A Verdade
A Verdade pode ser pura, mas nunca é simples.
As coisas nem sempre são tão más como parecem
As coisas nem sempre são tão más como parecem; às vezes são muito, muito piores.
JARDIM PARADISÍACO (1978)
Jardim paradisíaco
onde as mãos se encontravam,
e os sonhos passeavam
num horizonte idílico...
espessuras onde as aves
assomavam no céu,
e das franjas de um véu
pendiam risos graves.
Jardim nocturno onde à noite as árvores caminhavam libertas
pelas sombras das fontes,
em passos vegetais de raízes
e movimentos sincrónicos com a luz,
sorrindo no jardim
e mostrando o caminho para a casa de duendes amigos
que nos abriam na floresta a sua porta
e nos ofereciam à mesa os seus manjares mais raros,
partilhados com aves
e ocultos nas curvas acidentadas do jardim da cidade...
jardim onde a música escorria dos bancos e atravessava a praça,
às horas mortas em que os namorados tinham ido para casa
e o céu começava, com mãos amigas,
a lembrar que era tempo de recolher ao descanço da noite...
jardim louco onde se dançava à chuva, ignorando os espectros que passavam ao lado,
estendendo a mão e mostrando os olhos fixos no vazio,
enquanto procissões de formas sem conteúdo explodiam no espaço
e deixavam cores vivas no céu,
lá em cima no céu, no céu azul tão cheio de estrelas,
no doce céu que, sorrindo, nos viu nascer e crescer,
em banhos de azul que se perderam com o tempo...
jardim de dança onde se pousava o fardo por alguns momentos,
fingindo beber um pouco de água fresca
e encher o peito de brisas trigueiras e quentes,
para depis voltar à ceifa
e aos trabalhos pesados da faina...
jardim, jardim onde as palavras dançavam connosco,
em danças embalantes e sem sentido,
suando duramente das entranhas do ritmo
e atingindo cumes que nos eram proibídos,
dos quais tentávamos avistar a paisagem que sabíamos distante,
a paisagem que sabíamos invisível e oculta,
e por isso ali estávamos no jardim
bebendo as sombras e o céu e as estrelas e a cidade e a luz,
à espera que a procissão passasse,
à espera de caírmos para dentro do beijo infinito e ilimitado,
sem jardins nem visões, nem estrelas, nem ânsias,
sem cidades nem céus...
VOANDO PELO ESPAÇO (1978)
Voando pelo espaço,
estatelado no chão.
Agarro-me ao balão
e subo pelo traço.
Mais uma vez o céu rodou um círculo completo à volta do horizonte
e veio parar azul outra vez à minha janela.
E eu, meio estúpido,
transformado em ave batendo as asas sem voar,
fico a sonhar com todos e com ela,
embalado nos braços de abstracto cúpido.
NÃO HÁ ESPAÇO (1979)
Não há espaço para as paredes subirem verticais até ao sol que nasce.
Não há escalas para a desentoação original das palavras.
Não há nada concreto que tenha para vos dizer.,
apenas as silhuetas altas dos meus poemas
e rios que correm, formando um espelho à superfície,
mariposas breves que andam a abraçar as flores,
aromas que os céus trazem nas tardes chilreantes de verão,
paisagens brancas que vêm com o inverno.
Não há espaço para nada, as realidades acutilam-se
como se estivessem todas fechadas numa sala pequena e escura.
Só as planícies do além é que devem ser amplas e belas.
PRECIPITADA CALMA (1980)
Precipitada calma.
O aroma de frutos entre a horta e a colheita.
O sol na janela, manhã cedo.
A pomba dos meus sonhos esvoaçava ainda nos jardins de outrora.
E esse passado era uma planície verde nos campos da memória.
A vastidão era menos vasta;
mas nesses momentos o pensamento não via diferença alguma.
Sim, se eu rir...
se eu rir, de que rirei eu ?
Rirei do meu temor, às sombras calmas da tarde,
do meu sono fatigado, cheio de ecos ao longe.
Rirei da tua imagem,
a tua imagem longínqua que me afasta de mim,
da tua luz no teu olhar, a desfazer os horizontes do sonho...
Rirei das minhas lágrimas, ao poente da minha lembrança triste.
E ver-te-ei surgir, descendo docemente da fonte,
emoldurada de flores e dissipando suaves perfumes.
Rirei outra vez do meu cansaço estúpido.
O meu sonho de te sonhar tinha sido apenas o estar longe de ti.
O AMOR (1978)
O amor canta-se com quatro letras.
Contrói-se em cidades infinitas.
Tudo derruba e tudo constrói,
e cria mesmo o que foi destruído.
Não se escreve, canta-se.
Não se canta, sente-se.
Não se sente, respira-se com os olhos da alma.
Ele já corria pelas planícies antes de existir planícies
e, no fim de tudo,
continuará a correr pelas planícies...
RELEMBRO O PASSADO (1981)
Relembro o passado.
Ninguém, de facto, me falou totalmente.
Nem eu segredei demasiadas vezes.
Os meus actos, fui eu a sua primeira e última testemunha.
Sempre fui eu a colher os frutos bons e os maus.
Não sei qual foi o entendimento entre mim e os outros,
creio que terá sido defeituoso em qualquer dos casos.
O meu perfume, ninguém o percebeu,
e ao mesmo tempo os meus sentidos ignoraram fragrâncias.
Fui talvez monstro, mas não para mim.
Sempre me julguei o herói da história,
mesmo no momento de ser enforcado.
Nunca dei nem recebi muito,
dias de tempestade, tive-os, como qualquer outro
mas, que eu saiba, as minhas tempestades sempre foram exclusivas...
NAVEGAR (1984)
Navego pela consciência de não pensar nisto.
a tentar mascarar a minha solidão
e a sonhar com o inverso do que me pesa
pela janela aberta voam borboletas
de dentro para fora
e o ar é frio
e eu estou do lado de dentro mas sei que o ar é frio do lado de fora.
a minha mente ultrapassa-me
nesta corrida sem meta real
e eu, o atleta que nunca vence,
atiro-me abaixo do precipício de me cantarem na pela a vitória...
NAQUELE DIA
Naquele dia procurei-te no café. Estava calor e o sol delirava. Não estavas lá.
Desesperado, procurei-te por onde pudesses estar.
Fui espreitar o jardim encantado, de flores vermelhas; por um telescópio espreitei o espaço, mas o foguetão que vi não tinha uma janela
por onde me pudesses acenar; procurei-te nas ruas, e descobri que as estrelas também dormem sem te encontrar.
No café, os saquinhos de açucar continuavam a subir e a descer.
Silencioso, olhei a tua fotografia. Fitavas-me com um sorriso cheio de desejo. Então, quando as palavras se juntavam num último orgasmo,
procurei-te em delírio para te pedir um cigarro.
Não te encontrei e a noite caiu.