Abre a mente ao que eu te revelo
e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência
ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri)
Um homem apaixonado por poesia.
Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)
Vai a alma sonhando com amor, Com a inocência de uma criança, Rebuscando o infinito em suas fantasias, Esquadrinhando as memórias, Brincando com as nuvens no céu, Sabendo que não são mais de algodão, Apenas um reflexo da pureza. Vai o ser no silêncio da noite, Tentando moldar as herméticas emoções, Bolsões de uma humanidade em fúria, Travestida de uma paz angustiante, Camuflada em requintes de gentileza, Chicoteando com seus lapsos transitórios, Enquanto não chega a tempestade. Vai a vida em seus contrapontos, Dialogando com a vaidade capciosa, Apaixonado enredo malfazejo, Metamorfoseando a flor da juventude, A flertar com a singular senilidade, Envoltório do tempo apressado, Sob flashes da pávida morte.
187
Juramento
Ao teu olhar vi estrelas, Escutei-as em teus cantos celestes, Vestidas para as núpcias, A imitar a noiva dos meus encantos, Adornada de amor indelével, Flertando com a eternidade. Meu coração metrificou seus versos, Estrofes enamoradas altivas, Melódicas sensações de tal apreço, A sentir a inefável doçura dos teus lábios, Desenhando o paraíso nos meus, Solene invólucro do desejo. Minh'alma sorriu feito brisa pulsante, Acariciando as flores na primavera, Em seus beijos de matizes perfumadas, Singular paixão assentida, Entremeios do corpo exaltado, Na finitude do prazer indubitável. Ao teu olhar vi estrelas, Cintilante abraço do amor, Horizonte secreto da vida, Transbordando o sacramental viver, Aos propósitos do fiel sentimento, Apanágio Sagrado da promessa.
171
Tabernáculo
Vivemos segundo nosso arbítrio, Presos aos grilhões da mortalidade, Na esperança da ignota imortalidade, Sob penitências finitas da alma, Preço dos sonhos ao penoso fardo, Contrição aflita presságio da morte.
Lá fora há um dia calmo, Trazendo em si também a tempestade, Um oásis com todos os seus perigos, Sorrindo aos prazeres nele contido, Na imensidão dos prelúdios inusitados, Soprando em várias direções.
Não importa o modo ou a forma, Neste imbróglio de tantas solidões, Arrastando corações que se perderam, Correndo atrás da sedutora ilusão, Camisas de força aos loucos atrevidos, Surrando a própria vida em seus exames.
Tantas vozes sem vozes em si, Gesticulando ao vazio de seus nadas, Vestidos de reis e rainhas, Príncipes e princesas de castelos falidos, Abraçados ao túmulo da nobreza, Espelho de suas pobrezas estupefatas.
Quando ruírem suas casas de vidro, Sairão correndo de nada entender, Sem perceber a lança em seus peitos, Ardendo ao fogo da desgraça, Progenitora dos vícios inconstantes, Cadinho do mundo em conta-gotas.
Há tantos sem teto em mansões, Errantes em seus labirintos intangíveis, Zombando dos ricos palácios dos pobres, Já condenados sob um único olhar, Apedrejados pela soberba língua, Repleta dos nós de suas quedas.
186
Vi um anjo
Como pode também ser anjo? Idílica criatura humana celeste, Trazendo no olhar a primavera inteira, Resplandecendo no límpido sorriso, A aurora balsâmica inundada de versos, Semblante adorável de tez aprazível. A beleza que te reveste é poesia, Augusta estrofe encantada, Matina espelho da esperança, Uma flor a desabrochar nas manhãs, No jardim solene do espírito, Feito pássaro a explorar o céu. A suavidade beija-lhe o nome, Agitando as asas invisíveis de tua ternura, Voejando por entre as nuvens da vida, Divertindo-se na finitude de si, Acariciando o infinito em teu coração, Tocando a felicidade portal do paraíso.
256
Existir além da vida
Moro onde habita minh'alma,
Floresço no espaço-tempo,
Subindo os degraus da vida,
Oscilações da minha humanidade,
Beijando a imperfeição que me seduz,
Entre lágrimas e sorrisos,
Coragem e desconfiança,
Cansaço e fortaleza,
Tristeza e coragem.
Vou aonde meus pés me levam,
Na lucidez de minha loucura,
Ou na insensatez da minha razão encolhida,
Buscando alcançar a felicidade,
Estas rotas surreais fantásticas,
A dissimular a exausta realidade.
