Lista de Poemas

PÉRFIDO

Eclode-me a blasfêmia enraizada
D'alma perfura-me as vísceras
Como chaga latejante
De sangue mórbido borbulhante
Sobre o véu do purgatório

Rogai-me complacente e sacrossanta
D'outro amor em luxúria mundana
Corrompido amor pudico idolatrado
Dos castelos intrínsecos de cristais
Que lascivo, quebrados por ti

Olhai-me suscetível a rubéola
Aos males metafóricos do eczema
Pérfido usurpado do sempiterno
Dissoluto das dores cancerígenas
Que morfina (perdão) não alivia

Perdoai se o esquecimento não impera
Se vaidade aleijada e ira cega
Não calam o grito mudo que esperneia

O coração não comissura dor imensa
O sangue lúdico é sorvido pingo a pingo
E, o amor interciso agoniza em despedida
610

MAGO

Decifrastes meus enigmas
Cantastes minhas partituras
Quebrastes meus paradigmas
Enxergastes minhas canduras
Curastes meus estigmas

Adentrastes eloqüentemente
no físico, químico e biológico
Sem bater na porta

Experimentastes meu corpo como alquimia
Vivestes em mim faminto e naufrago
Eternizastes em sêmen sagrado aprazia
Transcendentestes a amplitude do âmago

Espectros siameses homogêneos
Simbiose de corpos ardentes
Osmose de vísceras inteiras
Enlace de espírito & alma

591

TU POEMA

Tu-Poema, de papel macio
Com letras pingando cacau
Enamoro-te ao ler em arrepio
À deriva/mercê como nau
Tu-poema...!

Tu-Poema, correnteza de rio
Com águas de puro sarau
Leio-te hebráico, francês e latim
Nas entrelinhas deste calhau
Ah... Tu-poema!

Tu-Poema, beleza e brio
Nas águas d'um vendaval
Ancora teu verso-navio
No estrofe do temporal
Que a entrelinha no cio
Reluz impressão digital

Tu-Poema com frio
Tu-Poema castiçal
532

ALCAIDE

Senhor casteleiro dos contos de fada
Acenou com olhar de desdenho
Recitou a epopeia à amada
Com bravura e engenho

Na mente, ardiloso empenho
de camponesa tomada
No coração, o gosto ferrenho
da lâmina da espada

E, na altivez engomada
Esboçou um desenho
Da plebeia encantada
Na masmorra d'alma...
520

SUBLIMINAR



Nas entrelinhas da minha boca
Escorrem framboesas e poemas
O que não digo... beijo.


582

Quando houver uma fada em meu rosto e uma fantasma em minh alma

Ah... Quando a minha vida se amputar
E no corar a clorofila da partida vier sem luvas...
O adeus de cavar areias e fazer castelos será eterno...
Ah... Quando o canário cantar
O amarelo desespero de suas penas o deixará calvo
E o céu cairá sobre o mundo...
Ah... Quando minhas mãos se entrelaçarem
E os meus olhos fecharem...
Um corvo voará sobre o féretro
E gritará uma dor embutida
Sobre os relâmpagos que restarem...
Uma roda de anjos que me rodearem
Lutarão com os gigantes escritores
Que vencerão - e colocarão meu coração em moldura
Ah... Quando o perfume das flores
Invadirem a lua cheia de soluços
Luzes multicoloridas dançarão em tudo
E as ondas dos mares causarão dilúvios...
Ah... Quando o tule branco cobrir o meu corpo
Se alguém tocar com sublimidade o meu rosto
Uma lágrima deslizará sobre a minha face
Ah... Quando o portal do além se abrir entre fumaças
Tom Jobim tocará uma bela canção no piano
E uma poeta anônima de cabelos longos e vestido vermelho
Desfilará no coquetel das celebridades, entre anjos, santos e diabos...
Ah... Quando este dia chegar...
Haverá uma fada em meu rosto
E um fantasma em minháalma.
595

LÁBIOS DE FIGUEIRA

Maldigo, maldigo...
O lúdico sabor alquímico
No aroma doce de figo
Veludo áspero, cítrico
Saliva em ode e castigo
Cianureto caustico
Figo, figo, figo!
Fruto do pânico
E do frenesi mendigo
Mágico e retórico
Figo, figo, figo!
Cálice tetânico
Veneno e jazigo
Dum beijo evangélico
Figo, figo, figo!
Cenário psíquico
Desejo inimigo
No desmaio angélico
Que me contradigo
No delírio silábico
Bendigo, bendigo...
558

PECADO SANTO

Não enxergas as pegadas de sangue
Nem sentes o ardor d'entre as artérias
Clamores e vozes soluçadas
[minha reza]
Choros minguados ao pé da cama
[é o meu pranto]

Não vês o amor sacrossanto
Que trago como quimera
Imaculado pecado santo
Enlevo de primavera
Arfado no teu encanto
540

VULGÍVAGA

Quão ares e cárceres de vida amputada
Do corpo humano de alma enterrada
Se asas enfermas tão cheias de nada
Já implumes rastreiam a nevada

Quão semi nua no frio das noitadas
Enquanto as mademoiselles já deitadas
Temem pela perfídia; lasciva chegada
De o cônjuge reclamar a labuta cansada

Sonhas fosses tu, donzela encantada
Conflitando masmorra a alma alada
Consideras enriquecer e romper empreitada
Quiçá um salvador da vida bastarda...

Por onde cessarás tua empáfia jornada
Despejada indigente na gélida calçada
Morta em submundo em qualquer madrugada
Sem ninguém para chorar o teu fútil nada.

(Trabalho escolar do Ensino Médio - Redação ou Poesia.
Tema "Prostituição", após leitura de Lucíola de José de Alencar
Autora: Sheila Gomes de Assis - 1998.)
629

DOR



Dilacerada, abandonada e franzina
Ouso puxar a adaga que me apunhalas
Respiro ainda... por ti.
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