Pablo Neruda

Pablo Neruda

1904–1973 · viveu 69 anos CL CL

Pablo Neruda foi um dos mais proeminentes poetas do século XX, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1971. A sua obra abrange desde o lirismo amoroso e melancólico da juventude até à poesia social e política engajada, refletindo as suas experiências de vida como diplomata, ativista e exilado. A sua escrita é marcada por uma linguagem rica, imagética exuberante e uma profunda conexão com a natureza, o povo e as causas humanitárias. Neruda é celebrado pela sua capacidade de expressar tanto a intimidade do ser quanto a amplitude dos grandes temas universais, tornando-se um dos poetas de maior alcance popular e reconhecimento internacional.

n. 1904-07-12, Parral · m. 1973-09-23, Santiago

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Tarde - LXVI

Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Quero-te apenas porque a ti eu quero,
a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,
e a medida do meu amor viajante
é não ver-te e amar-te como um cego.

Consumirá talvez a luz de Janeiro,
o seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história apenas eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Pablo Neruda, nome de registo Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, nasceu em 1904 e faleceu em 1973. Foi um poeta, diplomata e político chileno, considerado um dos mais importantes e influentes poetas do século XX em língua espanhola. Usou o pseudónimo Pablo Neruda, que mais tarde adotou legalmente. Escreveu em espanhol. Viveu num período de intensas transformações políticas e sociais na América Latina e no mundo.

Infância e formação

Nasceu em Parral, Chile. Perdeu a mãe poucos meses após o nascimento e foi criado pelo pai e pela madrasta em Temuco. A sua infância foi marcada pela natureza exuberante do sul do Chile, que viria a ser uma fonte de inspiração constante. Desde cedo demonstrou aptidão para a escrita, publicando os seus primeiros poemas na adolescência. Estudou francês no Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, em Santiago.

Percurso literário

Começou a publicar poesia muito jovem. Ganhou notoriedade internacional com "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada" (1924), que o consagrou como uma voz lírica poderosa. A sua carreira literária foi paralela à sua atividade diplomática e política. Foi cônsul em Rangum, Ceilão (atual Sri Lanka), Benares (Índia), Buenos Aires, Barcelona e Madrid. A Guerra Civil Espanhola teve um impacto profundo na sua poesia, levando-o a um engajamento político mais explícito, visível em "Espanha no coração" (1937).

Obra, estilo e características literárias

"Vinte poemas de amor e uma canção desesperada" (1924) é uma obra seminal do lirismo amoroso juvenil. "Residência na Terra" (1933, 1935) revela um tom mais sombrio, existencial e surrealista. "Canto Geral" (1950) é uma obra épica e monumental que narra a história e a geografia da América Latina sob uma perspetiva social e política. "Ode Simples" (1954) e "Estravagário" (1958) mostram um retorno a formas mais simples e coloquiais. Os temas abordados são vastos: amor, erotismo, natureza, história, política, a condição humana. O seu estilo é marcado pela força da imagem, pela musicalidade do verso, pela linguagem direta e acessível em muitas das suas fases, e por uma profunda empatia com o mundo que o rodeava. Foi associado ao surrealismo em certas fases, mas desenvolveu um estilo próprio e inconfundível. Sua voz poética é simultaneamente íntima e cósmica, pessoal e coletiva.

Contexto cultural e histórico

Neruda viveu e escreveu num período de grandes convulsões históricas: a ascensão do fascismo, a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e as lutas de libertação na América Latina. Foi um intelectual engajado, filiado ao Partido Comunista do Chile e membro do Senado. A sua obra reflete essas turbulências e o seu compromisso com a justiça social e a soberania dos povos. Manteve relações com muitos dos grandes escritores e artistas da sua época, como Federico García Lorca e Miguel Ángel Asturias.

