. A música celeste inunda as salas, as mãos firmes operam, São filhos que esperam, que rezam, nós somos pequenos, A grandeza divina é impenetrável, inefável vê-la realizar-se, É tão lindo o seu manto, um avental branco escrito médica.
MMA
Nesta guerra de provocações, convido para que escolha as armas, Quem sabe as marcas se tornem medalhas e somente sobreviver Não signifique necessariamente a vitória, motivo de estupefação, Há quem morra de prazer com sorriso nos lábios, sábios negarão. No underground, apenas um round na base do ground and pound, Próxima técnica será surpresa, cartas na mesa, veja a esperteza, O aparente domínio não significa extermínio, exerce um fascínio, A montada é gigante, tipo de elefante, bastará enxergar adiante. Na situação adversa, quem tira um coelho da cartola, faz escola, Se não pede esmola, ficará na sarjeta, escapou feito um cometa, Segure essa treta, abriu a gaveta, agora é salve-se quem puder, Se queria uma colher, ganhou o prato cheio, é só partir ao meio. Se tem pegada mais forte, posicione o quadril, derrube o arredio, Caindo com a guarda passada, é só evitar a raspada com o suor, Trabalho incessante, é deixar o adversário inoperante, só faturar, Mesmo o bicho mais bravo, engole o travo e dará os três tapinhas.