yuri petrilli

yuri petrilli

n. 2000 BR BR

@petrillipoesia no instagram

n. 2000-12-26, Cerquilho SP

Perfil
45 279 Visualizações

três sonetilhos

I

este infinito instante
em que vives agora
basta apenas que pisques
e pronto: é memória

inda não dás por isto
à sombra das batalhas
mas o tempo que torna
as crianças grisalhas

é este mesmo que colhe
teus momentos dispersos
e te confunde os olhos

para te dar, enfim,
da vida, alguns versos,
dos sonhos, seus espólios.


II

abre os olhos e vê:
o tempo já passou.
apenas em você
o instante não murchou.

este lugar não é
o de quando eras outro.
se aqui ainda vives,
talvez estejas morto.

nem houve no intervalo
de tempo dos teus olhos
qualquer sonho ou excesso...

mas se passaram anos.
e é como se tivesses
vivido em retrospecto.


III

como aceitar que a mão
que a minha mão enlaça
é só minha outra mão
que o coração disfarça?

a memória é um tecido
assim dissimulado
que tanto nos engana
mesmo estando rasgado

ah, que doce a mentira
que em mim se acalora
quase fisicamente...

mas o tecido é falho.
e as minhas mãos se esfriam
melancolicamente...

Ler poema completo

Poemas

4

poema sonolento

duas da madrugada.

conforme o anseio de nadar
se vai sucumbindo
ao de entregar-se às águas,
um nome ecoa
nas conchas do mar...
e em meus ouvidos naufragam as mágoas.

três da madrugada.

nenhuma porta suspensa no ar,
e, se acaso houvesse,
eu decerto a fecharia.
nem porto a destino, nem cais a que atar-se.
um lençol de maresia encobre a tudo...
e nunca fora tão pacífico afogar-se.

quatro da madrugada.

nenhuma lágrima pela luta perdida.
nenhum pungente impulso
por compreender ou transformar.
sumberso, vê-se, de fato, a tudo:
vária paisagem amorfa
de que mais parece que se vai despertar.

cinco, seis, sete, oito, infinito.

o tempo cambaleia no meio sono.
o tempo sonâmbulo confunde as coisas.

e tudo pesa sobre os olhos
em uma fração de segundo...
um indefinido segundo
prolongando-se, a cismar,
o coitado: só mais um mísero mundo.
mais um que o sol virá matar.

dorme o coração que desconhece
o nome que ecoa nas conchas.
330

presença

há algo na tua presença,
sim, na tua presença,
que me ficou impresso em tua ausência,
desse jeito, independente...
e que a mim regressa sempre
por através de caminhos distintos.

mesmo a luz que me rege se rende
à tua figura amorfa remanescente:
mesmo que não estejas,
permanece a tua sombra,
e tudo à tal sombra se dá.

talvez porque de mim fiz uma casa a nós,
em um passado em que ainda era possível sonhar:
agora, sou uma casa sem lar,
de janelas quebradas e vivas
situada em uma rua deserta.
uma casa a que não se demole por pena,
e que se faz abrigo de fantasmas.
os mais lindos fantasmas.
os mais incompletos fantasmas.
as paredes frias compostas de silêncio,
emoldurando a porta,
e nela um cadeado – como um milímetro que separasse,
por eternidade,
dois lábios que se pertencessem.

talvez porque de mim fizeste teu deleite,
e me insinuaste teus segredos
em meus recantos menos nobres,
eternamente ardentes e incônscios,
apaixonados pela sombra à ausência da figura,
apaixonados e tristes,
porque não entendem que a vida se transforma.

talvez porque a cidade permanece a mesma,
e toda ela já nos viu passar:
esta cidade que fala demais
com casas e árvores repetidas,
com palavras repetidas,
inquiridora, galeria de espelhos.
esta cidade
que me traz de volta estes lugares
a que ainda te projeto através dos olhos,
assim como uma luz de lanterna
que denunciasse uma rosa no escuro:
uma rosa murcha,
tão murcha
e humilde,
e contrita, como se esperasse, talvez,
que lhe descesse de um céu turvo
o milagre de um perdão definitivo.
uma rosa tão murcha...
mas
tão bonita.

de qualquer maneira, é certo:
há algo no que foi tua presença
que resiste imenso, monumental,
e simples.
há algo.
resta algo.
e por isso retornas a mim repetidas vezes.
trazendo, sempre, nos teus olhos ilusórios,
a chave do cadeado,
a água para a sede dos abismos,
a possibilidade de suturar os lugares que sangram;
sem que para tanto necessites dar um passo,
sem que seja necessário um gesto.

sim, algo...
e eu estou triste,
e respiro profundamente
e escrevo desatentamente:
não é preciso atenção,
pois tua mão me calça a minha mão, agora, e me guia
através destas linhas inúteis
em direção a você – talvez na contramão de todo o resto.

em direção a esta duradoura presença
que não compreendo.
essa presença
tão distante
que só assim a ouso buscar,
e ainda assim tão presente
que não buscar se faz impossível.

algo
que chora
na casa vazia.
261

reinos

rei de nada, assento-me em cada trono
de cada instante sem posse ou vaidade:
que seja a eternidade só um sono,
que seja a vida a única verdade.

em deixar que caia a breve coroa
não há sofrimento nem abandono:
o que foi, se vai: junto ao tempo voa;
e é-me leve - pois nunca fui seu dono.

pois mais suave é a areia que, entre os dedos,
escorre, elaborando seus castelos
num chão que encerra todos os segredos,

sem elo ou perspectiva de ter elos.
e eis que vejo, rei de nada, sem medos:
tais castelos são, ao vento, mais belos.
298

três sonetilhos

I

este infinito instante
em que vives agora
basta apenas que pisques
e pronto: é memória

inda não dás por isto
à sombra das batalhas
mas o tempo que torna
as crianças grisalhas

é este mesmo que colhe
teus momentos dispersos
e te confunde os olhos

para te dar, enfim,
da vida, alguns versos,
dos sonhos, seus espólios.


II

abre os olhos e vê:
o tempo já passou.
apenas em você
o instante não murchou.

este lugar não é
o de quando eras outro.
se aqui ainda vives,
talvez estejas morto.

nem houve no intervalo
de tempo dos teus olhos
qualquer sonho ou excesso...

mas se passaram anos.
e é como se tivesses
vivido em retrospecto.


III

como aceitar que a mão
que a minha mão enlaça
é só minha outra mão
que o coração disfarça?

a memória é um tecido
assim dissimulado
que tanto nos engana
mesmo estando rasgado

ah, que doce a mentira
que em mim se acalora
quase fisicamente...

mas o tecido é falho.
e as minhas mãos se esfriam
melancolicamente...

837

Comentários (4)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
sthefany

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi

Belos textos.