Amanhecendo
Amor meu, ao buscar-te recém-acordado percorri com minhas mãos teus dedos
surpreendi o alabastro adormecido em tua mão a essa hora
e encontrei cada unha em meu tato alongando a sílaba lisa
que forma teu nome no céu estrelado do sol e da lua.
Cada unha em tua mão envolvia um fragmento do sonho em teu corpo
e com a frescura da ágata mudavam teus dedos em pedra,
de alguma maneira infundada o clamor de teu sangue vivente
em sal circulante, em estátua de nácar foi precipitado
e só toquei aquela estrela de cinco esmeraldas adormecidas,
suavíssimas pontas afundadas na lentidão da sombra,
pensando entre sono e vigília que se transmutaram seguindo o percurso da água na rocha
em frio, em espadas, em quartzo roubado à terra noturna,
ao ar do céu na noite que desembainhou suas estátuas
e se pôs a brilhar acendendo as pedras na magnitude silenciosa.
XXXVII
De tuas cinzas nascerão
tchecoslovacos ou tartarugas?
Tua boca beijará cravos
com outros lábios vindouros?
Mas sabes de onde vem
a morte, de cima ou de baixo?
Dos micróbios ou dos muros,
das guerras ou do inverno?
XXXI
A quem posso perguntar
o que fazer neste mundo?
Por que me movo sem querer,
por que não posso estar imóvel?
Por que vou rodando sem rodas,
voando sem asas nem plumas,
e que me deu de transmigrar
se vivem no Chile meus ossos?
XXXVI
Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?
Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?
Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?
Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
XX
É verdade que o âmbar contém
as lágrimas das sereias?
Como se chama uma flor
que voa de pássaro em pássaro?
Não é melhor nunca que tarde?
E por que o queijo se dispôs
a exercer proezas na França?
I - Os homens
Sou o peregrino
da Ilha de Páscoa, o cavaleiro
estranho, venho para golpear as portas do silêncio:
− mais um dos que traz o ar
saltando num voo todo o mar:
aqui estou, como os outros pesados peregrinos
que em inglês amamentam e levantam as ruínas:
egrégios comensais do turismo, iguais a Simbad
e a Cristóvão, sem mais descobrimento
que a conta do bar.
Me confesso: matamosos veleiros de cinco mastros e carne deteriorada,
matamos os pálidos livros de marinheiros em extinção,
nos trasladamos em gansos imensos de alumínio,
corretamente sentados, bebendo taças ácidas,
descendo em fileiras de estômagos amáveis.
LXXII
Se todos os rios são doces
de onde tira sal o mar?
Como sabem as estações
que devem mudar de camisa?
Por que tão lentas no inverno
e tão palpitantes depois?
E como sabem as raízes
que devem subir para a luz?
Sempre é a mesma primavera
a que repete seu papel?
E logo saudar o ar
com tantas flores e cores?
XXXII
Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?
Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?
Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?
Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
III - A ilha
Antiga Rapa Nui, pátria sem voz,
perdoa a nós, os tagarelas do mundo:
viemos de todas as partes para cuspir em tua lava,
chegamos cheios de conflitos, de divergências, de sangue,
de pranto e digestões, de guerras e de pêssegos,
em pequenas fileiras de inimizade, de sorrisos
hipócritas, reunidos pelos dados do céu
sobre a mesa de teu silêncio.
Mais uma vez chegamos para ofender-te.
Saúdo primeiro a cratera, Ranu Raraku, suas pálpebras
de lodo e seus velhos lábios verdes:
é amplo, e altos muros o circundam, o encerram,
más a água lá em baixo, mesquinha, suja, negra,
vive, se comunica com a morte
como um iguana imóvel, sonolenta, escondido.
Eu, aprendiz de vulcões, conheci,
criança ainda, as línguas do Aconcágua,
o vômito incendiado do vulcão Tronador,
na noite espantosa vi cair
a luz do Villarrica fulminando as vacas,
torrencial, abrasando plantas e acampamentos,
crepitar derrubando penhascos na fogueira.
Mas se aqui minha infância tivesse me deixado,
neste vulcão morto já faz mil anos,
neste Ranu Raraku, umbigo da morte,
teria uivado de terror e teria obedecido:
teria deslizado minha vida em silêncio,
teria caído no medo verde, na boca da cratera desdentada,
transformando-me em lodo, em línguas do iguana.
Silêncio depositado no vale, terror
da boca lunária, há um minuto, uma hora
pesada como si o tempo tivesse parado
para converter-se em imensa pedra:
é um momento, logo
também dissolve o tempo sua nova estátua impossível
e fica o dia imóvel, como um encarcerado
dentro da cratera, dentro do cárcere da cratera,
dentro dos olhos do iguana da cratera.
XLV
O amarelo dos bosques
é o mesmo do ano passado?
E se repete o vôo negro
da tenaz ave marinha?
E onde termina o espaço
se chama morte ou infinito?
Que pesam mais na cintura,
as dores ou as lembranças?