Thaís Fontenele

Thaís Fontenele

Escrevo poesia, porque de nada o mundo tá cheio e eu apenas ressignifico os nadas.

n. 0000-00-00, Parnaíba, Piauí

Perfil
49 243 Visualizações

Sinais

Há uma pulsão carnal na poesia, que goza das selvagerias insignificantes. poesia de thais fontenele
Ler poema completo

Poemas

82

O ruído das insignificâncias

Os talheres, seus ruídos que ganham voz no almoço de domingo,
teu corpo e os talheres,
a tempestade de inverno que está por vir,
a frieza sentida no verão,
o romper de um canal correndo água,
o devastar das mais belas formigas,
o desaguar solicito de tantas existências,
amarrando eternamente seus sonhos em mar azul solar.
313

O rio no meu quintal

Alguns dias atrás fui até o meu quintal,
dei passos que conduziam meu olhar ao céu,
naquele claro azul eu vi o rio, aquela água do alto
nunca havia passado por aqui antes,
o rio estava reimoso, revolto
e fazia travessia com barcos de algodão.
 
O rio passava pelo céu sem muita cerimônia,
não tinha hora marcada, nem fazia questão de plateia
quando doloroso fazia-se e voltava a chorar,
as lagrimas eram vagarosas e eu era sua única plateia.
 
A água do céu tinha um percurso que convergia no meu peito,
meu coração sentia-se morada azul de algodões passageiros,
que no percurso do rio, ia lento
e recorria toda a minha extensão.
377

O poeta guarda o oco

Absorvi todas as insignificâncias,
decifrei a sujeira, pendurei-me nos ácaros,
limpei os pés na lama,
cometi o pecado da libertação poética,
fiz-me escritora do nada, ninharia as exatidões,
eu vesti-me das escórias,
rasguei o ventre e me fiz poeta,
ignorei as obviedades de ser austero,
quebrei o voto casto do verbo,
eterna linhagem de preceptores do vazio terreno,
o vácuo fazendo-se presente abaixo da língua.
429

A fronde parte dos teus olhos


A minha fonte parte da tua luz,
minha sede acaba na tua boca, 
a fronde parte dos teus olhos,
minha terra é queimada por ti,
minha fome começa no teu corpo, 
o vento leva-te a minha voz nua.
383

A distância de ti

A única distância que quero de ti meu amor, é a da folha e o seu caule,
A única distância que quero de ti meu amor, é a das aves e seus ninhos,
Pois se for de ir, há de voltar,
Pois se for de voar, há de ventar

Existe beleza no céu sem ti,
Existe profundidade sem teu sorrir,
Não existe apenas meu amor por ti,
Já que ais de voltar para mim e eu para ti,
Não ei de sofrer por teu partir.
437

Pandemia

As carnes vão para onde não conseguimos ver ou sentir,
essas ocupam a terra e os céus,
a luz já não está no fim do túnel,
a luz já não habita os olhares,
a fé faz-se morada nos corpos frios,
a vida já não é mais palpável.
 
A fé adentra os cômodos,
já que lá fora o mundo paralisa,
hospitais tornam-se produtores de vida em larga escala,
milhares de pessoas procuram por oxigênio e pelo renascer.
 
A pandemia nos obriga
a acreditar cada vez mais no potencial
de integração e inclusão do mundo,
numa luta que parte de todos.
 
421

O navegar das ações

O barco que puxa a lucidez, 
a ventania das preces alcançadas, 
o ferro marcando a roupa, o pranto das mulheres reunidas,
o barro marcando as mãos dos ribeirinhos, 
a enchente do peito, que deságua nos olhos,
os pés calçando o lodo verde, 
as pernas pesadas do azul do mar, 
o horizonte fincando quem mergulha no fim, 
dilatando os silêncios das criaturas elementares.
401

Aonde irá o meu destino?

Guardar-me nos retalhos
não fará o papel sangrar,
minhas veias não pulsam ao teu barulho,
ler-me os bilhetes não fará de ti ameno,
fui tanto, em tantos tons,
fui céu, fui tantos mares,
contou tuas dores
- fechei-me os prantos -
colhi meu destino na mão,
plantei as minhas incertezas.
395

O silêncio nascendo

Quando a noite chega eu sinto
o silêncio
cantarolando nos meus ouvidos
e essa melodia é a
que mais faz sentido,
é como uma onda
que ecoa
e reverbera dentro de mim.
389

A água e o caminho

As estradas que recorrem em mim
são as mesmas que desconheço
quando deito em minha cama,
a sede que me têm não há água capaz de matar,
gosto de sentir o gosto da vida contida na liquidez da água,
na subordinação da palavra ao tendência-la,
nossos toques efêmeros no paladar da alma.
412

Comentários (14)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Francisco Guilherme

Você tem muito potencial. Parabéns! Poemas fortes

camila_duarte

Escrita incrível, tocante, memorável <3

joaoeuzebio

O DESGASTAR NÃODEGASTOU TEU BRILHO UM ABRAÇO BELO POEMAS

felixa

Belíssima espiritualidade! Sinto essas vibrações no devaneio de imagens que as palavras me trazem ao lê-la

Thaís Fontenele

Pode ser fernando, eu creio que minha liberdade poética, não é exatamente como denuncia, somente meus devaneios, porém isso vai do subjetivo de cada um que interpretou, beijos!