GÊNESIS
No princípio era só eu, abrindo os olhos, aprendendo a amar, a ver Porque havia luz, havia paz, eu sentia o ar, o mar, um lar nascer E se ele não tinha forma, como a terra que também era vazia, Precisou Deus fazer tudo luzir, a solidão se despedir, primazia, Aquecer o coração, desenhar o firmamento, por um momento, E já era paraíso aqui, quando aquela barriga cresceu, na certa Existiu aquela mulher entre você e eu, que fez a descoberta, Que deixou os traços, aqueles braços abertos para mim, enfim, A terra já havia sido criada, já tinha o sol, já tinha a lua, estrelas, E ao vê-las, sorriu a natureza, aves, peixes, conheci a beleza Representada à imagem, à semelhança divina, nesta menina, Nathalia, Ná, Naná, Lia, não importa, a porta da casa abria, A vida em festa te recebia, para morar e ganhar o alimento, Teu sustento no seio que eu primeiro amara, tomara para si, No jardim, plantas e frutos a surgirem, a florirem, a sorrirem, A repetirem, como o Criador, que era bom, o som do seu choro, Que acalentei no colo, que vi crescer neste solo e comemoro, Hoje, sempre, meu presente, agora, como Deus, posso descansar.
NATHALIA
Bem vindo seja o pássaro que me acorda de manhã É como um amigo mandando um recado: Venha depressa, o dia nasceu Voando este ser tão querido, não sabe o bem que me faz Com ele aprendi a cantar coisas boas e simples da vida Meu irmão, te quero aqui dentro do coração Meu irmão, tua presença me deixa em paz Quem dera eu fosse um pássaro a te acordar de manhã Te desse um beijo, um abraço E te alegrasse sempre Lia Voando para você minha filha, que não sabe o bem que me faz Contigo aprendi a cantar coisas boas e simples da vida Nathalia, te quero aqui dentro do coração Minha filha, tua presença me deixa em paz
DEISE
Eu não sei restringir sonhos, quando eles se desgarram do controle, Também não tenho modos, quando o assunto é esperar o momento, Meu alento, é que vale à pena ser assim, por quem faz por merecer. Seus olhos derramam em mim, toda esta pressa, a intensa vontade De puxar o tapete, roubar o chão, seqüestrar e saquear sem perdão, Porque eles me acompanham, ainda que, persista em esconder-me. A boca que é um exagero, um desespero para quem gosta de beijar, Quer abusar, selar a noite, o dia, a eternidade, a cumplicidade, tudo, Tudo fica parado, quando ela quer, linda, linda, esplendor de mulher. Quando penso saber tudo e, sortudo ter decorado as curvas e traços, Laços desfeitos, o feixe aberto, ela desnorteia, incendeia ainda mais, Tonto, um novo brinquedo, mais parece o João Bobo, é bobo demais, Já não tenho receios, nem meios, de evitar que prossiga, me domine, Que incline o corpo e jogue o cabelo para trás, sentencie, até ilumine, Que exija um pedido de clemência, enquanto eu só penso em morrer.
CONEXÃO
Quando o tempo se depara com o despertar sonolento De sonhos ambientados em imponentes arranha-céus Ali mesmo onde os pássaros causam inveja aos mortais Estes olhos que alimentaram rios contemplam horizontes Dentes que se confundem com as nuvens, cama do piano Manancial da alma, luz que acalma, fagulha de sentimento Sentinela do desejo, começo do beijo incipiente, embrionário Cabelos que se aninham onde os dedos queriam estar, ninho Paladar que a boca veio aguçar, num acaso do destino, vinho Seiva que circula entre amontoados de cinza e concreto, vida Matéria que deu forma à perfeição confinada em uma tela Imagem permeável irrigando veias como corpo do espírito Tamanho atrito não rompe as barreiras e a sede não finda É só o lençol de vidro irradiando calor digital aos conectados
ENTRE O BANHO E O SONO
Como um breve lapso de memória, sem distinguir o real do imaginário, Enquanto a água caia, o ritual se repetia com duas ou até quatro mãos, As únicas certezas são da porta destrancada, de o cão não querer latir. Se os dedos se entrelaçavam, arranhavam azulejos, uma vez ou outra, Nada perderia seu valor, no campo físico ou fictício, no frio ou no calor, Sei que entre deslizar e se agarrar, restaram forças contrárias e felizes. O vapor criou uma nuvem densa e tudo se perdeu, tudo se achou aqui, A espuma que escondia, a água desnudou, o olhar abriu, arregalou-se, E, entre superfícies úmidas e quentes, dispersas em inúmeras frentes, Vieram sensações, novas dimensões, tudo se encaixou, tudo se fundiu. Como fosse pouco, tudo recomeçou do ponto que normalmente termina, O que era frescor se converteu em adrenalina, suor, desejo e endorfina, Quem gritava não, implorou pelo sim, mãos que afastavam, já acolhiam, O cérebro apagou, acordou, e, a casa também estava virada do avesso.
EUGENIO
Não sei quanto tempo ainda tenho e se disse e fiz tudo o que poderia, Nem mesmo penso estar pronto para seguir sem segurar suas mãos, Inevitável é que o dia virá, posso senti-lo, também procuro ficar calmo, Como fiquei assim que vi você pela primeira vez, minha melhor visão. Foram tantas lições que espero aprendidas, feita de gestos, palavras, Estradas que cruzamos confiantes, de que juntos, seríamos vitoriosos Como agora nos sentimos e rimos, relembrando os perrengues, afins, Limiar da maior aventura e, que ainda reserva outros tantos capítulos. Gratidão basta para expressar o sentimento de estar nesta celebração, Onde a realização se mede em silêncio, o mesmo que se torna diálogo No dialeto de quem tem laços profundos se percebidos pela respiração, Eufórico coração, tão cercado de cuidados, onde seu nome foi gravado. Do suor que trouxe o pão, aprendi a melhor lição e ela quis disseminar, Perpetuando nela o legado, o nome que para mim é santo, consagrado, Por ele fui abençoado e agraciado, que trago e, outorgo como herança, O amor de quem sempre foi mais filho do que pai, porque pai, só você!
NOSSA ESTRADA
Eu não sei se são olhos de mar, de céu, de janelas da minha vida, Talvez esse corpo aos 20, 30, 50 ou 100 anos, meu doce repouso, Quem sabe esse jeito de interior, de café fresco, de fogão à lenha, A varanda, a cadeira de balanço em movimento e tão nossa casa? Filhos que ainda não nasceram e rosas que ainda não cresceram, Os frutos fartos como os riachos que não secam, somente brilham, Seria a pequena sereia que cresceu e que canta cada vez melhor, Areias fofas que recebem, que massageiam a pele tão sem juízo? Não tenho a menor idéia se poderia ser mais uma história de lutas, Esses campos e uns grampos que caem quando ela corre de mim, Os dois seios que alimentam minha criança mimada e ainda ávida, Aves que riscam os ares, certos lugares, em que teimas em reinar? Não sei se acreditaria se eu falasse quanto o amor faz doer, moer, Ele clama cada segundo por viver, morrer, quer renascer por você, Mas, como não sei mais o que fazer com tudo isso me consumindo, Me entrego, aceito seu sim e o seu não, aperto a sua mão, prossigo.