Vida pessoal

Teve três casamentos. A sua vida como diplomata levou-o a viajar extensivamente, o que enriqueceu a sua visão de mundo. A Guerra Civil Espanhola e a perseguição política no Chile foram momentos difíceis na sua vida pessoal, levando-o ao exílio em várias ocasiões. Foi amigo de Salvador Allende e desempenhou um papel na sua campanha presidencial.

Reconhecimento e receção

Pablo Neruda é um dos poetas mais lidos e traduzidos do mundo. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1971 "pela sua poesia que, com a ação de uma força elementar, dá vida ao destino e aos sonhos de um continente". Foi também galardoado com o Prémio Lenin da Paz e outros importantes reconhecimentos internacionais. A sua popularidade é imensa, transcendendo o meio académico.

Influências e legado

Foi influenciado por poetas como Rubén Darío, Walt Whitman e Arthur Rimbaud. O seu legado é colossal, tendo influenciado gerações de poetas na América Latina e em todo o mundo com a sua capacidade de aliar lirismo, engajamento social e uma profunda conexão com a realidade. A sua obra continua a ser estudada, declamada e admirada pela sua universalidade e pela força das suas palavras.

Interpretação e análise crítica

A obra de Neruda tem sido objeto de inúmeras interpretações, desde a análise do seu lirismo amoroso até ao estudo do seu compromisso político. A sua poesia é vista como um espelho das lutas e esperanças da América Latina, e um testemunho da condição humana.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Uma curiosidade é que Neruda foi nomeado embaixador do Chile em França por Salvador Allende. Após o golpe militar no Chile, em 1973, pouco antes da sua morte, a sua casa e biblioteca foram saqueadas. Há suspeitas de que a sua morte possa ter sido acelerada por envenenamento, algo que tem sido objeto de investigação.

Morte e memória

Morreu em setembro de 1973, poucos dias após o golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende. A sua morte ocorreu num hospital em Santiago, oficialmente devido a um cancro da próstata, mas as circunstâncias ainda geram debate. A sua obra e a sua memória continuam vivas, sendo um símbolo de resistência e de identidade para muitos.

Poemas

561

CAVALHEIRO SÓ

Os jovens homossexuais e as mocinhas amorosas,
e as longas viúvas que sofrem de insônia delirante,
e as jovens senhoras há trinta horas emprenhadas,
e os gatos roufenhos que atravessam meu jardim em trevas,
como um colar de palpitantes ostras sexuais
rodeiam minha casa solitária,
inimigos jurados de minha alma,
conspiradores em traje de dormir,
que trocaram por senha grandes beijos espessos.

O verão radiante conduz os namorados
em uniformes regimentos melancólicos
de pares gordos magros e alegres tristes pares:
sob os coqueiros elegantes, junto ao mar e à lua,
há uma vida contínua de calças e galinhas,
um rumor de meias de seda acariciadas,
e seios femininos a brilhar como dois olhos.

O pequeno empregado, depois de tanta coisa,
depois do tédio semanal e das novelas lidas na cama toda noite,
seduziu sua vizinha inapelavelmente
e a leva agora a cinemas miseráveis
onde os heróis são potros ou são príncipes apaixonados,
e lhe acaricia as pernas, véu macio,
com suas mãos ardentes, úmidas que cheiram a cigarro

As tardes do sedutor e as noites dos esposos
se unem, dois lençóis que me sepultam,
e as horas de após almoço em que os jovens estudantes
e as jovens estudantes, e os padres se masturbam,
e os animais fornicam sem rodeios
e as abelhas cheiram a sangue e zumbem coléricas as moscas,
e os primos brincam de estranho jeito com as primas,
e os médicos olham com fúria o marido da jovem paciente,
e as horas da manhã nas quais, como que por descuido, o professor
cumpre os seus deveres conjugais e desjejua,
e inda mais os adúlteros, que com amor verdadeiro se amam
sobre leitos altos, amplos como embarcações;
seguramente, eternamente me rodeia
este respiratório e enredado grande bosque
com grandes flores e com dentaduras
e raízes negras em forma de unhas e sapatos.

