Nunca desejei mal a ninguém e não seria agora que o faria,
Sei que já existe alguém, se me visse lá fora, será que viria?
Persigo idéias, você bromélias, camélias, as cores do jardim,
Gosto do ar, do pomar, até de invariavelmente estar contigo,
Faz tempo, um carinho, vinho, o imponderável, inimaginável,
Ficou pelo caminho, no Minho, está lá no quintal de Portugal.
Já estive melhor, estou acometido por lembranças e danças,
Típicas e regionais, do gosto das uvas, conheci o lado frugal.
Uma viagem é realmente uma imersão na cultura, a procura
Às vezes vem acompanhada de surpresas, cravas e presas,
Fica tudo tridimensional, visceral, seria só o último encontro,
Mas, a partir deste ponto, eu não conto com a menor lucidez.
Olhares no saguão miraram direções, as nossas são opostas,
Não há mais perguntas, nem respostas, só fraturas expostas
E vida que segue, só regue se quiser ver florescer, conhecer,
Quem sabe da próxima vez, eu encontre a porta destrancada.
388
FOGO
Quando o coração fica apertado e não tem ninguém ao seu lado, fica o vazio,
Fica o rio com a calha exposta, uma vida sem resposta, sem saída, represada;
Quanto tempo mais se faz necessário, qual será o melhor itinerário para fugir,
Para rugir e espantar fantasmas do passado, sorrir, revigorar o rosto cansado.
A janela se abriu e tem bastante sol lá fora, a flor aflora com graça sem igual,
Tudo fica muito especial, quando uma barreira é transposta e, aquela encosta
Não vai mais desmoronar e soterrar sonhos cultivados com tamanho cuidado,
Deixar verde o gramado, o jardim colorido foi concebido para tê-la à sua volta.
Estou mais forte, como as raízes deste chão e pronto para segurar as rédeas,
Fazer escolhas e encher as folhas com novas histórias, atrizes e finais felizes,
Tão parecidos com este novo momento e, sinto o vento como sendo um sinal
Para seguir em frente e, fazer diferente, subir um degrau, tocar o céu, resistir.
Segure a minha mão e não tente escapar desta velha prisão, é início de verão
E de férias que pareciam nunca chegar, sinto o gosto do mar e macia a areia,
Preparativos para a ceia, enquanto olhares se aproximam e bocas confirmam
Ao se tocarem, ao se molharem, que, corpos tão acesos, continuam a queimar.
389
MIL MOTIVOS PARA AMAR
Por mais que existam estradas, por mais que existam destinos,
Um instante muda tudo, deixa agudo o que antes adormecera,
O que antes se perdera entre atalhos, entre galhos envergados
Pelas mãos que buscam frutos prontos a deliciarem seu paladar.
Quem plantou, quem descuidou, quem, ainda assim, o viu brotar
No pomar, o melhor lugar, ao luar, ao chegar perto, no despertar
Do sorriso que não finda, enquanto há, ainda, um beijo latejante,
O frio incessante das madrugadas, dos madrigais e, dos pardais.
Mil motivos para amar, para deixar para lá o que só machucava,
Eu só precisei de um e você vai pensando o quanto é suficiente,
Se o tempo ausente apagou tudo deixando escuro todo o quarto
Que reparto com a solidão e com os poucos livros que acumulei.
O sim rápido se arrepende se intacto o pacto não quer consolidar
Enquanto o não arrastado deixa arrasado o olhar, fica a esperar,
Irá transformar terras ávidas em ácidas e, como você bem sabe,
Pouca coisa cresce em solo hostil, perceba, até o sabiá desistiu.
399
MUITO ACIMA DA MESQUINHEZ HUMANA
Tenho quase tantas horas de dores quanto de vida, vida comprida,
Ainda me causa espanto essa capacidade de pessoas suportarem
Por dias, horas, meses e até anos, sensações extremas, algemas
Apertam cada vez mais e quem saberá ou poderá enxergar o fim?
