Manhã Com Ar
Do ar livre prisioneiro vai
um homem no meio da manhã
como um globo de cristal.
Que pode saber e conhecer
se está encerrado como um peixe
entre o espaço e o silêncio,
se as folhagens inocentes
lhe escondem as moscas do mal?
Ê meu dever de sacerdote,
de geógrafo arrependido,
de naturalista enganado,
abrir os olhos do viageiro.
Paro no meio do caminho
e detenho sua bicicleta:
Olvidas, digo-lhe, vilão,
ignorante cheio de oxigênio,
o tugúrio das desditas
e os rincões humilhados?
Ignoras que ali com punhal,
aqui com garrote e pedrada,
mais além com revólver negro
e em Chicago com tenazes
se assassinam as alimárias,
se despedaçam as pombas
e se degolam as melancias?
Arrepende-te do oxigênio,
disse ao viageiro surpreendido,
não se tem direito de entregar a vida
à exclusiva transparência.
E preciso entrar na casa escura,
entrar no beco da morte,
tocar o sangue e o terror,
compartir o mal espantoso.
O transeunte me cravou
seus dois olhos incompreensivos
e se afastou na luz do sol
sem responder nem compreender.
E me deixou — triste de mim —
Falando só pelo caminho.
Uma Situação Insustentável
Tanto se falou dos defuntos
na família de Ostrogodo
que ocorreu uma coisa curiosa,
digna de ser estabelecida.
Falavam tanto dos mortos
perto do fogo todo dia,
do primo Carlos, de Felipe,
de Carlota, monja defunta,
de Candelario sepultado,
enfim, não terminavam nunca
de recordar o que não vivia.
Foi então que naquela casa
de escuros pátios e laranjeiras,
no salão de piano negro,
nos corredores sepulcrais,
se instalaram muitos defuntos
que se sentiram em sua casa.
Lentamente, como afogados
naqueles jardins cinzentos
pululavam como morcegos,
dobravam-se como guarda-chuvas
para dormir ou meditar
e deixavam nos sofás
um cheiro acre de tumba,
uma aura que invadiu a casa,
um abano insuportável
de seda cor de naufrágio.
A família Ostrogodo apenas
sim se atrevia a respirar:
era tão puro seu respeito
aos aspectos da morte.
E se aminorados sofriam
ninguém lhes escutou um sussurro.
(Porque falando de economia
aquela invasão silenciosa
não lhes gastava os bolsos:
os mortos não comem nem fumam,
sem dúvida isto é satisfatório,
mas na verdade ocupavam
mais e mais lugares na casa.)
Pendiam dos cortinados,
sentavam-se nas floreiras,
disputavam a poltrona
de Dom Filiberto Ostrogodo,
e ocupavam por longo tempo
o banheiro, talvez polindo
os dentes de suas caveiras:
o certo é que aquela família
se foi retirando do fogo,
da sala de jantar, do dormitório.
E conservando seu decoro
foram-se todos ao jardim
sem protestar dos defuntos,
mostrando uma triste alegria.
À sombra de uma laranjeira
comiam como refugiados
da fronteira perigosa
de uma batalha perdida.
Mas até ali chegaram eles
a pendurar-se das ramagens,
sérios defuntos circunspectos
que se achavam superiores
e não se dignavam a falar
com os benignos Ostrogodos.
Até que de tanto morrer
eles se uniram aos outros
emudecendo e falecendo
naquela casa mortal
que ficou sem ninguém um dia,
sem portas, sem casa, sem luz,
sem laranjeiras e defuntos.
Juntos Nós
Como és pura ao sol ou pela noite caída,
que triunfal desmedida a tua órbita de branco,
e o teu peito de pão, alto de clima,
a tua coroa de árvores negras, bem amada,
e o teu nariz de animal solitário, de ovelha selvagem
que cheira a sombra e a precipitada fuga tirânica.
Agora, que armas esplêndidas são minhas mãos,
digna a sua pá de osso e o seu lírio de unhas,
e o lugar do meu rosto, e a renda da minha alma
situam-se no alicerce da força terrestre.