(Tradução
de José Paulo Paes)

6 135

ODE À POESIA

Perto de cinqüenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste
a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.

E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela cotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensangüentada.

E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto.

(Tradução
de Thiago de Mello)

8 865

Pedras Antárticas

Ali termina tudo
e não termina:
ali começa tudo
se despedem os rios no gelo,
o ar se há casado com a neve,
não há ruas nem cavalos
e o único edifício
o construiu a pedra.
Ninguém habita o castelo
nem as almas perdidas
que frio e vento frio
amedrontaram:
é sozinha ali a solidão do mundo,
e por isso a pedra
se fez música,
elevou suas delgadas estaturas,
se levantou para gritar ou cantar,
porém ficou muda.
Só o vento,
o açoite
do Pólo Sul que assobia,
só o vazio branco
e um som de pássaro de chuva
sobre o castelo da solidão.

6 286

O Sonho

Caminhando nas areias
decidi deixar-te.

Pisava um barro obscuro
que estremecia,
e afundando-me e voltando a sair,
decidi que saísses
de mim, que me eras pesada
como pedra cortante,
e planeei a tua perda
passo a passo:
cortar-te as raízes,
soltar-te sozinha ao vento.

Ai nesse minuto
coração meu, um sonho
com as suas asas terríveis
cobria-te.

Sentias-te engolida pelo barro,
e chamavas-me e eu não te acudia,
ias, imóvel,
sem defesa
até te afogares na língua de areia.

Depois
a minha decisão cruzou-se com o teu sonho,
e dessa ruptura
que nos partia a alma
surgimos de novo limpos, nus,
amando-nos
sem sonho, sem areia,
completos e radiantes,
selados pelo fogo.
1 367

Aqui

Vim aqui para contar os sinos
que vivem no mar,
que soam no mar,
dentro do mar.

Por isso vivo aqui.
5 911

Canto II - Alturas de Machu Picchu

I
Do ar ao ar como uma rede
vazia, ia eu entre as ruas e a atmosfera chegando e despedindo,
no advento do outono a moeda estendida
das folhas, e entre a primavera e as espigas,
o que maior amor, como dentro duma luva
que cai, nos entrega qual uma longa lua.


(Dias de vivo fulgor na intempérie
dos corpos: aços convertidos
ao silêncio do ácido:
noites desfiadas até a última farinha:
estamos agredidos da pátria nupcial.
)

Alguém que me esperou entre os violinos
achou um mundo como uma torre enterrada
fundindo sua espiral mais abaixo de todas
nas folhas de cor de roxo enxofre:
mais abaixo, no ouro da geologia,
como espada envolta em meteoros,
mergulhei a mão turbulenta e doce
no mais genital do terrestre.


Meti o resto entre as vagas profundas,
desci como gota entre a paz sulfúrica,
e, como um cego, regressei ao jasmim
da usada primavera humana.




II
Se a flor à flor entrega o alto germe
e a rocha mantém sua flor disseminada
em seu castigado traje de diamante e areia,
o homem franze a pétala da luz que recolhe
nos determinados mananciais marinhos
e verruma o metal palpitante em suas mãos.

E logo, entre a roupa e o fumo, sobre a mesa enterrada,
como embaralhada quantidade, fica a alma:
quartzo e desvelo, lágrimas no oceano
como lagos de frio: mas ainda
mata-a e agoniza-a com papel e com ódio,
submerge-a no tapete cotidiano, dilacera-a
entre as vestimentas hostis do arame.


Não: pelos corredores, ar, mar ou caminhos,
quem guarda sem punhal (como as encarnadas
amapolas) seu sangue? A cólera extenuou
a triste mercadoria do vendedor de seres,
e, enquanto nas alturas da ameixeira, o orvalho
há mil anos deixa a sua carta transparente,
sobre o mesmo ramo que espera, ó coração, ó rosto triturado
entre as cavidades do outono.