Fim de tarde, não do dissabor, chamaria de heróis, dizem que não,
Mas, quem resiste ao que lateja sem cessar, sem dizer se irá parar,
Tudo vira loucura, é tanta tortura, é tanta tontura e, mesmo o ferro
Se curva ao fogo, eu já sinto o cheiro de sangue após o bangbang.
Olho tantas covas prontas e enterros, aqueles aterros a céu aberto,
Minha hora ainda não chegou, quem apostou perdeu, essa não deu
E nem vai dar certo conspirar, pois sei que o poder de Deus é maior
Do que o esforço concentrado, executado por pessoas más e ruins.
Para quem perdeu tempo não tentando ser feliz, saiba que eu estou,
Sem me preocupar ou até lembrar da existência, sobram aparências
Em interiores vazios, tão frios, que não sabem ainda o quanto é bom
Não dever nada para ninguém e olhar este horizonte lindo, bem azul.
378
TOALHAS
Tem um céu abrindo, tá lindo, vem ver, vem comer na varanda,
Sujar o chão onde tantas vezes nos esparramamos feito idiotas,
Porque juízo não combina com nossa rotina, crianças travessas
Se atiram à mesa, esquecem os vizinhos, simplesmente amam.
É tão leve este vento e o momento, atmosfera que nos envolve,
Somos tão sedentos e ardentes, vertentes de algumas sombras
Que o tempo sepultou e são pontos finais, temporais passaram,
Agora é onda, é surf todo dia, alegria, uma dose de espumante.
A banheira tão cheia, preparei a ceia, quero mais a sobremesa,
Sempre foi desse jeito, estou ainda mais previsível ou sensível,
Só não canso de rolar e de soltar as toalhas que nos envolviam,
Elas pediam para ficar pelo caminho, tamanho carinho e, caíram.
Agora são ângulos e pontos de vista, falta pista e sobram aviões,
Viagens inconsequentes, olhos reluzentes, as mentes extasiadas,
Fomos feitos para isso, o compromisso mesmo é com a verdade,
Não dá para enganar um desejo ou fazer de conta que ele sumiu.
274
RECADO A UMA MULHER INDEPENDENTE
Ouço sobre conquistas, independência, empoderamento, autossuficiência,
Respeito todas essas coisas, fruto do trabalho notável de grandes pessoas,
Vejo também como constatação cruel de que o sustento único, não basta,
Hoje o casal precisa abrir mão da proximidade dos filhos para alimentá-los.
Enquanto fala em liberdade, providenciei asas para os seus próximos vôos,
Apesar de não precisar, peço licença para cuidar como uma criança frágil,
Acho notável a coragem para fazer mil coisas ao mesmo tempo, namorar,
Dizer que não precisa de ninguém, por já ser feliz, pequena alma inocente.
A vida deixa as pessoas tão duras, quando percebem, já perderam o brilho,
Gastam os melhores anos atrás do mesmo conforto que sufoca suas almas,
A maternidade, colocam no armário enquanto a carreira decola, esquecem
Que esse tempo é um ciclo que não volta, perdê-lo é morrer bem devagar.
A mulher não depende mais do homem, parece com ele, no melhor e pior,
O homem se permite a cuidados que não tinha, sensibilidade incorporada,
Entre tantas mudanças, apaixonam-se por quem as entende, às vezes elas,
Quero dizer com a maior sinceridade possível, vou cuidar tão bem de você!
289
DOMADOR DE LEÕES
Você desperta a paixão, enquanto eu domo os leões em mim,
Porque os dias são maus, porque as naus devem partir enfim,
É o que dizem os astros, mastros a postos, rumo aos confins,
Território de ninguém, esta terra de águas, dos claros marfins
Saqueados à luz do dia, não corroborando à divina harmonia.
Apresento o santuário dos medos, dedos entrelaçados a orar,
Súplica que atravessa o ar e que o céu pode alcançar e ecoar
No ouvido da Divina Providência, como um salmo ou antifonia,
Como o canto, misto de lamento e encantamento, pode gritar
Até que o semblante inabalável repouse sutilmente neste olhar.
