Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

n. 1951 BR BR

Paulo Henriques Britto é um poeta, tradutor e professor brasileiro. A sua obra poética destaca-se pela inteligência formal, pela ironia e pela reflexão sobre temas como o quotidiano, a efemeridade da vida e as relações humanas. Britto é também um reconhecido tradutor de língua inglesa, tendo vertido para português obras de autores como Shakespeare, T.S. Eliot e Raymond Carver.

n. 1951-12-12, Rio de Janeiro

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V

Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro. É poeta, tradutor e professor universitário. É conhecido pela sua poesia que explora o quotidiano e a condição humana com uma linguagem precisa e irónica.

Infância e formação

A sua formação académica incluiu estudos em literatura, que viriam a influenciar a sua carreira literária e de tradução.

Percurso literário

Britto iniciou a sua carreira literária como poeta, publicando livros que lhe valeram reconhecimento pela originalidade e rigor formal. Paralelamente, desenvolveu uma prolífica carreira como tradutor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Britto caracteriza-se pela exploração de temas como o tempo, a memória, o corpo e as relações interpessoais, abordados com um tom muitas vezes irónico e melancólico. A sua linguagem é marcada pela precisão, pela clareza e por um ritmo cuidadosamente trabalhado. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma forte consciência da musicalidade e da estrutura.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Britto insere-se no panorama da literatura brasileira contemporânea, dialogando com as tradições poéticas, mas também com um olhar crítico sobre a modernidade e os seus desdobramentos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Como professor universitário, dedicou-se ao ensino e à pesquisa em literatura.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção É amplamente reconhecido pela crítica e pelo público como um dos importantes poetas da sua geração, tanto pela sua obra original como pela qualidade das suas traduções.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As suas traduções de clássicos da língua inglesa demonstram um profundo conhecimento e respeito pela obra original, ao mesmo tempo que a tornam acessível ao leitor de língua portuguesa. Como poeta, contribuiu para a renovação da linguagem poética no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Britto tem sido analisada pela sua capacidade de conciliar a reflexão existencial com uma estética depurada, explorando as ambiguidades da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos O seu trabalho como tradutor é tão valorizado quanto a sua poesia, demonstrando uma versatilidade notável.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Paulo Henriques Britto faleceu em 2021.

Poemas

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V

Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
710

SETE SONETOS SIMÉTRICOS II

Tão limitado, estar aqui e agora,
dentro de si, sem poder ir embora,

dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo
império sem território, Macau

sempre à mercê do latejar de um músculo.
Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar
por falta de opção (a outra é o asco).
Que além das suas bordas há um mar

infenso a toda nau exploratória,
imune mesmo ao mais ousado Vasco.
Porque nenhum descobridor na história

(e algum tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.
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MADRIGAL

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.
854

dez sonetos sentimentais - X

Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
777

DE VULGARI ELOQUENTIA

A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.

Um gesto mais brutal, e pronto: o nada. A
qualquer hora pode advir o fim. O mais
terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, nao é bem assim. Há urna
saída — falar, falar muito. Sao as palavras
que suportam o mundo, nao os ombros.
Sem o "porqué", o "sim",

todos os ombros afundavam juntos. Basta
urna boca aberta (ou um rabisco num
papel) para salvar o universo. Portanto,
meus amigos, eu insisto: falem sem parar.
Mesmo sem assunto.
1 014

SEIS SONETOS SOTURNOS - III

E durma-se com um barulho desses,
engulam-se os sapos necessários.
Resolução? Final feliz? Esquece.
Por outro lado, tudo está bem claro,

nada é ambíguo, e nas entrelinhas
é só espaço em branco. Noves fora,
não há saída. A coisa não termina.
A hora chega, e ainda não é a hora,

ou já é tarde e Inês é morta. Não,
não adianta mais. E no entanto
há que seguir em frente, sempre. Mãos

à obra, sim. Conforme o combinado.
Igual à outra vez: táticas, planos,
metas. É claro que vai dar errado.
788

nenhum mistério - X

Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços

de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.

Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.

É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
732

NENHUMA ARTE - IV

Uma vida inteira passada
dentro dos confins de um corpo
junto ao qual vem atrelada
a consciência, peso morto
que acusa o golpe sofrido
e cochicha ao pé do ouvido
depois que o fato se deu:
nada que te pertence é teu.

Único antídoto do nada
entre as peçonhas da vida,
coisa por sorte encontrada
e por desgraça perdida,
amor lega, em sua ausência,
um lembrete à consciência
(se ela por acaso esqueceu):
nada que te pertence é teu.

Princípio? Tudo é contingente.
Fim? Toda luz termina em breu.
Sentido? Quem quiser que invente,
quem não quiser se contente
com este presente besta
que, quando acabou a festa,
a vida avara lhe deu:
nada que te pertence é teu.
806

No trivial do sanduíche

No trivial do sanduíche a morte aguarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.

A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,

recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.

A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
716

MEMENTO MORI II

Luz frágil que brota no breu
e num rápido relance dá forma
e cor e corpo às coisas todas,

luz que se apega o pouco que pode
às aparências, acredita piamente
no sonho de substância que secretam,

luta com todas as parcas forças
contra o conforto de apagar-se enfim
por trás de duas implacáveis pálpebras.
840

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