Quantas vezes nas ruas de inverno duma cidade
ou num ônibus ou num navio ao crepúsculo, ou
na solidão mais espessa, a da noite de festa,
sob o ressoar de sombras e sinos, na própria gruta
do prazer humano, quis parar e procurar o eterno
veio insondável que antes toquei na pedra ou no
relâmpago que o beijo desprendia.


(O que no cereal como uma história amarela
de pequenos peitos grávidos vai repetindo um número
que sem cessar é ternura nas capas germinais,
e que, idêntica sempre, se debulha em marfim
e o que na água é pátria transparente, sino
desde a neve isolada às ondas sangrentas.
)

Só pude unir um cacho de rostos ou de máscaras
precipitadas, como anéis de ouro falso,
como roupas dispersas filhas dum outono enraivecido
que fizesse tremer a miserável árvore das raças assustadas.


Não tive lugar para descansar a mão
e que, corrente como água de manancial acorrentado,
ou firme como lasca de antracite ou cristal,
tivesse devolvido o calor ou o frio de minha mão estendida.

Que era o homem? Em que parte de sua conversação aberta
entre os armazéns e os assovios, em qual de seus movimentos metálicos
vivia o indestrutível, o imperecível, a vida?



III
O ser como o milho se debulha no inesgotável
celeiro dos feitos perdidos, dos acontecimentos
miseráveis, do um ao sete, ao oito,
e não uma morte, mas muitas mortes chegadas para cada um:
cada dia uma morte pequena, pó, verme, lâmpada
que se apaga no lodo do subúrbio uma pequena morte de asas grossas
entrava em cada homem como curta lança
e era o homem assediado pelo pão ou pela faca,
o ganadeiro: o filho dos portos, o capitão escuro do arado,
ou o roedor das ruas espessas:
todos desfaleceram esperando sua morte, sua curta morte diária:
e seu quebranto aziago de cada dia era
como uma taça negra que bebiam a tremer.




IV
A poderosa morte me convidou muitas vezes:
era como o sol invisível nas ondas,
e o que seu invisível sabor disseminava
era como metade de afundamentos e altura
ou vastas construções de vento e nevasca.


Eu ao férreo gume vim, à estreiteza
do ar, à mortalha de agricultura e pedra,
ao estelar vazio dos passos finais
e à vertiginosa estrada espiral:
porém, largo, mar, ó morte! de onda em onda não vens,
senão como um galope de claridade noturna
ou como os totais números da noite.


Nunca chegaste a vasculhar o bolso, não era
possível tua visita sem uma roupa vermelha:
sem auroral alfombra de cercado silêncio:
sem altos ou enterrados patrimônios de lágrimas.


Não pude amar em cada ser uma árvore
com seu pequeno outono às costas (a morte de mil folhas),
todas as falsas mortes e as ressurreições
sem terra, sem abismo:
quis nadar nas vidas mais largas,
nas mais desatadas desembocaduras,
e quando pouco a pouco foi o homem me negando
e foi fechando a passagem e a porta para que não tocassem
minhas mãos mananciais sua inexistência ferida,
então fui de rua em rua, de rio em rio,
de cidade em cidade, de cama em cama,
e cruzou o deserto minha máscara salobre,
e nas últimas casas humilhadas, sem lâmpada, sem fogo.

sem pão, sem pedra, sem silêncio, sozinho,
rolei morrendo de minha própria morte.




V
Não és tu, morte grave, ave de plumas férreas,
o que o pobre herdeiro das habitações
levava entre alimentos apressurados, sob a pele vazia:
era algo, uma pobre pétala de corda exterminada:
um átomo do peito que não veio ao combate
ou o áspero orvalho que não caiu no rosto.

Era o que não pôde renascer, um pedaço
da pequena morte sem paz nem território:
um osso, um sino que morriam nele.

