quando a lua abocanha o sono e a sensação noturna paralisa as mãos, percebe-se que entre escrever sobre o peso do mundo e escrever sob o peso do mundo, existe um precipício de bem mais que só preposição.
798
o poema
o poema nasce no instante e o instante o devora, abstrato.
escrevê-lo é escrever sua cartilagem. escrevê-lo é escrever seus restos de ossos.
é dispor uma coisa viva e pungente na carniçaria das palavras.
é buscar aludir a jardins e chuvas tendo as narinas cônscias da putrefação.
todo verso é uma carta saudosa a um outro verso que ficara preso.
todo poema é um réquiem à possibilidade de parir o poema do instante.
278
abóbora
talvez tenham falado sobre orvalhos de modo tão somente literário. talvez nunca tenham visto, em verdade, o vidro aquoso na folha da couve, a deslizar e a encerrar as belezas todas, enquanto a manhã se desata.
talvez tenham falado sobre os frutos (e eu os tenha ouvido sem devido afinco) falando, apenas – com lindas frases. mas talvez nunca tenham visto, mesmo, a abóbora amarela a elaborar-se vagarosamente, onde as mãos cavaram.
talvez o fado da palavra seja o encantamento que se dá por erro. talvez só os olhos leiam com mais clareza, e a pele colha com mais contrição os sopros dos ventos que nada falam – mas dizem, pois tocam o cerne mudo.
talvez não tenham falado o bastante. talvez me tenha faltado sentir. talvez nada disso seja importante. mas é necessário ver, sem mais nada. mas é necessário transpor a página e trazer ao sangue as cores dos caules.
280
contradição
e eu, que me apavoro ante a eternidade, ainda sofro ante a fugacidade de tudo quanto me proponho amar.
dentre as inconsistências, é a mais bela: anseia permanências à janela, e espia despedidas no alto mar.
são duas flores crescendo enroscadas – estas predileções infortunadas –, ferindo, uma a outra, em seus espinhos.
e eu, que me apavoro ante ao sangue vasto, pinto certezas que depois devasto, e em minhas mãos se quebram os caminhos.
como conter em mim isto que aspira, se já me cinge o que em mim suspira pelo repouso e o gozo de cessar?
que céus me darão melhores crepúsculos? que silêncios me descansarão os músculos? quanto será o bastante pra bastar?
sou como a erva que escorre do muro ou como a estrela que morre no escuro, precário pêndulo entre o nada e o isto.
sou um instante disperso que sinto reverberar em um seio sucinto: eis toda a dor e a beleza em que existo.
77
o homem
o homem constrói faróis no próprio umbigo, faróis que sugerem lares incertos e disparam escuridão nas ilhas que se movem sobre os oceanos.
o homem inventa paisagens verbais com formas e belezas literárias, as prende eternamente nas palavras e sofre pelo mundo não ser página.
o homem morde o relógio como ao pão sozinho no escuro, à espera, talvez, de um amigo – embora não saiba amar.
o homem regressa a si mesmo, infinito, vencido. o homem se come pelas pernas. seu tempo é sua própria indigestão.
600
cosmologia
ver-te nua a compor constelações:
a água percorre teu cosmos febril, a lâmpada te cede a estrela infante
se sobre a pele não se guarda o instante, sob a pele se guarda o arrepio
576
tríptico sem título
I
meu coração se dissipou no laço. restou-me o laço, amarrado no peito. restou-me o peito, vazio descompasso. restou-me o coração na mão sem jeito,
pois que do peito, onde antes se cumpria, dissipou-se. enforcou-se na lembrança. partiu para fora da poesia. caiu na minha mão, sem esperança.
mas, coração, tem olhos e calor. olhos que guardam o abismo e o espelho. o vejo. me vê... (quase uma centelha).
se dissipará na mão o seu fulgor. depois nada. nada? ...não. - o vermelho laço restará na morada velha.
II
não tenho flor com que adornar o rude labirinto de artérias e de músculos que me compõe a vida. onde pude, busquei. destrinchei mesmo os mais minúsculos
canteiros pisoteados das praças da cidade, por onde o coração, que tive, caminhava, em noites baças, chutando latas - e recordação.
não tenho flor. não tenho rima ou verso. tenho palavras. tenho duas mãos, dentre as quais só uma escreve - impelida
pela falta. pelo pouco. pelo inverso. nem disso a flor nasce. ah, e são tão vãos os espólios desta ausência partida!...
III
a serpente se insere no silêncio. nada é feito. então, vêm as aranhas. nada é feito, mas visto: um olhar pênsil (o meu?) o assiste. mas as teias, tamanhas,
estão já armadas para a captura. serpente e aranhas. nada, nada é feito. outro olhar vê. e outro. e outro. e da impura inação surgem moscas. zumbe o peito
(o meu?) que se supõe bem mais sensível, e indaga, contente, qual a razão da perpetuação de tal má sorte.
por fora: "ninguém se importa? é possível?" (mas a esperança dorme em sua mão.) por dentro: "é. talvez nem eu me importe"
72
tríptico de outubro
i.
a noite acusa crimes diurnos.
ii.
espias pela janela e sabes: ninguém te espera.
fitas o fundo da noite e sentes: ninguém te ouve.
anônimo e só, não há estrela visível, não há esperança por acaso plausível, e a música que se insinua distante é apenas um borrão sonoro indistinguível.
entendes que não virá canto compensar a treva dispersa, e mesmo o campo já não te comove (viste lá também a morte).
sabes, pequeno, das dores, das flores, dos bichos, das chuvas, dos instantes se esfarelando... esqueces e calas. muito não sabes ainda do que ainda te fará sofrer, e só o compreendes de longe.
e ainda assim em ti se faz um poema: um poema se faz nas suas entranhas.
um poema forjado com palavras indizíveis, dolorosas, extraídas das turvas formas e faces da noite.
um poema que ninguém espera, um poema que ninguém ouve, um poema retorcido, heroico, imenso e patético que ninguém jamais saberá sequer que um dia existiu.
mas tu, e só tu só, à janela de ferro pobre, carregas a dor e sabes que o poema existe.
e persiste por idades cruamente.
iii.
a noite destilada decomposta pinga na ferida exposta que arde e se fecha lentamente.
provisoriamente são absolvidos os mutiladores confessos de alvoradas.
dormem todos... – com facas e sementes nas mãos fechadas.
74
ambíguo
não tens resposta e não teces proposta em poema. lamentas, mas lamentos são cansativos e cansar desgosta. já não te alevantas contra os momentos.
a poesia esvaziou-se toda. a poesia não tem mais poesia. na superfície pensas: "que se foda, é isto", mas, de fato, sob a névoa fria
e espessa que paira sobre teus olhos (e que te impele a escrever de tal modo, alheio e amargurado, como agora)
cativas a luminescência entre espólios. és vela opaca sobre um mundo todo. e és o próprio pavio que te devora.
587
o tempo e as coisas
fará cinquenta anos o primeiro videogame e logo vinte anos de eu menino a teimar: "deixa eu jogar!" (à noite), e minha mãe: "não teime!". e ainda haverá o meu irmão para teimar.
fará trinta anos o filme que via há tanto, filme que via sabendo que ia me assustar. fará trinta anos! cinquenta, cem... e, no entanto, ainda haverá o meu amigo para se assustar.
fará seis anos o momento que passei, lembrança compartilhada a reverberar. momento que se distancia no que sei. e ainda haverá a minha irmã para o lembrar.
depois não serei. o que fui vai se acabar. e ainda haverá algo meu no tempo e coisas, no ar.