Lista de Poemas

VILEGIATURA

Munidos de maçãs, lápis e fósforos,
conquistaremos Nínive amanhã,
se não der praia e a noite for de sono.
Porque afinal os dias são dourados
e tudo é matinal nessa estação
de água fresca, madrigais e cópulas.

São tantas mãos e bocas, tantas cópulas,
tantas razões de se riscar um fósforo,
é tão horizontal essa estação,
que é puro engodo a idéia do amanhã.
E por que não beber o sol dourado
enquanto não nos sobrevém o sono?

Idéias sussurradas pelo sono,
pela sofreguidão de muitas cópulas.
Enquanto isso, Nínive dourada
aguarda a combustão de nossos fósforos
ao primeiro suspiro da manhã.
Rechacemos o torpor da estação

(e como é modorrenta essa estação,
tempo de bandolins, maçãs e sono!)
e vamos nus, na bruma da manhã,
buscar a glória, traduzida em cópulas,
claustros, tributos, castiçais e fósforos,
caixas de música e ídolos dourados.

Tomaremos a cidade dourada
na hora derradeira da estação,
quando já não restar nem mais um fósforo,
uma gota de sol, de céu, de sono.
A entrada triunfal será uma cópula
na imensidão da última manhã.

Quando acordarmos, já será amanhã,
os olhos turvos de sonhos dourados,
as peles mornas recendendo a cópulas,
bagagens esquecidas na estação,
jornais, explicações, ressaca e sono,
um alvoroço de café e fósforos.

Os fósforos primeiros da manhã
riscam o sono e o sonho do Eldorado.
Dessa estação só vão restar as cópulas.
733

SETE PEÇAS ACADÊMICAS VI

Por mais que se fale ou pense
ou escreva, eis o veredicto:
sobre o que não há de ser dito
deve-se guardar silêncio.

Ser, não-ser, devir, dasein,
ser-pra-morte, ser-no-mundo:
Valei-me, são Wittgenstein,
neste brejo escuro e fundo
sede minha ponte pênsil,
escutai o meu não-grito:
pois quando não há o que ser dito
deve-se guardar silêncio.
743

CREPUSCULAR

1.
Chegamos tarde. (Era sempre maio,
sempre madrugada. Tudo era turvo.
Éramos em bando. Por medo. Ou tédio.

Havia um lobo à solta na cidade
aberta, e uma loucura provisória
era a nossa premissa, nossa promessa.

Era preciso estar o tempo todo
atento, em transe, em trânsito, no assédio
a um ou outro flanco do lobo,

fugindo de junho, perseguindo o agora,
correndo o risco de ser só um rascunho.
Éramos em branco. Por um triz. Por ora.)

2.
Chegamos tarde, é claro. Como todos.
Chegamos tarde, e nosso tempo é pouco,
o tempo exato de dizer: é tarde.

Todas as sílabas imagináveis
soaram. Nada ficou por cantar,
nem mesmo o não-ter-mais-o-que-cantar,

o não-poder-cantar, já tão cantado
que se estiolou no infinito banal
de espelhos frente a frente a refletir-se,

restando da palavra só o resumo
da pálida intenção, indisfarçada,
de não dizer, dizendo, coisa alguma.

3.
E assim, os delicados desesperam
do imperativo de concatenar
nomes e coisas, como se o perigo

vivesse num vestígio do sentido,
na derradeira pedra sobre pedra
de um prédio alvo de atentados tantos,

e negam mesmo a possibilidade
de não negar tudo — sem se dar conta
de que, se fosse à vera a negação

e nela houvesse fundo e coerência,
não haveria língua em que a expressar
que não a algaravia do silêncio.

4.
Dúvida, porém, não há: língua é língua,
e clavicórdio, clavicórdio é.
Assim como a canção do clavicórdio

não é a mesma música do vento,
e o vento não é pássaro ou cigarra
que canta, sem que o saiba, o verão,

palavra é mais que o babujar do vento,
que o monocórdio de cigarra ou pássaro,
mais mesmo que o mais sábio clavicórdio.

Mais mágica que música, afinal,
a inflacionar o mundo de fantasmas.
Desses fantasmas se faz o real.

5.
Toda palavra já foi dita. Isso é
sabido. E há que ser dita outra vez.
E outra. E cada vez é outra. E a mesma.

Nenhum de nós vai reinventar a roda.
E no entanto cada um a re-
inventa, para si. E roda. E canta.

Chegamos muito tarde, e não provamos
o doce absinto e ópio dos começos.
E no entanto, chegada a nossa vez,

recomeçamos. Palavras tardias,
mas com vertiginosa lucidez —
o ácido saber de nossos dias.


6.
No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento,

há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,

mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Restará

a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que a julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda.
478

VÉSPERA

No trivial do sanduíche a morte aguarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.