Eu levantei as vendas do iodo, mergulhei.
as mãos
nas pobres dores que matavam a morte,
e só achei na ferida uma rajada fria
que entrava pelos vagos interstícios da alma.




VI
Então na escada de terra subi
entre o emaranhado atroz das selvas perdidas
até a ti, Machu Picchu.

Alta cidade de pedras escalares,
por fim morada do que o terrestre
não escondeu nas adormecidas vestimentas.

Em ti, como duas linhas paralelas,
o berço do relâmpago e do homem
embalavam-se num vento de espinhos.


Mãe de pedra, espuma de condores.


Alto arrecife da aurora humana.


Pá perdida na primeira areia.


Esta foi a morada, este é o lugar:
aqui os largos grãos do milho subiram
e de novo tombaram como granizo vermelho.


Aqui a fibra dourada saiu da vicunha
para vestir os amores, os túmulos, as mães,
o rei, as orações, os guerreiros.


Aqui os pés do homem descansaram à noite
junto aos pés da águia, nas altas guaridas
carniceiras, e na aurora
pisaram com os pés do trovão a névoa rarefeita,
e tocaram as terras e as pedras
até reconhecê-las na noite ou na morte.


Olho as vestes e as mãos,
o vestígio da água na cavidade sonora,
a parede suavizada pelo tato dum rosto
que olhou com os meus olhos as lâmpadas terrestres,
que aceitou com as minhas mãos as desaparecidas
madeiras: pois tudo, roupagem, pele, vasilhas,
palavras, vinho, pães,
se foi, rolou pelo chão.


E o ar entrou com dedos
de flor de laranjeira sobre todos os adormecidos:
mil anos de ar, meses, semanas de ar,
de vento azul, de cordilheira férrea,
que fora m como suaves furacões de passos
lustrando o solitário recinto da pedra.




VII
Mortos de um só abismo, sombras de uma ribanceira,
a profunda, é assim como do tamanho
de vossa magnitude,
veio a verdadeira, a mais abrasadora
morte, e das rochas verrumadas,
dos capitéis escarlates,
dos aquedutos escalares
vos desmoronastes como num outono
numa única morte.

Hoje o ar vazio já não chora,
já não conhece os vossos pés de argila,
já esqueceu vossos cântaros que filtravam o céu,
quando o derramavam os punhais do raio,
e a árvore poderosa foi comida
pela névoa, e cortada pela rajada de vento.


Ela susteve a mão que caiu de repente
das alturas até o fim do tempo.


Já não sois mãos de aranha, débeis
fibras, teia emaranhada:
caiu tudo o que fostes: costumes, sílabas
gastas, máscaras de luz deslumbrante.


Mas uma permanência de pedra e de palavra:
a cidade como um copo levantou-se nas mãos
de todos, vivos, mortos, calados, sustentados
por tanta morte, um muro, por tanta vida um golpe
de pétalas de pedra: a rosa permanente, a morada:
este arrecife andino de colônias glaciais.


Quando a mão da cor de argila
se converteu em argila, e quando as pequeninas pálpebras se fecharam
cheias de ásperos muros, povoadas de castelos,
e quando todo o homem se arredou em seu buraco,
ficou a exatidão desfraldada:
o alto local da aurora humana:
o mais alto vaso que conteve o silêncio:
uma vida de pedra depois de tantas vidas.




VIII
Sobe comigo, amor americano.

Beija comigo as pedras secretas.


A prata torrencial do Urubamba
faz voar o pólen de sua copa amarela.

Voa o vazio da trepadeira,
a planta pétrea, a grinalda dura
sobre o silêncio do caixão serrano.

Vem, minúscula vida, entre as asas
da terra, enquanto - cristal e frio, ar batido
apartando esmeraldas combatidas,
ó, água selvagem, baixas da neve.