Que puro o meu olhar de nocturna influência,
caído de olhos obscuros e de feroz acicate,
a minha simétrica estátua de pernas gémeas
sobe até estrelas húmidas todas as manhãs,
e a minha boca de exílio morde a carne e a uva,
os meus braços de varão, o meu peito tatuado
em que penetra o cabelo como asa de estanho,
o meu rosto branco feito para a profundidade do sol,
o meu cabelo feito de ritos, de minerais negros,
a minha testa, penetrante como golpe ou caminho,
a minha pele de filho maduro, destinado ao arado,
os meus olhos de ávido, de casamento rápido,
a minha língua amiga branda do dique e do navio,
os meus dentes de horário branco, de equidade sistemática,
a pele que faz à minha frente um vazio de gelos
e nas minhas costas roda, e voa nas minhas pálpebras,
e reentra sobre o meu mais profundo estímulo,
e cresce até às rosas nos meus dedos,
no meu queixo de osso e nos meus pés de riqueza.
E tu como um mês de estrela, como um beijo fixo,
como estrutura de asa, ou começos de outono,
menina, minha defensora, minha amorosa,
a luz faz a sua cama sob as tuas grandes pálpebras,
douradas como bois, e a pomba redonda
muitas vezes faz os seus ninhos brancos em ti.
Feita de onda em lingotes e pinças brancas,
a tua saúde de maçã enfurecida estende-se sem limite,
o trémulo tonel em que o teu estômago ouve,
as tuas mãos filhas da farinha e do céu.
Como és parecida com o mais longo beijo,
o seu fixo abalo parece alimentar-te,
e o seu impulso de brasa, de bandeira esvoaçante,
vai latejando nos teus domínios e subindo num tremor,
e então a tua cabeça adelgaça-se em cabelos,
e a sua forma guerreira, o seu círculo seco,
desaba subitamente em fios lineares
como fios de espadas ou heranças do fumo.
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
5
Para que tu me ouças
minhas palavras
se adelgaçam às vezes
como as pegadas das gaivotas nas praias.
Colar, cascavel ébria
para tuas mãos suaves como as uvas.
E miro distantes minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando em minha velha dor como as heras.
Elas trepam assim pelas paredes úmidas.
És tu a culpada deste jogo sangrento.
Elas estão fugindo de minha caverna escura.
Tudo preenches tu, tudo preenches.
Povoaram antes de ti a solitude que ocupas,
e estão mais que tu habituadas à minha tristeza.
Quero agora que digam o que quero dizer-te
para que as ouças como quero que me ouças.
O vento da angústia tem por costume arrastá-las.
Furacões de sonhos também tombam-nas às vezes.
Escuta outras vozes em minha voz dolorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me,companheira. Não me abandones.Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.
Vão se tingindo do teu amor minhas palavras.
Tudo ocupas tu, tudo ocupas.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas mãos brancas, suaves como as uvas.
Em Ti a Terra
Pequena
rosa,
rosa pequena,
às vezes,
mínima e nua,
pareces
caber numa única
das minhas mãos,
para assim te segurar
e levar à boca,
mas
logo
meus pés tocam teus pés e minha boca teus lábios:
cresceste,
erguem-se teus ombros como duas colinas,
teus seios passeiam-se pelo meu peito,
o meu braço mal consegue abraçar a linha
estreita de lua nova da tua cintura:
solta no amor como a água do mar:
meço apenas os olhos mais vastos do céu
e inclino-me para a tua boca para beijar a terra.
1
Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiram os pássaros,
e em mim penetrava a noite sua invasão feroz.
Para sobreviver te forjei como uma arma,
uma flecha em meu arco, uma pedra em minha fisga.
Mas eis que cai a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávida e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher mia, persistirei em tua graça.
Mia sede, mia ânsia sem fim, meu caminho indeciso!
Escuros leitos por onde a sede eterna segue,
e onde a fadiga segue, e a dor é infinita.
Não Há Muito Que Contar
Não há muito que contar,
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
XXXV
Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
9
Ébrio de terebentina e longos beijos,
entorpecido, o veleiro das rosas dirijo,
voltado para a morte do delgado dia,
Cimentado no sólido frenesi marinho.
Pálido e amarrado à minha água devorante
atravesso o aroma acre do clima descoberto,
ainda vestido de gris e de sons amargos,
e de uma crista triste de espuma abandonada.
Vou, rijo de paixões,montado em minha onda única,
lunar, solar, ardente e frio, repentino,
adormecido na garganta das fortunosas
ilhas brancas e doces como tenros quadris.
Treme na noite úmida meu traje de beijos
loucamente impregnado de cargas elétricas,
heroicamente dividido em sonhos
e rosas embriagantes atando-se a mim.
Água acima, em meio a ondas externas,
a meus braços sujeitas teu corpo paralelo
como um peixe infinitamente preso à minha alma
rápido e lento na energia subceleste.