Noite - XCVII
Há que voar neste tempo, aonde?
Sem asas, sem avião, voar sem dúvida:
já os passos passaram sem remédio,
não alçaram os pés do passageiro.
Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.
Já não bastam sapatos nem caminhos,
já não servem a terra aos errantes,
já cruzaram a noite as raízes,
e tu aparecerás em outra estrela
determinadamente transitória
por fim em papoula convertida.
Ode Com Um Lamento
Oh menina entre as rosas, oh pressão de pombas,
oh presídio de peixes e rosais,
a tua alma é uma garrafa cheia de sal sedento
e um sino cheio de uvas é a tua pele.
Por desgraça não tenho para te dar senão unhas
ou pestanas, ou pianos derretidos,
ou sonhos que me saem do coração aos borbotões,
sonhos poeirentos que correm como ginetes negros,
sonhos cheios de velocidade e desgraças.
Só te posso amar com beijos e papoilas,
com grinaldas molhadas de chuva,
olhando cavalos cinzentos e cães amarelos.
Só te posso amar com ondas atrás de mim,
entre vagos golpes de enxofre e águas ensimesmadas,
nadando contra os cemitérios que correm em certos rios
com pasto molhado crescendo sobre os tristes túmulos de gesso,
nadando através de corações submersos
e pálidos róis de crianças insepultas.
Há muita morte, muitos acontecimentos fúnebres
nas minhas desamparadas paixões e desolados beijos,
há a água que me cai na cabeça,
enquanto o cabelo me cresce,
uma água como o tempo, uma água negra imparável,
com uma voz nocturna, com um grito
de pássaros na chuva, com uma interminável
sombra de asa molhada que me protege os ossos:
enquanto me visto, enquanto
interminavelmente me olho nos espelhos e nos vidros,
ouço que alguém me segue e chama soluçante
com uma voz triste apodrecida pelo tempo.
Tu estás de pé sobre a terra, cheia
de dentes e relâmpagos.
Propagas os beijos e matas as formigas.
Choras de saúde, de cebola, de abelha,
de abecedário em fogo.
És como uma espada azul e verde
e ondulas ao tocar-te, como um rio.
Vem até à minha alma vestida de branco, com um ramo
de ensanguentadas rosas e taças de cinzas,
vem com uma maçã e um cavalo,
porque ali há uma sala obscura e um candelabro partido,
umas cadeiras retorcidas que esperam o inverno,
e uma pomba morta, com um número.
Um Animal Pequeno
Um animal pequeno,
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
Penha Brava
Há uma penha brava
aqui, na costa,
o vento furibundo,
o sal do mar, a ira,
desde e desde sempre, agora
e ontem, e cada século
atacaram-na:
tem rugas,
cavernas,
gretas, figuras, degraus,
faces de granito
e rebenta o mar na rocha
amando-a,
rompe o beijo maligno,
relâmpagos de espuma,
brilho de lua raivosa.
É uma penha gris,
cor de idade, austera,
infinita, cansada, poderosa.
Declaro Quatro Cães
Declaro quatro cães:
um já está enterrado no jardim,
outros dois me surpreendem,
pequenos destruidores selvagens,
de patas grossas e presas duras
como agulhas de rocha.
E uma cadela grenhuda,
distante,
ruiva em sua cortesia.
Não se sentem seus passos
de ouro suave,
nem sua presença distante.
Só ladra tarde da noite
para certos fantasmas,
para que só certos ausentes
escolhidos
a ouçam nos caminhos
ou em outros lugares escuros.
Charming
A encantadora família
com filhas esquisitamente excêntricas
vai se reunindo na tumba:
uns pela mão da coca,
outros debilitados pelas dívidas:
com olhos pálidos muito grandes
dirigem-se em fila ao mausoléu.
Algum demorou mais que o previsto
(extraviado num safári ou sauna ou cama),
tardio se juntou no crepúsculo
ao chá final da final família.
A generala austera
dirigia
e cada um contava sua história
de casais muito brigões
que simultaneamente trocavam
golpes de mão, prato ou cafeteira,
em Bombaim, Acapulco, Nice ou Rio.
A menor, olhos suaves e amarelos,
chegou a desvestir-se em todas as partes,
precipitadamente tempestuosa,
e um deles saía de um cárcere
condenado por roubos elegantes.
O mundo ia caminhando
porque o tempo imutável caminhava
de bracinho dado com a Reforma Agrária
e era difícil encontrar dinheiro
pendurado nas paredes: o relógio
já não marcava a hora sorrindo:
era outro rosto da tarde imóvel.
Não sei quando se foram:
não é meu papel anotar as saídas:
foi-se aquela família encantadora
e ninguém recorda mais sua existência:
A casa escura é um colégio claro
e na cripta uniram-se os dispersos.
Como se chamam, como se chamarão?
Ninguém pergunta mais, já não há memória,
já não há piedade, e só eu respondo
para mim mesmo, com certa ternura:
porque seres humanos e folhagens
acabam com suas cores, desfolham-se:
continuam assim as vidas e a terra.
Repertório
Aqui há gente com nomes e com pés
com endereço e sobrenome:
eu também vou na fieira
com o fio.
Há os já debulhados
no
poço
que fizeram e em que caíram:
há os bons e os maus ao mesmo tempo,
os sacrificadores e a pedra
onde deceparam a cabeça
de quantos se aproximaram do seu abismo.
