conforme o anseio de nadar se vai sucumbindo ao de entregar-se às águas, um nome ecoa nas conchas do mar... e em meus ouvidos naufragam as mágoas.
três da madrugada.
nenhuma porta suspensa no ar, e, se acaso houvesse, eu decerto a fecharia. nem porto a destino, nem cais a que atar-se. um lençol de maresia encobre a tudo... e nunca fora tão pacífico afogar-se.
quatro da madrugada.
nenhuma lágrima pela luta perdida. nenhum pungente impulso por compreender ou transformar. sumberso, vê-se, de fato, a tudo: vária paisagem amorfa de que mais parece que se vai despertar.
cinco, seis, sete, oito, infinito.
o tempo cambaleia no meio sono. o tempo sonâmbulo confunde as coisas.
e tudo pesa sobre os olhos em uma fração de segundo... um indefinido segundo prolongando-se, a cismar, o coitado: só mais um mísero mundo. mais um que o sol virá matar.
dorme o coração que desconhece o nome que ecoa nas conchas.
330
presença
há algo na tua presença, sim, na tua presença, que me ficou impresso em tua ausência, desse jeito, independente... e que a mim regressa sempre por através de caminhos distintos.
mesmo a luz que me rege se rende à tua figura amorfa remanescente: mesmo que não estejas, permanece a tua sombra, e tudo à tal sombra se dá.
talvez porque de mim fiz uma casa a nós, em um passado em que ainda era possível sonhar: agora, sou uma casa sem lar, de janelas quebradas e vivas situada em uma rua deserta. uma casa a que não se demole por pena, e que se faz abrigo de fantasmas. os mais lindos fantasmas. os mais incompletos fantasmas. as paredes frias compostas de silêncio, emoldurando a porta, e nela um cadeado – como um milímetro que separasse, por eternidade, dois lábios que se pertencessem.
talvez porque de mim fizeste teu deleite, e me insinuaste teus segredos em meus recantos menos nobres, eternamente ardentes e incônscios, apaixonados pela sombra à ausência da figura, apaixonados e tristes, porque não entendem que a vida se transforma.
talvez porque a cidade permanece a mesma, e toda ela já nos viu passar: esta cidade que fala demais com casas e árvores repetidas, com palavras repetidas, inquiridora, galeria de espelhos. esta cidade que me traz de volta estes lugares a que ainda te projeto através dos olhos, assim como uma luz de lanterna que denunciasse uma rosa no escuro: uma rosa murcha, tão murcha e humilde, e contrita, como se esperasse, talvez, que lhe descesse de um céu turvo o milagre de um perdão definitivo. uma rosa tão murcha... mas tão bonita.
de qualquer maneira, é certo: há algo no que foi tua presença que resiste imenso, monumental, e simples. há algo. resta algo. e por isso retornas a mim repetidas vezes. trazendo, sempre, nos teus olhos ilusórios, a chave do cadeado, a água para a sede dos abismos, a possibilidade de suturar os lugares que sangram; sem que para tanto necessites dar um passo, sem que seja necessário um gesto.
sim, algo... e eu estou triste, e respiro profundamente e escrevo desatentamente: não é preciso atenção, pois tua mão me calça a minha mão, agora, e me guia através destas linhas inúteis em direção a você – talvez na contramão de todo o resto.
em direção a esta duradoura presença que não compreendo. essa presença tão distante que só assim a ouso buscar, e ainda assim tão presente que não buscar se faz impossível.
algo que chora na casa vazia.
261
reinos
rei de nada, assento-me em cada trono de cada instante sem posse ou vaidade: que seja a eternidade só um sono, que seja a vida a única verdade.
em deixar que caia a breve coroa não há sofrimento nem abandono: o que foi, se vai: junto ao tempo voa; e é-me leve - pois nunca fui seu dono.
pois mais suave é a areia que, entre os dedos, escorre, elaborando seus castelos num chão que encerra todos os segredos,
sem elo ou perspectiva de ter elos. e eis que vejo, rei de nada, sem medos: tais castelos são, ao vento, mais belos.
298
três sonetilhos
I
este infinito instante em que vives agora basta apenas que pisques e pronto: é memória
inda não dás por isto à sombra das batalhas mas o tempo que torna as crianças grisalhas
é este mesmo que colhe teus momentos dispersos e te confunde os olhos
para te dar, enfim, da vida, alguns versos, dos sonhos, seus espólios.
II
abre os olhos e vê: o tempo já passou. apenas em você o instante não murchou.
este lugar não é o de quando eras outro. se aqui ainda vives, talvez estejas morto.
nem houve no intervalo de tempo dos teus olhos qualquer sonho ou excesso...
mas se passaram anos. e é como se tivesses vivido em retrospecto.
III
como aceitar que a mão que a minha mão enlaça é só minha outra mão que o coração disfarça?
a memória é um tecido assim dissimulado que tanto nos engana mesmo estando rasgado
ah, que doce a mentira que em mim se acalora quase fisicamente...
mas o tecido é falho. e as minhas mãos se esfriam melancolicamente...