Tenho mãos que deslizam, contornam cada uma dessas curvas sem fim,
Eu me aproprio dos sonhos e quero seus olhos verdes reluzindo em mim,
Enquanto os corpos dançam, enquanto lançam toda a sorte de encantos
Que a imaginação permita, o coração não resista, a manhã possa chegar.
O tempo rompeu as barreiras, invadiu as fronteiras e esqueceu de voltar,
Mesmo com lareira, a clareira trazia o seu brilho de outro fogo a queimar,
Enquanto ardia, nenhuma sede resistia e ninguém iria se atrever a parar,
Mas, a energia é finita e, a vontade que fica, jura que algum dia irá voltar.
A saudade nasce do aceno, de tudo que é pleno, ela encontrou seu lugar
Para morrer, também renascer, para seguir atormentando quem a cultive,
E se a vive, é porque conheceu o amor, é nele que tudo acha um sentido,
Mesmo num dia corrido como este, encontrou um momento para namorar.
Agora que existe afinidade, a intimidade migrou para uma ligação estreita,
Para aquela mão direita com quem se pode sempre contar, vou mergulhar,
Espalhar aos quatro ventos, aos ouvidos menos atentos, por este achado,
O corpo suado pode enfim descansar, aqui tem tudo que sempre busquei.
369
LIMÃO AZEDO
Olhei mais de mil vezes a folha em branco, depois que vi e também ouvi Cada frase sua musicada no ouvido, o som preferido de agora em diante, O sorriso dominante e o último retrato, para o caso de você querer postar, Ali perto da cama, antes de dormir, rezar, talvez, é incerto, me acomodar. Tenho respirado muito ar puro, além desse muro, é tanto pó, é tanto mal Que a alma não merece, esquece não de me ver, torço para não chover, Só não pode querer mais que eu, já me convenceu, talvez, queira adotar, Qualquer cantinho serve, a minha verve voltou, dela não lembrava mais, Deixa eu mexer no cabelo, fazer um apelo para que vivamos dias de paz, Que sejam águas tranquilas, que sejam vilas com famílias todas do bem, Quem sabe eu seja o trilho para você correr sem medo, um limão azedo, Que você adoçou, remoçou, já não tem perigo, só um amigo ao seu lado. Peguei toalhas para o banho, se quiser companhia, não tenha vergonha, Tá todo mundo dormindo, eu nem estou pedindo, mas, adoraria o convite, Agora não tem pé descalço e não tem percalço que não se possa reparar, Que não falte pão na mesa e, que a certeza do perdão nos ensine a amar.
375
ALGODÃO DOCE
Quando risos se mostram e encostam em bocas felizes, poderíamos definir como êxtase?
Quem sabe seja apenas um ponto de vista, uma pista do quanto tem sido bom o convívio,
De como é possível deixar coisas para trás, consentir em que o novo estabeleça seu lugar,
Já passei do tempo de ter pressa, essa coisa de olhar eu deixo ganhar corpo naturalmente.
Agora que bateu fundo, não posso negar, já presto atenção, acompanho cada movimento,
Seguro a excitação e aguardo correspondência, uma freqüência agradável, a sintonia fina,
Aquela coisa divina que surpreende os sentidos, que torna as nuvens familiares, os bares
Já não se resumem aos copos cheios, sua companhia ilumina tudo, tão bom te encontrar.
Percebo o barulho da chuva no asfalto, o seu salto pode escorregar e, talvez seja a deixa
Para um abraço mais demorado, para ver incinerado esse cuidado, vejo as asas baterem,
As roseiras tremerem enquanto seguimos à fronteira e você diz quem terá o passe livre,
Quem beberá a cuba libre, gim, uísque, tanto faz, solta a música que o show será nosso.
Sempre acordo cedo e, mesmo com tudo revirado, a sensação é da mais perfeita ordem,
Os cães fingem que mordem, eu finjo que doi, você respira tranquila, sua cara é de paz,
Dá tempo de preparar um café, de repassar a vida, constatar que a espera foi justificada
Por este rosto dão doce, meu algodão doce, pode levantar, já aprendi a sonhar acordado.
323
NATHALIA
Bem vindo seja o pássaro que me acorda de manhã
É como um amigo mandando um recado:
Venha depressa, o dia nasceu
Voando este ser tão querido, não sabe o bem que me faz
Com ele aprendi a cantar coisas boas e simples da vida
Meu irmão, te quero aqui dentro do coração
Meu irmão, tua presença me deixa em paz
Quem dera eu fosse um pássaro a te acordar de manhã
Te desse um beijo, um abraço
E te alegrasse sempre Lia
Voando para você minha filha, que não sabe o bem que me faz
Contigo aprendi a cantar coisas boas e simples da vida
Nathalia, te quero aqui dentro do coração
Minha filha, tua presença me deixa em paz
370
LUA DO AMOR DIVINO
Gosto de escalar montanhas, de ficar mais perto da lua, do amor divino,
Procuro encontrar um motivo para cada nova escalada e ali me deleitar
Entre o silêncio e a respiração contida, entre gaivotas, águias e feridas.
Diversas culturas, diferentes relevos, sempre mantenho a cabeça vazia
Como se nada mais existisse entre o céu e o precipício, só o bem-estar
De proporcionar paz de espírito, de meditar, orar, amar, perdoar e viver.
Quem dera o tivesse sempre como ofício, como o vício que não faz mal,
Mas, tudo ficou lá embaixo, aguardando pacientemente pela minha volta,
Feito a mão que não solta do pai, por sentir medo, por querer aconchego.
