CONEXÃO
Quando o tempo se depara com o despertar sonolento De sonhos ambientados em imponentes arranha-céus Ali mesmo onde os pássaros causam inveja aos mortais Estes olhos que alimentaram rios contemplam horizontes Dentes que se confundem com as nuvens, cama do piano Manancial da alma, luz que acalma, fagulha de sentimento Sentinela do desejo, começo do beijo incipiente, embrionário Cabelos que se aninham onde os dedos queriam estar, ninho Paladar que a boca veio aguçar, num acaso do destino, vinho Seiva que circula entre amontoados de cinza e concreto, vida Matéria que deu forma à perfeição confinada em uma tela Imagem permeável irrigando veias como corpo do espírito Tamanho atrito não rompe as barreiras e a sede não finda É só o lençol de vidro irradiando calor digital aos conectados
EUGENIO
Não sei quanto tempo ainda tenho e se disse e fiz tudo o que poderia, Nem mesmo penso estar pronto para seguir sem segurar suas mãos, Inevitável é que o dia virá, posso senti-lo, também procuro ficar calmo, Como fiquei assim que vi você pela primeira vez, minha melhor visão. Foram tantas lições que espero aprendidas, feita de gestos, palavras, Estradas que cruzamos confiantes, de que juntos, seríamos vitoriosos Como agora nos sentimos e rimos, relembrando os perrengues, afins, Limiar da maior aventura e, que ainda reserva outros tantos capítulos. Gratidão basta para expressar o sentimento de estar nesta celebração, Onde a realização se mede em silêncio, o mesmo que se torna diálogo No dialeto de quem tem laços profundos se percebidos pela respiração, Eufórico coração, tão cercado de cuidados, onde seu nome foi gravado. Do suor que trouxe o pão, aprendi a melhor lição e ela quis disseminar, Perpetuando nela o legado, o nome que para mim é santo, consagrado, Por ele fui abençoado e agraciado, que trago e, outorgo como herança, O amor de quem sempre foi mais filho do que pai, porque pai, só você!
MORTE ANUNCIADA
Um dia eu vou morrer de tanto pensar, de tanto escrever, Até dei de tocar, cismei de cantar e não consigo entender, Se está tudo bem, sem mais, porém, ponho tudo a perder, São ciclos disformes, vazios enormes, começou a chover. É tanta inundação, tanta embarcação cortando as ondas, Por onde andas, meu bem, meu amém termina em você, Minha linda, a dinda que todo mundo sonhou, aí fechou, Só dá um alô, que eu passo um café, venha hoje, se der. Uma noite irei ressuscitar, por cansar de morrer e sofrer, Até levantar uns trocados, assustar no halloween, enfim, Está tudo bem, vamos pegar o trem e pedir uma cerveja, Chame o garçom, mande encher a mesa, bora lá beber. Quando cansar de loucuras, vamos falar bem mais sério, Moramos no mesmo hemisfério, hora do namoro render, Quero tanto ser pai, gêmeos, mesmo boêmios, pode ser? Fica assim não, vai dar tudo certo, já podemos começar?
DEISE
Eu não sei restringir sonhos, quando eles se desgarram do controle, Também não tenho modos, quando o assunto é esperar o momento, Meu alento, é que vale à pena ser assim, por quem faz por merecer. Seus olhos derramam em mim, toda esta pressa, a intensa vontade De puxar o tapete, roubar o chão, seqüestrar e saquear sem perdão, Porque eles me acompanham, ainda que, persista em esconder-me. A boca que é um exagero, um desespero para quem gosta de beijar, Quer abusar, selar a noite, o dia, a eternidade, a cumplicidade, tudo, Tudo fica parado, quando ela quer, linda, linda, esplendor de mulher. Quando penso saber tudo e, sortudo ter decorado as curvas e traços, Laços desfeitos, o feixe aberto, ela desnorteia, incendeia ainda mais, Tonto, um novo brinquedo, mais parece o João Bobo, é bobo demais, Já não tenho receios, nem meios, de evitar que prossiga, me domine, Que incline o corpo e jogue o cabelo para trás, sentencie, até ilumine, Que exija um pedido de clemência, enquanto eu só penso em morrer.
NEUZA
Tenho mãos que deslizam, contornam cada uma dessas curvas sem fim, Eu me aproprio dos sonhos e quero seus olhos verdes reluzindo em mim, Enquanto os corpos dançam, enquanto lançam toda a sorte de encantos Que a imaginação permita, o coração não resista, a manhã possa chegar. O tempo rompeu as barreiras, invadiu as fronteiras e esqueceu de voltar, Mesmo com lareira, a clareira trazia o seu brilho de outro fogo a queimar, Enquanto ardia, nenhuma sede resistia e ninguém iria se atrever a parar, Mas, a energia é finita e, a vontade que fica, jura que algum dia irá voltar. A saudade nasce do aceno, de tudo que é pleno, ela encontrou seu lugar Para morrer, também renascer, para seguir atormentando quem a cultive, E se a vive, é porque conheceu o amor, é nele que tudo acha um sentido, Mesmo num dia corrido como este, encontrou um momento para namorar. Agora que existe afinidade, a intimidade migrou para uma ligação estreita, Para aquela mão direita com quem se pode sempre contar, vou mergulhar, Espalhar aos quatro ventos, aos ouvidos menos atentos, por este achado, O corpo suado pode enfim descansar, aqui tem tudo que sempre busquei.
GÊNESIS
No princípio era só eu, abrindo os olhos, aprendendo a amar, a ver Porque havia luz, havia paz, eu sentia o ar, o mar, um lar nascer E se ele não tinha forma, como a terra que também era vazia, Precisou Deus fazer tudo luzir, a solidão se despedir, primazia, Aquecer o coração, desenhar o firmamento, por um momento, E já era paraíso aqui, quando aquela barriga cresceu, na certa Existiu aquela mulher entre você e eu, que fez a descoberta, Que deixou os traços, aqueles braços abertos para mim, enfim, A terra já havia sido criada, já tinha o sol, já tinha a lua, estrelas, E ao vê-las, sorriu a natureza, aves, peixes, conheci a beleza Representada à imagem, à semelhança divina, nesta menina, Nathalia, Ná, Naná, Lia, não importa, a porta da casa abria, A vida em festa te recebia, para morar e ganhar o alimento, Teu sustento no seio que eu primeiro amara, tomara para si, No jardim, plantas e frutos a surgirem, a florirem, a sorrirem, A repetirem, como o Criador, que era bom, o som do seu choro, Que acalentei no colo, que vi crescer neste solo e comemoro, Hoje, sempre, meu presente, agora, como Deus, posso descansar.
MORADA
Eu não entendo as voltas que a vida dá e que você aumenta Enquanto tenta explicar porque prefere fugir do que buscou, Do que a vida generosamente concedeu sem cobrar por isso. Coisas são como são, pessoas tomam decisões e, às vezes, Criam distâncias seguras, alimentam ilusões, adiam perdões, Trancam em porões os melhores sonhos de vida e liberdade. Quem poderá impedir as piores escolhas e o cair das folhas, Que cresceram ainda outro dia e que os ventos carregaram? Eu já não preciso de consolo e nem busco aconselhamento, Enquanto este perfume se dissipa no ar, sem deixar feridas, Mantenho vivas as convicções quanto ao gostar de ser feliz. Abraço minha sorte como quem vê o céu azul todos os dias, Sabendo que cultivar o amor é vê-lo invadindo este espaço, Criado por você, mas, que não me impediu de ir em frente. Quem ousará dizer que não tentei encher de brilho o olhar, De quem veio de tão longe e agora sabe que mora comigo?