DELÍRIO OU IMAGINAÇÃO (1973)
Arrastado, ergo-me violentamente contra o poema,
poema cintilante de cristal, de orvalho colorido
doiradas as palavras afluem em gritos eléctrónicos
em génesis de medo e êxodos
pela estrada da imaginação, nebulosa e fria,
grotescas formas saltam, e acusam, e correm,
longas vestes transparentes e infinitas
repletas de minúsculos espelhos multicores...
no ar do meu poema, gaivotas cospem restos de fascismo,
adornadas de estrelas, livres, vermelhas...
rochas de plástico marginam o mar fotografado,
irisadas de sal, nenúfares e arvéolas,
sonhando que o Homem já chegou à lua !...
suor cristalizado escorre nas faces dos palhaços,
que não representam mas vivem a sua vida,
com estilhaços de bandeiras que não puderam aproveitar.
eu, sem derrotar o poema estereoscópico,
ponho-lhe no túmulo uma flor fresca de papel
e digo-lhe que ninguém é culpado da minha
imaginação
TERRA (1973)
Terra da paranóia do amor
nunca mais te verão como eras dantes
acabaste, terra distante,
nunca mais te verão com mulheres nuas
com gatafunhos de vida vomitada
não, nunca mais te verão
como tu realmente eras, louca profundamente
terra da paranóia do amor
onde os dias se jogam e a derrota é tempo perdido
onde se bebe e onde se delira
onde se é tudo para além do monstro consciente
não nunca mais te verão
o sol à sexta-feira não fará de ti uma sombra
o sol não mais brincará contigo
porque não mais te verá...
ri-te agora dos que te chamaram louca
continuas a sê-lo, mas podes rir bem alto
és finalmente corpo enganador
e nunca mais te verão como eras
abstraíndo tudo ficam os que se riram de ti
os que te puderam tocar com as mãos
os que te viram
os que se julgaram um pouco mais acima
os que nunca mais te verão
na primavera das praias quentes abertas
das grutas das ondas da obscuridade
das estrelas amigas que nada puderam fazer por ti...
nunca mais te verão
país da paranóia do amor
onde o sol não surge à sexta-feira
A Verdade
A Verdade pode ser pura, mas nunca é simples.
As coisas nem sempre são tão más como parecem
As coisas nem sempre são tão más como parecem; às vezes são muito, muito piores.
JARDIM PARADISÍACO (1978)
Jardim paradisíaco
onde as mãos se encontravam,
e os sonhos passeavam
num horizonte idílico...
espessuras onde as aves
assomavam no céu,
e das franjas de um véu
pendiam risos graves.
Jardim nocturno onde à noite as árvores caminhavam libertas
pelas sombras das fontes,
em passos vegetais de raízes
e movimentos sincrónicos com a luz,
sorrindo no jardim
e mostrando o caminho para a casa de duendes amigos
que nos abriam na floresta a sua porta
e nos ofereciam à mesa os seus manjares mais raros,
partilhados com aves
e ocultos nas curvas acidentadas do jardim da cidade...
jardim onde a música escorria dos bancos e atravessava a praça,
às horas mortas em que os namorados tinham ido para casa
e o céu começava, com mãos amigas,
a lembrar que era tempo de recolher ao descanço da noite...
jardim louco onde se dançava à chuva, ignorando os espectros que passavam ao lado,
estendendo a mão e mostrando os olhos fixos no vazio,
enquanto procissões de formas sem conteúdo explodiam no espaço
e deixavam cores vivas no céu,
lá em cima no céu, no céu azul tão cheio de estrelas,
no doce céu que, sorrindo, nos viu nascer e crescer,
em banhos de azul que se perderam com o tempo...
jardim de dança onde se pousava o fardo por alguns momentos,
fingindo beber um pouco de água fresca
e encher o peito de brisas trigueiras e quentes,
para depis voltar à ceifa
e aos trabalhos pesados da faina...
