NEUZA
Tenho mãos que deslizam, contornam cada uma dessas curvas sem fim, Eu me aproprio dos sonhos e quero seus olhos verdes reluzindo em mim, Enquanto os corpos dançam, enquanto lançam toda a sorte de encantos Que a imaginação permita, o coração não resista, a manhã possa chegar. O tempo rompeu as barreiras, invadiu as fronteiras e esqueceu de voltar, Mesmo com lareira, a clareira trazia o seu brilho de outro fogo a queimar, Enquanto ardia, nenhuma sede resistia e ninguém iria se atrever a parar, Mas, a energia é finita e, a vontade que fica, jura que algum dia irá voltar. A saudade nasce do aceno, de tudo que é pleno, ela encontrou seu lugar Para morrer, também renascer, para seguir atormentando quem a cultive, E se a vive, é porque conheceu o amor, é nele que tudo acha um sentido, Mesmo num dia corrido como este, encontrou um momento para namorar. Agora que existe afinidade, a intimidade migrou para uma ligação estreita, Para aquela mão direita com quem se pode sempre contar, vou mergulhar, Espalhar aos quatro ventos, aos ouvidos menos atentos, por este achado, O corpo suado pode enfim descansar, aqui tem tudo que sempre busquei.
NATHALIA
Bem vindo seja o pássaro que me acorda de manhã É como um amigo mandando um recado: Venha depressa, o dia nasceu Voando este ser tão querido, não sabe o bem que me faz Com ele aprendi a cantar coisas boas e simples da vida Meu irmão, te quero aqui dentro do coração Meu irmão, tua presença me deixa em paz Quem dera eu fosse um pássaro a te acordar de manhã Te desse um beijo, um abraço E te alegrasse sempre Lia Voando para você minha filha, que não sabe o bem que me faz Contigo aprendi a cantar coisas boas e simples da vida Nathalia, te quero aqui dentro do coração Minha filha, tua presença me deixa em paz
LUA DO AMOR DIVINO
Gosto de escalar montanhas, de ficar mais perto da lua, do amor divino, Procuro encontrar um motivo para cada nova escalada e ali me deleitar Entre o silêncio e a respiração contida, entre gaivotas, águias e feridas. Diversas culturas, diferentes relevos, sempre mantenho a cabeça vazia Como se nada mais existisse entre o céu e o precipício, só o bem-estar De proporcionar paz de espírito, de meditar, orar, amar, perdoar e viver. Quem dera o tivesse sempre como ofício, como o vício que não faz mal, Mas, tudo ficou lá embaixo, aguardando pacientemente pela minha volta, Feito a mão que não solta do pai, por sentir medo, por querer aconchego. Tenho apego por coisas, pessoas que conquistei, os caminhos que trilhei E sempre retorno como quem revê o velho mestre e, que volta a aprender, Sem saber se a lição de ontem servirá, se quem aprendeu agora ensinará. Eis que a vida, que não gera vidas, fez outra vida se tornar melhor e vibra, Porque encontrou um sentido, porque encontrou o amigo e o amor brotou E agora quem plantou um sorriso, beija a flor, escreve umas histórias, crê.
MORTE ANUNCIADA
Um dia eu vou morrer de tanto pensar, de tanto escrever, Até dei de tocar, cismei de cantar e não consigo entender, Se está tudo bem, sem mais, porém, ponho tudo a perder, São ciclos disformes, vazios enormes, começou a chover. É tanta inundação, tanta embarcação cortando as ondas, Por onde andas, meu bem, meu amém termina em você, Minha linda, a dinda que todo mundo sonhou, aí fechou, Só dá um alô, que eu passo um café, venha hoje, se der. Uma noite irei ressuscitar, por cansar de morrer e sofrer, Até levantar uns trocados, assustar no halloween, enfim, Está tudo bem, vamos pegar o trem e pedir uma cerveja, Chame o garçom, mande encher a mesa, bora lá beber. Quando cansar de loucuras, vamos falar bem mais sério, Moramos no mesmo hemisfério, hora do namoro render, Quero tanto ser pai, gêmeos, mesmo boêmios, pode ser? Fica assim não, vai dar tudo certo, já podemos começar?
CONEXÃO
Quando o tempo se depara com o despertar sonolento De sonhos ambientados em imponentes arranha-céus Ali mesmo onde os pássaros causam inveja aos mortais Estes olhos que alimentaram rios contemplam horizontes Dentes que se confundem com as nuvens, cama do piano Manancial da alma, luz que acalma, fagulha de sentimento Sentinela do desejo, começo do beijo incipiente, embrionário Cabelos que se aninham onde os dedos queriam estar, ninho Paladar que a boca veio aguçar, num acaso do destino, vinho Seiva que circula entre amontoados de cinza e concreto, vida Matéria que deu forma à perfeição confinada em uma tela Imagem permeável irrigando veias como corpo do espírito Tamanho atrito não rompe as barreiras e a sede não finda É só o lençol de vidro irradiando calor digital aos conectados
NOSSOS PECADOS
Sei que gostar delas, sequelas vão lhe causar, quirelas alimentam os bicos Que quando se bicam, provocam atrito, como delito, pretendem classificar, Abandonam na terra as pedras que não podem jogar, valentes e covardes, Pelos dias, noites e tardes, vivem sempre em maquinação, raça de víboras. Quem recebeu perdão, ouviu também o não peques mais e arrependeu-se, Essa parte não consigo mudar, flexibilizar nunca foi o meu forte, sem sorte Na escolha da defesa, católico praticante, em nada melhor, sem vergonha, Por conhecer o certo e não executá-lo, a minha cobrança será muito maior. Como artista, acho lindo, como homem, mais ainda, ainda que irrelevante, Uma opinião pessoal não significa muito, celebra nosso respeito, amizade, Lá dentro ninguém quer saber disto, tudo será visto como o quiserem ver, Eu sei que as coisas mudam, só não posso escrever o terceiro testamento. Você sabe o quanto acredito em casamento, foi ele o meu projeto de vida, Os filhos que não seguram o dos outros, seguraram o meu, só que morreu Pouco antes de te conhecer, o que sobrou, não terá grande valia, nostalgia Propícia para entender a impossibilidade de defesa, aceitemos a sentença.
EUGENIO
Não sei quanto tempo ainda tenho e se disse e fiz tudo o que poderia, Nem mesmo penso estar pronto para seguir sem segurar suas mãos, Inevitável é que o dia virá, posso senti-lo, também procuro ficar calmo, Como fiquei assim que vi você pela primeira vez, minha melhor visão. Foram tantas lições que espero aprendidas, feita de gestos, palavras, Estradas que cruzamos confiantes, de que juntos, seríamos vitoriosos Como agora nos sentimos e rimos, relembrando os perrengues, afins, Limiar da maior aventura e, que ainda reserva outros tantos capítulos. Gratidão basta para expressar o sentimento de estar nesta celebração, Onde a realização se mede em silêncio, o mesmo que se torna diálogo No dialeto de quem tem laços profundos se percebidos pela respiração, Eufórico coração, tão cercado de cuidados, onde seu nome foi gravado. Do suor que trouxe o pão, aprendi a melhor lição e ela quis disseminar, Perpetuando nela o legado, o nome que para mim é santo, consagrado, Por ele fui abençoado e agraciado, que trago e, outorgo como herança, O amor de quem sempre foi mais filho do que pai, porque pai, só você!