Amor, amor, até a noite abrupta,
desde o sonoro pedernal andino
até a aurora de joelhos vermelhos,
contempla o filho cego da neve.


Ó, Wilkamayu de sonoros fios,
quando rompes teus trovões lineares
em branca espuma, como neve ferida,
quando teu vendaval escarpado
canta e castiga despertando o céu,
que idioma trazes à orelha do mal
arrancada de tua espuma andina?

Quem apresou o relâmpago do frio
e o deixou nas alturas acorrentado,
repartido em suas lágrimas glaciais,
sacudido em suas rápidas espadas,
golpeando seus estames aguerridos,
conduzido em seu leito de guerreiro,
sobressaltado em final de rocha?

Que dizem suas chispas acossadas?
Teu secreto relâmpago rebelde
viajou antes povoado de palavras?
Quem vai partindo sílabas geladas,
idiomas negros, estandartes de ouro,
bocas profundas, gritos subjugados,
em tuas delgadas águas arteriais?

Quem vai cortando pálpebras florais
que chegam para espiar da terra?
Quem precipita cachos mortos
que descem em tuas mãos de cascata
a debulhar a sua noite debulhada
no carvão da geologia?

Quem despenha o ramo dos vínculos?
Quem outra vez sepulta os adeuses?

Amor, amor, não toques na fronteira,
nem adores a cabeça submersa:
deixa que o tempo cumpra sua estatura
em seu salão de mananciais partidos,
e, entre a água veloz e as muralhas,
recolhe o ar do desfiladeiro,

as paralelas lâminas do vento,
o canal cego das cordilheiras,
a áspera saudação do orvalho
e sobe, flor por flor, pela mata
pisando a serpente despenhada.


Na escarpada zona, pedra e bosque,
pó de estrelas verdes, selva clara,
Mantur explode como um lago vivo
ou como um novo piso de silêncio.


Vem ao meu próprio ser, à minha alba,
até as soledades coroadas.

O reino morto ainda vive.


E no Relógio a sombra sangüinária
do condor cruza como uma ave negra.




IX
Águia sideral, vinha de bruma.

Bastião perdido, cimitarra cega.

Cinturão estrelado, pão solene.

Escada torrencial, pálpebra imensa.

Túnica triangular, pólen de pedra.

Lâmpada de granito, pão de pedra.

Serpente mineral, rosa de pedra.

Nave enterrada, manancial de pedra.

Cavalo da luz, luz de pedra.

Esquadra equinocial, vapor de pedra.

Geometria final, livro de pedra.

Timbale entre as lufadas lavrado.

Madrépora do tempo submerso.

Muralha peles dedos suavizada.

Teto pelas plumas combatido.

Ramos de espelho, bases de tormenta.

Tronos revirados pelas trepadeiras.

Regime de garra encarniçada.

Vendaval sustentado na vertente.

Imóvel catarata de turquesa.

Sino patriarcal dos adormecidos.

Anel das neves dominadas.

Ferro deixado sobre suas estátuas.


Inacessível temporal fechado.

Mãos de puma, rocha sanguinária.

Torre encapelada, discussão de neve.

Noite erguida em dedos e raízes.

Janela das névoas, pomba endurecida.

Planta noturna, estátua dos trovões.

Cordilheira essencial, teto marinho.

Arquitetura de águias perdidas.

Corda do céu, abelha das alturas.

Nível sangrento, estrela construída.

Borbulha mineral, lua de quartzo.

Serpente andina, rosto de amaranto.

Cúpula de silêncio, pátria pura.

Noiva do mar, árvore de catedrais.

Ramo de sal, cerejeira de asas negras.

Dentadura nevada, trovão frio.

Lua arranhada, pedra ameaçadora.

Cabeleira do frio, ação do ar.

Vulcão de mãos, catarata escura.

Onda de prata, direção do tempo.