264
O tempo
Goteja o tempo pulsante, Exalando entre as estações, O perfume uterino da hermética vida, Maculada flor despedaçada, Deitada ao chão do infortúnio, Abraçada ao vício da aflição. Esvai-se a alma entre corpos sorrateiros, Vicissitudes de uma identidade ferida, Parida sob o caos de si, Enrolada no manto de espinhos, Aconchego da árida morte, Velado declínio espreitado. Vagueia o ser em seus amores, Constrangidos sentimentos infecundos, Cópula estranha ao toque da tristeza, Fornicada carência bastarda, Zombando da lucidez ultrajada, Torturada pela bárbara angústia. Gritam de suas prisões os solitários, Desconfiando da dúbia paixão, Espadas da facínora modernidade, Carregada de fascínios ardilosos, Açoitando o frágil querer, Acorrentando os corações pusilânimes.
239
Amenidade
O cio da noite em teus olhos celestes,
Verte de mim o orvalhado amor,
Beijando-me com teus castos lábios,
A desabrochar a flor do desejo,
No meu coração fecundo deleite,
Inolvidável manancial de luxúria.
Pulsa minh'alma feito estrela cintilante,
Cortejando a lua reflexo da tua face,
Imortal ternura semblante da eternidade,
Murmurando teus versos infinitos,
Carícias atemporais fiel doçura,
Ao sutil êxtase da felicidade.
Cantam os astros a paixão aludida,
Formosa treva velado paraíso,
Augusta serenidade retida,
Inflamado de amores ao fino laço,
Excitante colo abrasado,
Ao teu corpo consumido.
O cio da noite assaz atrevido,
Trouxe de si os gemidos,
Flamejando de mim os sentidos,
Afável leito ardente, Confidente véu de ternura,
Ao convergente zelo vivido.
198
Volúpia
Tanta sexualidade sob este silêncio, Nobreza de um corpo ardente, Aos gritos na imensidão de um olhar, Gostos perceptivos do erudito amor, Imitando o sol e a lua em suas rotações, Contrações do cobiçoso desejo, No ávido mar em virações, Beijando a beleza afeita de carinho. Tanta impetuosidade em melódicos tons, Afinada ao maestro que a conduz, Ária de musicalidade sequiosa, Flutuando além do tempo, Versos íntimos absconsos, Declamados ao tácito prazer, Cadencioso momento em poesia, Simétrica feminilidade vertida.
250
Vitupério
Humanidade servil tão bárbara, Criatura de emoções paralelas, Escravas da falsa superioridade, Submissa carne em desalinho, Abatida ao golpe da mortalidade, Iludidas em seus bordões viciosos. Hipócritas sem cor de única raça, A podridão do corpo não tem nacionalidade, Não tem status diante do que o consome, Apenas ossos e pó ao esquecimento, Da beleza e feiura sem diferenças, Deitadas ao solo friamente. Tantas antipatias disfarçadas, Sorrisos sem sorriso verdadeiro, Caridade cheia de facas afiadas, Altivez de pessoas vazias, Exalando seus monstros infernais, Repletas de cortesias vãs, Escaninho da maldade sob olhos famintos, Escrupuloso ósculo da conveniência, Tratados afagados de aleivosia. Amigos mórficos a desgraça aparente, De palavras ociosas ao oculto, Jogando lama na confiança latente, Santificando seus burburinhos suicidas, Vítimas do próprio infortúnio, No grande labirinto de prelúdios.
240
Decadência
A vida é uma matemática, Somos números exatos, Num complexo sistema, Resultado de uma combinação infinita, De um lugar para outro sucessivamente, Semente de outras sementes, Vida de outras vidas desconhecidas, Programadas para nascer e morrer, Iguais a todos os astros celestes, Em seus roteiros energéticos. Somos energia materializada, Herdeiros da fragilidade da matéria prima, A qual surgimos a partir do primeiro, Assumindo formas e características distintas, Ao ambiente da nossa existência, Expostos as flutuações do tempo e do espaço, Diminutas criaturas presunçosas. Corremos para nascer e morrer, Seguindo o relógio que não se atrasa, Deixando rastros numa estrada infinita, Percebendo a humana flor, Despetalar-se sob as estações, Murchando aos poucos até fundir-se a terra, Num abraço inevitável reencontro, Esperança de uma sabedoria enigmática, De que haja uma continuidade ao nosso desejo, Além da eternidade das estrelas que possuímos. Existir é um desafio no pensamento primitivo, Uma revolução de evoluções divergentes, Feedbacks em espirais surreais, Espelhando os colapsos seculares, Interjeições de seres inteligentes, Sintaxes biológicas em exaustão.