Thaís Fontenele

Thaís Fontenele

Escrevo poesia, porque de nada o mundo tá cheio e eu apenas ressignifico os nadas.

n. 0000-00-00, Parnaíba, Piauí

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Sinais

Há uma pulsão carnal na poesia, que goza das selvagerias insignificantes. poesia de thais fontenele
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Poemas

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A fronde parte dos teus olhos


A minha fonte parte da tua luz,
minha sede acaba na tua boca, 
a fronde parte dos teus olhos,
minha terra é queimada por ti,
minha fome começa no teu corpo, 
o vento leva-te a minha voz nua.
383

A distância de ti

A única distância que quero de ti meu amor, é a da folha e o seu caule,
A única distância que quero de ti meu amor, é a das aves e seus ninhos,
Pois se for de ir, há de voltar,
Pois se for de voar, há de ventar

Existe beleza no céu sem ti,
Existe profundidade sem teu sorrir,
Não existe apenas meu amor por ti,
Já que ais de voltar para mim e eu para ti,
Não ei de sofrer por teu partir.
437

Eu sou, ou não sou

Eu era como um código que habitualmente não podia-se decifrar,
Eu era o que ninguém conseguia entender,
Eu era as pazes entre a minhoca e o pássaro ,
Eu era um trovão num lugar de paz.
 
Sou um sonho que não pôde ser concretizado,
Sou como uma alma enviada à terra para descrever o amor,
Logo eu que já falei tanto da boca para fora,
Logo eu que pouco caso já fiz com quem me amou.
 
Tenho sede de laços corporais,
do toque da folha verde ao chão quando o vento bate
Tenho fome de rastros que nunca ouvi, de pele macia respingada,
Tenho urgência dos lábios tocando-se.
 
Pouco me fiz nos rastros,
Pouco procurei-me nos cantos,
Pouco pinto meu eu, porque não há cores
capazes de me tingir tão bem como eu mesma.
 
624

O rio no meu quintal

Alguns dias atrás fui até o meu quintal,
dei passos que conduziam meu olhar ao céu,
naquele claro azul eu vi o rio, aquela água do alto
nunca havia passado por aqui antes,
o rio estava reimoso, revolto
e fazia travessia com barcos de algodão.
 
O rio passava pelo céu sem muita cerimônia,
não tinha hora marcada, nem fazia questão de plateia
quando doloroso fazia-se e voltava a chorar,
as lagrimas eram vagarosas e eu era sua única plateia.
 
A água do céu tinha um percurso que convergia no meu peito,
meu coração sentia-se morada azul de algodões passageiros,
que no percurso do rio, ia lento
e recorria toda a minha extensão.
377

Pandemia

As carnes vão para onde não conseguimos ver ou sentir,
essas ocupam a terra e os céus,
a luz já não está no fim do túnel,
a luz já não habita os olhares,
a fé faz-se morada nos corpos frios,
a vida já não é mais palpável.
 
A fé adentra os cômodos,
já que lá fora o mundo paralisa,
hospitais tornam-se produtores de vida em larga escala,
milhares de pessoas procuram por oxigênio e pelo renascer.
 
A pandemia nos obriga
a acreditar cada vez mais no potencial
de integração e inclusão do mundo,
numa luta que parte de todos.
 
421

Tu eras o nó, tu és o nó

Tu eras meu singelo e tênue desejo,
Tu eras o inquieto descer das nuvens,
Tu eras a sombra que me tremia o peito,
Tu eras o sujeito colorido que não me negaria a água, o vinho e o pão.

Eras também a intriga das minhas madrugadas,
Eras também o verde que me corrompia o ego,
Eras também os planos de pingar d’água nos meus lábios,
Eras também a encosta da minha imensidão, a flame que ardia.

Sabes a breve rachadura?
Ah, se tu soubesses o teu prazer
Ah, se tu soubesses a luz do teu acender.

Nega-me tudo, exceto tu!
Nega-me tudo, exceto teu sentir!
Apenas não me negue o teu doce pranto.
487

O poeta guarda o oco

Absorvi todas as insignificâncias,
decifrei a sujeira, pendurei-me nos ácaros,
limpei os pés na lama,
cometi o pecado da libertação poética,
fiz-me escritora do nada, ninharia as exatidões,
eu vesti-me das escórias,
rasguei o ventre e me fiz poeta,
ignorei as obviedades de ser austero,
quebrei o voto casto do verbo,
eterna linhagem de preceptores do vazio terreno,
o vácuo fazendo-se presente abaixo da língua.
429

Vivência poética

A terra fria encima de mim, 
meu tecido em contraposição a um canto escuro, 
meu corpo avista seres perdidos, todos ali, 
sinto minha garganta invadida por palavras
o verbo fecundando-me toda manhã, 
o útero rasgando a extensão do meu corpo, 
minha mente amarrada num foguete perdido no espaço, 
meu suspiro quando o verso me aniquila o peito, 
meu suspiro quando o verso me bombardeia as mãos, 
o papel recebendo-me nos seios, 
a democracia das almas que vivem dentro de mim 
percorrendo a linha tênue que faz-me ser poeta. 
498

O navegar das ações

O barco que puxa a lucidez, 
a ventania das preces alcançadas, 
o ferro marcando a roupa, o pranto das mulheres reunidas,
o barro marcando as mãos dos ribeirinhos, 
a enchente do peito, que deságua nos olhos,
os pés calçando o lodo verde, 
as pernas pesadas do azul do mar, 
o horizonte fincando quem mergulha no fim, 
dilatando os silêncios das criaturas elementares.
401

Aonde irá o meu destino?

Guardar-me nos retalhos
não fará o papel sangrar,
minhas veias não pulsam ao teu barulho,
ler-me os bilhetes não fará de ti ameno,
fui tanto, em tantos tons,
fui céu, fui tantos mares,
contou tuas dores
- fechei-me os prantos -
colhi meu destino na mão,
plantei as minhas incertezas.
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Comentários (14)

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Francisco Guilherme

Você tem muito potencial. Parabéns! Poemas fortes

camila_duarte

Escrita incrível, tocante, memorável <3

joaoeuzebio

O DESGASTAR NÃODEGASTOU TEU BRILHO UM ABRAÇO BELO POEMAS

felixa

Belíssima espiritualidade! Sinto essas vibrações no devaneio de imagens que as palavras me trazem ao lê-la

Thaís Fontenele

Pode ser fernando, eu creio que minha liberdade poética, não é exatamente como denuncia, somente meus devaneios, porém isso vai do subjetivo de cada um que interpretou, beijos!