O infinito que eu tanto odiava devido ao fim em si mesmo que eu era, tomou forma, e ao olhar para ele, me deparava com suas curvas, e vi você sendo formada com uma matéria que ao se chocar com as minhas cinzas, soprou em meu ser o significado do que era, tudo...
551
HIGHLANDER
é que com ela, me sinto corajoso... aquele olhar castanho escuro reflete o meu querer, e a mim mesmo, com uma lâmina no pescoço...
513
PHUTATORIUS
Pantagruelicamente, Perfurou Prantos Proporcionou Pazes Por sobre Pântanos Prazeres Pecados Perdoáveis Pois são Perigosamente Poupáveis Pedidos Polidos Propostas Perfeitas Prisões Propensas Para promessas Pontiagudas Polinizam Primaveras Perpetuando pares Profundas profusões Pescam Peixes Petrificados Pela Poesia.
560
Quem éramos antes do mal?
não fora ontem nossa infância? não sei identificar, olho a dor no olho do outro pra saber que sou de verdade. A vida simplificou minhas vaidades; olhar pro céu sem chorar de saudade. abraços capazes de romper grades. Encontrar os anjos que amo e morar numa estrela da tarde...
522
NAVIO NEGREIRO
A noite na pele os fez tripulante, Icem as velas brancas banhadas de sangue, desfilará sob as águas e adiante, O cemitério navegante...
Ópera onde chove choros, E que na bagunça dos gritos, Perde - se até o próprio nome, Buscar o canto dos pássaros, E a trilha sonóra ser a própria fome...
Com sede, Delirantes, Uns se atiram ao abraço do mar, Na fuga dos tubarões brancos caminhantes...
Magras, As esperanças, Parecem até o sorriso, de nossas crianças, Tratadas como se não houvesse alma e coração em seus corpos, Estampado no peito, Uma orquestra de ossos, goteiras, Tornaram - se mamadeiras, Faces frias, Selas comprimidas, Lágrimas escorrem, temperando feridas...
O tinir do ferro, Como um ranger de dentes, Imaginar o som da liberdade, Raspando correntes...
Santo, É quando o mar está franco, Em devaneios afirmam, Que o inferno é branco...
Silêncio construído, A base de cortes, No ar, O estalar de chicotes...
O inferno com caravelas, Não pregou os olhos, comeu as remelas...
A sujeira e o mal odor, No corpo, Criaram - se Crostas, De chuveiro, A madeira arrastada nas costas,
Repetiu o presságio, Não mais sonhavam com terras, E sim com naufrágio...
A friagem crua, Refletida na lua, O arrepio na espinha, Da mãe que fica nua...
Desconhecem seus lares, Enterrados, Sob 7 mares, A melanina, O motivo de seus pesares, Enegreceram - se os pulmões, Com a falta dos ares...
O enegrecer da pele, Tratado como doença, Tornou pessoas, sua própria sentença...
A noite na pele os fez tripulante, De século em século vestimos as máscaras, Deste triste semblante...
564
VENDAVAL
Só desejei o fim do túnel, Quando notei que você era a luz, Bençãos dançaram sob meus céus, Com o entrelance de nossos pecados, O pôr do sol de meu mundo, Traí com o teu sorriso, A claridade do dia, Denuncia o amor nos meus olhos, Por sorte, A noite castanha escura que traz consigo no olhar, sempre recobre minhas fraquezas... É querer que o mundo acabe, Com tua voz no pé do ouvido, É imaginar o ouro do céu, A partir da precisiosidade do teu riso... Navega sobre meus lábios, Me beija de forma decadente, E não para, até ver meu naufrágio...
527
Chuva de prata
Vem, e traz aquele beijo que sacia minha sede
Quero beijar - te cedo até o raiar da aurora
Contigo o infinito és aqui e agora
Deita - te, o céu para ti não passa de uma rede
tua presença, é fantasia que me arrebata
Dentro dos teus olhos observo o que és e em vão tento abraçar este mar gigantesco
Pois é a pintura que faz do homem pintor, e porventura és tu que faz da vida um afresco
Inunda minh' alma numa chuva de prata
66
Beleza ingrata
Poesias e versos são coisas malditas; Ingratas se nascem da flor e jorram beleza quando brotam das feridas...
68
Bicho barbeiro
Olhe nos meus olhos e não negues o que vês,
Replique as tentativas em uma, duas, três...
Verás a face de um animal barroco;
Bicho barbeiro no barro de Deus,
Cuja chaga engrandece o teu peito oco.
64
Anjo no vidral
Um gosto intragável na boca me vem quando imagino o meu destino
Insisto a passear num trem, que não se sabe de onde vem, cujo trilho é o desatino
Não me recordo quando cheguei ou se apenas sonhei com sinos e esta catedral
Local onde fui rei, me casei, e porventura me tornei: o anjo chorando estampado no vidral
Ó que angústia não reconhecer o próprio coração...
Que raiva que me dá, o que farei com esta pedra no meu peito já embrutecida?
Arrancar do peito fora, e sem demora... - alvejar o belo rosto da vida?