A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,

recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.

A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
697

DE VULGARI ELOQUENTIA

A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.

Um gesto mais brutal, e pronto: o nada. A
qualquer hora pode advir o fim. O mais
terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, nao é bem assim. Há urna
saída — falar, falar muito. Sao as palavras
que suportam o mundo, nao os ombros.
Sem o "porqué", o "sim",

todos os ombros afundavam juntos. Basta
urna boca aberta (ou um rabisco num
papel) para salvar o universo. Portanto,
meus amigos, eu insisto: falem sem parar.
Mesmo sem assunto.
986

SETE SONETOS SIMÉTRICOS II

Tão limitado, estar aqui e agora,
dentro de si, sem poder ir embora,

dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo
império sem território, Macau

sempre à mercê do latejar de um músculo.
Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar
por falta de opção (a outra é o asco).
Que além das suas bordas há um mar

infenso a toda nau exploratória,
imune mesmo ao mais ousado Vasco.
Porque nenhum descobridor na história

(e algum tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.
968

NENHUMA ARTE - IV

Uma vida inteira passada
dentro dos confins de um corpo
junto ao qual vem atrelada
a consciência, peso morto
que acusa o golpe sofrido
e cochicha ao pé do ouvido
depois que o fato se deu:
nada que te pertence é teu.

Único antídoto do nada
entre as peçonhas da vida,
coisa por sorte encontrada
e por desgraça perdida,
amor lega, em sua ausência,
um lembrete à consciência
(se ela por acaso esqueceu):
nada que te pertence é teu.

Princípio? Tudo é contingente.
Fim? Toda luz termina em breu.
Sentido? Quem quiser que invente,
quem não quiser se contente
com este presente besta
que, quando acabou a festa,
a vida avara lhe deu:
nada que te pertence é teu.
778

NENHUM MISTÉRIO - VII

Chega um momento em que as mãos
já não querem cumprir ordens.
Não pegam mais, não apertam,
e sim mordem.

Os olhos se cansam da luz,
os pés desprezam os pisos,
a mente rejeita todo e
qualquer juízo.

E o rosto — este velho disfarce
velhaco, por trás do qual
não há outra coisa senão
uma máscara igual,

o rosto nem mesmo se esforça
pra parecer que não é outro.
(Já, já não será mais preciso
fingir-se de morto.)
758

SEIS SONETOS SOTURNOS - III

E durma-se com um barulho desses,
engulam-se os sapos necessários.
Resolução? Final feliz? Esquece.
Por outro lado, tudo está bem claro,

nada é ambíguo, e nas entrelinhas
é só espaço em branco. Noves fora,
não há saída. A coisa não termina.
A hora chega, e ainda não é a hora,

ou já é tarde e Inês é morta. Não,
não adianta mais. E no entanto
há que seguir em frente, sempre. Mãos

à obra, sim. Conforme o combinado.
Igual à outra vez: táticas, planos,
metas. É claro que vai dar errado.
764

MADRIGAL

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.
826

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Identificação e contexto básico

Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro. É poeta, tradutor e professor universitário. É conhecido pela sua poesia que explora o quotidiano e a condição humana com uma linguagem precisa e irónica.

Infância e formação

A sua formação académica incluiu estudos em literatura, que viriam a influenciar a sua carreira literária e de tradução.

Percurso literário

Britto iniciou a sua carreira literária como poeta, publicando livros que lhe valeram reconhecimento pela originalidade e rigor formal. Paralelamente, desenvolveu uma prolífica carreira como tradutor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Britto caracteriza-se pela exploração de temas como o tempo, a memória, o corpo e as relações interpessoais, abordados com um tom muitas vezes irónico e melancólico. A sua linguagem é marcada pela precisão, pela clareza e por um ritmo cuidadosamente trabalhado. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma forte consciência da musicalidade e da estrutura.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Britto insere-se no panorama da literatura brasileira contemporânea, dialogando com as tradições poéticas, mas também com um olhar crítico sobre a modernidade e os seus desdobramentos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Como professor universitário, dedicou-se ao ensino e à pesquisa em literatura.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção É amplamente reconhecido pela crítica e pelo público como um dos importantes poetas da sua geração, tanto pela sua obra original como pela qualidade das suas traduções.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As suas traduções de clássicos da língua inglesa demonstram um profundo conhecimento e respeito pela obra original, ao mesmo tempo que a tornam acessível ao leitor de língua portuguesa. Como poeta, contribuiu para a renovação da linguagem poética no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Britto tem sido analisada pela sua capacidade de conciliar a reflexão existencial com uma estética depurada, explorando as ambiguidades da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos O seu trabalho como tradutor é tão valorizado quanto a sua poesia, demonstrando uma versatilidade notável.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Paulo Henriques Britto faleceu em 2021.