Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Quem: Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral. Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui: dissociação, estados alterados, amor, comunidade, alienação, niilismo, raiva, metapoesia, experimental, coisas que vê, quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
Vi um sonho colorido pequenino. Urgente, sentido, e franzino. Músicas em miniatura. Danças sem sincronia. Sem preparação como nascem os sonhos rebentos de energia e alegria.
(Vi amor.)
Vi um entusiasmo que hoje mos torna medonhos porque debaixo dos pés quais percevejos peçonhentos, fedorentos, as fés que pudesse ter tido todas, todas idas. Esmagadas como percevejos feitas frutas espremidas num sumo supressor que bebi e decerto não morri. Tudo no passado ido, quebrado o cadeado e o literal coração despedaçado.
(Perdi amor.)
Ah, mas tantos anos depois, quando no pensamento soube que tinha de o consertar, mesmo que sem alento, já ido o sonho, já depois de se apagar, consertei.
(Esse não recuperei.)
Mas vi hoje, o mesmo sonho. Vi o mesmo sentimento, como que num espelho, aquele meu rebento. Vi-o colorido, vi o alento, vi o passado, vi o brilho ido tão longe quase esquecido.
(Mas ainda tenho.)
Escrito a 29/06/2018
616
O que pode ser poesia
Se não são de amor, de paixão e afeição, de se perder, ardor, de se dissolver, não, de se entregar, dor, de dor de amar em vão... então, então não é poesia?
Se cai em abismos pastosos e sem, sem sentidos nem aforismos. Sem ouvidos, nem olhos. Sem bocas nem inimigos. Com tocas, com umbigos onde não, onde não liga um mamífero bipede que, que te pede que, que o abraces, que o acaricies e o leves ao mais, ao mais alto dos, dos sonhos então, então não é poesia?
Se de toques e carícias, perdidos os sentidos, de doces e breves malícias, os dedos ainda tidos, como que estando, estando na pele, e o ritmo acelerando... E depois um frio porque se apaga. A vela come o pavio e tudo apaga e vai, e vai sem desaparecer. Deixa só nas mãos, nas mãos a vontade, a saudade, os dedos para escrever então, então é, é poesia?
Mas e se, e se, e se... e se nos peitos não acelerados pelos efeitos, desses toques e bafejos, doces, divinos, mas acelerados pela ausência, vazios, perdidos, desvairados. Nesses também pulsa uma febre, febre incandescente vulcões explodindo sós! Sós, sem som, sem sentido. E esses dedos, esses dedos buscam, buscam e buscam e buscam e buscam! Nos estilhaços, pedaços, pedaços desconexos que juntar malformados, sempre, sempre, malformados. Flores não saudosas com hastes e dentaduras esgaçando sorrisos coloridos de verdes de esmeraldas de olhos e azuis de cerúleo céu de cabelos e ao vento, nas espaldas folhosas um cinzento, brilhante véu.
Não pode? Não pode? Não pode essa também? Não pode essa também ser? Não pode essa também ser poesia?
Escrito a 26/06/2018
605
Apeadeiro
Essas brumas vagas no apeadeiro do silêncio. No escuro puxa-se a corda, segura-a e eleva-se.
Grunhido apagado, iluminado. Luz vermelha e pela borda do oceano, seco de breu mole pegajoso e invisível no topo de uma árvore.
Frio e silencioso, amarrado, de passagem pela ponte do sol. Ondas curtas e longas e nenhumas. Verdadeiras e descontroladas. P'ra cima, p'ra baixo.
emerge Mergulha, , mergulha.
No ar seco que encharca os braços nus, as tuas mãos cansadas sacodem as cordas, e mergulhas em segredo. A árvore carpideira de braços nus e secos. Braços nus e secos, encharcados. E não se dissipa a bruma. Nunca houve comboio. Escrito a 18/09/2017
626
O que restará
Língua empapada de sangue. Pedaços de limos pestilentos, esquecidos nos ouvidos sonolentos.
Imagens usadas como balas, uma baleia rodopia, num deserto encharcado, em carne esquecida nas valas.
Se dela escorrem os sangues, de vozes silenciadas, apagadas e agora exangues, dela correm também palavras de afecto tão puro, tão discreto. Oprimido por ladaínhas odiosas como espinhas dos sonhos o mais desperto.
Resiste, resiste ainda. Resiste ainda o amor. Resiste ainda o amor.
Escrito a 23/10/2017
644
Estagnação
Queria agora estar num comboio, vagão para qualquer lugar. As janelas sem vidros no frio do Inverno os pés as mãos doridos. Gelo, do vento, das janelas, do vagão, escancarado e escuro, na noite. Para qualquer lugar. Mas aqui vais ficar. Escrito a 08/01/2018
542
Cortes
Não tenho caneta nem papel só tenho cortes e desenhos na pele água em torvelinhos pela cara e fel.
Dos lábios longe longe o começo.
Envelheço.
Os cortes afundam-se, poços vazios, vacilando, vendavais.
Num espírito fraco sem esperança de um sol que promete e nunca vem. Escrito a 31/05/2018
585
Superstição
A minha resposta cega no final dum caminho longo e ostentoso e asas de um véu aquoso. No fim, um ponto sem penas, nem carinho uma ave aveludada, depenada e desgraçada.
Graças divinas de olhos, suaves lamparinas de onde escorre óleo de palavras por papel. Papel que não tens nessa peça que escreveste. Rabiscos autorizados pelas deusas felinas.
Ronronam de leve a se esticar e a enrolar um fio de novelo grosseiro e embaraçado, como o carmim da tua cara quente e clara, em luz tornada, voltas a rir e a cantar.
Canta uma moda, uma qualquer, não sei. Nem tu, nem ninguém, não sabemos nada. Nadamos por aqui e por ali em limos e limamos arestas para agradar ao rei.
A coroa não é nossa, nem o será. Cera escorre-nos pelos dedos trémulos. Terminados e assustados e medrosos. O medo que nos nasce nos ouvidos.
E se a superstição queimares, o melhor e que com mais dor puderes, esperando por sortes melhores, nasce-te alento pare te deitares. Escrito a 24/06/2018
539
Ver sem ver
No mesmo lugar, sem se encontrar. Sem se conhecer, para quê ver? Ruídos altos e desconexos, sem ritmo, pauta ou rima. Desdém? Oh, não, assim não, por quem?
Emoção exclusiva para porcos. Pelintras petulantes e peganhentos. De vozes roncantes e ideais, sempre ocos e iguais.
Aqui é fascínio puro e ligeiro. Porque lá estão, no recinto. Porque pisam a mesma brita. Porque na multidão labirinto, se se cruzassem não se viam, naquela poeirenta área restrita.
Escrito a 23/06/2018
544
Mãos
Esfacela-me as faces, devagar. Pétalas de mãos macias de magnólias, purpúreas e pálidas de cheiro aleivoso. Alto está o céu áspero e estrondoso.
Árvores abrem-se. Breves. Em tremores. As cicatrizes cinzentas, os tambores, rufando sem alento porque as mãos são purpúreas e pálidas e pontes.
Voz vaga e longe daqui e nas faces que esfacelaste, porque de raiva assim to pedi, os teus dedos meus usaste.
É longe, o mar é vasto. As águas movem-se e vão. Deixam-nos, sem dó, a léguas. E não há perdão.
Escrito a 21/06/2018
568
Rearranjamos
Mas olha o que está
à frente
ou aqui atrás.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.