Lista de Poemas

Dias Cinzentos

E nesses dias em que a inspiração me falha e se acovarda, eu percebo que a única idéia brilhante que tenho é viver. Viver e exigir tudo que me é plausível, que me é formidável, que me é prazeroso. E exigirei sim, para que depois não digam que eu quis e desejei muito pouco as coisas que me eram verdadeiramente boas; para que não digam que eu mereci a sarjeta e um espírito torpe a me perseguir. Querer é descobrir em si uma ânsia funda, onde cabe um nome, onde cabe um grito ou até uma planta. Querer é remover o vírus de quem se acomoda por cima de uma cama estando em plena saúde; querer é ter nascido; querer é pôr fogo na água do íntimo; é sonhar mesmo que não faça nenhum sentido... Querer é direito adquirido__ sonhemos!!!

E eu vou continuar querendo, pois como eu já disse, a grande idéia que tive é continuar vivendo. Às vezes se perde um grande amigo ou simplesmente ele parte na nossa frente e descobrimos que nossa dor não é ferrugem para cessar as engrenagens da vida e por isso todo o seu movimento continua. Nossa dor não falará em todas as línguas e conseqüentemente não será entendida por todos.

Os dias podem até vir sem inspiração alguma, mas nossa respiração continua, meus amigos!

Quero terminar como comecei e ser propositalmente repetitivo ao dizer que a única idéia brilhante que tenho e tive é viver. Quero ver essa chuva de Novembro e sentir de algum modo que tudo vale a pena, até mesmo este meu descontentamento com não sei o quê.
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Domador de Misterios

Sou domador de mistérios. Um domador dos meus mistérios. Não é a aspereza do chicote que conta e nem os dias em que deixo meus segredos passarem fome. Não é nada disso. Eu os domo por um motivo muito simples. Reconhecem em mim um pedaço da própria carne e assim me permitem ir um pouco mais fundo em águas que desconhecem o que é luz do sol, areia e superfície.

Tenho meus mistérios. Tenho planos secretos. Desejos escondidos passeiam pelas minhas veias como se estivessem num salão de festas e se misturam ao meu sangue O+ de Conan, o bárbaro. Tenho um sonho preso no canto do olho e uma palavra oculta por entre as rachaduras de minha língua geográfica. Há um impulso sedento e aceso neste meu peito de pular de asa delta e torcer pelo vento mais forte que eu encontrar pela frente. Eu quero pousar com segurança, mas sempre temendo o impacto de uma queda ou do solo seguro. Se não for assim não acho graça nenhuma.


Não há mistério que fuja. Sempre o descubro e o jogo na masmorra impiedosa do meu entendimento, onde não há espaço para enigmas ou escritas incompreensíveis. Onde meu ácido-sulfúrico-raciocínio corrói tudo. Lá tudo se torna claro e nu como a vergonha dos primeiros humanos no Jardim chamado Éden...jardim antigo. Não mato mistérios. Eu os trato, dou atenção e afago até que percebam que foram vencidos e cativados.
Eu não sabia, mas todos os mistérios são uns iguais aos outros. As pessoas são todas iguais em essência, sentem praticamente as mesmas coisas e as diferenças são mínimas.
Eu tinha 11 anos quando resolvi rebaixar os meus mistérios em meros segredos e esta foi a porta avulsa de uma dimensão alheia na qual viajo pelo intervalo do tempo sob leis de uma Física ainda não conhecida.
''Eu sei o que você fez no verão passado''.
Eu sei o que você fez um dia.
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Codinome Esperança

Para ela aquilo tudo não era loucura. Ela esperaria sim um pouco mais de chão, possibilidades, ajustes e um coração novinho em folha...mas não tinha pressa.

Ela, que viu corpos suados, desejos, lágrimas e campos de batalhas, percebia que o Amor e a Guerra usavam o mesmo cenário e o mesmos requintes de crueldade. Um amigo do peito e de infância deu a ela o livro de Sun Tzu, A Arte da Guerra. Queria que ela se tornasse uma estrategista e escapasse dos terrenos sentimentais minados. Ela já havia se explodido muito. Ele mesmo já havia visto aquela mulher ir pelos ares diversas vezes. Simplesmente não entendia como ela se recompunha tantas vezes e tão rapidamente. Talvez ela fosse uma Mutante e ele não sabia.

Por educação ela aceitou o livro. Por curiosidade ela leu algumas linhas. Por respeito e consideração ela guardou-o num lugar secreto na estante de seu quarto e nunca mais o leu.