jardim, jardim onde as palavras dançavam connosco,
em danças embalantes e sem sentido,
suando duramente das entranhas do ritmo
e atingindo cumes que nos eram proibídos,
dos quais tentávamos avistar a paisagem que sabíamos distante,
a paisagem que sabíamos invisível e oculta,
e por isso ali estávamos no jardim
bebendo as sombras e o céu e as estrelas e a cidade e a luz,
à espera que a procissão passasse,
à espera de caírmos para dentro do beijo infinito e ilimitado,
sem jardins nem visões, nem estrelas, nem ânsias,
sem cidades nem céus...
VOANDO PELO ESPAÇO (1978)
Voando pelo espaço,
estatelado no chão.
Agarro-me ao balão
e subo pelo traço.
Mais uma vez o céu rodou um círculo completo à volta do horizonte
e veio parar azul outra vez à minha janela.
E eu, meio estúpido,
transformado em ave batendo as asas sem voar,
fico a sonhar com todos e com ela,
embalado nos braços de abstracto cúpido.
NÃO HÁ ESPAÇO (1979)
Não há espaço para as paredes subirem verticais até ao sol que nasce.
Não há escalas para a desentoação original das palavras.
Não há nada concreto que tenha para vos dizer.,
apenas as silhuetas altas dos meus poemas
e rios que correm, formando um espelho à superfície,
mariposas breves que andam a abraçar as flores,
aromas que os céus trazem nas tardes chilreantes de verão,
paisagens brancas que vêm com o inverno.
Não há espaço para nada, as realidades acutilam-se
como se estivessem todas fechadas numa sala pequena e escura.
Só as planícies do além é que devem ser amplas e belas.
PRECIPITADA CALMA (1980)
Precipitada calma.
O aroma de frutos entre a horta e a colheita.
O sol na janela, manhã cedo.
A pomba dos meus sonhos esvoaçava ainda nos jardins de outrora.
E esse passado era uma planície verde nos campos da memória.
A vastidão era menos vasta;
mas nesses momentos o pensamento não via diferença alguma.
Sim, se eu rir...
se eu rir, de que rirei eu ?
Rirei do meu temor, às sombras calmas da tarde,
do meu sono fatigado, cheio de ecos ao longe.
Rirei da tua imagem,
a tua imagem longínqua que me afasta de mim,
da tua luz no teu olhar, a desfazer os horizontes do sonho...
Rirei das minhas lágrimas, ao poente da minha lembrança triste.
E ver-te-ei surgir, descendo docemente da fonte,
emoldurada de flores e dissipando suaves perfumes.
Rirei outra vez do meu cansaço estúpido.
O meu sonho de te sonhar tinha sido apenas o estar longe de ti.
O AMOR (1978)
O amor canta-se com quatro letras.
Contrói-se em cidades infinitas.
Tudo derruba e tudo constrói,
e cria mesmo o que foi destruído.
Não se escreve, canta-se.
Não se canta, sente-se.
Não se sente, respira-se com os olhos da alma.
Ele já corria pelas planícies antes de existir planícies
e, no fim de tudo,
continuará a correr pelas planícies...
RELEMBRO O PASSADO (1981)
Relembro o passado.
Ninguém, de facto, me falou totalmente.
Nem eu segredei demasiadas vezes.
Os meus actos, fui eu a sua primeira e última testemunha.
Sempre fui eu a colher os frutos bons e os maus.
Não sei qual foi o entendimento entre mim e os outros,
creio que terá sido defeituoso em qualquer dos casos.
O meu perfume, ninguém o percebeu,
e ao mesmo tempo os meus sentidos ignoraram fragrâncias.
Fui talvez monstro, mas não para mim.
Sempre me julguei o herói da história,
mesmo no momento de ser enforcado.
Nunca dei nem recebi muito,
dias de tempestade, tive-os, como qualquer outro
mas, que eu saiba, as minhas tempestades sempre foram exclusivas...