X
Pedra sobre pedra, o homem, onde esteve?
Ar no ar, o homem, onde esteve?
Tempo no tempo, o homem, onde esteve?
Foste também o pedacinho partido
do homem inconcluso, de águia vazia
que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,
que pelas folhas do outono morto
vai remoendo a alma até o túmulo?
A pobre mão, o pé, a pobre vida .
.
.

Os dias da luz desfiada
em ti, como a chuva
sobre as bandeirinhas das festas,
deram pétala por pétala de seu alimento escuro
na boca vazia?

Fome, coral do homem,
Fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,
fome subiu a tua arraia de arrecife
até estas altas torres desprendidas?

Eu te interrogo, sal dos caminhos,
mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,
roer com um palito os estames de pedra,
subir todos os degraus do ar até o vazio,
esfregar a entranha até tocar o homem.


Machu Picchu, puseste
pedras na pedra, e na base, um trapo?
Carvão sobre carvão, e no fundo a lágrima?
Fogo no ouro, e nele, tremendo, o rubro
goteirão do sangue?
Devolve-me o escravo que enterraste!
Arroja das terras o pão duro
dos miseráveis, mostra-me as vestes
do servo e sua janela.

Dize-me como dormiu quando vivia.

Dize-me se foi seu sonho
rouco, entreaberto, como um oco negro
feito pela fadiga sobre o muro.

O muro, o muro! Se sobre o seu sonho
gravitou cada piso de pedra, e se caiu debaixo dela
como debaixo de uma lua, com o sonho!
Antiga América, noiva submersa,
também teus dedos
ao saírem da selva para o alto vazio dos deuses,
sob os estandartes da luz nupcial c do decoro.

mesclando-se ao ribombo dos tambores e das lanças,
também, também os teus dedos,
os que a rosa abstrata e a linha do frio, os
que o peito sangrento do novo cereal trasladaram
até a teia de matéria radiante, até as duras cavidades,
também, também, América enterrada, guardaste no mais baixo,
no amargo intestino, como uma águia, a fome?



XI
Através do confuso esplendor,
através da noite de pedra, deixa-me enfiar a mão
e deixa que em mim palpite, como ave mil anos prisioneira,
o velho coração do esquecido!
Deixa-me esquecer hoje esta sorte mais vasta que o mar,
pois o homem é mais vasto que o mar e suas ilhas,
e há que cair dentro como dentro dum poço para subir do fundo
com um ramo de água secreta e de verdades submersas.

Deixa-me esquecer, pedra vasta, a proporção poderosa,
a transcendente medida, as pedras da colméia,
e do esquadro deixa-me hoje roçar
a mão sobre a hipotenusa de áspero sangue e cilício.

Quando, qual uma ferradura de élitros rubros, o condor furibundo
me golpeia as têmporas na ordem do vôo
e furacão de plumas carniceiras varre a poeira sombria
das escalinatas diagonais, não vejo o bicho feroz,
não vejo o cego ciclo de suas garras,
vejo o antigo ser, servidor, o adormecido
nos campos, vejo um corpo, mil corpos, um homem, mil mulheres.

sob a rajada negra, negros de chuva c de noite,
com a pedra pesada da estátua:
Juan Cortapiedras, filho de Wiracocha,
Juan Comefrío, filho de estrela verde,
Juan Piesdescalzos, neto de turquesa,
sobe para nascer comigo, irmão.
3 048

Ausência

Ainda há pouco te deixei,
e vais comigo, cristalina
ou trémula,
ou inquieta, ferida por mim mesmo
ou cheia de amor, como quando os teus olhos
se fecham sobre o dom da vida
que sem descanso te entrego.

Meu amor,
encontrámo-nos
sedentos e bebemos
toda a água e sangue,
encontrámo-nos
com fome
e mordemo-nos
como morde o fogo,
deixando-nos feridos.

Mas espera por mim,
guarda-me a tua doçura.
Dar-te-ei também
uma rosa.
1 976

O Vento Na Ilha

O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.