Tenho apego por coisas, pessoas que conquistei, os caminhos que trilhei
E sempre retorno como quem revê o velho mestre e, que volta a aprender,
Sem saber se a lição de ontem servirá, se quem aprendeu agora ensinará.
Eis que a vida, que não gera vidas, fez outra vida se tornar melhor e vibra,
Porque encontrou um sentido, porque encontrou o amigo e o amor brotou
E agora quem plantou um sorriso, beija a flor, escreve umas histórias, crê.
369
GÊNESIS
No princípio era só eu, abrindo os olhos, aprendendo a amar, a ver
Porque havia luz, havia paz, eu sentia o ar, o mar, um lar nascer
E se ele não tinha forma, como a terra que também era vazia,
Precisou Deus fazer tudo luzir, a solidão se despedir, primazia,
Aquecer o coração, desenhar o firmamento, por um momento,
E já era paraíso aqui, quando aquela barriga cresceu, na certa
Existiu aquela mulher entre você e eu, que fez a descoberta,
Que deixou os traços, aqueles braços abertos para mim, enfim,
A terra já havia sido criada, já tinha o sol, já tinha a lua, estrelas,
E ao vê-las, sorriu a natureza, aves, peixes, conheci a beleza
Representada à imagem, à semelhança divina, nesta menina,
Nathalia, Ná, Naná, Lia, não importa, a porta da casa abria,
A vida em festa te recebia, para morar e ganhar o alimento,
Teu sustento no seio que eu primeiro amara, tomara para si,
No jardim, plantas e frutos a surgirem, a florirem, a sorrirem,
A repetirem, como o Criador, que era bom, o som do seu choro,
Que acalentei no colo, que vi crescer neste solo e comemoro,
Hoje, sempre, meu presente, agora, como Deus, posso descansar.
351
MORTE ANUNCIADA
Um dia eu vou morrer de tanto pensar, de tanto escrever,
Até dei de tocar, cismei de cantar e não consigo entender,
Se está tudo bem, sem mais, porém, ponho tudo a perder,
São ciclos disformes, vazios enormes, começou a chover.
É tanta inundação, tanta embarcação cortando as ondas,
Por onde andas, meu bem, meu amém termina em você,
Minha linda, a dinda que todo mundo sonhou, aí fechou,
Só dá um alô, que eu passo um café, venha hoje, se der.
Uma noite irei ressuscitar, por cansar de morrer e sofrer,
Até levantar uns trocados, assustar no halloween, enfim,
Está tudo bem, vamos pegar o trem e pedir uma cerveja,
Chame o garçom, mande encher a mesa, bora lá beber.
Quando cansar de loucuras, vamos falar bem mais sério,
Moramos no mesmo hemisfério, hora do namoro render,
Quero tanto ser pai, gêmeos, mesmo boêmios, pode ser?
Fica assim não, vai dar tudo certo, já podemos começar?
304
DEISE
Eu não sei restringir sonhos, quando eles se desgarram do controle,
Também não tenho modos, quando o assunto é esperar o momento,
Meu alento, é que vale à pena ser assim, por quem faz por merecer.
Seus olhos derramam em mim, toda esta pressa, a intensa vontade
De puxar o tapete, roubar o chão, seqüestrar e saquear sem perdão,
Porque eles me acompanham, ainda que, persista em esconder-me.
A boca que é um exagero, um desespero para quem gosta de beijar,
Quer abusar, selar a noite, o dia, a eternidade, a cumplicidade, tudo,
Tudo fica parado, quando ela quer, linda, linda, esplendor de mulher.
Quando penso saber tudo e, sortudo ter decorado as curvas e traços,
Laços desfeitos, o feixe aberto, ela desnorteia, incendeia ainda mais,
Tonto, um novo brinquedo, mais parece o João Bobo, é bobo demais,
Já não tenho receios, nem meios, de evitar que prossiga, me domine,
Que incline o corpo e jogue o cabelo para trás, sentencie, até ilumine,
Que exija um pedido de clemência, enquanto eu só penso em morrer.
385
NOVOS PAPÉIS
Quando o amor precede um desejo, o beijo fica muito melhor,
Seu corpo reconhece quem conquistou e quem se aventurou,
O coração não esquece quem cativou e o fez bater mais forte,
Quanta sorte por conhecer, explorar e perder todas as rédeas.
Já não precisa de convite, se quiser grite ou chore de prazer,
Só não espere que eu vá parar, mesmo querendo descansar
Um impulso virou seu mundo, respire fundo, basta se render
Enquanto se contorce, torce para que o momento não acabe.
Seu olhar perdeu a inocência, o caminhar vai com indolência
Onde a coragem alcança, seu lado criança, aquele tão bonito,
Por vezes anda descalço, abraça o perigo e segue sem rumo,
Sem pensar que cada escolha trás uma consequência, e daí?
É mesmo hilário esse acesso de loucura, a cura com desdém,
Tanta vida vivida pequena e onde sua voz sumia, dizia amém,
Agora segura, não atura desaforo de ninguém, vai mais além,
Provoca a cena, convida à figuração, quem já foi protagonista.
312
MORADA
Eu não entendo as voltas que a vida dá e que você aumenta
Enquanto tenta explicar porque prefere fugir do que buscou,
Do que a vida generosamente concedeu sem cobrar por isso.
Coisas são como são, pessoas tomam decisões e, às vezes,
Ania, querida! Muito obrigado pelos carinhosos elogios, apesar do tanto que me falta melhorar e que sigo em busca. Tenhas dias lindos e inspirados!
ania
Poeta, bom dia! Obrigada pelo carinhoso comentário ue me ensejou teus versos ler. Li alguns, e todos a alma me tocaram pelo lirismo, pela sensibilidade, parabéns! abraços, ania..