E porque era Mulher ela não deu a mínima àquelas páginas. E porque era Mulher respirou fundo, abriu um sorriso e com olhos brilhando foi se explodir mais um pouco. Havia ainda pedaços intactos em seu corpo e alma__e aquilo de se ter pedaços ainda inteiros instintivamente a incomodava.

Além do que ela sentia que o Amor valia à pena. Além do que ela se chamava Mulher.
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Manhãs, Mulher e Melancolia

Densa e quente como uma larva de vulcão, eu desço das montanhas mais altas. Ignoro as paisagens verdes pelas quais eu passo e que me reportam a um tempo bom que ficou distante. Às vezes acho a vida chata em igual número de vezes em que a acho interessante. Mais do que a falta deles, os amores me deixaram assim. Criaram em mim uma mulher livre, presa dentro de si mesma. Uma mulher livre que cumpre sua sina de ir e vir incessantemente, na maioria das vezes, todas a esmo. Em cada passo dado eu conto o vazio a que me entregam. Um vazio intenso como um eco a me gritar pelo interior de uma caverna, cujas paredes rochosas distorcem cada sílaba e morfema deste meu nome tão pequeno.

Terá curiosidade quando perceber que minha tristeza é espessa e pode até ser tocada e sujar a mão com ela. Não me pergunte qual a cor de minha tristeza, pois em tempos em que o sorriso é raro tudo não passa de cinza, numa melancolia nostalgicamente daltônica. Uma espécie de areia movediça pela qual me afundo, surpreendo e renasço. Qual seria a estória que carrego comigo dentro deste peito insólito e sem muito nexo?

Num sobressalto de agonia eu desperto no meio da noite e interrompo um sonho antigo. Nele, as vozes, o cheiro e os sorrisos, que fizeram de mim uma amante das coisas inérteis e frias, me pedem abrigo. E vou até a varanda desta minha casa escura, onde lá, sendo madrugada, eu me junto a treva que me consola e já consigo me acalmar tendo como companhia o silêncio noturno e o barulho sagrado das coisas não-ditas__e me curo.

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A Lenda da Cidade das Maos Dadas

Venho aqui contar a Lenda da Cidade das Mãos Dadas. Na Cidade das Mãos Dadas existe a mão que se cola a tua e que não se pergunta até quando, até onde, nem se diz adeus e nem mesmo até breve. Lá não existe o desespero, visto que a palavra é feia e não transmite nada além daquilo que origina o choro. Lá se permite apenas o desejo de que o afago e o abraço sejam o mais demorado possível. Lá se permite sim, que o beijo revele o que ainda as bocas distantes não sabem. Há o beijo inflamável que queima o pessimismo e a pele até o final da tarde; que se incendeia numa reação em cadeia de amor , saliva e respeito. Na Cidade das Mãos Dadas, as mãos viram asas e as nuvens viram calçadas em Domingos de alento, sombra e brandura cor escarlate. As frases são ditas murmuradas e recheadas de pausas já que certas coisas não se falam rápido e nem alto. Exigem uma vagarosidade planejada, exigem naturalidade e mínimos detalhes, exigem não se pensar em tudo e nem em nada, permitindo-se assim que o instinto torne-se o mais novo e importante convidado nesta festa de sensações em demasia. Nesta cidade cujas catedrais entoam os cantos mais bonitos eu encontrei uma mão e um mindinho__ e ambos me acolheram e disseram 'Seja bem-vindo' !

Na Cidade das Mãos Dadas não se preocupem com quem vem lá__ é quase certo de que seja sua alma gêmea__ com um mindinho à solta, flutuando pela atmosfera.
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Precipício

A gente que viaja pelas beiradas da palavra
sabe do precipício,
sabe aonde tudo acaba.
Sabe que o Início é meramente um ser fictício,
não existe,
é só mais um conto de fadas.
Sabe que a Liberdade é um recinto
de portas e janelas largas,
porém lacradas.
Parabenizo o Nada com uma salva de palmas,
pois de tudo que se finge
ele é o sentimento mais sóbrio
aquele que chega forte
ao cair da tarde
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Texto(Sterona)