Quer levar-me: escuta
como atravessa o mundo
para me levar até longe.

Esconde-me nos teus braços
só esta noite,
enquanto a chuva abre
contra o mar e a terra
a sua boca inumerável.

Escuta como o vento
chama por mim a galope
para me levar até longe.

A tua testa na minha testa,
a tua boca na minha boca,
os nossos corpos presos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem me conseguir levar.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me procure
a galope na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
só por esta noite
descansarei, meu amor.
13 599

A canção desesperada

Emerge tua lembrança desta noite em que estou.
O rio deságua no mar seu lamento obstinado.

Abandonado como as docas à hora da aurora.
É hora de partir, ó abandonado!

Em meu pobre coração chovem frias corolas.
Ó sentina de escombros, feroz cova de náufragos!

Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti alçaram asas os pássaros do canto.

A tudo tu tragaste, como a longa distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!

Eram alegres as horas do assalto e do beijo.
As horas de torpor que ardiam como um farol.

Ansiedade de piloto, peixe cego de ira,
turva embriaguez de amor,tudo em ti foi naufrágio!

Na infância de névoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!

Fiz retroceder a alta muralha de sombra,
caminhei para longe do desejo e do ato.

Ó carne, minha carne, mulher que amei e perdi,
a ti nesta hora úmida, evoco e elevo o canto.

Como um vaso abrigaste a infinita ternura,
e o infinito olvido te trincou como a um vaso.

Era a negra, negra a solitude das ilhas,
e lá, mulher de amor, me acolheram os teus braços.

Era a sede e era a fome, e tu foste a fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.

Ah mulher, não sei como me pudeste conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!

Meu desejo por ti foi o mais tenso e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais terrível e ávido.

Cemitério de beijos, ainda há fogo em tuas tumbas,
e ainda ardem os cachos bicados pelos pássaros.

Ó a boca mordida, ó os membros beijados,
ó os dentes famintos, ó os corpos trançados.

Ó, a cópula louca de esperança e de esforço
em que nos enlaçamos e nos desesperamos.

E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra somente balbuciada nos lábios.

Esse foi meu destino, nele viajou meu anelo, e
nele caiu meu anelo, tudo em ti foi naufrágio!

De queda em queda ainda flamejaste e cantaste.
De pé como um marujo na proa de um navio.

Ainda floriste em cantos, e rompeste em correntes.
Ó sentina de escombros, poço aberto e amargo.

Pálido búzio cego, mergulhão desditoso,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!

É a hora de partir, a dura e fria hora
que esta noite sujeita a todos os horários.

O cinturão ruidoso do mar limita a costa.
Surgem frias estrelas, e migram negros pássaros.

Abandonado como as docas à hora da aurora.
Só a sombra trêmula se retorce em minhas mãos.

Ah pra longe de tudo. Ah pra longe de tudo.
É hora de partir. Ó abandonado!
4 241

12

Para meu coração basta teu peito,
para a tua liberdade, minhas asas.
Da minha boca chegará até o céu
o que estava adormecido em tua alma.

Está em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho sobre as corolas.
Cavava o horizonte a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que cantavas com o vento
como cantam os pinheiros e os mastros.
E como eles és alta e taciturna.
E entristeces de rojo, como as viagens.

Anfitriã como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu despertei e ora emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.
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Comentários (2)

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Anabil Martins Diniz
Anabil Martins Diniz

Porque não publicar o texto original e, junto, o texto verido para o portugues? Seria mais rico.

Adriano Moreira/escritor.
Adriano Moreira/escritor.

Pablo Neruda é simplesmente a essência da mais pura e legítima poesia.Sua alma canta e nos mostra os mais límpidos sentimentos contidos/incontidos no coração humano.Um ícone! uma voz pujante e delirante no mais doce leito da poesia/biografia/história.Neruda ,a voz que ecoa nas cordilheiras das andes,como sopro divinal e eterno...