Lista de Poemas

Pedra do sal

 
No barco há pescadores com sede de navio,
Tomam cachaça abaixo da neblina,
Riem com lagrimas no rosto,
Pescam o peixe abaixo da garoa, que inunda a lagoa.
 
Os pescadores assam o peixe,
Amargos de insolação, preparam o jantar,
Já que a fome, ocupa o lugar,
No pôr do sol, mistérios de coração.
 
Ao redor há pedras que escondem o tesouro,
Não se vê o ouro, que é história de pescador,
Mas se vê só o lodo.
 
O mar quebra abaixo dos olhares, abaixo das canoas,
As ondas na paisagem fazem-me mergulhar,
Já que a chuva quarou o luar 
313

A distância de ti

A única distância que quero de ti meu amor, é a da folha e o seu caule,
A única distância que quero de ti meu amor, é a das aves e seus ninhos,
Pois se for de ir, há de voltar,
Pois se for de voar, há de ventar

Existe beleza no céu sem ti,
Existe profundidade sem teu sorrir,
Não existe apenas meu amor por ti,
Já que ais de voltar para mim e eu para ti,
Não ei de sofrer por teu partir.
427

A fronde parte dos teus olhos


A minha fonte parte da tua luz,
minha sede acaba na tua boca, 
a fronde parte dos teus olhos,
minha terra é queimada por ti,
minha fome começa no teu corpo, 
o vento leva-te a minha voz nua.
374

O rio no meu quintal

Alguns dias atrás fui até o meu quintal,
dei passos que conduziam meu olhar ao céu,
naquele claro azul eu vi o rio, aquela água do alto
nunca havia passado por aqui antes,
o rio estava reimoso, revolto
e fazia travessia com barcos de algodão.
 
O rio passava pelo céu sem muita cerimônia,
não tinha hora marcada, nem fazia questão de plateia
quando doloroso fazia-se e voltava a chorar,
as lagrimas eram vagarosas e eu era sua única plateia.
 
A água do céu tinha um percurso que convergia no meu peito,
meu coração sentia-se morada azul de algodões passageiros,
que no percurso do rio, ia lento
e recorria toda a minha extensão.
369

Pandemia

As carnes vão para onde não conseguimos ver ou sentir,
essas ocupam a terra e os céus,
a luz já não está no fim do túnel,
a luz já não habita os olhares,
a fé faz-se morada nos corpos frios,
a vida já não é mais palpável.
 
A fé adentra os cômodos,
já que lá fora o mundo paralisa,
hospitais tornam-se produtores de vida em larga escala,
milhares de pessoas procuram por oxigênio e pelo renascer.
 
A pandemia nos obriga
a acreditar cada vez mais no potencial
de integração e inclusão do mundo,
numa luta que parte de todos.
 
399

O poeta guarda o oco

Absorvi todas as insignificâncias,
decifrei a sujeira, pendurei-me nos ácaros,
limpei os pés na lama,
cometi o pecado da libertação poética,
fiz-me escritora do nada, ninharia as exatidões,
eu vesti-me das escórias,
rasguei o ventre e me fiz poeta,
ignorei as obviedades de ser austero,
quebrei o voto casto do verbo,
eterna linhagem de preceptores do vazio terreno,
o vácuo fazendo-se presente abaixo da língua.
405

O navegar das ações

O barco que puxa a lucidez, 
a ventania das preces alcançadas, 
o ferro marcando a roupa, o pranto das mulheres reunidas,
o barro marcando as mãos dos ribeirinhos, 
a enchente do peito, que deságua nos olhos,
os pés calçando o lodo verde, 
as pernas pesadas do azul do mar, 
o horizonte fincando quem mergulha no fim, 
dilatando os silêncios das criaturas elementares.
392

Aonde irá o meu destino?

Guardar-me nos retalhos
não fará o papel sangrar,
minhas veias não pulsam ao teu barulho,
ler-me os bilhetes não fará de ti ameno,
fui tanto, em tantos tons,
fui céu, fui tantos mares,
contou tuas dores
- fechei-me os prantos -
colhi meu destino na mão,
plantei as minhas incertezas.
387

O sol de parnaíba

Nas paradas desencanto
surpresa ao fugir tanto
que canto na boca
lavo a alma, perco a vontade
nada que goteja irá adentrar em meu peito
caloroso afronto que tu pingas em outro olho
de memorável rosto
suga o meu pranto, finge e colore


automóveis e construções
me chamam atenção ao passar pelas ruas de parnaíba
moro e divido o tempo
me desatina o gosto das frutas do nordeste
futuro que prevalece,
o sol forte,
céu aberto,
parnaíba me aquece.
406

A água e o caminho

As estradas que recorrem em mim
são as mesmas que desconheço
quando deito em minha cama,
a sede que me têm não há água capaz de matar,
gosto de sentir o gosto da vida contida na liquidez da água,
na subordinação da palavra ao tendência-la,
nossos toques efêmeros no paladar da alma.
404

Comentários (14)

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Francisco Guilherme

Você tem muito potencial. Parabéns! Poemas fortes

camila_duarte

Escrita incrível, tocante, memorável <3

joaoeuzebio

O DESGASTAR NÃODEGASTOU TEU BRILHO UM ABRAÇO BELO POEMAS

felixa

Belíssima espiritualidade! Sinto essas vibrações no devaneio de imagens que as palavras me trazem ao lê-la

thaisftnl

Pode ser fernando, eu creio que minha liberdade poética, não é exatamente como denuncia, somente meus devaneios, porém isso vai do subjetivo de cada um que interpretou, beijos!