Indelével sentimento quer torturar quem aceite, se deixe levar
Por esta nuvem que precede o atoleiro, o timoneiro a titubear,
Sina onde administro o caos, degraus que me obriguei a subir,
Mas, pude avistar um diamante gigante, bem ao lado, um rubi,
Coração enorme que não dorme sem antes, cada dor subtrair,
A paz, o último estandarte do mártir, com seu sangue a esvair.
355
O AMOR POR UM TRIZ
Acordo cedo, procuro a foto, será que ela parece com o sonho?
Quando penso em carinho, sinto meus pés deslizando na areia,
Minhas mãos tocando o rosto, bagunçando o cabelo, movendo,
São impulsos que fariam um moinho girar, alguém ressuscitar.
Penso em um lugar, cachoeira, lareira ou esteira, é muito mais,
Uma jóia rara, uma boa companhia, quem diria, o dia chegaria,
Cerveja ou vinho, um apartamento novinho, tudo é aconchego,
É deixar o medo do lado de fora da porta e crer no tempo certo.
Olha o livro aberto, o rio que passa perto e que sabe até cantar,
O pomar que ficou mais cheio de fruta, a gruta que vi se erguer
Entre girassóis e camélias, entre idéias que passam como avião,
Como embrião de um relacionamento que já existe aqui dentro.
De tanto armazenar amor, os celeiros estão cheios, como seios,
Recreios onde se pode amamentar um pequeno pedaço de ser,
Eu me sinto privilegiado, alguém abençoado, a vida quer sorrir,
Mostrar os dentes mais brancos, pelos flancos, um beijo surgir.
292
AURORA
Que graça maior pode existir além desta simples oferta de amor, Onde o nascer do sol não finda, onde linda, divide o seu melhor, Entre atropelos, excesso de zelos, novelos desta vida atribulada, Que se embaraçam, aquecem, como seus braços entre os meus. A frágil presença, feito a formiguinha carregando folhas gigantes, Ombros que suportam este mundo, respiram fundo e caminham, Porque o inverno promete ser mais rigoroso, não há maior gozo Do que um cantinho acolhedor para guardar e proteger os seus. Agora livres do perigo, da desconfiança que balança a sua lança Mas, não fere, apenas confere, livre acesso a quem ousou e deu Um largo sorriso, aquele que transpareceu, quando chovia forte, Quando o único norte era contemplar solitárias rosas de inverno. Num impulso quando o pulso não se conteve, viu um céu aberto, Viu que estava perto o que buscara entre nuvens tão carregadas, Tão propensas a raios, soslaios que a sua timidez adiou de vez, Ao menos era isto que pensara até que pressentiu a primavera.
288
BEATRIZ
Esse sorriso preguiçoso fica ainda mais gostoso se perto quer chegar, Já sabe que não precisa de convite, a minha porta fica sempre aberta, Na certa, você já percebeu o quanto é aguardada, basta aqui chegar. Fiz malabarismos, contorcionismos, paguei micos, por sorte sobrevivi Ao silêncio cortante dos dias, madrugadas frias a espera de um sinal, Afinal, toda resistência encontra sua motivação, essência para seguir. Alimentado por acenos da musa, reclusa em sua rede, parede digital, Mero mortal aprendendo a navegar no mundo louco, peno um pouco, Até desvendar as senhas, criptografias, fotografias tão lindas do perfil. Não posso falar mal de aplicativos e julgá-los nocivos, até superficiais, São atalhos sensacionais para quem aceita exposição e sair do porão, Aventurar-se neste mar de pessoas sem par, só um antídoto à solidão. Quem sabe se desfaça da distância, haja consonância durante o jantar Para lembrar, ao olhar da pessoa à minha frente, o que ele bem sabe, Que pode se tornar freqüente, presente que me permita desembrulhar.
Ania, querida! Muito obrigado pelos carinhosos elogios, apesar do tanto que me falta melhorar e que sigo em busca. Tenhas dias lindos e inspirados!
ania
Poeta, bom dia! Obrigada pelo carinhoso comentário ue me ensejou teus versos ler. Li alguns, e todos a alma me tocaram pelo lirismo, pela sensibilidade, parabéns! abraços, ania..