Há de tudo na cesta: aqui só
estão cascavéis, ruídos de mesa,
de tiros, de colheres, de bigodes:
não sei o que me aconteceu nem o que acontecia
comigo mesmo nem com eles,
o certo é que os vi,
toquei-os e como a vida anda
sem deter suas rodas
eu os vivi quando eles me viveram,
amigos ou inimigos ou paredes,
ou inaceitáveis santos que sofriam,
ou cavalheiros de chapéu triste,
ou vilões que o vento comeu,
ou tudo mais: o grão do paiol
as minhas culpas desnudadas sem cessar
que ao entrar no banho a cada dia
saíram mais manchadas à luz.
Ai, salve-se quem puder!
O arquivista sou dos defeitos
de um só dia de minha coleção
e não tenho crueldade mas paciência:
já ninguém chora, passou de moda
a bela lágrima como uma açucena
e até mesmo o remorso faleceu.
Por isso apresento minha coroa
de iníquo juiz que não contenta ninguém,
nem aos ladrões, nem à sua digna esposa:
vocês já sabem disso:
eu que falo por falar falo de menos
por quanto vi, por quanto verei
estou ficando cego.
Orégano
Quando aprendi com lentidão
a falar
creio que já aprendi a incoerência:
ninguém me entendia, nem eu mesmo,
e odiei aquelas palavras
que me retornavam sempre
ao mesmo poço,
ao poço de meu ser ainda escuro,
ainda transpassado do meu nascimento,
até que me encontrei numa plataforma
ou num campo recém-estreado
uma palavra: orégano,
palavra que me desenredou
como que me tirando de um labirinto.
Não quis aprender mais nenhuma palavra.
Queimei os dicionários,
encerrei-me nessas sílabas cantoras,
retrospectivas, mágicas, silvestres,
e a todo grito pela beira
dos rios,
entre as tábuas afiladas,
ou no cimento da cidadela,
em minas, oficinas e velórios,
eu mastigava minha palavra orégano
e era como se fosse uma pomba
que eu soltava entre os ignorantes.
Que cheiro de coração temível,
que cheiro de violetário verdadeiro,
e que forma de pálpebra
para dormir fechando os olhos:
a noite tem orégano
e outras vezes, fazendo-se revólver
acompanhou-me passeando entre as feras:
essa palavra defendeu meus versos.
Uma mordida, uns caninos (iam
sem dúvida destroçar-me
os javalis e os crocodilos):
então
tirei do bolso
minha estimável palavra:
orégano, gritei com alegria,
brandindo-a em minha mão trêmula.
Oh, milagre, as feras assustadas
pediram-me perdão e me pediram
humildemente orégano.
Oh, lepidóptero entre as palavras,
oh palavra helicóptero,
puríssima e prenhe
como uma aparição sacerdotal
e carregada de aroma,
telúrica como um leopardo negro,
fosforescente orégano
que me serviu para não falar com ninguém,
e para aclarar meu destino
renunciando ao alarde do discurso
com um secreto idioma, o do orégano.
Iv - a Terra
Amarelo, amarelo continua sendo
o cachorro que por trás do outono circula
fazendo entre as folhas circunferências de ouro,
ladrando para os dias desconhecidos.
Assim vereis o imprevisto de certas situações:
junto ao explorador das terríveis fronteiras
que abrem o infinito, eis aqui o predileto,
o animal perdido do outono.
O que pode mudar de terra a tempo, de sabor a estibordo,
de luz velocidade a circunstância terrestre?
Quem adivinhará a semente na sombra
se como cabeleiras as mesmas frondes
deixam cair orvalho sobre as mesmas ferraduras,
sobre as cabeças que o amor reúne,
sobre as cinzas de corações mortos?
Este mesmo planeta, o tapete de mil anos,
pode florescer mas não aceita a morte nem o repouso:
as cíclicas fechaduras da fertilidade
se abrem em cada primavera para as chaves do sol
e ressoam os frutos fazendo-se cascata,
sobe e desce o fulgor da terra para a boca
e o humano agradece a bondade de seu reino.
Louvada seja a velha terra cor de excremento,
suas cavidades, seus ovários sacrossantos,
as adegas da sabedoria que encerraram
cobre, petróleo, ímãs, ferragens, pureza,
o relâmpago que parecia descer desde o inferno
foi entesourado pela antiga mãe das raízes
e cada dia saiu o pão para nos saudar
sem se importar com o sangue e a morte que nós homens vestimos,
a maldita progênie que faz a luz do mundo.
Desastres
Quando cheguei a Curacautin
estava chovendo cinza
por vontade dos vulcões.
Tive que mudar para Talca
onde haviam crescido tanto
os rios tranquilos de Maule
que adormeci numa embarcação
e fui para Valparaiso.
Em Valparaiso caíam
ao redor de mim as casas
e fiz o desjejum nos escombros
de minha perdida biblioteca
entre um Baudelaire sobrevivente
e um Cervantes desmantelado.
Em Santiago as eleições
me expulsaram da cidade:
todos se cuspiam na cara
e a julgar pelos jornalistas
no céu estavam os justos
e na rua os assassinos.
Fiz minha cama junto a um rio
que levava mais pedras que água,
junto a umas azinheiras serenas,
longe de todas as cidades,
junto às pedras que cantavam
e ao fim pude dormir em paz
com certo temor de uma estrela
que me olhava e piscava
com certa insistência maligna.
Porém a manhã gentil
pintou de azul a noite negra
e as estrelas inimigas
foram tragadas pela luz
enquanto eu cantava tranquilo
sem catástrofe e sem guitarra.