Eu estava denso e exótico dentro daquelas roupas. Cada um de meus movimentos eram códigos e pistas perfeitos às mulheres que ao meu redor seduziam-me com gestos muitas vezes até inconscientes e quase invisíveis, quase imperceptíveis. Gestos estes denunciados pelos meus elevados níveis de testosterona nascidos de meu lado animal de puro instinto e selvageria__ vem comigo ?
Eu sentia no ar toda aquela alquimia, cujo cheiro feminino e afrodisíaco daquelas bocas dotadas de línguas úmidas me lembravam de que material também fui feito, além de espírito. Meu coração oferecia imagens impressionantes de amor em coretos de praças e de encontros ardentes e inesquecíveis. Dinâmico e incessante eu caminhava por aquela calçada como se estivesse ouvindo a trilha sonora de minha vida ou fosse receber o Oscar das mãos de um ícone. Eu rasgaria uma peça íntima com os dentes naquele momento ou queimaria o Título 'Civilidade' que tenho e trocaria pela Alcunha 'Desejo'.
Esplêndido! Aquilo era mais um raiar de um novo dia. Um dia depois do fim. Era mais uma chance d'eu escrever uma estória arrebatadora. Ao cair da noite, eu sentado em meu sofá ou talvez num bar, poderia ler mais um capítulo de minha própria vida, onde nada é fictício e os gêneros se misturam.
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Sabores

Nada como uma Segunda-Feira após a outra. São elas que nos possibilitam confirmar ou abalar nossas convicções. Às vezes deixo de acreditar em coisas que eu defendia na semana passada. Outras vezes acabo acreditando em coisas que eu duvidava.

E a Vida segue assim...sempre.

Podemos num dia querer o mel mais doce ao qual já estamos acostumados e num outro desejarmos com toda nossa força o sabor que mais arde e que ainda não experimentamos.

E tudo é questão de sermos humanos...e somos!
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Adélia

Eu sei que ela leria um livro em qualquer lugar. Afinal ela sempre ouvia uma doce música vinda das páginas quando as abria. Um toque sublime e imaginário de piano e nostalgia...delícia. Aliás nunca se soube ao certo quem abria quem ou o quê. Às vezes se tinha a nítida impressão de que os livros é que abriam Adélia e a viravam do avesso.
A-DÉ-LIA: que linda menina perfeitamente disfarçada de mulher!!! Parecia salva de tudo quando lia uma boa estória. Sua vida seguia. Letra por letra, fonemas por fonemas. Idéias e Mundos invisíveis só aos cegos por opção ou pela tristeza do analfabetismo.

__Ei Adélia, desça dessa árvore, menina!
Não havia como descer. Adélia não descia. Ela lia um livro lá em cima. Respirava fundo quando algum trecho lhe lembrava coisas que vinham à tona de vez em quando.
__Adélia, os carros vão te atropelar! Pelo amor de Deus, Adélia!
Mas ela não tinha medo de morrer atropelada. Ela tinha medo de morrer sem poder ler um bom livro, um olhar..um conto de fadas.

Um dia num papel letras e mais letras se encarregaram de lhe dar uma notícia, a mais triste de sua vida. Um exame de saúde nada rotineiro deu positivo. E ela já sabia que aquilo era o fim de sua jornada humana. Se encheu de tristeza quando pensou nos livros que não mais leria, naqueles que estavam ainda sendo publicados e em todos os outros que já existiam.

Um trecho de um livro foi lido em seu enterro__ o Livro Sagrado. Não, não chovia forte. Aquilo não era um filme. Adélia havia mesmo ido.
Adélia nunca quis ser uma estrela no céu. Bastava a ela ser página de livro.
Por que diabos, pessoas assim morrem__se perguntavam em silêncio os mais achegados e amigos. A resposta não viria.

Gustavo, namorado de Adélia, voltou mais tarde naquele jazigo. Retirou do bolso uma página de um livro lido por ela e jogou por sobre a terra que a cobria, que cobria Adélia. Era um epílogo e tinha esses dizeres que um dia foram sublinhados por ela:

''...já fui Caminho, já fui Paisagem e hoje sou Destino''.

Gustavo chorou. Para ele não havia ninguém como Adélia no Mundo.
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Insônia

Em uma época distante fui adepto à pratica de dormir à noite. Tenho saudades. Hoje, confesso que já não consigo. Dormir me parece uma palavra longínqua que me lembra infância e paz__ duas das coisas que me abandonaram na madrugada. Hoje sou um homem de mente inquieta, de visão perturbada por coisas, acreditem, que não vejo. E passo a maior parte do tempo me intrigando com notícias que não são comigo, com palavras que não foram direcionadas aos meus ossos ou ouvidos e com fatos que aconteceram a outros seres vivos. Sinceramente, não sei e não quero fugir disso.

Hoje em dia já tenho dois fios de cabelo branco...e contando__ é só o início.
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